Introdução
Os últimos anos do século XX ficaram marcados por uma forte expansão do turismo em muitos contextos do nordeste do Brasil, como foi o caso da cidade de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte (RN) (Fonseca & Lima 2012; Furtado 2008). Dentre os inúmeros destinos de sol e praia natalenses, Ponta Negra surge, actualmente, como um dos bairros balneares mais proeminentes e cosmopolitas, exemplificando de forma expressiva as dinâmicas de turistificação dos lugares (Carrigan 2011). Aqui, a afluência turística internacional é fortemente masculinizada, destacando-se os fluxos provenientes da Europa Mediterrânea, sobretudo da Itália. Como as razões de âmbito afectivo-sexual são bastante relevantes nessas mobilidades de homens europeus (Sacramento 2015a) - à semelhança do que acontece, desde logo, noutros destinos da América Latina (Blanchette & Silva 2010; Brennan 2004; Kempadoo 1999; Piscitelli 2007a; Simoni 2014) - a sua presença em Ponta Negra tem grandes repercussões no mercado local de paixões e relacionamentos.
Considerando esta situação, o presente texto versa sobre a convivência passional heterossexual adulta entre mulheres brasileiras e turistas europeus, centrando-se, prioritariamente, no modo como as primeiras gerem a intimidade e as suas expectativas biográficas no âmbito dos muitos encontros transnacionais que o turismo proporciona. A análise é guiada por três grandes objectivos: mapear a diversidade e as dinâmicas das relações íntimas transatlânticas em Ponta Negra; compreender os desejos e os interesses das mulheres locais que mais impulsionam essas relações; ponderar capacidades, habilidades e estratégias femininas para gerir a intimidade com os turistas em função de determinados projectos de vida e num quadro estrutural de assimetrias e constrangimentos.
A discussão aqui travada aprofunda algumas reflexões já sinalizadas em textos anteriores (Sacramento 2015b, 2016a) e baseia-se no trabalho de campo para doutoramento que realizei em 2009/2010 sobre configurações de intimidade euro-brasileiras que têm início durante as estadias turísticas de europeus em Ponta Negra, principalmente na esfera do sexo transacional - programas (Sacramento 2014).1 Além de Ponta Negra, o sítio etnográfico de partida e de referência, a investigação no terreno contemplou outros contextos, na Europa e no espaço digital (Sacramento 2016b), envolvidos na rede de fluxos associada aos vínculos iniciados nos trópicos e, parte deles, mantidos a distância segundo formatos que, por vezes, culminam em laços de conjugalidade. Atendendo a que estava a trabalhar sobre manifestações sociais vinculadas a múltiplos sítios, recorri a uma “etnografia multissituada” (Marcus 1995). Desta forma foi possível acompanhar alguns dos principais informantes nos seus trânsitos entre ambas as margens atlânticas e captar com maior espessura empírica a dimensão transnacional dos respectivos relacionamentos de intimidade.
No âmbito da etnografia, enquanto conjunto de princípios e procedimentos estruturantes da pesquisa, o processo de recolha de informação baseou-se principalmente na observação participante e em meia centena de entrevistas semidirigidas. Ao suscitar a aproximação aos quotidianos daqueles que personificam o objeto de estudo e um olhar a partir de dentro dos respectivos contextos sociais (Magnani 2002), a abordagem etnográfica proporcionou uma compreensão densa das disposições subjectivas, das condições sociais e das coordenadas culturais em que se inscrevem os processos e as práticas constitutivas das configurações transnacionais de intimidade.
Turismo e configurações transatlânticas de intimidade em Ponta Negra
O Estado brasileiro, através de políticas específicas, teve um papel muito activo na expansão do turismo no nordeste brasileiro, acreditando que esta seria a solução mágica para o desenvolvimento da região (Duda & Araujo 2014; Thevenin 2011). No caso de Natal, mais concretamente de Ponta Negra, os órgãos de poder públicos estabeleceram as directrizes do ordenamento espacial e do modelo de urbanização e turistificação do bairro, criaram condições para atrair grandes investimentos europeus e definiram a Europa como a geografia privilegiada da sua internacionalização (Sacramento 2017). Por outro lado, em linha com o que vinha acontecendo em nível nacional, os discursos de promoção turística reproduziram representações coloniais e pós-coloniais sobre género, “raça”, sexualidade e nacionalidade, congregando-as na ideia da brasilidade como exotismo e sensualidade (Alfonso 2006; Bignami 2002; Ribeiro & Sacramento 2009; Sacramento & Ribeiro 2013). Ainda que não deliberadamente, a alteridade erotizada - sempre muito associada ao feminino, à figura da mulata (Gomes 2010; Piscitelli 2004a) - foi apresentada como componente intrínseca da oferta de lazer, o que viria a proporcionar a inclusão do destino em circuitos generificados e sexualizados de turismo.
Fundado em antigas imagens, (cor)relações geopolíticas e “lógicas do desejo” (Constable 2003; Sacramento 2017), o processo de construção e difusão da identidade turística de Ponta Negra fomentou o “male gaze” (Pritchard & Morgan 2000) e direccionou-se, prioritariamente, para países da Europa. Deste modo, contribuiu para a presença maioritária de homens europeus no contingente de visitantes internacionais que afluem ao bairro, também conhecidos como gringos.2 Por sua vez, estes mesmo fluxos turísticos massificados têm estimulado a afluência feminina, quer pelos muitos postos de trabalho que geram, quer, acima de tudo, pelo facto de proporcionarem condições atractivas ao exercício do sexo mercantil e a outros arranjos passionais. A chegada de turistas internacionais é um foco permanente de interesse e conversas entre mulheres que já se encontram em Ponta Negra, bem como entre estas e outras em demais contextos. Em presença ou a distância, através do telemóvel e/ou da internet, rapidamente circulam boatos, palpites e informações, em especial aquela que maior frenesim suscita: Chegou avião da Europa!. A rede de amigas e conhecidas funciona, aliás, como a principal estrutura de socialização para a entrada nas rotinas de intimidade com os turistas e, no caso daquelas que não são natalenses, também como importante suporte da sua deslocação e instalação.
