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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. estud. vol.13 no.4 Maringá Oct./Dec. 2008

https://doi.org/10.1590/S1413-73722008000400010 

ARTIGOS

 

A relação entre a percepção e a representação nos primórdios da metapsicologia freudiana

 

The relation between perception and representation in early freudian metapsychology

 

La relación entre percepción y representación en los inicios de la metapsicología freudiana

 

 

Fátima Caropreso

Doutora em Filosofia. Pós-Doutoranda no Insitituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas-Unicamp. Bolsista Fapesp

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste artigo é retomar os desenvolvimentos iniciais do conceito de representação na teoria metapsicológica freudiana, tendo como objetivo argumentar que a relação entre a representação e os estímulos sensoriais que incidem sobre a periferia do sistema nervoso vai se tornando, ao longo da teorização inicial de Freud, cada vez mais indireta. Analisaremos, em primeiro lugar, a elaboração da noção de representação no texto "Sobre a concepção das afasias", de 1891, em seguida passaremos ao texto "Projeto de uma psicologia", escrito em 1895. Por fim, discutiremos como o problema da relação entre estímulo e representação é pensado na carta a Fliess conhecida como Carta 52 (6/12/1896), onde o primeiro modelo freudiano do aparelho psíquico começa a tomar forma.

Palavras-chave: Freud, metapsicologia, representação.


ABSTRACT

The early development of Freud´s concept of representation in his meta-psychological theory is reexamined. The relationship between representation and sensorial stimulation received in the nervous system and conceived in a more and more indirect way throughout the first stage of psychoanalytic theory is also discussed. First, the formulation of the representation concept in On the conception of aphasia (1891) will be focused, followed by the further development of this concept in the Project for a psychology, written in 1895. The last part of current analysis will discuss how the problem of the relationship between stimuli and representation is presented in the letter to Fliess, known as "Letter 52" (12/6/1896), in which the first model of Freud's psychic apparatus begins to take shape.

Key words: Freud, metapsychology, representation.


RESUMEN

El objetivo de este texto es retomar los desarrollos iniciales del concepto de representación en la teoría metapsicológica freudiana, con vistas a argumentar que la relación entre la representación y los estímulos sensoriales que inciden sobre la periferia del sistema nervioso va haciéndose, a lo largo de la teorización inicial de Freud, cada vez más indirecta. En primer lugar analizaremos la elaboración de la noción de representación en el texto "Sobre la concepción de las afasias" de 1891 y luego abordaremos el "Proyecto de una psicología", escrito en 1895. Finalmente discutiremos cómo el problema de la relación entre estímulo y representación es pensado en la carta a Fliess conocida como Carta 52 (6/12/1896), en la cual el primer modelo freudiano del aparato psíquico comienza a tomar forma.

Palabras-clave: Freud, metapsicología, representación.


 

 

Podemos encontrar, desde o início da teorização freudiana no texto "Sobre a concepção das afasias" (Freud, 1891), a formulação de uma teoria da representação que será desenvolvida nos textos freudianos subseqüentes e continuará pressuposta, em seus aspectos essenciais, em todo o restante do percurso teórico de Freud, de modo que essa reflexão sobre a representação pode ser considerada o passo inaugural da metapsicologia freudiana (Simanke, 2005). O segundo passo fundamental dessa teoria é dado no "Projeto de uma psicologia" (Freud, 1950/1987), onde a representação, que antes ainda era pensada como um fenômeno necessariamente consciente, passa a ser concebida como um fenômeno anterior à consciência e independente desta (Caropreso, 2003b). Outro desenvolvimento importante encontra-se na carta a Fliess de 6 de dezembro de 1896, que ficou conhecida como "Carta 52": nesta Freud (1950/1998) propõe a hipótese de que as representações estão sujeitas a reordenações de tempos e tempos, isto é, que elas são submetidas a sucessivas retranscrições, de maneira que haveria vários registros de um mesmo conteúdo, alguns dos quais permaneceriam sem acesso à consciência. Neste artigo pretendemos retomar os desenvolvimentos iniciais do conceito freudiano de representação, tendo como objetivo mostrar como a relação entre a representação e aquilo que é representado vai-se tornando cada vez mais indireta ao longo da teorização inicial de Freud. Essa teoria sobre a relação entre a representação e os estímulos sensoriais que são representados, desenvolvida por Freud na Carta 52, já apresenta os elementos essenciais das hipóteses que são formuladas no capítulo 7 de "A interpretação dos sonhos" (Freud, 1900/1982) e, na verdade, permanecerá implícita, em sua forma geral, por todo o restante da metapsicologia freudiana.

