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Revista Brasileira de Educação

versão impressa ISSN 1413-2478versão On-line ISSN 1809-449X

Rev. Bras. Educ. v.13 n.37 Rio de Janeiro jan./abr. 2008

https://doi.org/10.1590/S1413-24782008000100018 

NOTA DE LEITURA

 

 

Caroline Rodrigues da Silva

Bacharel em letras pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. E-mail: carolfisksl@gmail.com.br

 

 

HEBERLE, Viviane M.; OSTERMANN Ana C.; FIGUEIREDO, Débora de C. (Orgs.). Linguagem e gênero no trabalho, na mídia e em outros contextos. Florianópolis: Editora da UFDC, 2006, 234p.

O lançamento do livro Linguagem e gênero no trabalho, na mídia e em outros contextos foi realizado em agosto passado no Seminário Internacional Fazendo Gênero, evento organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que acontece bienalmente no campus daquela universidade. O seminário pretende abrir espaço para discutir questões relevantes sobre gênero e, por isso, estudiosos do país inteiro se reúnem e trocam experiências sobre suas pesquisas. Assim como o evento, o livro procura debater as questões de identidades de gênero em diversos aspectos e segmentos da sociedade. Por isso, ele é organizado em artigos de conhecidos e conhecidas pesquisadores e pesquisadoras de gênero da atualidade que verificaram como o gênero se manifesta na linguagem nos mais diferentes eventos interacionais.

O livro divide-se em três blocos temáticos que relacionam gênero com interação e trabalho, com mídia e com ambientes diversos. Primeiramente, as organizadoras Viviane Heberle, Ana Ostermann e Débora Figueiredo ressaltam que a temática gênero vem contando com uma crescente publicação no mundo todo. Em seguida, apontam para a interface que pode ser feita com a linguagem. Além disso, elas asseveram que os artigos selecionados para o livro abordam o gênero como uma categoria que se constrói socialmente, não como um dado inerente a cada ser humano.

O primeiro bloco temático, "Gênero, interação e trabalho", conta com quatro artigos. No primeiro artigo, "Comunidades de prática: gênero, trabalho e face", a pesquisadora Ana Ostermann procura discutir as definições essencialistas de gênero investigando duas instituições que atendem mulheres em situação de vulnerabilidade (violência doméstica, principalmente). Ela demonstra, por meio de análises lingüísticas, que as comunidades de prática das quais as pessoas fazem parte têm um papel muito mais importante na formação do que cada um de nós entende por gênero do que a simples associação de sexo a formas de ação genuinamente femininos ou masculinos. Ela também recorre ao conceito do habitus, de Bordieu, para dar aporte às suas considerações bastante reveladoras.

O segundo artigo, "Imigração e trabalho: revendo estereótipos de gênero", é um trabalho conjunto de Maria do Carmo Leite de Oliveira, Liliana Cabral Bastos e Elizabeth Barroso Lima. Pela história de vida de uma empresária, as pesquisadoras levantam a questão da relação entre as identidades de mulher, de imigrante e de empreendedora. Elas analisam como essa mulher conta a sua história como empresária e se o fato de acontecer em locais tipicamente masculinos reflete-se na sua fala. A inserção das falas da entrevistada ajudam a visualizar questões das análises.

O terceiro artigo desse bloco é intitulado "Ecologia lingüística e social em uma comunidade multilíngüe: a relevância do gênero social" e é de autoria de Neiva Maria Jung. A pesquisadora reporta um estudo etnográfico de outra autora, que observou a relação de construção de gênero social e de língua em uma localidade da Áustria. Com um propósito semelhante, a autora vai a campo em uma comunidade de falantes de brasileiro (que é como a população se refere a uma variedade de português não-padrão) e de alemão. Para tanto, realiza uma análise microetnográfica de interação em sala de aula. Ela demonstra que o modelo de letramento está diretamente ligado à identidade de gênero que as pessoas da comunidade assumem e que a escolha por uma das duas línguas indica também uma escolha de gênero.