Ainda jovens, com idades situadas predominantemente no escalão dos 20 aos 30 anos,3 as mulheres que participam na “transnacionalização da intimidade” (King 2002) em Ponta Negra são provenientes de diversos pontos. Além das autóctones, descendentes das populações nativas da antiga vila de pescadores do bairro, muitas se deslocam diariamente de diferentes zonas de Natal e da sua área metropolitana, e outras, sazonalmente, de várias localidades do estado do RN e de estados vizinhos da região Nordeste (v.g. Paraíba, Pernambuco, Maranhão). A maioria dessas mulheres encontra-se fora do mercado de trabalho formal ou em situações de grande precariedade, com salários baixos e sem perspectivas de estabilidade profissional. Nestas circunstâncias, tendem a encarar o envolvimento passional com os turistas e a consequente ajuda do europeu como estratégia plausível para superar a extensa vulnerabilidade socioeconómica em que se encontram e de que dificilmente sairão, como elas próprias reconhecem (Sacramento 2015b).
As relações de intimidade euro-brasileiras em Ponta Negra revelam configurações diversas e ambivalentes, sendo perspectivadas de modo diferenciado pelos seus intervenientes e, por vezes, alvo de expectativas bastante divergentes. A maioria dessas relações implica, sobretudo ao início, uma contratualização comercial, tácita ou explícita. As demais relações, com uma expressão todavia considerável, constituem-se fora do âmbito estrito da mercantilização da sexualidade e evidenciam formas (v.g. namoro, amizade colorida, ficar) que, de um modo geral, correspondem a modelos socioafectivos relativamente comuns nos dois lados do Atlântico. A procura activa de turistas europeus por parte de mulheres que assumem os programas como principal actividade de subsistência e de outras jovens (atraídas pela suposta prosperidade económica do estrangeiro) ajuda, desde logo, a explicar o predomínio de vínculos que, mais directamente, se inscrevem em quadros e dinâmicas mercantis. A proximidade e a disponibilidade relacional dessas mulheres contrastam com uma certa distância e resistência daquelas que manifestam receio de se relacionar com gringos e de ver a identidade de boas moças deteriorada, sujeita a rótulos estigmatizantes, como garota de programa ou piriguete.4 O acesso dos turistas à sua intimidade tende, por isso, a ser mais moroso, negociado e passível de insucesso. Compreende-se, assim, a menor frequência das relações (aparentemente) isentas de expectativas materiais imediatas e, ao mesmo tempo, a sua especial valorização nos discursos masculinos.
Importa, contudo, ter em conta que do sexo comercial à paixão romântica a distância é curta e dúbia, revelando-se muito difícil, à semelhança do que sucede noutros contextos, discernir emoção e negócio, quem é ou não é garota de programa e o que se considera ser prostituição (Cabezas 2004; Hoefinger 2013; Kummels 2005; Piscitelli, Assis & Olivar 2011). Os próprios programas evidenciam frequentemente constituições contingenciais e flutuantes, congregando (ou oscilando entre) elementos económicos e afectivos,5 quase sempre percebidos como opostos e incompatíveis numa sociedade que tem caminhado no sentido da hipervalorização do amor incondicionado (Priore 2005). Apesar de tudo, esses mesmos programas não deixam de assumir, pelo menos na sua génese, a forma de contratualizações pautadas por pretensões monetárias declaradas da parte feminina.
Muitas das mulheres que frequentam assiduamente determinados segmentos da praia ou outros pontos do bairro procuram, acima de tudo, encontrar gringos dispostos a gratificar a sua companhia. Sempre que tomam a iniciativa do contacto inicial, a abordagem é mediada por pessoas das suas respectivas redes sociais (v.g. outras mulheres, taxistas, trabalhadores da praia) ou é feita directamente pelas próprias. Neste último caso, recorrem a insinuações de sedução (v.g. olhar, sorriso, postura corporal) e a pretextos (v.g. perguntar as horas, pedir um cigarro), aparentemente ocasionais, de forma a proporcionar uma primeira aproximação e a avaliar a disponibilidade dos potenciais parceiros.6 Trata-se de uma interacção idêntica a uma paquera (galanteio, flirt), como a Alessandra (42 anos, ex-corretora de empréstimos, dois filhos) a define:
A primeira vez que eu fiz um programa foi... eu tava no tal shopping (Praia Shopping, em Ponta Negra( e eu já morava sozinha aqui em Natal. Aí um estrangeiro começou a paquerar comigo e eu a paquerar com ele e tal... e ele me convidou para sair e eu aceitei. Quando eu voltei para o shopping - que ele veio me deixar no shopping - ele me deu R$ 150. ((( Ele disse: “Isso é para você comprar um presente para você!”. Aí, tudo bem!
Em caso de receptividade da parte masculina, o mais comum é iniciar-se entre as partes um subtil processo de negociação da relação através do qual vão sendo esboçados - com maior precisão nalguns casos que noutros - os termos do programa, sobretudo o preço, o tempo e, eventualmente, as práticas de convivência íntima. Os arranjos são pouco padronizados e bastante voláteis quando comparados com o que sucede em meios de prostituição mais estritamente mercantilizados (Hart 1998; Oliveira 2011; Ribeiro et al. 2007). A sua variabilidade é considerável: (i) quando implicam um pagamento imediato, os valores envolvidos tendem a situar-se entre os R$ 50/R$ 100 e os R$ 200/R$ 250, embora o mais comum seja uma quantia próxima dos R$ 150; (ii) a respectiva duração vai do tempo dispendido para a intimidade sexual a algumas horas - que incluem, porventura, passeio turístico e jantar - ou até dias. Neste último caso, o pagamento é estabelecido tendo em conta o número de dias que ambas as partes vão permanecer juntas. Nas épocas de maior afluência de turistas (dezembro-fevereiro e julho-setembro) são praticados valores na ordem dos R$ 150 diários para um acompanhamento exclusivo, durante uma semana, por exemplo. Tacitamente, o gringo fica ainda com a responsabilidade de custear as despesas mais correntes da parceira, a que se juntam, nalguns casos, encargos com outros consumos da própria e/ou da respectiva família.
