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Psicologia em Estudo

versão impressa ISSN 1413-7372

Psicol. estud. vol.19 no.1 Maringá jan./mar. 2014

https://doi.org/10.1590/1413-7372189590006 

ARTIGOS

 

Entidades filantrópicas e religiosidade na compreensão da errância no contemporâneo1

 

Philanthropic entities and religiosity on contemporary wandering comprehension

 

Entidades filantrópicas y religiosidad en la comprensión del errante en el contemporáneo

 

 

Eurípedes Costa do NascimentoI; José Sterza JustoII

IDoutor em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis-SP
IIDoutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor assistente da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis-SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A errância no contemporâneo se configura como um fenômeno complexo na cultura brasileira, em que os andarilhos de estrada podem ser tomados como um de seus exemplos mais radicais, por percorrerem longas distâncias a pé pelas rodovias do país com um saco às costas onde carregam todos os seus pertences. Baseado nos estudos de Foucault sobre o poder pastoral, este artigo teve por finalidade revelar os discursos e as práticas religiosas relativos aos andarilhos de estrada em albergues mantidos por duas entidades filantrópicas no Estado de São Paulo a partir dos relatos de seus dirigentes. Os resultados indicaram que, do ponto de vista religioso, a errância dos andarilhos está relacionada a uma determinação divina que, associada à prática de pregação do evangelho, tem por finalidade conformar os indivíduos à própria condição de vida, além de mantê-los fixados na deambulação constante pelas rodovias do país. Repensar essas práticas filantrópicas e caritativas pode favorecer a promoção de novos conhecimentos no cotidiano dos serviços de assistência a andarilhos e a produção de outros sentidos para esse modo de subjetivação das condições de mobilidade presentes no mundo atual.

Palavras-chave: Análise institucional; religiosidade; ajuda.


ABSTRACT

The wandering on the contemporary is a complex phenomenon in Brazilian culture in which the highway wanderers constitute one of its most radical examples by walking long-distances on foot and carrying on backs a sack with their belongings. Based on Foucault's studies about the pastoral power, this paper aimed to reveal the speeches and religious practices related to the wandering of Brazilian highway wanderers in housings maintained by two philanthropic entities in São Paulo State, Brazil, starting from managers’ reports. Under point of religious view, the results indicated that wandering of highway wanderers is related to an unquestionable divine determination that related to the gospel preaching try to conform these individuals to the own life condition, beyond maintain them fixed in endless wandering on the Brazilian highways. Rethinking those philanthropic practices and charitable can favor the promotion of new knowledge in the daily of these attendance services to highway wanderers and the production of other senses for this subjectivation way of the present mobility conditions in the current world.

Key words: Institutional analysis; religiosity; assistance.


RESUMEN

El errante en el contemporáneo se configura como un fenómeno complejo en la cultura brasileña en el cual los andarines de carretera pueden ser tomados como uno de sus ejemplos más radicales por recorrer largas distancias a pie por las rutas del país, llevando una bolsa a la espalda donde cargan todas sus pertenencias. Basado en los estudios de Foucault sobre el poder pastoral, este artículo tuvo por finalidad revelar los discursos y las prácticas religiosas dirigidos para los andarines de carretera en albergues mantenidos por dos entidades filantrópicas en el Estado de São Paulo a partir de los relatos de sus dirigentes. Los resultados indicaron que, del punto de vista religioso, el errante de los andarines está relacionado con una determinación divina que asociada a la práctica de predicación del evangelio tiene por finalidad conformar a los individuos a la propia condición de vida, además de mantenerlos fijados en un deambular constante por las rutas del país. Repensar estas prácticas filantrópicas y caritativas puede favorecer la promoción de nuevos conocimientos en el cotidiano de los servicios de asistencia a andarines y la producción de otros significados para este modo de subjetivación de las condiciones de movilidad presentes en el mundo actual.

Palabras-clave: Análisis institucional; religiosidad; ayuda.


 

 

Atualmente, a flexibilidade, a pluralidade, a constrição do espaço-tempo, a realidade virtual e a aceleração da vida povoam sobejamente o cotidiano dos indivíduos (Harvey, 1992). O ser humano parece viver hoje uma condição de desenraizamento sem precedentes, que o torna também um indivíduo circulante, em constante movimentação em todos os planos da vida, seja no espaço sociogeográfico seja no âmbito psicológico. Conforme acentua Virilio (1996, 1993), o mundo atual é dromológico, ou seja, é presidido pela velocidade, pela corrida, pela transumância, fazendo emergir um sujeito que não mais se institui pela objetividade ou subjetividade, mas sim, pela trajetividade.

