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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313

Mana vol.20 no.1 Rio de Janeiro abr. 2014

https://doi.org/10.1590/S0104-93132014000100008 

RESENHAS

 

BISPO, Raphael. 2012. Jovens Werthers: amores e sensibilidades no mundo Emo. Rio de Janeiro: Editora Multifoco. 269 pp.

 

 

Paula Lacerda

DPCIS/UERJ

 

 

Florzinha, Machucado e Soturno são os personagens principais desta obra. Durante a pesquisa que deu origem ao livro, inicialmente uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ), eles eram jovens estudantes de uma mesma escola pública na zona norte do Rio de Janeiro, gostavam de passear no shopping, gastavam na internet quantas horas fosse possível e compartilhavam o apreço por canções que falavam de (des)amores. É por intermédio destes três jovens que o autor nos conduz ao mundo hiperbólico daqueles que enxergam a si próprios como pessoas solitárias, emotivas e sensíveis, além de valorizarem experiências sexuais homoeróticas e atribuírem bastante importância às suas aparências, o que inclui cuidados com o vestuário, a maquiagem e o penteado.

Dois destes três jovens definem a si mesmos como "emos", o que, em princípio, diz respeito aos ouvintes de um tipo de rock mais melódico e sentimental (o emocore). No entanto, a análise atenta e sensível do autor nos revela que a música é apenas um dos muitos elementos utilizados pelos jovens na construção de suas identidades, o que passa pela atenção aos seus estados psicológicos – e na sua comunicação, o que pode ser vivido coletivamente, através da internet. Demonstrando profundo respeito pelos jovens junto aos quais pesquisava, Raphael Bispo procura desfazer alguns estereótipos sobre os "emos" ao relacionar o universo em que vivem ao imaginário romântico do século XVIII, particularmente representado pelo livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Johann Wolfgang Goethe. Desde o título, portanto, está revelada a relação entre o personagem de Werther, que se suicidou pela Carlota amada, e os jovens cariocas, que se vestem de preto (mas não abrem mão de outras cores, como o amarelo, o rosa e o azul), consomem álcool ocasionalmente como forma de potencializar a vazão de suas emoções (mas recriminam o uso de outras drogas, especialmente as ilícitas) e expõem na internet seus sofrimentos e suas decepções.

A estrutura do livro composta de três partes é reveladora do próprio percurso de pesquisa do autor. A primeira delas, "Todas as músicas têm qualquer coisa de sentimental", coloca em interlocução etnografias sobre grupos urbanos reunidos em torno de um estilo musical, análises sobre a música como um meio de comunicação de massa e críticas produzidas em periódicos de grande circulação sobre álbuns, bandas e canções de rock, entre as quais estaria (ou não) o emocore. Estes escritos parecem corresponder ao período introdutório da pesquisa, no qual o autor procurava encontrar alguém que se dissesse "emo" entre os jovens que tivessem "um cabelo bem penteado com franja", "uma roupa mais apertada" e o apreço por "rock mais melódico" (:72). É nesta parte que o autor busca explicitar as origens do emocore e esclarece as controvérsias e as disputas que marcam o campo da crítica musical. As informações que o autor analisa e oferece neste capítulo são também cruciais para compreendermos temáticas que serão exploradas nos capítulos subsequentes, como a recusa de muitos jovens a se dizerem "emo" e, diretamente relacionado a isto, a forte discriminação sofrida pelos jovens, muitas vezes materializada em agressões homofóbicas.

Inicialmente, o autor apresenta como proposta explorar "um grande paradoxo" (:31), que se refere à produção de um estilo musical "massificado" e por isso associado à perda da individualidade – sobretudo no Brasil, onde o emocore chega por intermédio de grandes gravadoras – e o uso sentimental destas canções, capazes de reavivar emoções e fazer eco com estados emocionais, processos íntimos por definição. À medida que os personagens são apresentados, o que corresponde à segunda parte do livro, "Todos os encontros devem ser alegres e efusivos", percebemos que o rock melódico ocupa mínima ou nenhuma parcela das conversas dos interlocutores. As referências musicais de que os jovens se apropriam para falar de suas dores e de seus sofreres, curiosamente, são parte do rock nacional, como Renato Russo, Cazuza e Pitty. Por que, então, os jovens definem-se como emo? Por que se identificam com a estética das calças apertadas, franjas bem penteadas e adereços infantis?