Por vezes, e sobretudo por estratégia das próprias mulheres, a negociação da intimidade inicia-se num ambiente de tal modo informal e em tudo semelhante a outras circunstâncias de sedução que os turistas, em particular aqueles menos familiarizados com o contexto, não identificam a situação como sexo comercial.7 Além do mais, as parceiras nem sempre lhes pedem retribuição no imediato como meio de pagamento da relação, o que reforça a ideia de uma intimidade não prostitucional que eles tanto valorizam e demandam. Fazem-no a posteriori, com alguma subtileza, sob a forma de insinuações ou de pedidos de ajuda, que podem se prolongar para lá do período em comum em Ponta Negra, como é demonstrado no relato seguinte:
Em conversa informal no calçadão da praia, a Rossana (24 anos, natural do estado de Mato Grosso do Sul) disse-me que não gosta de aparecer por aqui, para não ficar muito marcada. Até há uma semana, esteve quase um mês com um turista irlandês de 50 anos. Conheceu-o na rua do Salsa e fez-lhe crer que não era garota de programa. Para tal teve o cuidado de não requerer qualquer pagamento quando se conheceram. Ele não lhe dava dinheiro directamente para pagar a sua companhia, mas sim para comprar bens que ela ia solicitando: “Eu dizia para ele que precisava dinheiro para roupa, para electrodomésticos e ele ajudava eu. Quando foi embora, ainda me deu R$ 800. Já há uma semana que não falo com ele, mas quero telefonar-lhe para que mande mais algum dinheiro” (notas de campo, Ponta Negra, 18/12/2009).
As solicitações aos parceiros europeus são, amiúde, acompanhadas por discursos em que invocam como principais argumentos as dificuldades económicas em que se encontram e o facto de terem filhos e outros familiares a seu cargo. Através daquilo que apresentam como simples ajuda constroem uma camuflagem estratégica que lhes permite obter proventos tão ou mais significativos que aqueles que obteriam num regime de transacção comercial declarada. Ao mesmo tempo, como nota Cabezas (2004) para o Caribe, mantêm em aberto possibilidades de matrimónio e emigração que seriam menores num formato de prostituição explícita e, por outro lado, resguardam um pouco mais a sua identidade dos estigmas da prostituição.
Os programas não representam expressões de intimidade monolíticas e estáticas (Piscitelli, Assis & Olivar 2011), nem tampouco representam, unicamente, transacções mercantis. São muitas as relações que, embora se iniciem como programas e envolvam pagamento, evoluem no sentido de modelos de convivência amorosa, como o ficar, o convencional namoro e, não raro, a aliança conjugal, tal como é destacado por Cohen (2003) para contextos turísticos tailandeses. A transição de configurações de intimidade de cariz comercial para arranjos de pendor mais normativo decorre com relativa celeridade. Uma semana de convivência regular ou um par de programas é por vezes suficiente. No limite, basta um programa, como aconteceu com Bernard (turista francês, 39 anos, desempregado), que conheceu a sua companheira numa das primeiras noites após a chegada e somente pagou a primeira saída. A partir daí e até ao fim da estadia em Ponta Negra continuaram a relacionar-se durante mais duas semanas, num registo a fazer lembrar os “namoros de Verão” de que nos fala Piscitelli (2001).
Esta metamorfose e a constituição de laços menos efémeros implicam mudanças nas práticas de gestão da intimidade: (i) a fidelidade ganha relevância enquanto preceito regulador do compromisso entre as partes, embora se situe, por vezes, somente no plano dos discursos de intenções ou de promessas estratégicas; (ii) o controlo do(a) parceiro(a) torna-se uma prática habitual; (iii) comportamentos como andar de mãos dadas, formas de tratamento e outras expressões afectivas no espaço público tornam-se bastante comuns; (iv) os horizontes da sexualidade ganham amplitude, passando a contemplar práticas até então pouco usuais por serem consideradas demasiado íntimas (v.g. sexo anal e oral, não utilização do preservativo) e, por isso, reservadas para situações de maior cumplicidade afectiva.
Simultaneamente, a transacção monetária inicial, explícita e imediata, atenua-se e pode mesmo deixar de operar como contrapartida manifesta do acesso à intimidade feminina. Todavia, esta desmonetarização não significa que as mulheres em causa abandonem por completo os seus interesses económicos e passem a orientar-se apenas em função de expectativas passionais. À semelhança daqueles casos em que o pagamento imediato nem mesmo ao início está presente na relação, elas abdicam de remuneração, mas não deixam, sub-repticiamente, de assegurar ajudas financeiras pontuais e outras formas de compensação material, tais como móveis ou electrodomésticos, vestuário, bens alimentares, material escolar para os filhos, telemóvel e renda de casa. Mesmo depois de regressarem à Europa, alguns namorados deixam que elas permaneçam nos apartamentos de que são proprietários (ou arrendatários) em Ponta Negra e outros enviam-lhes periodicamente quantias que, grosso modo, podem ascender a mais de um salário mínimo brasileiro. Estas ajudas durante e após a estadia no Brasil são asseguradas não só por indivíduos abastados, como também por outros com rendimentos médio-baixos para o cenário europeu, como é o caso do Giacomo (italiano, 58 anos, reformado dos correios; primeiro turista, agora residente temporário):
Da primeira vez fiquei um mês com a Marinalva (início de 2004(. Só paguei na primeira noite que fui com ela, R$ 50. Depois, mais tarde, comprei-lhe dois shorts (R$ 10 cada) e dois biquínis (R$ 15 cada). No total foi cerca de R$ 100... Também a levava a comer à pizaria ou a outro restaurante, e pagava eu. Também cozinhava para ela no apartamento onde eu estava. Ela só lavava a loiça. No final do mês de janeiro, ela disse-me que fazia anos e eu ofereci-lhe um perfume de R$ 40, que depois a amiga roubou para comprar crack. Depois vim a saber que não era a Marinalva que fazia anos, mas sim a sua filha. Dessa vez, antes de ir embora, perguntei-lhe se queria mais alguma coisa e ela disse: “Me compra um celular usado, se você quiser”. E eu comprei. ((( De março a julho de 2004 enviei quatro vezes dinheiro para ela - €50 de cada vez - através da Western Union. Telefonava-lhe todas as semanas e ela, às vezes, ia dizendo que precisava de dinheiro.