Na contemporaneidade os andarilhos de estrada vivem de forma radical a trajetividade ou o fenômeno da errância. São indivíduos que perambulam a pé pelas rodovias do país com um saco às costas onde carregam todos os seus pertences (Justo, 2012; Nascimento, 2008; Peres, 2001, 2002). Embora compartilhem da mesma matriz deambulatório-transumante, eles se diferenciam das assim chamadas "pessoas em situação de rua", as quais circunscrevem aos espaços urbanos e neles permanecem indefinidamente por longos períodos (Silva, 2009; Rosa, 2005, Vieira, Bezerra & Rosa, 2004; Nasser, 2001; Di Flora, 1987). De modo geral, são indivíduos que não possuem visibilidade social ou qualquer espaço de cidadania, sendo relativamente ignorados tanto pelas ciências sociais e da saúde quanto pelas políticas públicas e serviços de assistência prestados por instituições de natureza filantrópica e/ou religiosa.

Os andarilhos estão muito distantes das novas constituições subjetivas que se configuram na atualidade, nas quais o indivíduo é convocado a centrar-se em si mesmo, numa mise-en-scène absolutamente narcísica, e instado a demonstrar seus atributos numa sociedade caracterizada pelo espetáculo e pela performance (Ehrenberg, 1991; Debord, 1997). Nesse cenário, parece não haver muita alternativa para aqueles que eventualmente queiram sair da estrada e reconquistar um lugar no concorrido show do eu celebrado no monumental espetáculo da sociedade atual (Sibilia, 2008). Impossibilitados de se apresentar como indivíduos autorreferentes ante as exigências de autocentramento do eu, resta aos andarilhos refugiar-se no anonimato e invisibilidade dos rincões dos acostamentos das rodovias e continuar suas jornadas erráticas pelo país, marcadas por incertezas e imprevisibilidades.

Vale destacar que estudos envolvendo andarilhos de estrada são relativamente recentes na literatura nacional e praticamente inexistentes na literatura internacional, pelo menos nas bases de dados pesquisadas (Scielo, Psychological Abstracts, Sociological Abstracts, BVS-Psi e PePSIC). Nos levantamentos realizados em idioma inglês, os artigos encontrados se referem a estudos com vagabundos (vagrants, tramps), mendigos (beggars), desviantes (desviants), forasteiros (outsiders) e os sem-teto (homeless), o que não é o caso específico dos andarilhos de estrada. As populações de mendigos, sem teto e congêneres mencionadas na literatura internacional se caracterizam por habitar as ruas e os espaços abertos das cidades sobrevivendo nelas por meio de esmolas ou de serviços públicos da assistência social.

Assim, as publicações científicas encontradas na literatura nacional relacionadas aos andarilhos se referem, na sua grande maioria, a trabalhos do nosso próprio grupo de pesquisa. São estudos que focalizam a problemática da subjetividade e a mobilidade tempo-espaço, além de fatores envolvendo a desfiliação social e o sofrimento psíquico presentes nessa forma de vida (Justo, 2012; Nascimento, 2008; Peres, 2001, 2002). Vale ressaltar que a vida do andarilho é bastante marcada e gerida pela presença dos serviços de assistência social e pelas figuras da caridade, filantropia e solidariedade, sejam elas provindas de políticas públicas de assistência social, de ações implementadas por organizações filantrópicas e religiosas ou mesmo por pessoas comuns. Na ausência de políticas públicas que tratem efetivamente o andarilho como cidadão sujeito de direitos, e não um objeto da benevolência social, florescem entidades, projetos e diversas iniciativas dispostas a colocar seus préstimos a serviço desses considerados como desvalidos ou excluídos da sociedade, entre os quais se destacam as instituições religiosas (Alves, 2009; Vieira et al., 2004).

Este artigo tomará como núcleo de análise os estudos de Michel Foucault (2008) referentes ao poder pastoral, compreendido aqui como o poder de  governar a conduta das almas, ou seja, ao trabalho de conduzir alguém no sentido propriamente espiritual, pelo fato de o assunto de nossa investigação estar relacionado diretamente com os componentes da religiosidade presentes nas instituições pesquisadas. É preciso dizer que a palavra governar assume um significado específico no poder pastoral e se refere, segundo Foucault, a uma atividade zelosa, ativa e sempre benévola relacionada a um poder de cuidado no direcionamento das almas dos indivíduos delegada a um pastor representante de Deus na condução do rebanho. Partindo dessas considerações, este artigo teve por finalidade revelar os discursos e práticas religiosas referentes aos andarilhos de estrada assistidos em albergues mantidos por entidades filantrópicas de assistência a partir dos relatos de seus dirigentes.

 

MÉTODO

Para a realização desta pesquisa utilizamos uma abordagem qualitativa, por entendermos que esse é um dos caminhos viáveis para a compreensão da maneira como os indivíduos, historicamente constituídos, apreendem a realidade e se posicionam em relação a ela, produzindo sentido (Richardson, 2010). A título de esclarecimento, cumpre destacar que a pesquisa original incluiu quatro albergues de instituições assistenciais de diferentes cidades do Estado de São Paulo (duas públicas e duas filantrópicas) previamente selecionadas; porém tomaremos apenas as duas instituições religiosas, uma vez que o objetivo desse artigo está vinculado aos aspectos de religiosidade presentes nas atividades cotidianas dessas mesmas instituições. Levando-se em consideração esse critério, foram selecionados um albergue vinculado a uma instituição católica, localizado na cidade de São Paulo, e um vinculado a uma instituição espírita de orientação kardecista situada na cidade de Bauru.

