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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.19 no.3 Rio de Janeiro dez. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132013000300013 

RESENHA

 

WILKIS, Ariel. 2013. Las sospechas del dinero. Moral y economía en la vida popular. Buenos Aires: Paidós. 192 pp.

 

 

Pablo Figueiro

CONICET, IDAES/UNSAM

Tradução de Guillermo Vega Sanabria

 

 

O livro inicia constatando, com fluidez narrativa, o lugar central que ocupa o dinheiro na vida pessoal e coletiva das camadas populares da periferia da Cidade de Buenos Aires. Esta afirmação desafia as visões mais comuns, que enxergam tais camadas ora como desmonetizadas, ora como corroídas pela presença sempre suspeita do dinheiro em suas mãos. No entanto, diz Ariel Wilkis (doutor em Sociologia pela EHESS de Paris), a crescente "financeirização" formal e informal dos subúrbios da Grande Buenos Aires nada mais é que a expressão local de um fenômeno bem mais amplo na América Latina, que situa a economia popular em um lugar-chave da dinâmica econômica contemporânea.

Com efeito, nessa trama convivem grandes redes comerciais, bancos, agências financeiras e companhias de cartões de crédito que têm se transformado progressivamente em um passaporte para o consumo nas classes que historicamente tinham sido excluídas do acesso ao crédito. Entretanto, estas são apenas algumas fontes da monetarização. Junto a elas se encontram as transferências estatais, o dinheiro proveniente da política, os empréstimos de familiares ou de pessoas de confiança, as doações e os lucros por trabalhos lícitos e ilícitos que constituem outras modalidades através das quais o dinheiro ingressa e circula, com distintas intensidades, nos bairros, formando tramas e configurações monetárias que tornam mais complexos os pressupostos que têm predominado em relação à economia popular.

Porém, esta é apenas uma primeira constatação que conduzirá Wilkis a um raciocínio que ultrapassa o estritamente econômico. Cada uma dessas modalidades é apresentada como uma peça à qual estão atreladas disputas, afetos e hierarquizações que permitem ou inibem a circulação monetária. Isto representa um desafio para uma velha tradição no Ocidente, segundo a qual o dinheiro constituiria somente um elemento corrosivo das relações sociais, especialmente no caso dos pobres. Esta suspeita é crucial para reforçar uma posição subalterna perante os modos dominantes de definir virtudes como o prestígio, o esforço e o mérito. Contudo, por isso mesmo, é também uma visão parcial do assunto.

Retomando a perspectiva de Marcel Mauss e os trabalhos de Viviana Zelizer, Wilkis se propõe a reconstruir um quadro total do dinheiro, mostrando de que modo, com ele e por meio dele, é conectada cada uma das dimensões da vida pessoal e coletiva nas camadas populares. Ao circular pelas relações mercantis, políticas, religiosas, familiares, amorosas, lícitas e ilícitas, isto é, pela totalidade da vida das pessoas, o dinheiro atua como o fio condutor que revela, junto a seus usos múltiplos, as valorações heterogêneas e contraditórias que se põem em jogo em cada uma dessas dimensões da vida social.

Formulando uma sociologia moral do dinheiro, o autor vai reconstruindo valorações, tensões, conflitos e dilemas que os fatos monetários colocam em cena em cada um dos circuitos pelos quais fluem. Para tanto, retoma e aprofunda um conceito apenas esboçado por Pierre Bourdieu: o de capital moral. Lançando mão dele, Wilkis dá conta de como as pessoas medem, comparam e avaliam constantemente as virtudes morais próprias e alheias a partir das quais o dinheiro pode circular ou não. Munido deste recurso conceitual, o autor transita pelo mundo dos dominados destacando as diferenças, os antagonismos, as competências e as hierarquizações que aí operam; também realça o modo como o dinheiro circula ou deixa de circular, ao mesmo tempo em que se testam as virtudes morais e se luta por acumular capital moral. Ser "bom pagador", "leal", "cumpridor", "respeitável", "generoso", "trabalhador" ou, pelo contrário, ser "avarento", "desleal", "descumpridor" ou "preguiçoso", diz Wilkis, são julgamentos morais que estão em jogo e que exprimem fronteiras que permitem ou proíbem a circulação monetária.

O autor não apenas apresenta o dinheiro como um meio de fungibilidade universal, idêntico a si mesmo e para todos os usos, mas também expõe o potencial que possui para constituir-se em um grande classificador de pessoas e de coisas – daí o caráter moral que o perpassa. Enquanto as conotações negativas e positivas dos usos do dinheiro em mãos de determinados agentes trazem atreladas avaliações morais, sua presença pode se converter tanto em símbolo (sempre contestado) de virtude quanto de estigma. Em última análise, a proposta do livro é dar conta do lugar que ocupa o dinheiro como um esquema de percepção e de apreciação das pessoas e de seus status no mundo social, que o conecta diretamente com as ordens sociais pelas quais circula. Aspirações e sentimentos pessoais entrecruzam-se em tramas mais amplas da vida social através do dinheiro. Moral e economia, como destaca o subtítulo do livro, constituem as duas faces indissociáveis dessa trama.

