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Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478On-line version ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ.  no.30 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2005

https://doi.org/10.1590/S1413-24782005000300016 

RESENHAS

 

 

Vera Lúcia BazzoI; Merion Campos BordasII

IProfessora do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina; doutoranda no Curso de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
IIProfessora da Faculdade de Educação da UFRGS

 

 

BIANCHETTI, Lucídio, MACHADO, Ana Maria (orgs.). A bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações. Florianópolis: Ed. da UFSC; São Paulo: Cortez, 2002, 408p.

Orientar, (des)orientar, ou a difícil arte de conduzir à redação.

Outubro de 2002. Perdida em meio ao processo de elaboração de meu projeto de tese, com o qual disputaria uma cobiçada vaga no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, deparei-me com o livro desta resenha.

Nosso encontro não poderia ter sido mais oportuno. Devorei suas quatrocentas e oito páginas, distribuídas entre os vinte e um artigos, incluindo prefácio e apresentação, de um fôlego só. Confesso que fiz escolhas. Não li os artigos na seqüência proposta. Mas, a partir de minha própria angústia ante a "síndrome da página em branco", percorri o sumário com a avidez dos necessitados. Depois de ler o prefácio e a apresentação, certifiquei-me de que encontraria se não algumas respostas para meu quase pânico, pelo menos muitas perguntas e a companhia de experientes orientadores para uma conversa sobre a misteriosa atividade criativa a que estava desejando me submeter. É um pouco sobre essa experiência de leitora que pretendo escrever, com a licença de minha orientadora, nesta nada ortodoxa resenha.

A leitura realizada por minha orientadora também foi muito oportuna, pois levou-a a repensar algumas práticas assumidas e a melhor entender alguns episódios mal-sucedidos em matéria de orientação da escrita de dissertações e teses. Se "escrever é preciso", repensar também é preciso.

Em primeiro lugar, é importante reforçar a oportunidade de um livro com essa temática - o papel e a função do orientador - em um momento histórico de grande expansão dos programas de pós-graduação, principalmente os stricto sensu, cuja exigência (cada vez mais premida pelo tempo) é a produção de trabalhos finais em forma de dissertações e teses, logo, atividades que envolvem a capacidade de criação e autoria na expressão dos resultados de pesquisas e investigações das mais variadas áreas e temas.

É, pois, disso que trata essa coletânea: como dar visibilidade à complexa atividade de orientação a partir da fala dos próprios sujeitos professores-orientadores, reunindo em uma mesma obra artigos que vêm sendo produzidos ao longo dos últimos anos e que focalizam essa problemática. O que realmente significa a orientação no processo de produção do conhecimento? Seria a orientação uma atividade apenas resultado de intuição e experiência? Como colocar em discussão tão delicado assunto? São algumas dessas questões que o livro tenta examinar e discutir com o concurso de vários autores-orientadores.

Como dizem os organizadores na apresentação do livro, "trata-se de um conjunto de textos seminais, fundantes e inaugurais, que procuram tornar acessível, a um conjunto mais amplo de pessoas, as preocupações, as experiências, as análises e as sugestões daqueles que têm a responsabilidade de tornar públicos a caminhada e os resultados das pesquisas desenvolvidas no âmbito da universidade" (p. 23).

Diferente de todas as obras de cunho prescritivo que lêem orientadores e orientandos, cada qual por motivo diferente, os artigos dessa coletânea não tratam exatamente do "como fazer", mas abordam o delicado e complexo processo de orientar/escrever, com todas as suas vicissitudes, no seu mesmo momento de "vir a ser". Não é, portanto, um asséptico manual de metodologia (importantes e necessários - os pós-graduandos que o digam...) que, de certa forma, ajuda a tranqüilizar os autores/escritores. É, pelo contrário, um conjunto de textos que poderá provocar alguma angústia imediata, mas que, a mais longo prazo, certamente será de grande valia para orientandos e orientadores, uma vez que discutem os processos direta e indiretamente envolvidos com a nobre e espinhosa tarefa da orientação.