 

O CONCEITO DE REPRESENTAÇÃO EM "SOBRE A CONCEPÇÃO DAS AFASIAS"

Em "Sobre a concepção das afasias", Freud (1891) procura mostrar que as hipóteses que predominavam na época sobre o funcionamento normal e patológico da linguagem - em especial aquelas defendidas pelos neurologistas Carl Wernicke e Theodor Meynert - apresentavam uma série de incoerências e não forneciam uma explicação adequada, nem para os fenômenos afásicos nem para as funções normais da linguagem. Freud não se limita, contudo, a apontar os problemas presentes nas teorias desses autores, mas formula também uma nova concepção sobre o funcionamento normal e patológico da linguagem, baseando-se em uma maneira alternativa de conceber a relação entre a fisiologia e a anatomia das funções cerebrais, assim como em uma nova maneira de conceber a relação entre os processos psíquicos e os fisiológicos. As hipóteses aí apresentadas por Freud são influenciadas, em grande parte, pelas idéias do neurologista inglês Hughlings Jackson. Como observam Solms e Saling (1986), em "Sobre a concepção das afasias" Freud (1891) substitui a teoria de seus professores - principalmente Meynert - pela teoria evolucionista de Jackson. Uma vez que as teorias de Meynert e de Wernicke apoiavam-se em certas concepções psicológicas - as quais parecem poder ser aproximadas das do associacionismo de James Mill (Amacher, 1965) - a crítica às hipóteses neurológicas sobre as afasias acabou implicando em uma crítica também das concepções psicológicas a elas subjacentes. Como conseqüência, Freud acaba sendo conduzido a uma concepção de representação que se distancia em vários aspectos daquela que estava subentendida nas concepções neurológicas criticadas, a qual constituirá a base sobre a qual sua teoria metapsicológica posterior irá ser construída (Caropreso, 2003a).

A teoria neurológica de Meynert defendia a existência de uma projeção ponto por ponto da periferia do corpo no córtex cerebral. Os estímulos sensoriais que incidissem sobre a periferia do sistema nervoso seriam projetados no córtex, sem sofrer nenhuma reorganização ao longo desse percurso. Quando chegassem ao córtex, esses estímulos produziriam alterações nas células, as quais consistiriam nos correlatos fisiológicos das idéias. O córtex possuiria áreas de armazenamento - os centros sensoriais e motores - nos quais estariam contidas as impressões sensoriais e motoras; possuiria áreas associativas, por onde se faria a associação entre as impressões dos vários centros; e conteria ainda áreas carentes de função - as chamadas "lacunas funcionais" - que seriam as regiões a serem ocupadas ao longo do processo de aprendizagem, o qual consistiria num movimento de "expansão topográfica", isto é, de ocupação de áreas corticais até então desocupadas. Será principalmente a partir da recusa dessas hipóteses de Meynert, que estavam pressupostas na teoria sobre a linguagem desenvolvida por Wernicke, que uma nova concepção sobre a representação irá começar a emergir.

Em primeiro lugar, Freud (1891) recusa a hipótese da diferenciação anatômica entre centros e vias associativas da linguagem. O principal argumento a que ele recorre para tanto é o seguinte: a hipótese de Meynert da existência de centros cujas células armazenariam as diversas impressões sensoriais e motoras fundamentava-se na suposição de que os fenômenos neurológicos e os psíquicos deveriam possuir as mesmas características, pois a um simples psíquico - uma impressão sensorial - corresponderia um simples neurológico - um engrama contido em uma célula. Freud argumenta que essa transposição de termos psicológicos em termos neurológicos, empreendida por Meynert e mantida por seus seguidores, é um procedimento arbitrário, pois os fenômenos psíquicos e os neurológicos não precisam necessariamente apresentar as mesmas características:

Na psicologia, a representação simples é para nós algo elementar que podemos diferenciar claramente de sua conexão com outras representações. Esta é a razão por que nos sentimos tentados a presumir que o seu correlato fisiológico, a dizer, a modificação das células nervosas que se originam pela estimulação das fibras nervosas, seja também algo simples e localizável. Tal inferência, com certeza, carece de todo fundamento; as qualidades desta modificação têm que ser estabelecidas em si mesmas e independentemente de seus correspondentes psicológicos (Freud, 1891, p. 99).

Ao sustentar que o correlato de uma representação simples se localiza em algo simples - ou seja, em uma célula cortical - Meynert teria atribuído as propriedades do fenômeno psíquico ao fenômeno neurológico, apoiando-se no pressuposto de que esses fenômenos possuíssem as mesmas propriedades. Freud (1891) argumenta que esse pressuposto não possui fundamentação e propõe que os correlatos fisiológicos das representações sejam sempre processos associativos. Mesmo as representações "simples" do ponto de vista psicológico corresponderiam a processos associativos, e não a engramas contidos nas células dos centros, portanto não seria possível distinguir, na região cortical responsável pela linguagem, as áreas associativas das áreas responsáveis pelo armazenamento de impressões sensoriais. A "área da linguagem", como propõe Freud (1891), seria uma área homogênea, onde transcorreriam processos associativos similares.

