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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. v.12 n.34 Rio de Janeiro jan./abr. 2007

https://doi.org/10.1590/S1413-24782007000100014 

RESENHAS

 

 

Gesuína de Fátima Elias Leclerc

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba. E-mail: gesuína.leclerc@terra.com.br

 

 

DUTRA, Luiz Henrique de Araújo. Oposições filosóficas; a epistemologia e suas polêmicas. Florianópolis: Editora da UFSC, 2005, 191p.

O livro mostra-se um valioso apoio para quem se encontra no processo de construção de metodologia de pesquisa. Trata-se de cuidadosa revisão da filosofia da ciência, por meio de oposições filosóficas. A bibliografia reúne 130 títulos, enquadrados em uma divisão didática para a caracterização das tradições e dos sistemas filosóficos, como mostrarei a seguir.

Em primeiro lugar, contrapõe o ceticismo metodológico e o pirronismo ao dogmatismo, considerando não existir "uma forma auto-refutatória de ceticismo, que coincidiria com a imagem vulgarizada do cético". O que existe é uma "forma metodológica que deriva da estratégia argumentativa dos filósofos modernos" (p. 21). Ela é expressa na atitude dubitativa de Descartes: se "a qualquer momento nossas opiniões podem ser motivo de dúvida, o mais prudente é, de antemão, duvidar de todas elas". São reconstituídos argumentos que levaram ao "ceticismo a respeito do mundo exterior", centrados no solipsismo:

[...] a hipótese da realidade mental do eu e de que o mundo seria, antes de tudo, uma representação de cuja veracidade não estamos certos. Assim, o problema é aquele da realidade do mundo físico, do mundo exterior, o mundo fora da mente. Para a teoria do conhecimento desde então, provar a realidade de um mundo extramental seria um desafio epistemológico lançado pelo ceticismo aos filósofos. Esta é uma das formas pelas quais o ceticismo é debatido pelos filósofos até hoje. (p. 30)

É retomado o debate sobre o ceticismo pirrônico que "não nega as aparências, isto é aquelas experiências imediatas de sentir ou pensar" (p. 35), mas diferencia a expressão das experiências em relação à enunciação de uma tese sobre essas experiências. Adota um critério pragmático de demarcação entre a manifestação de uma experiência comum, compartilhada, e o enunciado de uma tese: viver pelas aparências "consiste em seguir as manifestações da natureza (inclusive de seu próprio corpo) e os costumes da sociedade em que se vive (inclusive suas leis e as conseqüências morais que elas acarretam)" (p. 36). É a diafonia (as vozes discordantes) que estabelece o caráter teórico e dogmático.

Raciocínio similar é encontrado na distinção de Quine sobre "enunciados observacionais (aqueles que possuem apenas termos de observação) e enunciados teóricos (aqueles que também possuem algum termo que não pode ser considerado significativo apenas com referência a observações)" (p. 37). Considerado o salto temporal, a possibilidade de atualizar a perspectiva cética tem como ponto crucial o problema de "saber se as evidências de qualquer tipo – experimentais ou não – são suficientes para abraçar ou para abandonar uma teoria" (p. 43).

Uma segunda tradição abordada pelo autor é o positivismo de Comte e positivismo do Círculo de Viena. Tomando o positivismo como o grande opositor das doutrinas metafísicas, o autor apresenta o positivismo de Auguste Comte, mas sua ênfase recai sobre a postura instrumentalista de Carnap e Neurath. Carnap concentra-se na questão da construção dos objetos, projetando uma construção lógica do mundo para uma ciência unificada e Neurath deu especial destaque ao tema das leis. Das críticas ao neopositivismo (ou positivismo lógico, ou empirismo lógico), a partir dos anos de 1960, emergem diversas filosofias da ciência alternativas, associadas aos críticos como Quine, Kuhn, Hanson e Popper. Como afirma Dutra:

Entretanto, foi por desafiar a filosofia tradicional e adotar seus critérios tão estritos que o positivismo lógico se tornou a primeira filosofia da ciência profissionalizada e moderna, deixando para trás as idéias de filósofos tradicionais, como Platão, Aristóteles e Kant, e passando a ser um domínio específico de discussão sobre a ciência, centrado no tratamento de problemas epistemológicos, e não em doutrinas filosóficas previamente elaboradas. (p. 66)

Em terceiro lugar, o autor discute o naturalismo, doutrina relacionada ao caráter problemático da epistemologia: se "ao estudar o conhecimento humano e as ciências, a epistemologia apenas descreve os fenômenos cognitivos, como a física faria com os fenômenos do movimento" (p.75); ou se está lidando com algo que escapa ao domínio da natureza, como processos lógicos e não naturais. Essa doutrina opõe-se ao fundacionismo, pois este quer encontrar conceitos primitivos e inatacáveis do sistema do saber humano, e um método para inferir todos os demais conceitos. Associa-se a uma "concepção axiomática do saber, que é típica da lógica e dos diversos ramos da matemática" (p. 78), e ao procedimento que pode ser tomado como "uma regra correta" (p. 80). Mas como se corrige uma regra, até que essa seja uma regra correta?