Essa pesquisa contou com a colaboração de três participantes, a saber, dois dirigentes responsáveis diretos pela administração desses estabelecimentos e uma funcionária com formação em serviço social. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um roteiro de entrevista semiestruturado, por permitir que o pesquisador explore os conteúdos elaborados pelo entrevistado, ampliando e decodificando as informações emitidas durante o processo interativo da comunicação, e por ser um dos principais instrumentos utilizados em pesquisas qualitativas (Richardson 2010). As entrevistas foram realizadas pelo próprio pesquisador com os dirigentes dessas instituições assistenciais, os quais aceitaram participar espontaneamente da pesquisa, após a aprovação formal do Comitê de Ética em Pesquisa (Processo nº 36/2009).

Os relatos colhidos nas entrevistas foram sistematizados através da técnica de análise de conteúdo desenvolvida por Bardin (2011). Essa escolha se justifica pelo fato de essa técnica considerar os aspectos semânticos mais relevantes (os núcleos de sentido) presentes nos enunciados emitidos pelos entrevistados, além de fornecer uma sistematização satisfatória para a compreensão do fenômeno a ser investigado. Tal técnica de análise consiste, resumidamente, nas seguintes etapas: transcrição integral das entrevistas gravadas; leituras e releituras flutuantes do corpus (pré-análise); análise temática e apresentação do conteúdo em categorias e subcategorias.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Numa abordagem qualitativa existem várias maneiras de se apresentar a análise das categorias e subcategorias após a utilização da técnica de análise do conteúdo. Assim, dependendo do estilo assumido pelos autores, as subcategorias podem ser analisadas e discutidas isolada ou conjuntamente no término da apresentação de todos os relatos referentes à mesma categoria. Neste caso, optamos por fazer uma discussão de cada subcategoria após a apresentação dos relatos referentes ao mesmo tema. Como se trata de relatos colhidos em entrevistas, utilizaremos pseudônimos para nos referirmos aos participantes, com o objetivo de manter o sigilo e o anonimato das informações.

Entidades filantrópicas e religiosidade

A lógica paradigmática e caritativa pautada na moral do cristianismo, presente nas entidades assistenciais de orientação católica e espírita, parece influenciar a compreensão dos dois dirigentes e de uma profissional do serviço social acerca dos andarilhos de estrada. Em linhas gerais, os três entrevistados se posicionam de modo determinista e linear ao explicarem que os sofrimentos e as agruras da vida pelas quais passam esses indivíduos estão atrelados aos desígnios divinos, necessários e fundamentais para a própria evolução espiritual, quando bem suportados. Alegam que não se pode fazer muito por eles, porque a errância faz parte das vivências que lhes cabem na vida, nas quais ninguém tem o direito de intervir, visto que dizem respeito ao livre-arbítrio de cada um. No entanto, o entendimento comum de que a errância dos andarilhos está inscrita na missão de cada um na Terra, atribuída por uma entidade ou força divina, ainda que passível de comportar graus de arbítrio pessoal na escolha dos modos de cumprir a missão, recebe algumas nuanças específicas e comporta diferentes práticas de atenção, dependendo da religião, como se pode observar numa análise mais minuciosa das falas dos entrevistados. Tais nuanças discursivas e especificidades de práticas serão detalhadas a seguir, por meio de quatro subcategorias: 1- Visão religiosa espírita; 2- Visão religiosa católica; 3- Procedimentos religiosos católicos; e 4- Procedimentos religiosos espíritas.

1-Visão religiosa espírita

Na visão espírita, uma das explicações apontadas para a errância dos andarilhos está relacionada com a crença na reencarnação, segundo a qual o indivíduo, pelo mau uso que fez de seu livre-arbítrio em vidas passadas, retorna às experiências do corpo físico para saldar as dívidas contraídas perante a justiça divina, e sendo assim, seu destino está predeterminado por essa força superior inquestionável, conforme se observa nos seguintes relatos:

Após a crucificação de Cristo, os apóstolos criaram a "Casa do Caminho", cuja proposta, como o próprio nome diz, é casa de caminho, ou seja, casa de passagem... Aqui é uma casa de Deus, essa é a proposta. Se isso puder mudar alguma coisa na postura dele [andarilho], foi um ganho. Agora, do ponto de vista espírita, muitos casos de misérias e sofrimentos podem estar relacionados com equívocos contraídos em vidas passadas, ou seja, a pessoa pode ter tido uma vida abastada, abusado demais do poder, da inteligência, ter discriminado os outros, então retorna às experiências no corpo físico para resgatar essas dívidas contraídas com Deus, passando pelas experiências da humilhação e do sofrimento impostos a outros em existências pregressas.... Então, o espiritismo acredita na pluralidade das existências, onde somos os arquitetos de nosso próprio destino, governados por leis divinas imponderáveis - como a lei de ação e reação, que nos explica que a cada ação boa ou ruim que a pessoa faz retorna para ela uma reação equivalente com a mesma intensidade (dirigente espírita).

