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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  n.26 Rio de Janeiro maio/ago. 2004

https://doi.org/10.1590/S1413-24782004000200017 

NOTAS DE LEITURA

 

 

LOPES, Alice Casimiro, MACEDO, Elizabeth (orgs.). Currículo de ciências em debate. Campinas: Papirus, 2004, 192p.

Como entender, historicamente, as invenções e reinvenções curriculares voltadas para o ensino de Ciências que são propostas pelas instâncias educacionais oficiais diante dos desafios do mundo contemporâneo e da comunidade escolar na qual a escola se insere? Para discutir questões como essas, Currículo de ciências em debate, apoiando-se na produção teórica do campo do currículo,convida o leitor a compreender os sentidos das propostas curriculares para a área de Ciências, bem como a fazer leituras criteriosas acerca das muitas práticas e opções curriculares em Ciências que se colocam no interior da escola.

Organizada por Alice Casimiro Lopes e Elizabeth Macedo, a obra constitui-se em importante referência para os educadores de Ciências que desejam ampliar seus conhecimentos e suas reflexões teóricas a respeito do currículo das disciplinas Ciências Naturais, no ensino fundamental, e Biologia, Física ou Química, no ensino médio. Oferece significativos elementos para a compreensão de muitos questionamentos acerca do ensino das Ciências e permite maior aproximação entre essa área e estudos educacionais mais amplos. A problemática do currículo de Ciências recebe cuidadoso exame teórico por parte de suas organizadoras, bem como dos demais três autores, que abordam temáticas que também são parte das inquietações atuais de muitos professores e educadores. Assim, consegue interessar e instigar leitores que atuam em diferentes ambientes educacionais, ampliando as possibilidades de entender criticamente essas questões.

Os cinco capítulos do livro compõem-se de material analítico desenvolvido por seus autores e explicitam diversas perspectivas teóricas que subjazem às pesquisas por eles realizadas. Em toda a obra, currículo é entendido para além de um arranjo linearizado e ordenado dos conteúdos escolares e, ao se definir de forma distinta a essa, os autores focalizam, a partir de diferentes olhares e objetos, as questões culturais, políticas e sociais subjacentes ao currículo de Ciências.

O livro inicia-se com o ensaio de Attico Chassot, no qual são analisadas algumas dimensões históricas de abordagens científicas e tecnológicas que se fizeram presentes no ensino de ciências na segunda metade do século XX. Chassot focaliza em particular projetos e iniciativas públicas para induzir um ensino experimental nas aulas das Ciências, bem como discute os projetos curriculares que foram importados dos Estados Unidos e da Inglaterra, na década de 1960. Contextualiza historicamente essas iniciativas no âmbito dos cursos de licenciatura das áreas científicas, localizando-as no conturbado cenário político da ditadura militar brasileira.

Alice Lopes discorre sobre as diferenças na interpretação do discurso dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM) pelas disciplinas científicas da área das Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias, centralizando sua análise nos princípios norteadores desse texto curricular, especialmente nos que dizem respeito aos conceitos de competências, interdisciplinaridade, contextualização e tecnologias, "idéias centrais dos PCNEMs que permanecem como marcas da reforma do ensino médio" (p. 53). A opção teórica utilizada por Alice Lopes ao examinar tais questões é particularmente instigadora porque, ao destacar o hibridismo associado às propostas curriculares no texto dos PCNEM, nelas reconhece políticas culturais. Conforme aponta, nesses textos evidencia-se "o hibridismo intrínseco à recontextualização de políticas curriculares" (p. 48). Com base nessa análise, é possível pensar que esse caráter híbrido tem confundido e aprisionado muitos leitores, levando-os a reconhecer em tais textos fragmentos de abordagens com as quais concordam, desconsiderando as contradições na concepção de currículo subjacente a esses textos.

Com Elisabeth Macedo encontramos uma análise dos currículos de ensino de Ciências do Rio de Janeiro, na qual ressalta o valor político dos estudos culturais por permitir "a articulação de resistências variadas às formas instituídas pelos aparatos de poder" (p.122). Analisando os currículos dos últimos trinta anos, a autora trata-os como textos culturais que permitem acompanhar a criação de diversos estereótipos. Esse capítulo reafirma a noção de currículo como entrelugar identitário, no qual a cultura tem centralidade sem, entretanto, se desligar do campo da política. O exame dos currículos de Ciências feito por Elizabeth Macedo leva-a a reconhecer neles tanto a ênfase à cultura ocidental – que "tenta normalizar, por sucessivos esquecimentos, o espaço/tempo cultural híbrido" (p.132) – quanto o caráter universalista que assume o conhecimento científico. Esses e outros ângulos, cuidadosamente explorados pela autora, fazem desse capítulo uma leitura indispensável para os que querem aprofundar a compreensão do currículo de Ciências.

A complexidade histórica da elaboração do conceito científico de raça, no que diz respeito ao seu comprometimento ideológico e sua apropriação pelos currículos escolares, é objeto de análise de John Willinsky. Com extrema habilidade, o autor destaca o processo de criação de tal conceito e apresenta elementos do debate ocorrido na comunidade científica, auxiliando-nos a questionar como os processos de produção científica são abordados na escola. Ao argumentar que a ideologia de dominação no cenário imperialista que se estabeleceu no século XIX está associada à definição de raça, é possível vislumbrar possibilidades de seleção curricular que rompam com as definições acríticas dos conteúdos científicos tratados na escola.

Por fim, Antonio Carlos Amorim assume a crítica ao modelo linear de currículo que "prescreve uma trajetória de aprendizagem baseada em uma ordenação dos conteúdos, em uma seqüência que se define como a melhor" (p. 156) e toma currículo como "narrativa em acontecimentos" e a produção dos conhecimentos escolares como "cartografia: o mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente"(p. 160). Fundamentado em perspectivas pós-estruturalistas/pós-críticas do currículo, o autor busca compreender a complexidade dos processos de desenvolvimento curricular, utilizando os registros de aulas de Biologia e Ciências, para ver nelas maneiras"de olhar/pensar/inventar as relações entre forma e conteúdo e sua interação na configuração dos conhecimentos escolares" (p. 159).

É preciso destacar que Currículo de ciência em debate traz uma valiosa contribuição para o campo de pesquisa de ensino de Ciências, adensando teoricamente suas análises e seus estudos. Considero que, efetivamente, a obra abre novas possibilidades para um diálogo entre o campo do currículo e os estudos voltados ao ensino das Ciências. Certamente, tantos os pesquisadores que focalizam as questões curriculares em Ciências quanto os interessados em entender, do ponto de vista teórico, ações e práticas curriculares vividas cotidianamente poderão alargar suas possibilidades críticas com a leitura dessa obra.

 

Sandra Escovedo Selles
Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense
E-mail: eselles@ar.microlink.com.br

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