Foi a partir dessa percepção que não hesitei em presentear (estávamos próximos do final do ano) alguns amigos mais chegados, todos professores universitários mais ou menos principiantes na atividade de orientação, exceção feita à minha orientadora, que é bastante senior no métier, com um exemplar de A bússola do escrever. As manifestações que resultaram da leitura foram inspiradoras de muitas conversas sobre o processo criativo e a responsabilidade de quem tem por tarefa colaborar tão de perto com a formação de novos pesquisadores.

O primeiro artigo, "A 'revisão da bibliografia' em teses e dissertações: meus tipos inesquecíveis - o retorno", de Alda Judith Alves-Mazzotti, muito adequadamente abrindo a coletânea, conseguiu analisar o papel da revisão bibliográfica em trabalhos de pesquisa, um assunto até certo ponto árido e pouco "ensinável", de uma forma muito criativa e cheia de bom humor, quando, depois de teorizar com competência sobre o tema, desfila, caricaturando, os tipos mais comuns de revisão a serem evitados. Não há quem não se divirta lendo, mas ao mesmo tempo se identifique em algum momento com algum dos tipos. A gente ri de nervoso, à medida que vai se encontrando ou encontrando o orientando nesses descaminhos.

O segundo artigo, "A relação entre a autoria e a orientação no processo de elaboração de teses e dissertações", de Ana Maria Machado, discute as diversas dimensões da escrita e do processo de escrever, em uma abordagem que parte da psicanálise e da lingüística para explorar outras disciplinas e práticas de laboratórios de escrita. As pesquisas e experiências da autora, que dão base ao artigo, estão voltadas ao desenvolvimento de estratégias para promover a autoria. Nesse sentido, fala da importância da figura do orientador no processo subjetivo de (alguém) tornar-se autor. Para fazer isso, dialoga com pesquisadores escolhidos em função de sua produção ligada a temas associados à função do orientador de teses e dissertações ou próximos da autoria, numa espécie de inventário do "estado do conhecimento".

O terceiro artigo, "Pós-graduação e pesquisa: o processo de produção e de sistematização do conhecimento no campo educacional", de Antonio Joaquim Severino, já vem carimbado como leitura obrigatória para quem conhece a experiência e os trabalhos do autor nessa temática. O objetivo desse texto, como ele próprio declara, é fazer algumas considerações analíticas e propositivas sobre o modelo de pós-graduação em educação implantado no Brasil, "destacando e comentando aspectos que são substantivos para sua sustentação, garantindo-lhe maior eficácia na consecução de seus objetivos" (p. 68). O autor parte do princípio de que a pós-graduação, pela sua própria natureza, é o lugar de produção de conhecimento e, portanto, tem na pesquisa sua atividade central, com tudo o que o processo investigativo significa de exigências epistemológicas, metodológicas e técnicas. Aborda, então, as práticas e posturas acadêmico-científicas necessárias para a consecução dos objetivos da pós-graduação, discutindo também seu papel e seus resultados.

O artigo de Áttico Chassot, "Orientação virtual: uma nova realidade", conduz-nos à novíssima experiência das orientações mediadas pela máquina, nesse caso o computador, que transforma as distâncias mais incríveis em presença virtual: "a verdadeira distância entre orientador e orientando se mede pelas facilidades de um e de outro acessarem a internet" (p. 99), diz ele. De uma forma quase poética, Chassot faz uma retrospectiva de seu processo de escrita, ressaltando as transformações por que passou a técnica do escrever em tão poucos anos, da lousa e da pena aos potentes computadores, sempre enfatizando que "escrever é preciso" e o "ensinar a escrever é necessário", já que a produção de uma tese ou dissertação é, também, um problema de redação. Como ele parte dessa discussão para a questão da orientação "internética", deixarei em suspense para o leitor saborear na leitura de seu heterodoxo estilo.

O artigo seguinte, "Memórias de um orientador de tese: um autor relê sua obra depois de um quarto de século", de Cláudio Moura Castro, republicado vinte e cinco anos depois de sua primeira edição, revela o ecletismo do livro em análise e a busca dos organizadores, feito garimpagem, de tudo o que de importante foi produzido a respeito da temática ao longo dos anos em que a pós-graduação se faz presente no Brasil. Impressiona a atualidade das observações e críticas (quase cáusticas) que o autor faz sem poupar ao que ele considera "problemas de qualidade das teses". Quando discorre sobre "o que não é uma tese", dá excelente e muito atual contribuição tanto para alunos quanto para orientadores de por onde não transitar. É um ensaio prescritivo, como reconhece o próprio autor, mas de conteúdo muito mais crítico do que apenas formal, de grande valia àqueles que se embrenham na aventura de escrever/orientar uma tese.

