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Mana

Print version ISSN 0104-9313

Mana vol.17 no.2 Rio de Janeiro Aug. 2011

https://doi.org/10.1590/S0104-93132011000200009 

RESENHAS

 

 

Selma Baptista

UFPR

 

 

Cavalcanti, Maria Laura & Gonçalves, Renata (orgs.). 2009. Carnaval em múltiplos planos. Rio de Janeiro: Aeroplano. 357pp.

Resenhar uma coletânea é, no mínimo, um trabalho quase artesanal, um macramê de múltiplos fios que primeiro desmanchamos para aprender o "ponto" e, em seguida, reconstruímos, buscando aquela tessitura de um artefato feito por múltiplos enredamentos. De fato, os artigos surgem como verdadeiros "enredos" articulados numa conversa de tecedores vindos de vários lugares, com múltiplas vozes e histórias para contar. Requer múltipla atenção.

Esta coletânea de artigos sobre carnaval, organizada por Maria Laura Viveiros de Castro e Renata Gonçalves, compõe-se de 13 artigos e um caderno de imagens.

Como dizem as organizadoras na apresentação, carnaval "é bom para brincar, é bom para fazer e é bom para pensar", especialmente quando nos envolvemos com sua "surpreendente complexidade". O que se adianta nestas primeiras páginas, ou seja, a ideia de um plano carnavalesco de universalidade inequívoca e, ao mesmo tempo, de uma infinita variedade de realizações concretas, vem articulado por questões relevantes para a teoria e a pesquisa antropológicas. Assim, numa visão caleidoscópica de ritmos perceptivos variados e inesperados, esta tensão entre mecanismos universais de simbolização e a infinita variedade de concretizações particulares coloca-se como o fio condutor desta coletânea, enlaçado com a história, a literatura, a geografia humana, as Belas Artes e a mediação política no desenrolar das relações sociais de produção da festa carnavalesca.

Depois de tantas publicações especializadas no assunto, especialmente as de Maria Laura Cavalcanti (1999, 2002, 2003, 2006...) e Renata Gonçalves (2003, 2007, 2008), as autoras surpreendem não pela mudança de tema, mas pelo enfoque simultâneo das relações diversificadas e coerentes desta coletânea: há um mergulho verticalizado, aprofundado, em cada situação e recorte, ao mesmo tempo em que os artigos se desenrolam como se estivessem numa "passarela" festiva, aparentemente soltos, aparentemente livres.

Estão, na verdade, bem costurados entre si. Buscando uma analogia em Lévi-Strauss, poderíamos dizer que esta coletânea pode ser lida como uma narrativa mítica em sua infindável diacronia, mas na qual seus artigos produzem variadas "versões", recortes sincrônicos, sobre o mesmo tema, reproduzindo na sua feitura um longo ritual.

 

O carnaval em múltiplos planos

O artigo de Felipe Ferreira entretece história, identidade, política e economia, trabalhando a folia e a modernidade no século XX na cidade de Nice. Mostra-nos a construção da festa internamente, regionalmente, e sua explosão a partir da organização e das políticas públicas de lazer e cultura naquela situação.

Fred Góes nos leva ao Mardis Gras de Nova Orleans, detalhando etnograficamente as diferenças e as contradições entre os grupos que remetem às nossas escolas de samba nos seus ciclos de celebração da vida "como gesto diário". A festa imitando a vida, seguindo a complexa configuração social, em que os sucessos se alternam com os fracassos, a riqueza com a pobreza.

O "maior carnaval do mundo!", dos uruguaios, analisado por Liliane Guterres, nos mostra uma interessante competição entre palco e rua, entre Concurso oficial e o desfile das Llamadas, que se dividem em cinco categorias carnavalescas: as murgas, as humoristas, as parodistas, as revistas e as comparsas de negros e lubolos. Deste cenário instigante a autora recorta as comparsas de Negros e Lubolos para aprofundar não apenas seus padrões estéticos diferenciados, mas principalmente o campo de tensão entre a tradição e a modernidade, enfim, a entrada no mundo do espetáculo, o aumento da visibilidade, e as relações complexas entre a feitura dos shows e o mercado de consumo cultural.