Os três capítulos que compõem a parte dois são fruto do compartilhamento de espaços de sociabilidade entre o autor, os três jovens citados e sua rede mais ampla de amigos. A participação em um "Orkontro", um encontro de "emos" marcado pela rede social Orkut e realizado na Quinta da Boa Vista, corresponde à inclusão do autor nesta rede de jovens que usufruem da companhia uns dos outros de maneira "alegre" e "efusiva". Desde as primeiras perguntas direcionadas aos recém-chegados até os momentos finais do encontro, quando o parque se encontrava praticamente às escuras, é a sexualidade que está no centro dos interesses dos jovens. Nesta interação, a pergunta "Qual é a sua?", relativa às preferências sexuais dos participantes, permite aos jovens mapearem possíveis parceiros, o que será colocado em prática na brincadeira da "salada de fruta", na qual beijos, abraços, apertos de mão e investidas no corpo do outro são trocados de forma não muito anônima. O "ápice" do encontro, contudo, ocorrerá mais tarde, quando cada par encontrará abrigo e então poderá trocar beijos e carícias mais ardentes. O desejo de experimentar novidades no que se refere ao exercício da sexualidade é evidenciado pela indagação retórica de seus participantes: "Quem vem para o orkontro e não dá beijo na boca?".

A centralidade dos relatos sobre problemas amorosos, as descobertas e as experimentações no campo da sexualidade, consideradas pelo autor como a "tônica" dos encontros, sugerem que a identificação de si e de seus pares como "emo", na prática, é mais reveladora do flerte com o homoerotismo do que de uma identidade centrada em torno de um certo tipo de música. Neste sentido, as canções melódicas (das quais as do tipo emocore são apenas uma das possibilidades) embalam os amores e os sofreres, mas não produzem suas gramáticas.

A melancolia e a sentimentalidade, como se vê, não têm muito lugar nos encontros presenciais, que devem ser alegres e efusivos. É na intimidade de seus quartos e por intermédio dos seus computadores que os jovens apresentam sua faceta frágil, sofredora e trágica. É, portanto, na parte intitulada "Todas as paixões necessitam do trágico" que Raphael Bispo, inspirado por autores do campo da antropologia das emoções, explora as interações via internet como espaço por excelência da expressão de sentimentos. Por meio de seus perfis na rede social então utilizada, programas de conversa on-line em tempo real e páginas na internet em que exibem fotografias, o autor nos revela a importância das experiências amorosas na construção de si desses jovens.

A tríade amar-confiar-iludir é vivenciada de modo cíclico pelos jovens, que com frequência depreciam publicamente a si mesmos por "continuarem confiando nos outros". Por outro lado, é também por intermédio desses relatos autodepreciativos que eles deixam claro o valor que atribuem à sentimentalidade que possuem, em oposição à maldade, à racionalidade e à perfídia desses muitos "outros" que produzem o sofrimento alheio. O romantismo, enquanto princípio oposto à racionalidade, segundo inspiração de Duarte, é pulsante na vida desses jovens. E junto a ele, os sofreres. Neste sentido, não é de causar espanto que a gramática do sofrimento seja mantida pelos jovens mesmo quando apaixonados e correspondidos. Neste caso, os amores verdadeiros encontram-se ameaçados pelos amigos "falsos", pelos pais repressores e pela sociedade insensível.

O trânsito entre a literatura e a análise etnográfica é um dos muitos elementos que enriquecem e sofisticam a obra. Da mesma maneira, a atenção à crítica musical, responsável por produzir e veicular representações sobre o emocore para o grande público, não restringe o leitor a um único campo temático e disciplinar, mas empreende análises que colocam em diálogo autores e problemáticas relativas à comunicação social, à sociologia, à musicologia e, notadamente, à antropologia em muitos de seus desdobramentos, como antropologia das sociedades complexas, culturas jovens, antropologia das emoções e antropologia urbana. O "mundo emo", neste sentido, representa apenas o mote que propiciou a investigação sobre modos de viver que chamam a atenção por estarem centrados em torno das sensibilidades, dos humores e dos estados psicológicos.

Estas sensibilidades – efusivas, hedonistas e, ao mesmo tempo, trágicas – podem nos parecer típicas de uma fase da vida na qual, por definição, as vivências seriam mais intensas. Em muitos estudos, a juventude é caracterizada como uma fase de profundas e rápidas mudanças, mas não rápidas o suficiente para que os pesquisadores engajados neste tipo de investigação possam registrar e analisar essas mudanças. Em que direção mudam esses jovens? Qual o sentido do trânsito em que estariam?

Afinado com os princípios da etnografia que busca empreender uma análise do particular e incorpora as críticas pós-modernas, sobretudo aquelas que dizem respeito ao "presentismo etnográfico", o autor não se furta de informar as mudanças ocorridas com os seus principais interlocutores no curtíssimo período entre o fim da fase mais intensa de sua pesquisa e o término da escrita da então dissertação de mestrado. Na espécie de epílogo incluído nas últimas páginas das conclusões, Bispo nos atualiza sobre a situação de Florzinha, Machucado e Soturno, e então sabemos que a identificação com a categoria "emo" agora não faz mais sentido para nenhum deles. Ser emo, diria Florzinha, era uma "modinha" que já tinha passado. Contudo, não parecem ter desaparecido os sofrimentos que encontram nos amores não correspondidos, nas amizades não verdadeiras, nas batalhas que precisam ser enfrentadas para que seja possível estar ao lado da pessoa amada, o substrato para a construção de si feita por eles próprios.

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