Em jeito de contrapartida, os companheiros exigem-lhes que deixem de sair com outros homens, geralmente na expectativa do reencontro num futuro próximo, na Europa ou no Brasil, e da possível continuidade/evolução do relacionamento. Porém, são muitas aquelas que continuam a fazer programas ou a manter vários namoros. Por razões económicas, mas também pela flexibilidade com que operacionalizam a noção de fidelidade, e que se compreende se tivermos em consideração que, historicamente, a vida sexual na generalidade das ex-colónias latino-americanas não está tão confinada à monogamia e às ideologias da exclusividade romântica como no Ocidente (Kempadoo 1999, 2004). Do ponto de vista financeiro, configurações de intimidade multirrelacionais poderão permitir-lhes receber várias remessas transnacionais em simultâneo. Isto só é possível enquanto os parceiros, sempre que regressem a Ponta Negra, aí permaneçam por períodos não coincidentes e desde que sejam assegurados silêncios, garantidas cumplicidades locais e adoptadas narrativas convincentes de preservação da fachada da fidelidade.
Congregando múltiplas expectativas
A dimensão económica dos relacionamentos transnacionais, tal como é sugerido por Kummels (2005) para o contexto cubano, é assumida pelas próprias mulheres de forma relativamente descomplexada. Na perspectiva delas, é natural que assim seja, pois ajudar é uma obrigação masculina. Aquele que não ajuda é alvo de depreciação, sendo considerado rude, machista, insensível (cafuçu). A noção do homem como responsável pela assumpção de custos e encargos materiais recolhe uma expressiva adesão social. A proprietária de um pequeno restaurante popular de Ponta Negra (brasileira, 55 anos) dizia-me, plena de convicção: “Se eu estivesse com um homem que recusasse pagar a despesa da mesa, eu dava logo com os pés nele! Faz sentido a mulher ter de pagar? Nem rachar!”. Nesta orientação expressam-se valores de género hegemónicos de teor patriarcal que configuram um padrão de homem-provedor cuja expressão no Brasil é ainda bastante significativa, em especial entre as classes populares (Victoria & Knauth 2004).
A obrigação de bancar a companheira torna-se ainda mais vincada quando estão em causa indivíduos europeus, imaginados como financeiramente afluentes.8 Subjacente a esta obrigação está, em certa medida, a representação da mulher como valor ao qual nem todos têm capacidade de aceder, bem patente, aliás, num aforismo tantas vezes repetido pelas minhas informantes: “Mulé’ não tem quem quer; mulé’ só tem quem pode!”. Nesta expressão popular fica ainda evidente que a intimidade também é um espaço de interesses materiais e poder, articulando amor e economia (Adelman 2011; Cabezas 2004; Júnior 2005; Rebhun 2007; Zelizer 2005) segundo diversas configurações de “economia política do amor” (Padilla et al. 2007; Sahlins 1990).
Ainda que as ambições materiais de vida boa assumam grande importância na generalidade dos relacionamentos transnacionais de intimidade - inclusive em muitos daqueles que seriam apenas por amor, à semelhança do que é dito por Brennan (2004) para a República Dominicana - é necessário ter em conta que os interesses das mulheres locais pelos gringos vão além do económico, congregando também expectativas em torno de características etno-sexuais, fenotípicas, de género e romantismo que alegam não vislumbrar nos homens brasileiros (Sacramento 2015b). Faço minhas as palavras do Giacomo: “Estas mulheres (referia-se sobretudo a garotas de programa( podem amar um homem como qualquer mulher europeia. É isto que muitas pessoas não conseguem ver e pensam que com elas só há interesses de dinheiro”. Com efeito, importa considerar que, a par do dinheiro, há outras dimensões de atracção. De um modo geral, são dimensões enraizadas na sedução da alteridade (Kohn 1998), ou seja, em diferenças culturais (e diferenças físicas culturalmente informadas) geradoras de fronteiras identitárias que encerram em si próprias um potencial de transgressão e atraem mais do que apartam.
A Rossana, uma jovem de 24 anos que habitualmente fazia programas em Ponta Negra, começou por justificar a sua preferência por estrangeiros em detrimento de brasileiros invocando diferenças de “cultura sexual” (Parker 1991), que se materializam em “fronteiras etno-sexuais” (Nagel 2003) de que resultam valorações assimétricas: “Os brasileiros são egoístas no sexo. Vêem a mulher como objecto de sua satisfação. Atingem o orgasmo e não querem nem saber se a mulher está satisfeita ou não. Os europeus prestam mais atenção na mulher”. A par destas razões de ordem mais estritamente sexual, recorre ainda a critérios de exotismo físico-cromático na tentativa de justificar a sua maior atracção por gringos europeus e de conferir lógica e legitimidade às preferências que regulam a sua partilha da intimidade: “Eu gosto de homens altos, claros, de nariz fino e olhos azuis... olhos claros! Esse homem aí é diferente de mim, ele me complementa. Um brasileiro é igual a mim, tem a minha cor (ela é mestiça(”. A predilecção por parceiros brancos pode ser encarada como desejo pessoal de brancura (Fanon 1989 [1952]), historicamente uma característica associada aos privilegiados e alvo de forte valorização social, como se pode constatar em Ponta Negra.9 Em alternativa, pode também ser entendida como uma procura de afirmação da própria identidade, pois a sedução do branco enfatiza o poder erótico da “sensualidade negra” (Goldstein 2003:123).
