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Mana

Print version ISSN 0104-9313On-line version ISSN 1678-4944

Mana vol.22 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2016

https://doi.org/10.1590/0104-93132016v22n1p264 

Resenha

MILANO, Laura. 2014. Usina posporno : disidencia sexual, arte y autogestión en la pospornografia. Buenos Aires: Título. 156 pp.

Clara Coelho1 

1Ciências Sociais - UERJ; LIDIS - Laboratório Integrado de Diversidade de Gênero, Políticas e Direitos


Como visibilizar corpos que não estão circunscritos em uma matriz heteronormativa? Como criar novas formas para representar a sexualidade? As imagens, a arte e o feminismo se aproximam para dar visibilidade a quais corpos? A obra Usina pós-pornô, de Laura Milano, é um ensaio sobre os movimentos dos corpos e das palavras - dos deslocamentos de significados e de ideias - que dão inteligibilidade às práticas dos sujeitos. A pós-pornografia, entendida neste contexto enquanto fenômeno de produções audiovisuais e performances relacionadas à arte e ao feminismo, se faz através de imagens, da representação de corpos e de práticas com o intuito de desconstruir o imaginário pornográfico vigente. O pós-pornô disputa os discursos sobre a (hetero)sexualidade que fundamentam as interpretações acerca dos desejos e dos prazeres. Tendo como pretensão a construção de novas subjetividades, novas leituras e novas enunciações relativas às concepções de sexo e de gênero, é possível dizer que o pós-pornô consiste em uma narrativa que ressalta o caráter político dos sentidos do sexo.

Laura Milano é argentina e está produzindo a partir do contexto latino-americano. O livro é o resultado de três anos de experiências da jornalista em eventos e performances e de relatos de ativistas pós-pornô e cuir (aderindo à forma de apropriação latino-americana do termo queer, a autora dá preferência ao termo cuir) no cenário pós-pornográfico da Argentina e da Espanha. Expondo as condições que promovem as práticas e as produções pós-pornô, Milano organiza o livro em capítulos que, encadeados, conformam uma linha de investigação sobre o modo pelo qual as práticas corporais e sexuais são visualizadas e visibilizadas. Entre os capítulos, há crônicas que expressam algumas experiências vividas pela autora ao longo do percurso na cena. A obra traz ainda um glossário de conceitos e um alfabeto ("ABC Posporno") que localiza artistas e coletivos artísticos, através de referências, do contexto latino-americano e do resto do mundo. Explicar os sentidos das palavras e seus múltiplos significados é útil para interpretar o caráter criativo que a escrita se propõe a ter.

O ensaio foi a forma textual escolhida pela autora para refletir e expor ideias sobre as formas de pensar a materialidade e a visibilidade dos corpos em consonância com a intensa produção de manifestações praticadas pelos sujeitos. É uma discussão pautada por veículos que conectam os olhares, os movimentos dos corpos, as representações visibilizadas pelas imagens e os encontros entre pessoas em busca de novas maneiras de experimentar e usar os corpos. A imagem deve ser compreendida enquanto um veículo de comunicação dirigido principalmente a quem está inserido no mesmo circuito de produção. A produção se dá na prática - o ato de performar se consolida por meio das imagens. Neste sentido, todo o esforço de Milano é o de realizar um ensaio que objetiva falar sobre a visualização dos corpos por meio de imagens e das possibilidades de questionamentos de códigos e significados dos usos dos corpos.

Como nos apropriamos de certas palavras para resistir às normas e às formas? Entendendo a palavra que dá origem ao título do livro a partir de sua ressignificação, o esforço da autora é o de descrever como as palavras estão em um fluxo contínuo de aquisição de novos sentidos e significados: a usina de Milano é uma apropriação de seu significado usual - estabelecimento para transformação industrial em grande escala; de produção intensa. Usina posporno é potência, criação e produção de novas formas de compreensão e exibição dos prazeres e dos desejos: é um amontoado de corpos dissidentes em movimentação, deslocamento e transformação. As palavras ganham novos significados, as formas adquirem novos contornos e os conceitos são apropriados discursivamente pelas pessoas para orientar novas práticas.

No primeiro capítulo do livro, a autora se dedica a expor os processos pelos quais se estabeleceram os discursos que fundamentam as práticas e os significados vigentes acerca da sexualidade. O acionamento das noções de Foucault para descrever os modos pelos quais os desejos e os prazeres são circunscritos e delimitados por uma matriz discursiva hetenormativa é fundamental para reconhecermos o caminho analítico que a autora percorrerá ao longo do livro.