Olha, eu sou espírita, mas não praticante. Depois de tantos anos trabalhando aqui eu aprendi a gostar e admirar essa doutrina espírita. Então, eu tento praticar aquilo dentro do pouco do meu conhecimento. Então, eu acho que isso acaba influenciando o meu trabalho com eles. A gente aprende a ser mais atenciosa e passa a perceber que o mistério da vida é muito grande. Eu vejo assim: é o carma [destino] deles. São situações que eles têm que passar, coisas que eles têm que vivenciar como uma expiação de vida passada. É o que eu posso te dizer dentro do pouco conhecimento que tenho da doutrina espírita (funcionária espírita).

2-Visão religiosa católica

Segundo a visão católica, a explicação está relacionada a questões sociais como as desigualdades e a má distribuição de renda, em que a busca por Deus pode aliviar os sofrimentos e ajudar os sujeitos a terem esperanças numa vida futura, se esses sofrimentos forem suportados com coragem e fé e com resignação aos desígnios divinos. Exemplo:

Aqui, compreendemos que todos são filhos de Deus e os contrastes sociais que existem é resultado da má distribuição de renda. Então, a miséria precisa ser enfrentada para construirmos um mundo melhor... Então, a religião pode, sim, nos ajudar a enxergar a realidade com mais humanidade e os andarilhos é resultado dessas desigualdades sociais e da má distribuição de renda. A nossa proposta de trabalho é baseada nos ensinamentos de Cristo quando nos disse: "Não faças para o outro aquilo que não queiras que o outro te faça".... Por isso, a religião tem um papel importante na nossa forma de entender o ser humano... Eu acho que quem tem religião passa pelos obstáculos mais fáceis, ele aceita mais os sofrimentos... Então, ele acredita que tem alguma coisa lá na frente, na vida espiritual, que vai recompensar aquele sofrimento todo. Então, temos que respeitar o livre-arbítrio da pessoa e ampará-la dentro de nossas convicções (dirigente católica).

A visão religiosa, presente em ambas as entidades filantrópicas, indica que as condições adversas pelas quais passam os andarilhos e demais indivíduos em situações semelhantes estão associadas a uma determinação divina que precisa ser respeitada, porque faz parte da penitência e do pagamento da dívida ou do destino que cabe a cada um, como forma de salvação final ou de acesso ao paraíso celestial. Dessa forma, seja como retorno a uma vida de sofrimento para saldar dívidas contraídas em vidas passadas, seja como crédito para acesso a uma vida celestial de suprema felicidade, a religiosidade parece contribuir para uma prática assistencial de caráter fatalista, em que toda a assistência dispensada tem como finalidade última perpetuar a condição de vida do andarilho. No fundo, trata-se de prover um apoio mínimo para que possam suportar aquilo que entendem como sendo um sofrimento extremo, mas que será recompensado. Auxílios mínimos - como um pernoite ou um prato de sopa - assumem funções estratégicas na racionalização evangélica, que visa justificar a submissão dos albergados aos desígnios divinos e, com isso, torná-los dóceis e resignados à condição de miséria em que se encontram no espaço social.

Do ponto de vista foucaultiano, essa ação cristianizadora por meio da divulgação do evangelho está relacionada diretamente com o poder pastoral voltado para a salvação do rebanho. Segundo Foucault (2008), a metáfora do pastor e seu rebanho representa a maior simbologia de poder entre Deus e os homens e adquiriu importância histórica na cultura ocidental quando os hebreus a intensificaram na figura de Moisés (seu grande legislador) e os cristãos a legitimaram através de Jesus (o Messias prometido), que sacrificou a própria vida para a salvação do rebanho desgarrado das instâncias divinas. Esse tipo de relação entre Deus e os homens teve seu princípio e sua fundamentação no poder onipotente e transcendental que o próprio Deus exercia sobre seu povo ao eleger inicialmente, como representante entre os homens, os reis e depois os sacerdotes. Foucault nos esclarece que essa relação entre Deus e pastor remonta a um período anterior a Moisés, quando no Oriente Mediterrâneo, especialmente no Egito Antigo, o rei ou faraó era designado de forma ritual como o pastor dos homens. Esta insígnia também fazia parte da titulação real dos monarcas babilônicos e designava a relação de Deus com os homens. Foucault escreve:

essa metáfora do pastor, essa referência ao pastorado permite designar certo tipo de relação entre o soberano e o deus, na medida em que, se Deus é o pastor dos homens, se o rei também é o pastor dos homens, o rei é de certo modo o pastor subalterno a que Deus confiou o rebanho dos homens e que deve, ao fim do dia e ao fim de seu reinado, restituir a Deus o rebanho que lhe foi confiado (Foucault, 2008, p. 167).