À semelhança de Rossana, a generalidade das mulheres locais identifica aspectos de ordem etno-sexual e fenotípica como justificações extramateriais para a sua participação em espaços transnacionais de intimidade. Estes aspectos são quase sempre articulados com quadros de género e romantismo, nos quais se contrastam, enfaticamente, as masculinidades das duas margens atlânticas. Ao contrário do homem brasileiro, tendencialmente considerado como machista e pouco orientado para a família, o homem europeu é associado a um imaginário que remete à paridade de género, à preocupação com os filhos, ao cavalheirismo, ao romantismo e à modernidade relacional.10 O dinheiro não é o único interesse dessas mulheres. As palavras da Alessandra que se seguem demonstram-no de uma forma expressiva, deixando claro que a sua preferência por europeus encontra-se vinculada a idealizações de masculinidade e de convivência íntima, e não está unicamente relacionada com a situação familiar (separação, encargos com os filhos) e com os sérios problemas financeiros que tem enfrentado:
Eu não sei que cultura miserável foi essa que trouxe esse homem grosso para cá [nordeste brasileiro]. Que cultura que criou esse monstro, eu não sei! [risos] É um homem que não sabe elogiar, que não sabe dividir, extremamente egoísta. Esse tipo de homem, eu não consigo mais conviver. Depois que eu vi que existia um outro tipo de homem e que eu era capaz de conquistar, ou seduzir ou me envolver com um homem desse modelo, eu não consigo mais... [...] O meu marido não me ajudava a cuidar dos filhos, e eu precisava estudar! Eu queria estudar e ele não queria que eu fizesse o curso. Ele dizia assim: “Eu vim para cá para eu estudar, para eu me formar não foi para você( Você tem que cuidar dos filhos”. Coisas assim. ((( Ele não suportava que eu pudesse crescer também. Por isso é que eu achava que ele fazia essa pressão para eu não estudar, para eu não crescer; para eu não crescer como mulher. Então, eu ficava achando que aquele homem não servia para mim, e foi aí que nosso casamento foi começando a não dar, porque eu comecei a crescer, comecei a ter autoestima. ((( Na época em que eu trabalhava na creperia foi quando eu conheci o alemão que te falei, que eu me apaixonei pelo alemão. Mas nada de programa. Era amor, paixão, não sei o quê… Muito encantamento! Eu fiquei louca por ele, mas ele foi embora. Disse que me amava, que me adorava e que não sei o quê e que “daqui a dois meses eu volto”... e nada! De 2008 até hoje. Ele era muito diferente do homem nordestino. Muito diferente, muito diferente! Muito carinhoso, muito inteligente, muito educado, muito fino, muito agradável, eu não sei explicar( Ele é a encarnação, a materialização de tudo o que eu sonhei num homem! Esse homem, para mim, é a materialização de tudo o que eu sonhei! (brasileira, 42 anos, ex-corretora de empréstimos, dois filhos).
Os elogios das nacionalidades europeias na apreciação da identidade de género masculina tendem, por vezes, a assumir-se como contingenciais e flexíveis (Blanchette 2011), constituindo uma estratégia feminina para assegurar determinadas vantagens e ganhos junto aos gringos. No entanto, genericamente, a forma como o homem europeu é representado e a sua valorização no feminino não deixam de exprimir subjectividades indiciadoras dos modelos de masculinidade, aliança e família mais desejados. A relação com o europeu configura a possibilidade de concretizar aspirações de intimidade, realizar um “ideal de amor” (Lima & Togni 2012) e viver o tão desejado “conto de fadas” (Rosa 2000b). Lembro-me, aliás, de algumas mulheres identificarem o filme Pretty Woman como a história de amor que gostariam de viver e, em concreto, o personagem masculino principal, interpretado por Richard Gere, como o homem perfeito: romântico, educado, bonito e rico.
A quimera romântica de encontrar o gringo certo e viver feliz para sempre tende a estar, em muitos casos, articulada com expectativas de ir para o continente europeu, genericamente imaginado como a geografia da vida boa, onde se afigura possível melhorar a condição socioeconómica, aceder a bens e a símbolos valorizados, ter uma boa qualidade de vida e perseguir os “sonhos da modernidade” (Mapril 2008a, 2008b).11 Para quem não dispõe de capital e de outros recursos, a intimidade com o gringo, principalmente quando culmina em matrimónio, representa uma das formas mais viáveis de entrar na “fortaleza-Europa” (Carr 2012), concretizar um projecto migratório sustentado e aceder a uma cidadania percepcionada como privilegiada desde logo pelo capital simbólico, estatuto e maior facilidade de movimentação internacional. Importa, todavia, ter em consideração que a maioria das mulheres em Ponta Negra não instrumentaliza estritamente a intimidade com os europeus com vista à migração e à obtenção da cidadania europeia. Ainda que estas sejam, de facto, expectativas muito significativas, elas inscrevem-se no leque mais vasto de outros desígnios - já apresentados - que dão forma à “poética e política do amor” (Adelman 2011) das paixões transatlânticas.