Outra hipótese de Meynert, cuja recusa terá implicações importantes para a concepção freudiana de representação, é a de que haveria no córtex áreas desocupadas - as chamadas "lacunas funcionais" - que iriam sendo ocupadas durante o processo de aprendizagem. Freud emprega dois argumentos contra essa hipótese das lacunas funcionais. O primeiro refere-se ao modo como a existência dessas lacunas foi inferida. De acordo com ele, as áreas que apresentavam a maior superposição de lesões nos exames post mortem de pacientes afásicos haviam sido consideradas como centros de linguagem, ou seja, como áreas cuja integridade seria indispensável para que a linguagem funcionasse normalmente. As demais áreas tinham sido, por exclusão, consideradas regiões sem função. Freud argumenta que tal inferência não é válida, porque pode perfeitamente haver outras áreas corticais que também estejam a serviço da linguagem, ainda que sua destruição possa ser tolerada mais facilmente; além disso, é igualmente possível que uma lesão em uma região provoque alteração no funcionamento de outra região, ou seja, que uma lesão possa provocar uma alteração funcional mais ou menos generalizada. Por isso, apenas o fato de lesões de determinadas áreas não estarem associadas a casos de afasia não permite concluir que essas regiões não sejam responsáveis por nenhuma função da linguagem e consistam nas chamadas lacunas funcionais.

O segundo argumento de Freud (1891) dirige-se contra a função que foi atribuída a tais lacunas, ou seja, dirige-se contra a hipótese de que a aprendizagem da linguagem consistiria num processo de ocupação de regiões desocupadas. Freud (1891) argumenta que, se examinarmos a utilidade desta hipótese para a compreensão dos distúrbios afásicos, veremos que o que ocorre é exatamente o oposto do que pode ser previsto pela suposição das lacunas funcionais. Se a aprendizagem ocorresse da forma como a considerava Meynert, deveria ser possível, no caso de uma lesão na área da linguagem, que a língua materna fosse prejudicada e uma língua adquirida posteriormente permanecesse intacta, pois cada uma delas estaria armazenada em uma área diferente. Mas Freud argumenta que jamais acontece que uma lesão orgânica afete a língua materna e não afete uma língua aprendida posteriormente, mas sim, sistematicamente, o contrário. Ele diz que, ao revisar o material pertinente, nota-se que dois fatores determinam o caráter do transtorno de linguagem em poliglotas - a influência da idade de aquisição da língua e a influência da prática - e que esses fatores operam sempre na mesma direção. O prejuízo da linguagem segue a ordem contrária à da aprendizagem, ou seja, as línguas posteriormente adquiridas são as primeiras a serem afetadas, a não ser que uma língua adquirida mais tarde tenha sido mais usada que a materna. Portanto, pode-se inferir que: "(...) um novo conjunto de associações pode sobrepor-se às associações já estabelecidas que intervêm na fala(...) O conjunto de associações sobrepostas é danificado antes que o primário, seja qual for a localização da lesão." (Freud, 1891, p. 104) Deste modo, a aprendizagem da linguagem não parece consistir num processo de ocupação de áreas desocupadas, mas sim, num processo de "sobre-associação", no qual todas aquisições da linguagem se dão na mesma área, sobrepondo-se umas às outras. Com isso, tornar-se-ia desnecessário supor a existência das lacunas funcionais.

A terceira hipótese recusada por Freud (1891), que terá importância para o tema que aqui nos interessa, é a de que haveria uma projeção ponto por ponto da periferia do corpo no córtex. Freud recusa duas suposições que seriam condições necessárias para a ocorrência dessa projeção ponto por ponto: primeiro, a de que o número de fibras que parte da periferia seja idêntico ao que ingressa no córtex; segundo, a de que na passagem dessas fibras pelos núcleos de matéria cinzenta não haja alteração de nenhuma espécie no material conduzido.

Contra a primeira dessas suposições, é mencionada uma constatação de Henle, segundo a qual o número de fibras que conecta a periferia do sistema nervoso à medula é maior que o número de fibras que conecta esta última ao córtex. Portanto, de acordo com as características anatômicas do sistema nervoso, só entre a periferia e a medula seria possível haver uma projeção ponto por ponto dos estímulos. Devido a essa redução do número de fibras na passagem pela medula, uma unidade sensorial que alcançasse o córtex deveria corresponder a várias das unidades sensoriais que partissem da periferia. Sendo assim, haveria, forçosamente, uma reorganização da informação sensorial ao longo de sua condução ao córtex. A partir disso, Freud propõe que a relação entre a periferia do sistema nervoso e a medula pode ser chamada de "projetiva", como queria Meynert, mas a relação entre esta e o córtex deve ser chamada de "representativa":

(...) uma unidade de substância cinzenta que pertence a um nível superior não pode corresponder a uma unidade periférica, mas tem que estar relacionada com várias de tais unidades. Isto também vale para o córtex cerebral e é, portanto, adequado empregar termos diferentes para esses dois tipos de representação no sistema nervoso central. Se chamamos projeção ao modo como a periferia está refletida na medula espinhal, sua contraparte no córtex cerebral poderia convenientemente ser chamada uma representação (Repräsentation), o que implica que a periferia do corpo não está contida ponto por ponto no córtex cerebral e sim por fibras selecionadas com uma diferenciação menos detalhada (Freud, 1891, p. 92).