Os três artigos que vêm na seqüência - "A pós-graduação em educação no Brasil: pensando o problema da orientação", de Dermeval Saviani; "O desafio de escrever dissertações/teses: como incrementar a quantidade e manter a qualidade com menos tempo e menos recursos?", de Lucídio Bianchetti; e "Avaliação na pós-graduação brasileira: novos paradigmas, antigas controvérsias", de Maria Célia Marcondes de Moraes, incluindo-se, ainda nesse conjunto, o artigo de Miriam Jorge Warde, "Sobre orientar pesquisa em tempos de pesquisa administrada" -, demonstram a preocupação com a nova fase da pós-graduação, especialmente na área da educação, e as atuais exigências em seu processo de avaliação num momento histórico de grandes modificações nas políticas públicas em educação no país. A principal discussão nesses textos coloca como questão central a exigência cada vez maior de produção científica de qualidade (de nível internacional, muitas vezes), cada vez menos com apoio financeiro das agências de fomento, em tempos cada vez mais reduzidos. Como resistir ou como dar conta dessas exigências é o tema que os autores, cada um à luz de sua importante experiência, propõem à discussão.

Quebrando um pouco a sisudez que a gravidade da questão impõe, os textos "Viver a tese é preciso!", de Maria Ester de Freitas, e "Publicar ou morrer", de Olinda Evangelista, muito leves, bem escritos e recheados de bom-humor (mais irônico, certamente, no último caso), constituem-se em estratégia dos organizadores para fazer os leitores relaxarem um pouco e continuarem a empreitada. Ler esses dois artigos é concordar com a afirmação de que a sabedoria e o bom-humor freqüentemente andam juntos.

Falar, um pouco que seja, de cada artigo que compõe este livro, tecendo comentários críticos que digam ao potencial leitor da validade de sua leitura, como determina o gênero resenha, é tarefa quase impossível dentro do limite de espaço padrão para esse tipo de exercício, de tal forma que apenas mencionaremos os títulos dos demais artigos para estimular/aguçar a vontade e a curiosidade dos leitores de ter acesso a essa obra. São eles: "A orientação da pesquisa nos programas de pós-graduação", de Mário Osório Marques, de saudosa memória; "A necessidade da orientação coletiva nos estudos sobre cotidiano - duas experiências", de Regina Leite Garcia e Nilda Alves; "Treze 'teses' sobre a pós-graduação no Brasil em filosofia, ciências sociais e educação", de Paulo Ghiraldelli Jr.; "Orientação: a aventura compartilhada", de Regina Zilbermann; "Argentina: el acesso a los posgrados como urgência reglamentaria", de Roberto Agustín Follari; "Manual infame... mas útil, para escrever uma boa proposta de tese ou dissertação", de Sandra Mara Corazza - este, um primor de criatividade, me fez rever tudo o que havia escrito em meu projeto de tese até aquele momento, estimulando minha ousadia em quebrar alguns ícones formais; "Universidade: nos bastidores da produção do conhecimento", de Teresa Maria Frota Haguette, republicação de um artigo seu de 1994, o que nos fez sentir muitas saudades dos escritos competentes da professora Haguette sobre a pesquisa em ciências sociais; e, por fim, "Impulsão para a escrita: o que Freud nos ensina sobre fazer uma tese", de Vera Lúcia Colucci, fechando o livro de maneira nada ortodoxa, como se a dizer que em matéria de criação "Freud também explica".

À guisa de conclusão, voltamos a reforçar a importância e a oportunidade dessa obra, já na segunda edição, recomendando fortemente sua leitura a todos aqueles que, envolvidos em programas de pós-graduação desse (orientandos) ou daquele lado do processo (orientadores), queiram viver a plenitude dessa experiência.

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