Conforme se pode observar, o poder pastoral apresentava uma hierarquia entre Deus (poder absoluto) e o rei ou sacerdote (poder relativo) no governo da conduta dos homens cuja finalidade era manter as ovelhas sob tutela e resgatar aquelas desgarradas, para uma perfeita administração e controle da movimentação ou deslocamento do rebanho de um lugar a outro sem que nenhuma delas se perdesse definitivamente. Trata-se, nesse caso, de um poder que se exerce sob uma multiplicidade em movimento, e não sobre um território particular e delimitado, porque o Deus Único presente na tradição hebraica é essencialmente errático: caminha e se desloca à frente de seu povo, mostrando-lhe a direção a seguir em busca da terra prometida, e "se há referência ao território, é na medida em que o deus-pastor sabe onde ficam as campinas férteis, quais são os bons caminhos para chegar lá e quais serão os lugares de repouso favoráveis" (Foucault 2008, p. 169).

Assim, o poder pastoral se refere a um poder de cuidado visando à salvação do rebanho em que a função do pastor é conduzi-lo às boas campinas e garantir os meios de subsistência necessários através dos bons pastos, além de zelar para que nada fuja ao controle e disperse algumas ovelhas da rota preestabelecida. Paradoxalmente, essa caricatura do pastor como um "benfeitor" de todos, ao agir sob uma multiplicidade em movimento, e não sobre um território específico, assume uma dimensão política que as instituições de caridade nos séculos XVI e XVII utilizaram como estratégia para controlar os vagabundos e indigentes, considerados como um problema para a administração pública das cidades (Foucault, 1979; Donzelot, 1986). O sentido maior desse filantropismo caritativo, exercido sob a forma de cuidados e amparos assistenciais paliativos destinados aos miseráveis, era demonstrar ou promover publicamente a convicção de que a submissão ao poder do pastorado cristão era o caminho seguro para a salvação daquelas ovelhas desgarradas ou perdidas pelas ruas da cidade.

No caso do cristianismo, a salvação do rebanho é representada simbolicamente pela crucificação de Jesus (o Bom Pastor), que sacrificou a própria vida em favor de todos. De acordo com Foucault (2008), foi esse sacrifício de um (o próprio Cristo) em benefício de todos (os homens) que possibilitou a submissão do todo ao um e sacramentou o poder pastoral como o poder soberano do qual o Estado Moderno se apropriou, posteriormente, com a finalidade de desenvolver e instituir suas tecnologias políticas de administração dos corpos estendidas para todo o Ocidente. Segundo o autor, as formas modernas de poder têm sua matriz nessa história do pastorado cristão, que se organizou primeiramente como uma instituição religiosa cuja finalidade era o governo dos fiéis e a salvação das almas no outro mundo por intermédio da Igreja, em que o pastorado se torna globalizante e ao mesmo tempo específico.

Foucault (2008) considera também que a figura de Cristo como Deus-Pastor por excelência desinstituiu a ideia do Deus Soberano, transcendental, vingativo e colérico dos hebreus e introduziu o conceito de um Deus bom, caridoso e justo, delegando aos seus discípulos o poder pastoral e temporal para o arrebanhamento das ovelhas perdidas ou desgarradas. Isso possibilitou à Igreja, tempos depois, o direito de assumir a responsabilidade pela condução e governo das almas, transformando a soberania divina em soberania sacerdotal na disciplinarização dos indivíduos sob o comando do bispo ou de seus subordinados diretos. A esse respeito, segundo Foucault (2998), foi a ascensão perversa e política de mando e poder dos sacerdotes o elemento fundamental para a legitimação do poder pastoral como a grande arte de governar as almas.

A repercussão dessa institucionalização do poder pastoral de governar as almas dos fiéis, localizada a princípio na figura do sacerdote, estendeu-se e se transformou posteriormente na arte de governar os homens a partir de um novo regime político, iniciado no século XVI com o surgimento do Estado. Sobre esse assunto, Foucault (2010) esclarece que o Estado, ao se apropriar dos elementos constituintes no poder pastoral, desenvolveu uma nova tecnologia política de poder que é ao mesmo tempo individualizante e totalizadora quanto à arte de governar os homens, ao assegurar a salvação dos indivíduos nesse mundo e não no outro, através de uma série de objetivos materiais e da implantação de vários programas sociais de bem-estar, segurança e proteção dos cidadãos, dessacralizando o Deus-Pastor transcendental e efetivando o deus-pastor legislador, representado pela figura despótica dos governantes ou dos ministros.

Isso implica considerarmos que o poder pastoral, associado durante vários séculos a uma instituição religiosa pautada na moral do cristianismo, ampliou-se por todo o corpo social e encontrou apoio e sustentação numa multiplicidade de instituições disciplinares, como os hospitais, as penitenciárias, as escolas, os albergues assistenciais, os asilos, os orfanatos e a filantropia. Ainda conforme Foucault,

o pastorado no cristianismo deu lugar a toda uma arte de conduzir, de dirigir, de guiar, de controlar, de manipular os homens, uma arte de segui-los e de empurrá-los passo a passo, uma arte que tem a função de encarregar-se dos homens coletiva e individualmente ao longo de toda vida deles e a cada passo de sua existência (Foucault, 2008, p. 218).