Contra a segunda condição necessária para a projeção ponto por ponto dos estímulos - ou seja, contra a hipótese de Meynert de que as fibras retenham sua identidade mesmo após atravessarem vários núcleos de matéria cinzenta - Freud (1891) argumenta que as várias fibras provenientes de diferentes partes do sistema nervoso se conectam nesses núcleos e que a cada fibra aferente correspondem várias fibras eferentes, em um mesmo núcleo. Dessa forma, não é possível que a informação aferente seja exatamente igual à eferente: no caminho da medula ao córtex, o material sensorial seria sucessivamente reordenado de acordo com os princípios funcionais do sistema nervoso, portanto a informação que chegasse ao córtex cerebral possuiria uma relação muito indireta com aquela que ingressou na periferia do sistema nervoso:

(...) os feixes de fibras, que chegam ao córtex cerebral depois de haver passado por outras massas cinzentas, mantêm alguma relação com a periferia do corpo, porém já não refletem uma imagem topograficamente exata dela. Contêm a periferia do corpo da mesma maneira que - para tomar um exemplo do tema que nos interessa aqui - um poema contém o alfabeto, isto é, uma disposição completamente diferente que está a serviço de outros propósitos, com múltiplas associações dos elementos individuais nas quais alguns podem estar representados várias vezes e outros estar totalmente ausentes" (Freud, 1891, p. 95).

Das idéias desenvolvidas por Freud a partir da crítica a essas três hipóteses de Meynert e Wernicke que acabamos de comentar, emerge uma nova concepção de representação: esta passa a ser pensada como o correlato de um processo cortical associativo, o qual consistiria na última etapa do processo de reorganização da informação sensorial que incide sobre a periferia do sistema nervoso. No percurso da medula ao córtex, a informação sensorial sofreria uma série de reorganizações de acordo com princípios funcionais do sistema nervoso e, no córtex, ela seria envolvida em um processo associativo que faria um último rearranjo no material sensorial. Assim, os estímulos que chegassem ao córtex - isto é, o material constituinte dos correlatos das representações - possuiriam uma relação muito indireta com os estímulos periféricos, e os processos associativos corticais em que esses estímulos se envolvessem ao ingressar no córtex tornariam essa relação ainda mais indireta. Assim, os correlatos das representações consistiriam no estágio final de um processo de reordenação da informação periférica e, sendo assim, as nossas representações corresponderiam apenas ao ápice desse processo, de forma que nós desconheceríamos todas as suas determinações. Em vez de cópias dos estímulos que chegassem à periferia do sistema nervoso, os correlatos da representação, de acordo com a teoria formulada por Freud em 1891, consistiriam em construções do sistema nervoso feitas a partir do material sensorial oriundo do mundo externo. Dado que a representação corresponderia ao ápice de um processo cujos estados anteriores - isto é, cujas etapas de construção - nos seriam totalmente inacessíveis, nosso acesso ao mundo externo seria indireto e ocorreria através de uma série de mediações.

A hipótese defendida por Freud (1891) de que no trajeto da medula ao córtex o material sensorial seria reordenado não diz respeito apenas à informação sensorial pertinente à linguagem, mas também à condução dos estímulos sensoriais em geral. Da mesma forma, quando Freud sustenta que uma idéia simples do ponto de vista psíquico sempre corresponde a um complexo do ponto de vista neurológico, ele também não se refere apenas às representações da linguagem, mas a todas as representações. Apenas a idéia de sobre-associação permanece, nesse momento, restrita à linguagem: em oposição à concepção de Meynert, Freud defende que a aprendizagem consiste num processo de sobreassociação, ou seja, que todas as aquisições da linguagem se dão em uma mesma área, sobrepondo-se umas às outras. Haveria, portanto, vários níveis de processos, os quais corresponderiam a etapas sucessivas do desenvolvimento do indivíduo. Essa noção de sobre-associação, que em 1891 mantém-se restrita à linguagem, será, de certa forma, estendida para os outros tipos de representação nos textos freudianos seguintes.

Apesar desse conceito alternativo de representação, que resulta da crítica freudiana ao localizacionismo, ainda é mantida, nesse momento da teoria freudiana, a identificação entre psíquico e o consciente: Freud adota, em 1891, a "doutrina da concomitância", de Hughlings Jackson, que pressupõe essa identidade. Todo psíquico -portanto, toda representação - seria consciente e consistiria num fenômeno concomitante a uma parte dos processos nervosos. De acordo com a doutrina da concomitância de Jackson (1884/1958), os processos nervosos e os psíquicos se dariam em paralelo, sem que houvesse interferência de um sobre o outro; todo estado mental teria um estado nervoso correlativo, embora o oposto não fosse verdadeiro. Essa identificação entre o mental e o consciente, assim como a hipótese de que todo o psíquico seria um fenômeno concomitante ao fisiológico é, contudo, logo abandonada por Freud: em 1895, no "Projeto de uma psicologia" (Freud, 1950/1987), ele deixa claramente de lado essas duas hipóteses. A partir daí, a representação passa a ser pensada como um fato de memória totalmente independente da consciência. Apesar dessas mudanças, as hipóteses formuladas em 1891 sobre o processo nervoso que estaria na base da representação, continuam como pressupostos fundamentais da teoria.