Baseado em um trabalho etnográfico, realizado entre os anos de 2006 e 2010 em subúrbios de Buenos Aires, e incorporando diversas pesquisas prévias e posteriores que lhe outorgam uma densidade empírica notável, os capítulos do livro vão sendo montados como peças de um quebra-cabeça. Cada um deles reconstrói litígios pela definição das fronteiras morais que habilitam ou proíbem a circulação do dinheiro em distintos âmbitos da vida das camadas populares. Retomando os trabalhos de Zelizer sobre a marcação social do dinheiro,* os capítulos se dividem segundo o significado social que ele vai adquirindo na sua circulação, desafiando em cada caso a interpretação parcial que somente enxerga no dinheiro um elemento de suspeita.

O capítulo 1 (El dinero donado/ O dinheiro doado) aborda, com base em diversas interações, a economia da doação (que implica reconhecer quem recebe como necessitado) e revela os regimes heterogêneos de opiniões e de sentimentos a partir dos quais esse dinheiro é um objeto controvertido, podendo até mesmo ser recusado. Ao exprimirem as razões pelas quais acreditam que alguém pode ou não pode receber dinheiro, as pessoas estão ao mesmo tempo revelando suas concepções sobre o mérito, a justiça, a desigualdade, a igualdade e, por essa via, o que pensam e sentem sobre a integração à ordem social.

No capítulo 2 (El dinero militado/O dinheiro militado) indaga sobre outra das fontes de monetização das camadas populares: a da vida política. Lugar de suspeita por excelência, através da categoria clientelismo político, o dinheiro é apontado aqui como um articulador extraordinário da sociabilidade popular ao reforçar as lealdades, os compromissos, as obrigações e as aspirações tanto dos dirigentes quanto dos militantes.

Junto a esse dinheiro que provém da militância surge outro universo que parece confrontá-lo: aquele em que o dinheiro é negado. Através de um grupo de voluntárias de uma paróquia, o capítulo 3 apresenta os vínculos que se estabelecem entre a religiosidade popular e o dinheiro (sacrificado, desta vez), as condições do seu aceite e da sua recusa. Isto permite ao autor realizar uma confrontação com a peça de dinheiro prévia [o dinheiro militado], ao mostrar não só os antagonismos no interior de cada um desses registros, mas também os que se estabelecem entre eles.

O capítulo 4 aborda o dinheiro ganho, o qual não aparece como um dado natural para a visão parcial que suspeita do dinheiro dos pobres. Wilkis mostra que, nessas camadas, a intensidade do comércio reside em organizar e mostrar a legitimidade de seu lucro, confrontada sempre pela condenação que recai sobre a economia informal que os perpassa. Através de pequenos comerciantes de comunidades, de vendedores nas feiras populares e de protagonistas da economia ilícita, o autor rastreia as fronteiras morais que circunscrevem suas expectativas e seus desejos de lucro. Ao impugnar os meios e as modalidades pelas quais essas camadas obtêm ganhos, reforça-se a condenação que recai sobre elas e suas economias e, junto a isso, sobre as aspirações e os desejos de uma vida melhor.

Porém, o dinheiro não circula somente na vida pública, mas faz um percurso central na vida familiar. É disso que trata o capítulo 5 (El dinero cuidado/O dinheiro cuidado), por meio de três histórias familiares que refletem alguns dos vínculos que se estabelecem entre os afetos e a economia doméstica, especialmente através dos valores que os pais tratam de incutir nos filhos. O autor mostra que o cuidado do dinheiro não é apenas uma valoração econômica do mesmo, mas principalmente moral, que permite a reprodução afetiva e material da unidade familiar.

Finalmente, o capítulo 6 trata do lugar do endividamento na vida popular. Wilkis desdobra um conjunto de situações que vão do comprar e vender fiado nos negócios de bairro até os empréstimos familiares e os créditos de entidades financeiras. Através delas, dá conta do lugar preponderante que ocupa o dinheiro emprestado na vida das pessoas com as quais interage. Uma vez mais, os litígios morais emergem na hora de definir a quem e sob que condições o dinheiro pode ser emprestado, e qual é o impacto das dívidas não pagas sobre as distinções e as hierarquizações.

Longe de se tratar de compartimentos estanques, cada capítulo se encontra unido aos outros pelas interseções e pelas pontes conceituais e empíricas que conectam as diversas dimensões que configuram essa imagem total que o autor propõe. Nesse sentido, o dinheiro lhe permite reconectar distintos fragmentos da vida individual e coletiva que estão atrelados aos litígios, mas também à integração que tais fragmentos produzem. Por isso, a visão total que propõe Wilkis não é somente da ordem dos diferentes cenários (econômicos, políticos, religiosos, familiares, vicinais etc.) que convivem e se intersectam na vida cotidiana dos bairros marginados, mas que apresenta um significado adicional ao mostrar os conflitos e também as harmonias que o dinheiro propicia ou não em cada um desses cenários.

 

 

* NT: A expressão usada pelo autor da resenha é marcaje del dinero, traduzida aqui como marcação do dinheiro, seguindo o uso comum em português. Na edição em castelhano do livro de Viviana Zelizer (El significado social del dinero. 2011. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. 274 pp.), é usada a expressão marcado del dinero (que dá nome ao primeiro capítulo) para traduzir a expressão original em inglês marking of money.

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