No segundo capítulo, a autora descreve processos de formação e consolidação das representações da sexualidade pela pornografia no contexto do capitalismo. Para além do argumento de que formas específicas de posicionamento e entendimento do corpo foram estabelecidas para a organização de um sistema baseado na equivalência entre sexo e gênero, Milano discute os sistemas de produção e consumo da pornografia. A lógica de produção pornô em larga escala é heterocentrada e promove uma pedagogização dos corpos segundo perspectivas e padrões heteronormativos de desejos, práticas e comportamentos sexuais. O corpo pornográfico é fragmentado e genitalizado: a genitalidade aparece como o único território sexual.

A segunda parte do livro descreve e discute as dinâmicas que fundamentam a construção de um cenário pós-pornô. No plano discursivo, o argumento da autora é que sem pornô não há pós-pornô. As produções pós-pornográficas são realizadas por sujeitos que não se identificam e não se sentem contemplados pelas práticas inscritas nas dicotomias ativo e passivo, masculino e feminino, penetrador e penetrado e na genitalização do ato sexual. Portanto, a cena pós-pornô deve ser compreeendida como o resultado de múltiplos efeitos resistentes às representações heteronormativas na pornografia. Neste sentido, a autora ressalta que o pós-pornô é uma dissidência, um deslocamento a partir de um tipo de reconhecimento que as produções mainstream passaram a receber. Falar em reconhecimento da pornografia pressupõe questionar como serão reconhecidas e recebidas as produções pós-pornográficas - sobre isso, Milano nos diz que é impossível saber dos efeitos das novas representações.

No terceiro capítulo, a autora nos conta sobre trajetórias dos meios de formação do movimento feminista, das cisões e diferentes interpretações acerca da sexualidade para descrever o percurso do pós-pornô. Quem produz e atua na pós-pornografia são as feministas pró-sex, o pós-feminismo, o movimento cuir - movimento que problematiza as classificações de sexo, gênero e enunciações que pautam assimetrias sociais - e a cultura punk anticapitalista. Elas e eles apostam na produção de representações alternativas da sexualidade para o estabelecimento de críticas à indústria pornográfica do sexo. Milano argumenta que a influência da cultura anticapitalista punk foi fundamental porque determinou que as produções fossem efetuadas a partir de uma metodologia de autogestão dos sujeitos ("faça você mesmo") e geradoras de um sistema de produção-distribuição-consumo indiferente ao mercado da pornografia mainstream.

O quarto capítulo traz o argumento de que a pós-pornografia surge como crítica à regulamentação dos corpos heterossexualmente orientados e desconstrói, também, os processos da indústria pornográfica - produção, distribuição, consumo. A desconstrução está colocada efetivamente em todas as etapas da produção de qualquer prática pós-pornô. As pessoas se agenciam e elas mesmas se dão visibilidade: a câmera é posicionada pelos próprios sujeitos que vão ser representados; todos podem, ao mesmo tempo, ser atores e produtores. O pós-pornô usa a tecnologia a seu favor - mecanismos que suportam/resistem aos planos das câmeras do pornô mainstream - e trazem para a cena novas concepções estéticas de forma, conteúdo e narrativa. Os meios de comunicação modificam e criam novas expressões e usos do gênero por meio das imagens. As cenas são construídas para dar visibilidade às múltiplas possibilidades de movimentos dos corpos - os sujeitos estão produzindo suas próprias imagens - e constituem uma nova de forma de ativismo e arte feminista.

Na última parte da Usina posporno, composta pelos capítulos cinco e seis, Milano apresenta a noção da contrassexualidade de Paul B. Preciado para pensar as novas práticas que a pós-pornografia quer promover. O pós-pornô se baseia na visibilização de práticas contrassexuais, na busca por novos usos dos corpos, dos prazeres e dos desejos. A proposta contrassexual está se confrontando com os entendimentos sobre regras e hábitos sexuais.

É possível falar em corpos pós-pornográficos? Os corpos em cena na pós-pornografia estão (re)produzindo alguma estética ou forma? O cinema, a fotografia, a literatura, as artes plásticas e a arte digital são meios de comunicação que criam estratégias para visibilizar expressões corporais de sujeitos que não se encaixam numa matriz heteronormativa, entretanto, uma nova estética estaria sendo produzida para dar forma a esses corpos? A autora expõe para os leitores, no final do livro, questionamentos relativos às maneiras de apreensão das características e das formas de recepção das produções pós-pornô.

A relevância do livro se justifica pela investigação sobre as produções realizadas por sujeitos latinos, sobre a maneira pela qual pessoas latino-americanas querem ser representadas e visibilizadas. A "usina" estaria, neste sentido, em favor da produção de imagens e palavras para a exposição de corpos dissidentes. A leitura de Usina posporno é necessária para todos aqueles interessados em refletir sobre os movimentos e os deslocamentos dos saberes localizados nas diversas áreas do conhecimento.

Clara Coelho Graduanda do curso de Ciências Sociais - UERJ; Bolsista do LIDIS - Laboratório Integrado de Diversidade de Gênero, Políticas e Direitos

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