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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.15 Rio de Janeiro set./dez. 2000

 

RESENHAS

 

 

Luciano Mendes de Faria FilhoI; Raquel Martins de AssisII

IProfessor Adjunto da Faculdade de Educação da UFMG
IIDoutoranda em Educação na Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

ANDRADE, Mariza Guerra de. A educação exilada: Colégio do Caraça. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2000 (Coleção Historial).

Aqueles que se dedicam ao estudo da história da educação brasileira acabam de ganhar uma ótima contribuição às suas reflexões: demorou, mas saiu na forma de livro a dissertação de mestrado de Mariza Guerra de Andrade, defendida em 1992, junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG.

Tendo por título A educação exilada, a obra trata da história do Colégio Caraça, fundado pela Congregação Lazarista em 1820 e fechado em 1912. O Colégio do Caraça se propunha a formar, a partir dos abastados adolescentes que a ele recorriam, a elite mineira e brasileira, dentro de um espírito cristão e consciente de seu papel na definição dos destinos da nação.

Situado nas montanhas mineiras, o Colégio Caraça, muito mais que uma simples instituição de ensino secundário, representou um modus operandi de formação das elites dirigentes mineiras e brasileiras do período. Por isso, para contar a sua história foi preciso partir daquelas já contadas, e estas, não por acaso, como nos mostra o estudo, menos do que revelar uma história, revelam uma memória intensamente partilhada por professores e ex-alunos. Esta talvez seja a primeira lição do livro: muitas vezes a história e a memória valem mais pelo que escondem, pelo que colocam na sombra, do que pelo que revelam.

Nos quatro capítulos que compõem o livro, na introdução e na conclusão, e ainda nas imagens e anexos que publica, Mariza move-se com grande desenvoltura pelo terreno da história das instituições educativas e pela história do ensino secundário no Brasil. Nos dois primeiros capítulos, que têm por título "Fragmentos de uma longa história" e "Herdeiros e bacharéis", Mariza Guerra situa o leitor sobre o que é o Colégio do Caraça, traçando os aspectos gerais de sua história, a maneira como se constituiu em seus primórdios, ressaltando seus períodos de crise e fechamento e estabelecendo sua importância como instituição educativa em Minas Gerais. "A academia dos colegiais" e "Uma só forma para todo", os dois capítulos seguintes do livro, destinam-se a descrever o sistema educacional em geral da época, especificamente o século XIX, e entender o tipo de educação ministrada pelo Colégio do Caraça.

Produzido num momento em que o estudo da história das instituições educativas apenas iniciava-se no país, o texto revela uma grande sensibilidade no trato de seu objeto e uma acuidade teórico-metodológica dignas de serem ressaltadas. Adentrar o colégio, visualizar sua organização e a prática dos sujeitos que o faziam, ultrapassar as representações instituídas, surpreender o processo de estabilização de uma memória, implicou um árduo trabalho de localização, produção e intensa leitura de uma gama variada de fontes, revelando também que se elas são imprescindíveis ao trabalho historiográfico, nele não pode faltar o rigor teórico e a criatividade analítica. De fato, o que mais impressiona em A educação exilada é o cuidadoso trabalho com as fontes primárias, que se evidencia desde as primeiras páginas. A quantidade de fontes consultadas e a organização que a autora dá a elas revela um trabalho atraente e bastante criativo.

Diversas são as fontes consultadas por Mariza Guerra de Andrade: livros de matrícula, livros de contas, regimentos do Colégio, depoimentos de ex-alunos, correspondências, livros de avisos gerais da Congregação da Missão, além dos periódicos da época, legislações, entrevistas, entre outros. Através da transcrição de diversos trechos de documentos antigos, a autora parece pretender dar voz aos próprios sujeitos daquela época. A autora debruça-se sobre estas fontes buscando investigar e entender quem eram os alunos do Caraça, qual a sua procedência e situação social.