 Helenise Monteiro Guimarães apresenta-nos a questão ornamental da cidade do Rio de Janeiro desde o período colonial até as décadas iniciais do século XX, discutindo o repertório estético e decorativo, e sobretudo as atribuições de moradores e comerciantes das principais vias da cidade nesta tarefa de embelezar a cidade. Esta perspectiva histórica produz um distanciamento muito interessante, porque vem atrelada a detalhes etnográficos que revelam muito mais do que uma simples viagem no tempo: dá-nos a perspectiva das negociações dos espaços carnavalescos, bem como da atuação dos decoradores da EBA da Universidade Federal do Rio de Janeiro antes da revolução estética da Escola Acadêmicos do Salgueiro, levada a efeito por Fernando Pamplona nos anos 60.

O artigo de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti situa-nos em uma tensa e densa rede de produção carnavalesca, um contexto de crise e expansão deflagrado pela acusação de suborno do júri no carnaval de 2008. Como diz a autora, uma situação que explicitou, ainda mais, as relações da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro com a rede clandestina do jogo do bicho na cidade. Sua análise trabalha todo esse processo como um verdadeiro "drama social", que explicitou e trouxe à tona a questão da organização do carnaval. Esta situação, por sua vez, é analisada pela autora a partir de uma rica etnografia e fecundas aproximações teóricas como, por exemplo, o "olhar a sociedade a partir das suas margens", a própria ambivalência das margens e a dimensão criativa e construtiva dessas experiências transitórias ou alternativas.

Em seguida, Ricardo José de Oliveira Barbieri entra no universo dos barracões, mostrando-nos a dinâmica e as múltiplas estratégias da produção carnavalesca através de uma detalhada etnografia da confecção do carnaval de 2007. Seu texto nos revela como o mundo do samba consiste numa ampla rede de relações sociais e como as alegorias se constituem em formas de arte coletiva realizadas pelo carnavalesco e sua equipe, seus especialistas e ajudantes. Desta maneira, compreendemos melhor este universo, escondido e secreto, vivenciando o "efeito surpresa" de que nos fala o autor, antecipando, de certa maneira, o gosto da fruição deste "objeto feito para ser vivido e integralmente consumido no desfile da escola de samba", citação que o autor faz de Maria Laura Cavalcanti (2001).

Neste universo tão denso, o sétimo artigo, de Nilton Silva dos Santos expõe um aspecto muito interessante deste contexto tão pouco conhecido do grande público, que é a ação dos carnavalescos entre mundos socioculturais tão distanciados. Segundo o autor, este é um mundo estritamente regulado por papéis sociais definidos e com margens de manobra bem demarcadas: um mundo que funciona como território destas disputas por postos e honrarias, delimitando espaços e códigos próprios. A constituição de uma "marca autoral", de assinaturas em um mundo artístico complexo implica, portanto, um diálogo permanente entre carnavalescos, patronos, comunidades e escolas de samba da cidade.

Aline Valadão Vieira Gualda Pereira aborda a significativa transformação dos carnavais populares rumo a uma maior complexidade organizativa no mundo carnavalesco atual. De antiga tradição folclórica, os bate-bolas, enquanto carnavais de rua, com características peculiares de performance e indumentária, são hoje formações identitárias coletivas, catalizadoras de inúmeras influências oriundas da cultura de massa.

O artigo de Simone Toji nos devolve à passarela do samba, abordando justamente a posição dos passistas e sua especialidade simbólica, que é "mostrar o samba no pé". Há, neste sentido, uma consagração como "posição ritual", que se intensifica e se especializa, crescentemente intensificada pela vivência de emoções contraditórias decorrentes das disputas e das tensões dentro do campo carnavalesco.