Destarte, a presença sacralizadora do cristianismo nas entidades filantrópicas de assistência de nossa pesquisa tem sua matriz nessa antiga tecnologia do poder pastoral, em que os dirigentes assumem o lugar metafórico do pastor-assistente subordinado a um Deus-Pastor institucional. No catolicismo ele é representado pelo padre, responsável pela administração de uma paróquia, ou pelo próprio bispo, provedor da diocese, conforme a situação. No espiritismo, ele é representado geralmente por um dirigente médiun, ou seja, o intermediário entre o homem e os espíritos, com amplo conhecimento em assuntos referentes à doutrina (Kardec, 1861/2008). Nesse sentido, é possível dizer que os albergues filantrópicos se constituem num espaço propício para o exercício da arte de dirigir e governar as almas errantes, tal como acontece com o pastorado cristão. Sua missão institucional, à semelhança da Igreja ou de um centro espírita, é a de arregimentar o rebanho, indicar-lhe o caminho e conduzi-lo ao seu destino.

Não obstante, o pastorado exercido nos albergues, trazendo as marcas das suas matrizes religiosas, assume feições próprias, derivadas dos novos tempos. Assim como o pastoreio religioso, a missão básica do albergue é participar da arregimentação do rebanho, recolhendo as ovelhas desgarradas e tentando recolocá-las no caminho certo, rumo à salvação. O pastoreio dos albergados, mesmo quando reconhece suas carências materiais e as condições sociais a elas associadas, é um pastoreio das almas ou dos espíritos que procura colocar sob seu manto protetor e na rota dos destinos para eles divinamente estabelecidos, os errantes - aparentemente abandonados por Deus.

A imagem de um andarilho caminhando a esmo pelos acostamentos das rodovias ou pelas ruas de uma cidade é bastante sugestiva enquanto alusão a um filho de Deus desgarrado, desfiliado e lançado à própria sorte. Pode representar o testemunho dos descaminhos sociais e também dos descaminhos espirituais, exatamente como disse o dirigente do albergue ligado à Igreja Católica. Por isso é preciso reinseri-los no rebanho, porém, não no sentido literal de reuní-los aos outros fiéis numa vida comum e sedentarizada, mas de reinserir suas vidas nas narrativas e racionalizações religiosas, isto é, colocá-los no mesmo enredo que reúne o rebanho. Seja como espíritos reencarnados que pagam uma dívida, seja como pessoas submetidas a provações e sacrifícios para ganhar as benesses do Céu, esses indivíduos passam a fazer parte da grande narrativa que abarca a todos.

As ovelhas desgarradas, maltratadas, debilitadas e famintas, à semelhança dos andarilhos - vistos como maltrapilhos e sofredores -, são imprescindíveis para a operacionalidade da norma. O rebanho não deverá seguir o caminho indicado pelo pastor tão somente para ele mesmo desfrutar de pastagens mais verdejantes, mas também para se evitarem a desgraça e os infortúnios das deserções ou dos distanciamentos da ação normalizadora (Foucault, 2008). Assim, as racionalizações expressas nas falas dos dirigentes são acompanhadas de práticas cotidianas igualmente produtoras de sentidos caritativos e filantrópicos nos serviços prestados pelos albergues e reprodutoras das matrizes das tecnologias pastorais. Neste contexto é de se perguntar: qual a explicação para esses procedimentos-rituais serem tão acentuados e estrategicamente valorizados em ambas as instituições caritativas? É o que veremos a seguir através dos procedimentos religiosos, os quais envolvem basicamente a prece como fonte apaziguadora e consoladora do sofrimento apresentado por aqueles que transitam por elas em busca de assistência e amparo.

3- Procedimento religioso espírita

Conforme os relatos, para a instituição espírita a prece também oferece o equilíbrio necessário contra as forças do mal. A prece é feita pelos trabalhadores voluntários do período noturno, geralmente espíritas praticantes. Esse procedimento parece ter uma importância significativa, por ser capaz de destruir as chamadas influenciações espirituais e equilibrar fluidicamente o ambiente de trabalho institucional. Explica o dirigente espírita:

Atualmente, os voluntários fazem uma prece de preparação para iniciar os trabalhos, pedindo auxílio ao mundo espiritual. Na casa há um ambiente, um clima espiritual e vibrações que interferem nas atividades do albergue. Como aqui é um centro espírita, paralelamente ao atendimento do albergue feito no período noturno, estão sendo feitas reuniões de estudo, de evangelho, de desobsessão [diálogo com espíritos]. Agora, se um irmãozinho desse [andarilho] chegar alcoolizado, ele vai estar mal acompanhado [por espíritos] e quando entra na casa espírita, geralmente, a assistência espiritual da casa é tamanha que essas companhias são afastadas. Então, ele sente um bem-estar e isso proporciona uma melhora. Por isso, todo o plantão à noite não se inicia sem fazer uma leitura do evangelho segundo o espiritismo.

