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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. v.12 n.34 Rio de Janeiro jan./abr. 2007

https://doi.org/10.1590/S1413-24782007000100016 

NOTA DE LEITURA

 

 

Maria Francisca Mendes

Professora da rede pública do município do Rio de Janeiro. Mestranda em educação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. E-mail: francis.mendes@hotmail.com

 

 

BRAITH, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2005, 264p.

Beth Braith convida-nos a um passeio pelos diferentes conceitos presentes no trabalho e no pensamento de Mikhail Bakhtin, a partir de textos seus e de outros autores que se relacionam com o chamado Círculo de Bakhtin. Mikhail Mikhailovitch Bakhtin, filósofo, historiador da cultura, estética e filologia, nasceu na Rússia, em 1895, e viveu o conturbado período da Revolução Russa, da possibilidade de uma nova sociedade e das impossibilidades ditadas pelo governo stalinista. Sua extensa obra é caracterizada por uma concepção dialógica da linguagem, da vida e dos sujeitos. "Como um crítico do formalismo russo, opôs à sua monotonia monológica, uma visão de mundo pluralista polissêmica e polifônica" (Freitas, 1996, p. 118).

Os estudos contemplados em Bakhtin: conceitos-chave trazem forte vinculação das temáticas abordadas com situações atuais, contribuindo para o entendimento das diversas concepções sobre a arquitetura bakhtiniana, nem sempre fáceis de serem compreendidas. Ato, evento, autor, autoria, ética, estilo, polifonia, palavra, tema, significação, enunciação, gêneros discursivos... situam-se entre os conceitos analisados.

Entre tantas exemplificações – textos informativos, literários, jornalísticos; propagandas, capas de revistas, manchetes, fotos, palavras... – deparamo-nos com uma análise aprofundada do atentado aos Estados Unidos, presente no texto de Adail Sobral, "Ato/atividade e evento", no qual o autor relaciona conceitos descritos anteriormente à complexidade do ato terrorista envolvendo "razões históricas, sociológicas, pessoais, religiosas, econômicas etc." (p. 31).

Refletindo sobre o ato que, nas concepções de Bakhtin, envolve essencialmente responsabilidade ética, Sobral destaca que a posição dos Estados Unidos da América do Norte, enquanto símbolo do capitalismo neoliberal hegemônico, propicia "um conjunto de eventos que têm nos atentados um ato de uma série de atos praticados por sujeitos concretamente caracterizáveis (embora não individualizáveis) em resposta a outra série de atos praticados por sujeitos também concretamente caracterizáveis (e igualmente não individualizáveis), envolvendo resposta e responsabilidade" (p. 32). Esse é, sem dúvida, um dos melhores textos do livro, por situar-nos dentro da complexa realidade atual constituída pelas ações e pelos sentidos das ações humanas, em atos/eventos/atividades, que nos remetem à reflexão sobre ética.

Sobral comparece com mais dois estudos de sua autoria: "Ético e estético: na vida, na arte e na pesquisa em ciências humanas" e "Filosofias (e filosofia) em Bakhtin". O primeiro, remete-nos novamente à filosofia do ato, na qual a ética também se mostra presente, sublinhando questões como dialogismo, percepção ou pensamento, constituição da consciência, para explicitar a concepção bakhtiniana de estético, resultado "de um processo que busca representar o mundo do ponto de vista da ação exotópica do autor, que está fundada no social e no histórico, nas relações sociais de que participa o autor" (p. 108). O segundo, em contraposição a esse prazer pelo lido, revelou-se bastante árduo diante das inúmeras referências da dialogicidade que o autor percebe entre Bakhtin e outros estudiosos enfatizando os diálogos com Kant e por meio de Kant.

Percebe-se um constante entrecruzar das idéias de Bakhtin nas diferentes narrativas trazidas por Beth Braith e seus parceiros de pesquisas e co-autores do livro. Braith, já na introdução, descreve o percurso enfrentado na construção da obra sobre o pensador: um glossário, sugerido inicialmente mas depois descartado, concretizou-se em uma coletânea "em que alguns termos essenciais à compreensão da arquitetura bakhtiniana foram trabalhados, funcionando como uma amostra dos pilares do edifício" (p. 9).

Beth Braith e Rosineide de Melo analisam "Enunciado/enunciado concreto/enunciação" a partir da diversidade de definições e empregos desses termos até chegar ao pensamento de Bakhtin e seu círculo. Logo a seguir, Braith fala de "Estilo", relacionando-o estreitamente com dialogismo e com a atitude avaliativa do autor. As relações entre o autor e o herói também serão determinantes no estilo de um enunciado.

Carlos Alberto Faraco traz-nos "Autor e autoria", enfatizando a posição do autor-criador, "aquele constituinte que dá forma ao objeto estético, o pivô que sustenta a unidade do todo esteticamente consumado" (p. 37). Heteroglossia, excedente de visão, relação autor/herói, autocontemplação são alguns dos pilares que dão sustentação a uma abordagem mais aprofundada sobre exotopia.

Irene Machado refere-se aos "Gêneros discursivos" e como os diferentes usos da linguagem transformam os discursos em manifestações de pluralidade. "Ideologia", texto escrito por Valdemir Miotello, focaliza aspectos de ideologia oficial e ideologia do cotidiano e de signo ideológico: "todo signo é signo ideológico" (p. 170). Um único termo, "Palavra", é-nos oferecido e desmembrado nos estudos de Paulo Rogério Stella, que constrói uma reflexão fundamentada nas quatro propriedades definidoras da palavra: "pureza semiótica, possibilidade de interiorização, participação em todo ato consciente, neutralidade" (p. 179).

Paulo Bezerra discorre sobre "Polifonia" mostrando que as vozes e as consciências presentes no romance polifônico são "sujeitos de seus próprios discursos" (p. 195). E, finalmente – sem, contudo, finalizar, pois que toda obra para Bakhtin carrega em si seu inacabamento –, William Cereja apresenta-nos "Significação e tema" voltando à palavra e sua historicidade; e ao signo, pensando-o "não apenas no domínio da língua, mas também no domínio do discurso e, portanto, da vida" (p. 201).

Propondo uma volta ao começo – um recomeço – desejo explicitar meu prazer maior na leitura de Bakhtin: conceitos-chave: a possibilidade de interagir com um Bakhtin mais próximo de meu entendimento, além de conhecer um pouco mais de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros.

 

Referência bibliográfica

FREITAS, M. T. A. Vygotsky e Bakhtin Psicologia e educação: um intertexto. São Paulo: Ática, 1996.

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