Renata de Sá Gonçalves faz uma instigante análise do rito carnavalesco através da performance mediadora do casal mestre-sala e porta-bandeira, olhando bem de dentro e de perto os contrastes e os interstícios que a dança do casal deixa entrever no "idioma" do desfile carnavalesco. Esta riqueza visual, este ethos, esta performance como um todo são decorrentes da posição mediadora do casal e constituem, no dizer da autora, uma densa "coreografia" em que se misturam gestos, movimentos da dança, memórias, expectativas e projeções. O significado desta reunião de "muitas intenções contraditórias num só gesto" (cf. Pereira de Queiroz 1992:225) é sugerido pela autora a partir de uma sofisticada elaboração teórica, composta por várias perspectivas convergentes que colaboram para dar conta de aspectos múltiplos provenientes de distintas linguagens: da indumentária, da inserção do casal no desfile enquanto elemento "ritual", de sua mediação "cortesã" diante do público e do júri, do domínio do anacronismo entre os ritmos interiores de sua performance e do samba-enredo como condutor do desfile, entre outras determinações. Enfim, uma célula da tradição circula no interior deste complexo ritual, entre formas narrativas e dramáticas, tornando-se canto e dança, permitindo sua continuidade e mudança.

Ronald Clay dos Santos Ericeira oferece-nos uma análise de alguns sambas-exaltação da Portela, explorando sua capacidade de despertar tantas emoções em seus filiados e admiradores. Mas o autor vai além no seu viés antropológico, mostrando de que forma seus conteúdos temáticos, bem como seus contextos performativos, percebidos na oposição de contexto do carnaval (desfile) e contexto da escola (quadras e terreiros), apontam para quatro eixos semânticos das letras: a idealização do passado, o enaltecimento dos símbolos da agremiação, a descrição das experiências corporais e dos estados afetivos despertados pela escola. Presente e passado são, desta maneira, encompassados pela forma mítica, permitindo uma experiência emocional totalizadora.

O artigo de Gabriela Cordeiro Buscácio analisa o processo de separação de um grupo de compositores da Portela, em um contexto de intensa profissionalização do carnaval. Este grupo, liderado por Candeia, fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo. Em sua análise, a autora mostra-nos como esta dissidência revela os aspectos contraditórios do embate entre "autênticos", que seriam também os "tradicionalistas", diante das intensas mudanças nos padrões estéticos e administrativos da "nova" Portela ao longo dos anos 70. Interessante notar como campos semânticos são superpostos, especialmente quando a questão da autenticidade se vê misturada às demandas de etnicidade, ao mesmo tempo em que todo o processo de construção do desfile se vê sob críticas acirradas e suspeitas generalizadas.

Finalmente, encerrando esta coletânea, o artigo de Nilton Rodrigues Júnior traz a esta "passarela" editorial a "velha guarda da Portela", analisando as representações dos seus membros acerca de sua trajetória no mundo do samba. O autor nos mostra o paradoxo vivido por esta "velha guarda" situada exatamente no limiar entre o sucesso e a "guarda" do samba de raiz, a mesma raiz metafórica da mangueira sob a qual nasceu.

À metáfora de suas raízes fortes e duradouras se junta a imagem do mundo do trabalho em oposição à imagem do malandro, o que certamente procura reservar para a escola um lugar acima das disputas ou, como diz o autor, a representação de uma escola que se relaciona com seu "passado de glória", e que, no presente, existe num mundo destacado.

Esta coletânea se apresenta, portanto, como uma leitura extremamente oportuna e estimulante na medida em que dialoga com as profundas transformações pelas quais passam contemporaneamente as culturas populares, tomando como foco de análise o carnaval carioca. Como estas culturas vivem, se adaptam, se transformam diante das contradições crescentes impostas pela sociedade de consumo e da progressiva espetacularização das manifestações culturais. O carnaval é um exemplo significativo porque se constitui num substrato de raízes profundas, coletivas e espalhadas por todo o país. Esta leitura será, certamente, muito estimulante para aqueles que se dedicam a refletir sobre esta manifestação em outros lugares, distantes, mas não imunes a todas essas mudanças na produção e no consumo dos eventos culturais.

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