 

O CONCEITO DE REPRESENTAÇÃO NO "PROJETO DE UMA PSICOLOGIA"

No "Projeto de uma psicologia" (1950/1987), então, Freud desvincula os conceitos de "psíquico" e de "consciência". A consciência deixa de ser considerada como uma característica de todo o psíquico e se redefine como uma qualidade que pode se acrescentar a apenas uma parte deste sob determinadas condições (Simanke & Caropreso, 2005). Os processos psíquicos, segundo o que é proposto nesse texto, seriam, em primeiro lugar, inconscientes e, e em grande parte, apenas inconscientes, dado que uma parte deles poderia nunca chegar a se tornar consciente. As seguintes palavras de Freud ilustram bem essa independência do mental em relação ao consciente:

Temos tratado os processos psíquicos como algo que possa prescindir do conhecimento dado pela consciência, existindo independentemente de tal consciência (...) Se não nos deixarmos desconcertar por tal fato, segue-se desse pressuposto que a consciência não proporciona nem conhecimento completo, nem seguro, dos processos neuronais; cabe considerá-los em primeiro lugar e em toda a extensão como inconscientes e cabe inferi-los como as outras coisas naturais" (Freud, 1950/1987, p. 400).

Para incorporar em sua teoria o conceito de psíquico inconsciente, Freud (1950/1987) tem que descartar a doutrina da concomitância, que havia sido sustentada em 1891. O psíquico deixa de ser pensado como um fenômeno que ocorreria paralelamente a uma parte dos processos cerebrais e é, ao menos em parte, identificado a esses mesmos processos. Os processos psíquicos que corresponderiam à memória - o que Freud chama aí de sistema psi - seriam processos corticais. Já a consciência não poderia ser identificada a processos cerebrais. Ela é definida como consistente no "lado subjetivo" dos processos que ocorreriam em um sistema de neurônios chamado de sistema ômega, o qual estaria diretamente ligado ao sistema de memória psi. A representação identifica-se com os processos associativos que se dão no sistema psi e que, apenas diante de certas condições, produzem qualidades sensoriais e se tornam conscientes, sendo desde então concebida como um fato de memória anterior e independente da consciência. As características do processo cortical associativo que corresponderia à representação são especificadas no "Projeto..." a partir das noções de "quantidade", "neurônio", "facilitação", "resistência" e "barreira de contato".

A "quantidade" é definida como algo que diferencia a atividade do repouso e que está submetido à lei geral do movimento. A natureza dessa quantidade não é, contudo, especificada. Strachey (1998/1955) comenta que, embora no artigo "As neuropsicoses de defesa" Freud (1894) tenha feito uma vaga comparação entre a "soma de excitação" - conceito que seria precursor do de quantidade - e "uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo" e nos "Estudos sobre a histeria" (Freud, 1895) tenha feito uma analogia entre a quota de afeto e certa medida de excitação elétrica nas vias condutoras do encéfalo, não há nenhuma palavra no "Projeto..." que possa ser interpretada no sentido de que Freud entendesse a quantidade estritamente dessa forma. Pribram e Gill (1976), ao contrário, argumentam que Freud identificou a quantidade de excitação neural com suas manifestações elétricas, porque a propriedade básica do movimento neuronal é, na verdade, neuroquímica; mas, em 1895, a neuroquímica da hiperpolarização e a da despolarização da membrana, que dão origem a um impulso nervoso propagado, estavam ainda em sua infância. Destarte a natureza neuroquímica da quantidade não poderia ser descrita, mas apenas a sua manifestação como atividade elétrica.

Os neurônios são concebidos como as unidades materiais e funcionais do sistema nervoso. Segundo Freud, eles seriam, por hipótese, estruturalmente idênticos, anatomicamente independentes uns dos outros e entrariam em contato entre si por mediação de tecido não neuronal. Em 1891, W. Waldeyer havia concluído que o neurônio era a unidade fundamental do sistema nervoso, e Freud provavelmente se baseou nessa descoberta, pois ele afirma que seu objetivo é combinar sua teoria da quantidade com o conhecimento sobre os neurônios fornecido pela histologia recente. Com a hipótese do neurônio, Freud pôde especificar as características da área cortical homogênea exclusivamente associativa que, como havia sido proposto em "Sobre a concepção das afasias", constituiria a área da linguagem. Esta seria composta por neurônios estruturalmente idênticos, portanto entre tais neurônios é que ocorreriam as associações que estabeleceriam diferenciações funcionais nessa área. No "Projeto...", no entanto, essa hipótese da homogeneidade estrutural cortical é expandida, pois passa a se referir à totalidade do sistema nervoso. Uma parte de um dos sistemas do aparelho neuronal - o sistema de memória psi - seria composta pelas associações lingüísticas. Dessa forma, a área da linguagem mencionada por Freud em sua monografia sobre as afasias corresponderia a uma parte de um dos sistemas que integram o aparelho neuronal formulado no Projeto... .