No último artigo desse bloco temático, intitulado "Estratégias de manutenção de poder de uma ex-chefe em uma reunião empresarial: indiretividade e diretividade em atos de comando", a pesquisadora Maria da Graça Dias Pereira investiga uma reunião empresarial em que estão presentes a ex-chefe e o atual chefe do departamento. Ela procura demonstrar como os atos de comando diretos ou indiretos da ex-chefe são uma forma de manutenção de poder junto aos funcionários e ao chefe atual da seção. Nessa análise, Maria da Graça verifica que a visão essencialista de gênero não se aplica nessa interação, uma vez que a ex-chefe "revela um estilo lingüístico diferenciado daquele esperado pelos estudos que se inserem no paradigma da dominação/diferença" (p. 121).

O segundo bloco temático é intitulado "Gênero e mídia" e conta com três artigos. O primeiro deles é de autoria de Luiz Paulo da Moita Lopes e chama-se "'Falta homem até pra homem': a construção da masculinidade hegemônica no discurso midiático". O autor focaliza sua análise no papel que a mídia e o discurso podem ter na construção das identidades hegemônicas de gênero por meio de um artigo de jornal. Ele argumenta que o texto jornalístico parece apresentar identidades heterogêneas, mas que, pela sua análise, é possível perceber que se prestam para reforçar a construção da masculinidade hegemônica.

Com o título de "Comodificação e homoerotismo", o segundo artigo é de autoria de Leandro Lemes do Prado e Désirée Motta-Roth e investiga como o gênero textual "anúncio pessoal" revela as relações interpessoais construídas pelos anunciantes. Além disso, os autores procuram demonstrar como o papel da comodificação do sujeito aparece quando há a relação de oferta e procura, que é bastante presente nesse gênero textual. Após verificar os diferentes perfis dos anunciantes e suas estratégias discursivas, os pesquisadores observam que é importante que se combatam as visões unificadoras de gênero da sociedade, com a principal preocupação de reconhecer a legitimidade da diversidade de comportamentos.

O último artigo desse bloco temático é "Buscando significado em um Corpus: PC, sexismo e suas inflexões no Bando de Língua Inglesa do Cobuild", de autoria de Aleksandra Piasecka-Till. Nesse estudo, a autora investigou os termos politicamente correto e sexismo em uma coletânea de textos orais e escritos do inglês moderno (Cobuild). Pela análise da colocação desses termos e da interdependência tópica entre eles, a pesquisadora argumenta que é importante estar ciente das escolhas lexicais para estar menos submisso à manipulação de gênero.

O último bloco temático chama-se "Gênero em ambientes diversos" e contém dois artigos. O primeiro é intitulado "Os discursos públicos sobre o estupro e a construção social de identidades de gênero", de autoria de Débora de Carvalho Figueiredo. A autora procura demonstrar que a maneira como as pessoas se referem em seus discursos às histórias de estupro influencia na construção da maneira como esses crimes de violência são vistos pelas mulheres e também na própria formação de suas identidades. Focalizando sua investigação principalmente em estupros ocorridos em relacionamentos afetivos, a pesquisadora demonstra que a construção da masculinidade hegemônica contribui para a legitimização da culpabilidade feminina em casos de estupro.

Finalmente, o artigo intitulado "Fala cachaça! Futebol e sociabilidade masculina em bares" do pesquisador Édison Gastaldo discute, por meio de uma pesquisa etnográfica, como a sociabilidade masculina ocorre em bares da região metropolitana de Porto Alegre. Ao reunirem-se para assistir a jogos de futebol em bares, os homens revelam determinados comportamentos sociais que transparecem em suas falas e que constrõem suas identidades de gênero. O autor discute essas construções e o papel dessas interações na formação da cultura brasileira.

O livro é de fundamental importância para os estudos de gênero, um assunto que vem sendo discutido largamente em diversas áreas do conhecimento. Por abordar as questões de gênero de modo não essencialista, a obra deve ser considerada leitura obrigatória nos meios acadêmicos, principalmente para estudiosos e estudiosas que pretendem reavaliar seus conceitos e transmitir idéias inovadoras em sala de aula. As organizadoras merecem os parabéns por reunir autores e autoras de elevada importância nos estudos de gênero do Brasil e por permitirem que eles compartilhem com seus/suas leitores/as suas tão valiosas análises.

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