Recursos e subterfúgios
O aglomerado de interesses femininos associado à transnacionalização da intimidade mostra-nos que “women’s decisions in today’s global economy depend not only on economic survival but also middle class dreams of love, marriage, and a better life in contrast to what is available at home” (Schaeffer-Grabiel 2005:106). Na tomada de decisões, a generalidade das mulheres em Ponta Negra possui considerável capacidade de autodeterminação e agência. À partida, poder-se-ia supor que esta capacidade no sentido da concretização de determinadas expectativas e projectos de vida seria amplamente obliterada pela situação social adversa em relação aos gringos, favorecidos pela posição de classe, pelo género e, em certa medida, pelo capital simbólico decorrente do prestígio geopolítico dos respectivos países. No entanto, a correlação de forças não é assim tão linear.
A vulnerabilidade, sobretudo material, destas mulheres não se traduz numa total ausência de recursos de poder, mesmo quando os seus relacionamentos se processam num registo comercial mais explícito, em que a afluência monetária dos companheiros estrangeiros parece reduzir-lhes a possibilidade de manifestação de vontades e iniciativas. As relações com os europeus permitem-lhes, geralmente, uma considerável margem de agência.12 A desfavorável localização social (Mahler & Pessar 2001) - posição em “hierarquias de poder” assentes em factores de estratificação social como a classe, a “raça”, a etnicidade, a nacionalidade e o género - e a vincada subalternidade estrutural em que se encontram não implicam, necessariamente, privação de meios de exercício de poder e de capacidades para a acção estratégica (Veissière 2011). Aliás, convém não esquecer que a estrutura não tem uma primazia determinística sobre a acção, nem tampouco uma e outra se relacionam em situação de exterioridade e antinomia (Giddens 1979).
As mulheres também têm os seus recursos e subterfúgios negociais para exercer uma influência significativa no espaço das interacções íntimas. A sua própria corporeidade racializada e sexualizada13 e as competências sentimentais de sedução e paixão configuram meios que lhes permitem, sobretudo num “nível micropessoal” (Cohen 1986), gerir assimetrias em face dos parceiros estrangeiros e atenuar, ou mesmo subverter, posições relativas de poder e assegurar a concretização de determinados interesses e expectativas (Sacramento 2016a, 2015b). Quer isto dizer que os espaços transnacionais de intimidade em que participam, embora pautados por múltiplas e inquestionáveis desigualdades, não constituem obrigatoriamente um paradigma da “dominação masculina” (Bourdieu 1999). Esses espaços podem configurar, como argumenta Kempadoo (2004), contextos de resistência, agência e autodeterminação feminina. Neles, as posições de quem explora quem e quem se beneficia são potencialmente mutáveis e contingenciais (Brennan 2004; Oppermann 1998).
Sustentada nos recursos exóticos e eróticos, intrínsecos à condição de mulheres (e) brasileiras, a agência feminina é, em larga medida, construída através da transmissão entre pares de saberes práticos e da partilha de experiências de intimidade transnacionais. As mais jovens vão aprendendo com as mais velhas modelos e expedientes de convivência com os europeus que visam assegurar-lhes suficiente ascendência sobre estes últimos para concretizar determinadas aspirações pessoais. Esse processo de reprodução de orientações é especialmente notório no âmbito dos programas, bem como noutros cenários de prostituição (Ribeiro et al. 2007), onde as principiantes são socializadas pelas mais experientes para as competências técnicas, os “segredos” e os conteúdos identitários essenciais à “carreira” (Becker 1966).
Embora com um saber-fazer passional menos engenhoso que o das garotas de programa, tal como estas, a maioria das mulheres adopta o imperativo da astúcia como condição para garantir ascendência estratégica sobre os homens em geral e os gringos em particular, pois, além de homens, são turistas e estrangeiros.14 Nas conversas que mantêm entre si, este imperativo é verbalizado de forma reiterada como se de um slogan de género se tratasse: Mulé’ tem que ficar esperta! Representa, assim, uma norma estruturante dos seus discursos de afirmação da identidade feminina. Na prática, tentam, dentro do possível, seguir a norma, aproveitando as relações transnacionais para fazerem valer as suas aspirações. São abundantes os elementos etnográficos que comprovam a agência engenhosa dessas mulheres no acesso aos companheiros europeus e na gestão da intimidade que com eles constroem. Vejamos alguns dos mais expressivos.
Desde logo, o papel proactivo que assumem na constituição dos vínculos íntimos: fazem uma escolha deliberada de estrangeiros em detrimento de concidadãos e revelam espírito de iniciativa para estabelecer ou proporcionar os primeiros contactos, como já vimos. Em segundo lugar, a performance da autenticidade, turistificada e hiper-realista (Abbink 2004; Bruner & Kirshenblatt-Gimblett 1994; MacCannell 1973), que produzem em sintonia com as representações globais da mulher brasileira (alegre, afectuosa, apaixonada, quente, boa de cama), tendo em vista corresponder às expectativas dos turistas e, desse modo, assegurar condições propícias à concretização de certas pretensões. Em terceiro lugar, a capacidade de negociação dos termos dos relacionamentos em função dos próprios interesses, recorrendo à sedução, ao elogio, à promessa e ao simulacro de paixão. Por último, o aproveitamento das inúmeras oportunidades facultadas pelas tecnologias da globalização, sobretudo a internet, para ampliar as possibilidades de relacionamentos com homens de países afluentes, atenuar os efeitos da distância, dar continuidade a esses mesmos vínculos e potenciar os ganhos de capital social e económico que eles possam proporcionar.15
Para ilustrar a forma expedita como usam estes meios de interacção global no quadro dos seus projectos transnacionais de intimidade, reproduzo aqui os anúncios publicados no site do OLX (secção mulher procura homem de Natal, Fortaleza e Salvador, setembro de 2008) por uma das minhas informantes, a Rossana (24 anos), nos quais (re)compõe alguns aspectos da sua identidade:
latina woman - Natal
sou uma mulher linda de 22 anos estou a procura de um cavalheiro homem serio. um europeu educado, boa aparência e inteligente morador ou nâo de natal, posso viajar e conhecelo pessoalmente trabalho no banco, sou charmosa, bonita e alegre. meu email (xxxxxx( beijos.