Mas, o que, fundamentalmente, o livro nos traz? Numa área, a da história das instituições e do ensino secundário no Brasil, em que quase tudo está por ser feito, a simples publicação do livro já é um acontecimento importante. Felizmente, no entanto, trata-se de um livro que merece ser saudado por muitos outros motivos. O maior deles, parece-me, está no fato de o estudo nos permitir, de maneira bastante densa, estabelecer diversas relações entre a proposta educativa posta em prática no Colégio e as práticas sociais mais amplas experienciadas no Oitocentos e nos primeiros anos do Novecentos. Tais relações, conforme acentua a autora, não se referem apenas à reprodução da sociedade, mas são também de ativa participação na própria produção do social.

Assim, o estudo permite-nos vislumbrar que a forma que o Colégio propôs para moldar o caráter, estruturar a personalidade, incutir a fé e os valores cristãos e transmitir os conhecimentos, dentre outros, termina por produzir sujeitos com as competências e as sensibilidades necessárias à atuação na manutenção e reprodução da ordem social. Distinguir-se socialmente, a partir da educação humanística ministrada pelos colégios, era, a uma só vez, uma forma de diferenciar-se e de assumir uma responsabilidade social: a da direção política, cultural e espiritual da sociedade.

Especificamente para aqueles que se dedicam ao estudo da história da educação no Brasil, o trabalho é de grande interesse, pelo menos por três grandes motivos. Em primeiro lugar, porque, como poucos, o trabalho de Mariza permite-nos ver uma instituição em funcionamento. Ao discorrer sobre a forma como o colégio organizou o processo educativo, o texto permite-nos, com grande maestria, passar das influências estrangeiras na história da educação brasileira à ação dos professores e, em alguns casos, à dos alunos. No que se refere aos sujeitos envolvidos no processo educativo, o estudo revela a ação das famílias na busca por uma boa educação para seus filhos, dando a ver desde as estratégias postas em movimento por conseguir uma vaga até as representações construídas em torno da qualidade do ensino ministrada pela instituição.

Em segundo lugar, mesmo dedicando-se ao estudo de uma forma particular de organização da instrução secundária, os colégios religiosos, o livro constante e sucessivamente nos descortina a organização geral dos estudos secundários no Brasil. Neste aspecto em particular, o livro significa também uma excelente contribuição ao estudo não apenas das instituições educativas, mas também dos debates e das políticas educacionais, sobretudo do Império brasileiro. São reveladoras as informações acerca das relações entre a administração religiosa do Caraça, o Império brasileiro e a Província mineira. A primeira, ao mesmo tempo em que se mobiliza pela busca de recursos financeiros públicos, contando inclusive com o apoio de seus ex-alunos, desenvolve toda uma argumentação no sentido de que tais recursos implicassem o mínimo possível de compromissos para com o Estado: o Colégio não apenas não concordava que a subvenção pública implicasse em atender a um número mínimo de alunos pobres, como também se recusava a ser inspecionada pela autoridades provinciais.

Em terceiro lugar, o livro nos mostra não apenas uma proposta educativa idealizada, mas a forma como tais idéias encarnam (se encarnam em) práticas pedagógicas, ritmos temporais, organização espacial e experiências educativas as mais diversas. Ao tratar do permitido e do proibido, ao enfocar as relações reguladas pela lei e/ou pelos costumes, ao descortinar as formas de organização do currículo e os recortes efetuados para colocá-lo em ação no dia-a-dia, o estudo vai nos dando a ver, também, as dificuldades pela quais passava o Colégio na operacionalização de sua proposta educativa.

Estes e muitos outros motivos, fazem do livro uma referência importante para todos aqueles que estudam a história da educação ou que se dedicam a refletir sobre nossas políticas e memórias educacionais. A leitura do livro é agradável e de grande ajuda para quem queira aventurar-se pelos caminhos da pesquisa histórica, pois, ao longo do texto, a autora vai explicitando não apenas o seu trabalho de pesquisa com a documentação, mas sua narrativa traz à luz o trajeto da pesquisa, mostrando as questões que são suscitadas diante das fontes utilizadas e os problemas e lacunas inevitáveis que surgem do diálogo entre o pesquisador e o seu objeto.

Finalmente, assim como o livro nos mostra que é impossível sair incólume do Colégio do Caraça, indica-nos também que nossas análises e nossas propostas educativas, políticas e culturais ficam empobrecidas toda vez que exilamos nossas memórias num passado empoeirado e, muitas vezes, idealizado.

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