Por sua vez, a funcionária espírita assim explica o funcionamento da instituição:

o grupo de voluntários do período noturno, costuma fazer uma oração antes de iniciar as atividades. Depois tem a leitura do evangelho [segundo o espiritismo] antes da sopa, e quando eles vão para o alojamento dormir o grupo faz uma prece também. No trabalho diurno que eu faço não existe esse tipo de atividades, mesmo porque o centro espírita só funciona no período noturno. Durante o dia, apenas o albergue é que funciona para atendimento e triagem dos usuários.

4-Procedimento religioso católico

A celebração religiosa é realizada por uma autoridade espiritual responsável que pode ser um padre ou representantes de outras denominações religiosas, quando acontece o culto ecumênico. A proposta parece ser o reavivamento da fé como fonte consoladora dos obstáculos presentes no caminho e conduzir os indivíduos ao encontro com Deus por meio do hábito da prece durante as celebrações ecumênicas. Explica a dirigente católica:

Hoje nós estamos criando um espaço sagrado no lugar da capela porque as várias culturas também nos trazem as várias formas de ver Deus. Então, nós colocamos a nossa prática católica de caridade, porém, nós também abrimos oportunidades para que todas as outras religiões se encontrem junta com a nossa. Aqui na Casa o espaço da capela se tornou mais um espaço ecumênico do que católico. A gente faz as missas aos domingos, mas também deixamos o espaço para outras religiões falarem durante a semana. A preocupação é que essa pessoa realmente tenha fé, acredite ou aprenda a rezar. A Igreja Católica sempre pregou isso e não vai mudar, porque uma de suas missões é a caridade aos mais necessitados.

Os procedimentos religiosos apontados nesses relatos não deixam dúvida de que nessas instituições pesquisadas a prece é um elemento importante e estratégico para conformar os indivíduos aos desígnios divinos. Segundo Vieira et al. (2004), esses procedimentos que antecedem as atividades assistenciais e caritativas têm por objetivos submeter os indivíduos ao poder divino e despertar a fé e a crença na continuidade da vida após a morte, mesmo havendo algumas divergências doutrinárias entre o caritatismo católico e o caritatismo espírita baseado na moral do cristianismo. O primeiro defende o dogma da ressurreição do corpo no momento de um suposto "juízo final", enquanto o segundo acredita na pluralidade das existências através do dogma da reencarnação, segundo o qual o mesmo espírito retorna em outro corpo para continuar sua jornada evolutiva rumo ao encontro com Deus, sem a crença no juízo final e nas penas eternas.

No caso do albergue católico, o objetivo da prece é fazer o sujeito se curvar e acreditar, pelo reavivamento da fé, que fora da Igreja não há salvação, ou seja, se ele não aceitar o poder da Igreja e a supremacia do sacerdote como o pastor soberano, justo e bom, mesmo que sua vida na terra seja sofrível, poderá ter que arcar com castigos e sofrimentos ainda maiores após a morte. Apesar de reconhecer que boa parte das misérias e sofrimentos apresentados pelos andarilhos tem uma matriz explicativa nas desigualdades sociais, a ideia a ser veiculada é sempre a mesma: levar o indivíduo a suportar os reveses da existência através da palavra divina visando à felicidade no outro mundo após um suposto "juízo final", mesmo que para isso seja necessária a penosa perambulação errática pelas rodovias do país de maneira indelével. Em outras palavras, a perambulação sem destino na Terra é justificada por um destino ou objetivo maior: ir ao encontro de Deus.

No caso do albergue espírita, o objetivo é semelhante ao do albergue católico: apascentar o sujeito em suas necessidades emergenciais e apaziguar os seus conflitos de ordem espiritual para que continue a sua jornada a esmo pelas rodovias, aceitando os infortúnios da vida com humildade (docilidade) e resignação (obediência) com vista à própria evolução. Nesse caso, as duas entidades de nossa pesquisa, a espírita e a católica, endossam a dessedentarização dos andarilhos: uma pelo fato de entender que esse modo de vida, ainda que marcado por intensos sofrimentos, faz parte da maior provação de amor e submissão à vontade de Deus, e que a fé é o caminho pelo qual o bom pastor deve conduzir essa parcela do seu rebanho; e a outra, por entender que é pela via da humildade e da caridade que o bom pastor, com o seu exemplo, indica o caminho certo, como pode fazer qualquer um fora dos templos religiosos, conforme os ensinamentos do seu líder maior, Allan Kardec (1864/2009).