bella garota - Fortaleza
sou uma garota bella seria, trabalho em banco e gostaria de me relacionar com um homem interessante europeu. sou bela, simpatica carinhosa linda, beautifull woman. gostaria de me corresponder com homens europeus residentes ou nâo residentes da cidade de natal e fortaleza. tenho lindas fotos de mim morena linda rosto angelical 22 aninhos e cheia de amor pra dar. (sem putarias) quero cavalheiros que queiram de verdade se relacionar. beijos.
sweet woman - Salvador
sou uma mulher bonita jovem de 22 anos estou a procura de um homem europeu ou americano que more ou não em salvador. sou seria trabalho no banco sensual e elegante, posso viajar para salvador para ferias ou ate mesmo morar no futuro do relacionamento. quero cavalheiros serios e educado (sem putarias) tenho lindas fotos escreva-me (xxxxxx( beijos.
A incursão no espaço digital permite a muitas mulheres construir uma considerável rede de potenciais parceiros da outra margem atlântica, também eles activamente à procura de companhias amorosas no “supermercado” global da intimidade que a internet vem tornando possível (Roca 2011). Com alguma frequência, esses contactos “virtuais” evoluem de tal modo que os intervenientes acabam por se encontrar ao vivo, o que, por norma, acontece mediante a deslocação do estrangeiro a Natal. Além de proporcionarem o contexto e a oportunidade para uma primeira abordagem, a internet e as telecomunicações em geral constituem, ainda, dispositivos fundamentais na manutenção (e na manipulação sentimental) das relações até ao próximo reencontro e, amiúde, na observância da obrigação masculina de bancar a companheira. Cumprem um papel semelhante ao das cartas entre mulheres tailandesas e turistas estrangeiros de que nos fala Cohen (1985), e que possibilitavam às primeiras assumir uma posição dominante nos relacionamentos a distância.
Em Ponta Negra, como são poucas as mulheres que têm computador pessoal, a maioria recorre aos pequenos pontos comerciais de acesso à internet (lan houses) existentes na orla da praia e um pouco por todo o bairro. Dada a exiguidade e a escassa privacidade existente nesses espaços, as observações que aí efectuei permitiram-me constatar a agilidade das presentes na apropriação das novas possibilidades tecnológicas para se comunicarem com os namorados europeus. Ao mesmo tempo, proporcionaram-me elementos para compor uma noção aproximada dos conteúdos dos seus diálogos, que organizo sinteticamente em quatro grandes grupos temáticos: manifestações sentimentais recíprocas; solicitações de ajuda monetária e acerto dos respectivos procedimentos de tramitação; narrativas de quotidianos; e organização do reencontro no Brasil ou na Europa.
O campo de manifestações de agência que acabei de mapear integra, amiúde, procedimentos ardilosos. A título de exemplo, eis alguns dos estratagemas mais utilizados pelas mulheres para garantir certas vantagens, sobretudo materiais, junto de alguns dos homens europeus com quem se relacionam: (i) inflação do número de pessoas do agregado doméstico, ficção de laços de parentesco16 e invenção de situações dramáticas (v.g. casos de doença de familiares) como formas de justificação de solicitações de ajuda financeira; (ii) instrumentalização de juras de amor, de promessas de fidelidade e, no caso das garotas de programa, do compromisso de abandono da actividade com o objectivo de assegurar que o gringo continue a bancar depois de regressar ao seu país; (iii) gestão indevida de verbas enviadas pelos companheiros destinadas à realização de investimentos, como aconteceu com um italiano cuja namorada se apropriou da maioria do capital que lhe mandou para iniciar as obras de instalação de um restaurante em Ponta Negra, enquanto ele, na Itália, tratava da mudança definitiva para o Brasil; (iv) execução engenhosa de furtos de dinheiro e bens, recorrendo a estratégias, umas mais dissimuladas que outras, de que o golpe boa noite Cinderela é um dos exemplos mais conhecidos.17 Algumas dessas mulheres que ludibriam os companheiros estrangeiros parecem manifestar um certo sentimento de poder e orgulho das suas façanhas. Não revelam, por isso, qualquer tipo de inibição em assumir os seus objectivos e procedimentos: “Dos gringos só quero a grana! Tenho noivo italiano há dois anos e há dois anos que enrolo ele! Ele quer casar, mas eu não” (24 anos, faz programas).
Considerando as capacidades femininas de autodeterminação e de concretização de actos de poder, evidenciadas pelos elementos etnográficos que foram apresentados, o que dizer da perspectiva que concebe a transnacionalização da intimidade em contextos semelhantes a Ponta Negra apenas e só como um processo neocolonial e patriarcal de exploração de mulheres, despojadas de recursos significativos para impor as suas vontades e lutar pelos seus interesses (Bem 2005; Enloe 2000; Graburn 1983; Jeffreys 2008; Leal & Leal 2003; Leite 2003; Ouriques 2005; Rao 1999)? Que se trata de uma visão monolítica apoiada numa rígida bipolarização entre exploradores e exploradas (Campbell 2007; Rivers-Moore 2011), sem a flexibilidade suficiente para traduzir de forma densa processos e práticas que escapam à tirania conceptual do seu esquema de análise. Ou seja, uma visão redutora que apresenta as mulheres em causa somente enquanto vítimas, como se as suas identidades e circunstâncias se resumissem, exclusiva ou principalmente, a essa alegada condição de vulnerabilidade e inoperância social. Em alternativa à ideia de culpabilização de uma parte e de vitimização da outra é necessário convocar, como propõem Constable (2003, 2006, 2009) e Rivers-Moore (2011), exercícios analíticos que ultrapassem a rígida dicotomia vítima-agente e nos permitam ver para lá das concepções baseadas nas desigualdades estruturais mais imediatas que enquadram a interacção dos sujeitos.