Entre os neurônios haveria "barreiras de contato", as quais ofereceriam certa "resistência" à passagem da quantidade de um neurônio para outro, tendo como conseqüência que apenas a quantidade cuja intensidade fosse superior à da resistência das barreiras conseguiria passar de um neurônio para outro. Quando isso ocorresse, a barreira de contato seria "facilitada" e, então, em uma segunda ocupação dos neurônios correspondentes, a resistência encontrada seria menor. Dessa forma, a facilitação diferenciada das barreiras de contato faria com que se constituíssem caminhos preferenciais no aparelho, os quais possibilitariam a memória. Apenas no sistema de memória psi, as barreiras de contato seriam capazes de oferecer resistência à passagem da excitação. No sistema responsável pela recepção da excitação sensorial, que é chamado de "sistema phi", as barreiras estariam totalmente facilitadas, não exercendo, assim, nenhuma função: esse sistema seria totalmente permeável à quantidade. Já em psi - que receberia quantidade exógena via phi - as ocupações seriam menos intensas, uma vez que a estrutura ramificada de phi faria com que a corrente excitatória se distribuísse por diversos caminhos, incidindo sobre psi em vários pontos. A quantidade que alcançasse o sistema de memória psi por esse caminho possuiria intensidade inferior à da resistência das barreiras de contato e, por isso, para conseguir passagem, uma mesma barreira teria que ser ocupada a partir de dois ou mais neurônios simultaneamente, o que faria com que se constituíssem aí caminhos diferenciados. Um grupo de neurônios ocupados cujas barreiras de contato estivessem facilitadas entre si constituiria uma representação. A circulação da quantidade seria um processo constituinte da representação e, por isso, esta seria indissociável de um componente energético. A representação surgiria quando o caminho facilitado estivesse ocupado e, na ausência da ocupação, ela continuaria existindo enquanto possibilidade, dado que as facilitações permaneceriam.

A representação, então, não é mais pensada como o concomitante psíquico de um processo cortical associativo, e se redefine como o próprio processo associativo cortical. As características atribuídas em 1891 ao substrato neural da representação são atribuídas, em 1895, à própria representação. A hipótese de 1891 de que os estímulos que incidissem sobre a periferia do sistema nervoso passariam por sucessivos rearranjos, de forma que aquela informação que chegasse ao córtex possuísse uma relação bastante indireta com a que chegou à periferia do sistema nervoso, parece ser preservada no "Projeto de uma psicologia", com a hipótese de que o sistema phi, responsável pela recepção da estimulação sensorial, possuiria uma estrutura ramificada. Portanto, a representação, em 1891, continua sendo concebida como a última etapa de um processo de reorganização dos estímulos provenientes do mundo externo. Na carta a Fliess de 6 de dezembro de 1896 (Carta 52), Freud (1950/1998) estende essa hipótese da reordenação da informação sensorial no caminho da medula ao córtex à própria organização interna da memória e, então, esta passa a ser pensada como possuindo vários registros. Haveria, no sistema de memória, vários níveis de processos associativos, os quais seriam regidos por princípios associativos diferentes. A memória torna-se, com isso, uma função bastante mais complexa.

 

A COMPLEXIFICAÇÃO DA MEMÓRIA NA CARTA 52

Na Carta 52, Freud (1950/1998) propõe que o mecanismo psíquico se forma por um processo de estratificação sucessiva, isto é, que os traços mnêmicos são sujeitos, de tempos em tempos, a sucessivas reordenações, de acordo com novos nexos. Essas "retranscrições" dariam origem a diferenciações internas ao sistema de memória, as quais representariam as formas de operação psíquica de épocas sucessivas da vida. Na passagem de uma época para outra ocorreria uma "tradução" do material mnêmico. Essa hipótese da retranscrição dos traços mnêmicos, como diz Freud, é o que haveria de novo em sua teoria:

O essencialmente novo em minha teoria é, então, a tese de que a memória não persiste de maneira simples, mas múltipla, está registrada em diversas variedades de signos. Em outro momento (afasia), afirmei um reordenamento semelhante para as vias que alcançam desde a periferia [do corpo o córtex cerebral]" (Freud, 1950/1998, p. 274).

Em "Sobre a concepção das afasias", como vimos, Freud (1891) havia sustentado, provavelmente baseando-se nas hipóteses de Hughlings Jackson, que a informação sensorial que alcançasse a medula seria sucessivamente reordenada de acordo com princípios funcionais do sistema nervoso, ao longo do seu percurso em direção ao córtex. Ele propõe agora a ocorrência de um processo semelhante no nível cortical, isto é, na constituição dos traços mnêmicos, sendo que esse processo de reorganização se daria ao longo do desenvolvimento do sujeito. Tendo-se em vista o "Projeto...", pode-se dizer que Freud acrescenta diferenciações no manto de psi, as quais conteriam diversos reordenamentos dos mesmos traços mnêmicos - ou seja, das mesmas representações - e seriam governadas por princípios associativos distintos. Como essas várias transcrições seriam aquisições psíquicas de fases sucessivas da vida, o sistema de memória iria se complexificando ao longo do desenvolvimento do sujeito, à medida que as representações fossem sendo retranscritas. Segundo Freud, haveria no mínimo três níveis de transcrições no sistema de memória, os quais são representados no esquema como "Ps" (signos de percepção), "Ic" (inconsciência) e "Prc" (pré-consciência).