Os naturalistas procuram soluções falibilistas para compreender o conhecimento humano e as ciências empíricas, e criticam a concepção tradicional e normativa do conhecimento como "crença verdadeira e justificada" (p. 83). É reconstruído o argumento de Hume para o tratamento de crenças sobre a constituição e o funcionamento do mundo, por meio da experiência e da observação. O tratamento não é lógico: "nossa abordagem para discutir e avaliar o conhecimento humano deve ser semelhante a nossa abordagem para compreender outros processos naturais" (p. 86). O hábito pode ser descrito por meio de "uma hipótese empírica plausível" e não por meio de demonstrações lógicas (p. 89). Destaca-se a epistemologia naturalizada de Quine, pela qual o autor defende uma nova epistemologia, "que seria a associação de ramos da psicologia empírica e lingüística" (p. 91).

Dutra analisa ainda o instrumentalismo (em diversas versões), compreendido como uma concepção segundo a qual os enunciados teóricos das ciências não podem ser verdadeiros nem falsos, porque não podem corresponder a estados de coisas (p. 101). Opõe-se ao realismo, mas os enunciados podem ser considerados instrumentos teóricos de predição; essa postura é denominada instrumentalismo epistemológico, associada a "uma interpretação literal dos enunciados teóricos" (p. 102). A posição exemplar é aquela sustentada por Bas van Fraassen em seu empirismo construtivo.

Ainda que de modo simplificador, a metafísica pode ser conceituada como "a questão sobre a realidade do mundo exterior", e a ontologia como "uma parte da metafísica, ou aquela disciplina que se ocupa do ser, do ente e do que há". É da questão ontológica que se ocupam os instrumentalistas e os realistas. As considerações são expostas, detalhadas e também resumidas em um quadro esquemático, distinguindo-se dois tipos de realismo (as teorias científicas são verdadeiras ou falsas, as entidades inobserváveis existem ou não no mundo) e a oposição a cada um deles (instrumentalismo e ficcionismo).

A quinta tradição discutida no livro é o behaviorismo situado em oposição ao mentalismo, que deriva da posição dualista (Descartes), sobre a composição do ser humano: corpo e alma, como substâncias distintas. A partir desse prisma, o behaviorismo "implicaria em uma concepção monista, segundo a qual todos os processos de que tratam a filosofia e a ciência são partes da mesma natureza material do mundo" (p. 130).

As versões do behaviorismo caracterizadas são: behaviorismo definicional (que pode ser encontrado em Carnap); behaviorismo analítico (que pode ser encontrado em Gilbert Ryle), behaviorismo programático (o da psicologia experimental). É apresentado o debate entre crença e comportamento, retomando-se o debate com os filósofos modernos (a comparação de estados mentais com estados físicos) e os empiristas britânicos (oposição a idéias inatas).

Tem, ainda, um panorama das concepções da filosofia contemporânea (Carnap e Quine), em termos empiristas, "uma crença é uma disposição do indivíduo, uma disposição para a ação, ou, mais precisamente, para agir de determinada maneira" (p. 139). Invoca-se o debate entre internalismo (a ação e o conhecimento são explicados com referência a entidades e processos mentais, identificados com fenômenos neurofisiológicos) e externalismo (o conhecimento e o comportamento são explicados com referência a fatores ambientais) (p. 146). E o debate sobre intencionalidade, remetendo-se aos "assuntos tipicamente humanos, que são os temas das ciências sociais em geral". Os intencionalistas afirmam que "os behavioristas até hoje foram incapazes de lidar com a intencionalidade" (p. 151). Dutra apresenta, entusiasticamente, o behaviorismo teleológico de Rachlin para uma contraposição.

Finalmente, o autor apresenta uma discussão sobre o pragmatismo. Caracteriza a epistemologia kantiana enquanto "a forma mais bem acabada do intelectualismo (ou racionalismo) ao qual os pragmatistas se opõem" (p.159), enfatizando a teoria de investigação elaborada por Dewey. Expõe a doutrina das faculdades (sensibilidade, entendimento e razão), a distinção entre conhecimento empírico e conhecimento racional e a demarcação entre as "questões de fundamentos do pensamento em geral e a descrição do mundo da experiência, de acordo com os padrões epistemológicos ditados pela filosofia" (p. 160). Apresenta o tema dos juízos (sintéticos e analíticos, operações mentais) e problematiza a idéia de investigação apenas como operações mentais. Os pragmatistas negam a dicotomia presente na idéia segundo a qual se pode "ou agir sem pensar ou pensar sem agir" (p. 167). É com esse princípio que o pragmatismo nega a separação tradicional entre teoria e prática. "Dewey fundamenta sua teoria na concepção adaptacionista (de tipo darwinista) segundo a qual há continuidade entre o natural e o social" (p. 168). A investigação é definida como:

[...] a transformação controlada e dirigida de uma situação indeterminada (de dúvida) em uma outra de tal forma determinada de modo a converter os elementos da situação original em um todo unificado em suas distinções constitutivas e relações (uma situação de crença – ou assertibilidade garantida). (p. 171)

O leitor poderá obter mais informações sobre Luiz Henrique de Araújo Dutra em <www.cfh.ufsc.br/~lhdutra>, inclusive sobre o livro de sua autoria, Epistemologia da aprendizagem (Rio de Janeiro: DP&A, 2000), no qual abre um canal com a pedagogia.

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