Considerações finais
O turismo de massas produz uma significativa variedade de encontros e interacções entre forasteiros e locais. Aqui se incluem as relações íntimas como as que ocorrem em Ponta Negra entre turistas europeus e mulheres brasileiras. Assumindo configurações heterogéneas, ambíguas e voláteis, essas relações são permeadas por múltiplos anseios, desejos, interesses e projectos. Os programas representam a sua ecologia social mais imediata e expressiva. Mas não é a única. Nem todas as mulheres que se relacionam com os gringos o fazem no âmbito do exercício estrito do sexo transacional. Aliás, algumas fazem questão de negar categoricamente a realização de programas, vincar a sua identidade de moças de família e reproduzir as narrativas românticas do amor desinteressado e incondicional. Apesar destes discursos e de determinadas especificidades na gestão da vida íntima, torna-se muito difícil definir uma delimitação conceptual inequívoca entre relacionamentos comerciais e não comerciais (entre dinheiro e amor) não só pelas complexidades e ambiguidades presentes nestas e em demais configurações de intimidade (Adelman 2011; Zelizer 2005), como também pelo dinamismo e pelas extensas transmutações que os formatos relacionais em causa tendem a evidenciar.
O próprio antagonismo identitário entre as personagens-tipo garota de programa e moça de família situa-se sobretudo no campo da ideologia de género, pois os seus trajectos biográficos, expectativas e, inclusive, algumas estratégias e práticas de intimidade não são assim tão divergentes como se pressupõe nos rótulos de categorização social. Mesmo na esfera mais específica de mercantilização da sexualidade, as garotas não se cingem em exclusivo a interesses materiais e/ou a ambições de mobilidade transatlântica, assim como as ditas moças de família não são movidas, sempre e exclusivamente, por desígnios românticos, conjugais e familiares. Situadas em distintos quadrantes morais e por vezes socioeconómicos, umas e outras tendem a perspectivar e gerir as relações com os europeus a partir de um conjunto relativamente convergente de propósitos, ainda que estes possam ser hierarquizados, valorados, articulados e perseguidos de distintas formas (Sacramento 2015b).
De um modo geral, os motivos económicos assumem uma relevância inquestionável. Todavia, não esgotam o quadro de razões subjacente à constituição de interacções e vínculos transnacionais, seja para programa, seja para namoro ou matrimónio. Há também aspectos de género, intimidade, conjugalidade e família que assumem particular importância no envolvimento com o estrangeiro, pelo que a maioria das mulheres, além de solução para os seus crónicos problemas económicos e da eventual oportunidade migratória para a Europa, espera encontrar junto do europeu a disponibilidade para o compromisso e a partilha, a equidade de género e a modernidade relacional fundamentais à concretização da desejada narrativa romântica. Embora com disposições e proeminências variáveis, os anseios de ordem material e sentimental estão profundamente interligados, coexistindo dinamicamente na generalidade desses relacionamentos.
Com base numa perspectiva mais estrutural, poder-se-á supor que a prossecução das ambições e agendas femininas é, intensa e decisivamente, constrangida pela posição social adversa em face dos homens europeus, em situação mais privilegiada, tendo em conta as intersecções de classe, nacionalidade, género e “raça”. Porém, importa destacar que as mulheres aqui em causa também possuem os seus recursos, em especial na esfera passional, manifestando uma engenhosa capacidade de agência nos processos e nas práticas micropolíticas da intimidade. Assim, ainda que sujeitas a incontestáveis vulnerabilidades e subalternidades estruturais, conseguem alguma ascendência contingencial para concretizar determinadas expectativas e projectos. A intimidade com o estrangeiro não tem de ser forçosamente um espaço de exploração neocolonial e de género, podendo representar um encontro propiciador de cosmopolitismo (Djurdjevic & Roca 2016) e de empoderamento feminino, impulsionado por diferentes possibilidades de “agência transnacional” (Mahler & Pessar 2001). Os contactos dessas mulheres com os gringos, designadamente quando se traduzem em vínculos conjugais, proporcionam-lhes novas escalas geográficas e sociais e, como tal, condições para delinear opções estratégicas, aceder a proveitos materiais e simbólicos, pôr em causa regimes locais de dominação e tentar concretizar algumas aspirações de vida (Cohen 1986; Constable 2005; Kempadoo 2004; Júnior 2005). A sua existência e identidade não se resumem a uma condição invariável de seres passivos e explorados, como é argumentado nos discursos em que tendem a ser percebidas apenas como vítimas.
Estes discursos, aliás, não são inocentes, nem defendem as supostas vítimas (Kempadoo 2005). Estão, em muitos casos, inquinados por ideologias e interesses de terceiros. São informados pelos valores da dominação masculina, reforçam o controlo social sobre a intimidade feminina, são maniqueístas e ajudam a legitimar e a sustentar uma vasta fileira de organizações da “indústria da salvação” (Agustín 2007). Ao mesmo tempo, proporcionam álibis aos países ricos para políticas migratórias mais repressivas (Constable 2006) e intensificam estigmas sobre as mulheres-vítimas, quer pela ideia de uma sexualidade transgressora que lhes associam, quer pela negação das suas capacidades de volição, escolha e agência (Júnior 2005). Mesmo que sob a capa de uma argumentação crítica e humanista bem-intencionada, é amiúde veiculada uma moral de inspiração judaico-cristã de sacralização da vagina (Bourdieu 1999) e são reproduzidos padrões normativos de sexualidade de que emanam manifestações de violência simbólica recaindo, justamente, sobre a generalidade das mulheres que se visa defender.










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