A hipótese dos neurônios como elementos componentes do sistema de memória é mantida na Carta 521, o que sugere que a memória é concebida aí de forma semelhante ao "Projeto de uma psicologia". Como, de acordo com o que havia sido proposto nesse último texto, as associações - tanto entre os neurônios que constituem a representação como entre as representações - corresponderiam a facilitações nas barreiras de contato entre os neurônios, pode-se supor que as diferentes transcrições, de que Freud (1950/1998) fala na Carta 52, se constituiriam a partir do estabelecimento de novas facilitações entre as representações. Essa hipótese, de certa forma, nos remete à noção de "sobre-associação" formulada em "Sobre a concepção das afasias". Nesse texto, Freud (1891) havia proposto que a aquisição da linguagem consistiria num processo de sobre-associação, isto é, que as novas associações se sobreporiam às anteriores, e assim se constituiriam vários níveis de processos associativos, que representariam etapas sucessivas do desenvolvimento da linguagem no sujeito. Essa hipótese, como vimos, é proposta em substituição à idéia de que a aprendizagem da linguagem se daria por um processo de expansão topográfica, de forma que cada correlato de representação possuiria uma localização distinta. Embora não seja retomada explicitamente no "Projeto de uma psicologia", não há nenhum motivo para supormos que Freud (1950/1987) tenha abandonado aí a hipótese da sobre-associação, uma vez que ele continua pensando a representação como um processo com as mesmas características daquele descrito em 1891. De qualquer forma, fica claro que essa noção ganha destaque na Carta 52 e é complementada pela suposição de que, nos diferentes níveis, os princípios que regem os processos associativos são alterados.

No sistema psi do "Projeto de uma psicologia", toda facilitação seria determinada pela simultaneidade da incidência da quantidade nos neurônios, portanto a constituição das representações, assim como a associação entre representações, dar-se-ia de acordo com relações de simultaneidade. Na Carta 52, Freud (1950/1998) sustenta haver associações que ocorrem de acordo com outros tipos de relação, como a causalidade - que seria o princípio associativo que governaria o sistema Ic - e que a simultaneidade seria o princípio ativo apenas no primeiro sistema de memória. O nível mais elevado de organização das representações - o Prcc - seria aquele em que as associações lingüísticas estariam presentes. Nesse nível, o pensamento poderia se tornar consciente mediante a "ativação alucinatória" das associações lingüísticas; mais precisamente, dos restos mnêmicos das imagens acústicas das palavras. Freud retoma a idéia, já apresentada no "Projeto de uma psicologia", de que seriam as associações que constituem a palavra que possibilitariam a consciência do pensamento, a qual é chamada, na "Carta 52", de "consciência secundária". Essa hipótese de que as retranscrições são constituídas por novas facilitações entre os neurônios parece estar de acordo com a suposição feita por Freud de que, com as novas transcrições, as anteriores persistem e apenas o seu processo excitatório é inibido. Ele afirma: "Cada retranscrição posterior inibe a anterior e desvia dela o processo excitatório" (Freud, 1950/1998, p. 276). Sendo assim, com os novos registros, a excitação passaria a percorrer o caminho aberto pelas novas facilitações, de modo que o processo representacional ativo seria aquele que segue as vias estabelecidas por último, mas as facilitações anteriores permaneceriam podendo ser reativadas a qualquer momento. Dessa forma, os processos anteriores sempre permaneceriam enquanto possibilidades.

Esse processo de retranscrição ou de tradução dos traços mnêmicos poderia não ocorrer em relação a uma parte do material representacional, com a finalidade de evitar o desprazer que seria gerado por tal tradução. Isso é o que Freud (1950/1998) chama na Carta 52 de "repressão". As representações reprimidas seriam aquelas que não foram traduzidas - logo ficaram de fora das transcrições posteriores, ou seja, ficaram excluídas dos processos associativos dominantes - devido ao desprazer que seria produzido.2 Nesse caso, diz Freud que "a excitação é tramitada de acordo com as leis psicológicas vigentes no período psíquico precedente e pelos caminhos de que então dispunha" (Freud, 1950/1998, p. 276). Essa afirmação de que, no caso da representação não traduzida, a excitação continua percorrendo as vias anteriormente estabelecidas, parece apoiar a hipótese de que Freud não abandonou as idéias de facilitação e barreira de contato do "Projeto...". Se isso for correto, poderíamos pensar que, na repressão, como não se constituem novas vias associativas, novas facilitações, a excitação ficaria limitada a tramitar pelas vias anteriormente estabelecidas. Como conseqüência dessa ausência de tradução, as representações não chegariam a ter acesso às representações-palavra, permanecendo impossível elas se tornarem conscientes pela via normal do pensamento.

Com a suposição da estratificação da memória na Carta 52, torna-se ainda mais complexa a relação entre a representação e os estímulos provenientes do mundo externo que incidem sobre a periferia do sistema nervoso: cada conteúdo perceptivo só se tornaria consciente após percorrer todos os sistemas de memória. Na Carta 52, Freud (1950/1998) situa a instância responsável pela recepção dos estímulos sensoriais - o sistema de percepção P - e aquela responsável pela consciência em pólos opostos do esquema. Entre eles, situar-se-iam os sistemas de memória. A excitação sensorial que chegasse à P só se tornaria consciente após percorrer todos os sistemas de memória, isto é, após passar por sucessivas elaborações. Assim, aquilo que se tornaria consciente seria a última etapa de um longo processo de reorganização da informação sensorial proveniente do mundo externo, portanto seria algo que representaria os estímulos externos muito indiretamente. Como as representações seriam retranscritas de acordo com novos princípios associativos ao longo do desenvolvimento do sujeito, nossas recordações conscientes cada vez se tornariam mais distantes daquelas vivenciadas originariamente. Assim, na Carta 52, a relação entre a recordação e a experiência originariamente vivenciada, assim como a relação entre a percepção consciente e os estímulos que chegam à periferia nervosa, torna-se cada vez mais mediada por etapas intermediárias.

 

CONCLUSÃO

Em "Sobre a concepção das afasias" (Freud, 1891), como vimos, a representação é pensada por Freud como correspondendo a um processo cortical associativo que consistiria na última etapa de uma série de reordenações sucessivas dos estímulos recebidos pela periferia nervosa. Em 1891, Freud mantém ainda a restrição do psíquico ao consciente, portanto toda a representação seria necessariamente consciente. No "Projeto de uma psicologia" Freud (1950/1987) identifica a representação com o processo cortical associativo que, em 1891, havia sido pensado como consistindo apenas no correlato fisiológico da representação, e com isso desvincula as noções de psíquico e de consciência. A representação passa, então, a ser concebida como um fato de memória independente e anterior à consciência, que poderia ou não vir a se acrescentar a somente uma parte das nossas representações. Com os conceitos de "neurônio", "quantidade", "facilitação" e "barreira de contato", Freud esclarece, em 1895, quais seriam as características dos processos associativos representacionais. Embora Freud não seja tão explícito a esse respeito, procuramos mostrar que há indícios de que ele continua concebendo a representação da mesma maneira na Carta 52. Contudo, nessa carta, Freud (1950/1998) introduz a hipótese da estratificação da memória, estendendo, assim, a hipótese formulada em 1891 sobre a reorganização sucessiva dos estímulos sensoriais no caminho da medula ao córtex aos próprios processos corticais, que corresponderiam funcionalmente aos sistemas de memória. Esta conteria vários níveis de registro, isto é, as representações seriam reordenadas de tempos em tempos, de acordo com novos princípios associativos.

Vemos, destarte, que a relação entre a representação e os estímulos que incidem sobre a periferia do sistema nervoso vai-se tornando, ao longo da teorização inicial de Freud, cada vez mais indireta. Em sua primeira elaboração da noção de representação, em "Sobre a concepção das afasias", Freud (1891) já sustenta que esta corresponde à última etapa de um processo de reordenação da informação sensorial proveniente do mundo externo. Essa reordenação ocorreria, primeiramente, ao longo do processo de condução da excitação sensorial da medula ao córtex e, em seguida, no processo associativo que seria o correlato fisiológico da representação. Essas idéias parecem implicar que nós não teríamos acesso aos objetos externos tal como estes são em si mesmos; nossas representações seriam construções do sistema nervoso, tendo como matéria-prima o conteúdo sensorial proveniente do mundo externo. Com a estratificação da memória na Carta 52, essa relação entre os estímulos externos e a representação torna-se ainda mais indireta, pois toda excitação que chegasse ao sistema de percepção só se tornaria consciente após percorrer todos os sistemas de memória e ser sucessivamente reorganizada. Uma vez constituídas, as representações seriam rearranjadas, de tempos em tempos, de acordo com novos princípios associativos. Então, além da reorganização da informação sensorial que ocorreria no processo de constituição das representações, estas continuariam sendo reordenadas ao longo do desenvolvimento do sujeito, de forma que nossas recordações cada vez se tornariam mais distantes das vivências originais a que elas supostamente remeteriam.

Como dissemos, essa teoria desenvolvida por Freud até a Carta 52 sobre a relação entre a representação e os estímulos sensoriais representados já apresenta os elementos essenciais das hipóteses que são formuladas no capítulo 7 de "A interpretação dos sonhos" (Freud, 1900/1982) e que irão caracterizar a primeira tópica psíquica. A partir de "Além do princípio do prazer" Freud introduzirá algumas modificações na forma como é pensada a relação entre a percepção e a consciência, mas em nenhum momento ele abandonará a hipótese de que os estímulos sensoriais passam por sucessivas reordenações antes de serem representados no aparelho psíquico.

 

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Endereço para correspondência:
Fátima Caropreso
Caixa Postal 14
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E-mail: fatimacaropreso@uol.com.br

Recebido em 27/11/2006
Aceito em 16/01/2007

 

 

1 Freud (1950/1998) afirma que as diversas transcrições estão separadas também segundo seus portadores "neuronais". Adiante, ele diz que P são "neurônios" nos quais se produzem as percepções (p. 274).
2 Desde o "Projeto de uma psicologia", Freud (1950/1987) concebe o funcionamento psíquico como sendo governado por uma tendência a evitar o aumento do nível de excitação no aparelho, ou seja, por uma tendência a evitar o desprazer.

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