Seja qual for o ponto de vista religioso considerado, tais instituições visam apaziguar as agruras da vida desses indivíduos por meio da propagação do Evangelho, tendo como foco principal a aceitação da miséria, justificada como condição necessária para a evolução espiritual ou para a salvação final daqueles que se encontram em situações mais aviltantes, como a dos andarilhos, considerados em dívida contraída no passado ou, conforme o pensamento do dirigente da entidade católica, como pessoas que angariaram créditos para ascender ao paraíso. Isso talvez explique a ausência de projetos socioassistenciais ou de promoção social voltados para os andarilhos e demais usuários albergados nessas entidades, as quais acabam por legitimar as agruras da vida errante e contribuir para com sua aceitação mediante apelos à resignação diante de forças maiores e causas superioras inquestionáveis, cujo objetivo é sempre torná-los dóceis e obedientes à instância divina, uma vez que a obediência é uma das condições fundamentais para aceitação de si mesmo e salvação no outro mundo (Foucault, 2008).

É por esta razão que a prática cristã de obediência, além de ser um dos componentes centrais no poder pastoral, exige do sujeito uma postura de humildade e renúncia a si mesmo, pois, nesses procedimentos de submissão ao poder divino e sacerdotal, toda a vontade própria reflete uma rebeldia a ser contida e, na medida do possível, extirpada, em favor da felicidade futura. Vale ressaltar que no interior desses estabelecimentos institucionais de caridade não se admitem quaisquer manifestações de contraconduta, porque elas potencializariam os pontos de resistência e colocariam em risco as relações de poder instituídas (Foucault, 2008). Qualquer gesto de protesto ou de descontentamento é entendido como um inadmissível não reconhecimento da boa-vontade e da prestimosa caridade da entidade significando, em última instância, um agravo à benevolência de Deus.

Nesse contexto, vale salientar ainda que, embora a religiosidade seja um dos modos diferentes de se viver a realidade, ela também é uma ferramenta estratégica de poder para que as entidades filantrópicas de assistência produzam seus saberes sobre os sujeitos nela albergados. A preocupação aqui parece não serem as condições miseráveis apresentadas por eles, mas a necessidade de evangelizá-los, discipliná-los e conformá-los com o próprio destino, designado a priori pela inquestionável instância divina. Assim, essa maneira de se posicionar ante a realidade sugere que as políticas assistenciais dessas instituições pesquisadas se contrapõem às políticas públicas de assistência, pois a proposta não é a sedentarização do indivíduo desfiliado, mas a pregação do Evangelho, por compreenderem que a condição desses indivíduos é uma determinação divina destinada ao crescimento evolutivo e espiritual desses indivíduos.

Neste sentido, a religiosidade presente nas instituições pesquisadas tem como finalidade apenas acolher momentaneamente os sujeitos e perenizar suas jornadas errantes pelo mundo, por compreenderem que esse é um dos modos de se chegar até Deus, tal como aconteceu com os hebreus em sua errância pelo deserto em busca da Terra Prometida, sob o comando de Moisés. Por essa linha de análise fica fácil entender, então, a ausência de projetos socioassistenciais voltados para esses indivíduos, já que a questão é de ordem transcendental; ou seja, se Deus é o alvo a ser buscado constantemente, não importa quais os caminhos a serem percorridos, pois, todos eles levarão ao mesmo destino.

Se a proposta de atendimento caritativo é regulada por mecanismos transcendentais, o problema não se situa na perspectiva da vida presente, mas da vida futura, em que a errância é um dos modos de se atravessar a existência visando à conquista de felicidade no outro mundo. Nesse aspecto, as instituições pesquisadas servem apenas como casas de passagem, ao oferecerem o mínimo necessário para que os andarilhos de estrada continuem suas andanças nas mais adversas situações da vida material. Os dirigentes dessas instituições pesquisadas assumem o lugar do pastor-assistente, sem a pretensão de se sacrificar pelo rebanho, possibilitando, assim, que as ovelhas continuem sempre desgarradas justamente para manter campos de trabalho relacionados à prática de divulgação da mensagem evangélica e distribuição dos andarilhos pelos corredores da transitoriedade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As discussões e reflexões aqui apresentadas nos permitem considerar que a religiosidade presente nessas entidades filantrópicas de assistência caritativa serve apenas para manter o poder pastoral dos dirigentes e distribuir os andarilhos pelos corredores das rodovias, pois nelas os serviços assistenciais de subsistência são utilizados como estratégias de busca da garantia e da manutenção de bons pastos, por meio de alimentação, roupas e atividades de pregação do Evangelho. Neste sentido, o poder pastoral assumido pelos dirigentes tem por finalidade o governo de conduta das almas, que implica uma intervenção permanente na gestão da vida cotidiana em que os andarilhos metaforicamente podem ser tomados como uma de suas ovelhas mais desgarradas.

Isso significa dizer que os dirigentes desses estabelecimentos institucionais de caridade não desempenham seus papéis de atores sociais comprometidos com a construção de outros processos de subjetivação e a construção de novos significados para os indivíduos assistidos. Segundo Foucault (2008), isto se deve ao fato de que a finalidade do poder pastoral é  de alimentar as ovelhas, conduzi-las às boas campinas e certificar-se de que os animais de fato comem e são alimentados adequadamente, com necessidades cíclicas de repetição. No caso dos andarilhos de estrada (ovelhas), a finalidade do poder pastoral é oferecer alimentação (bom pasto) e distribuí-los, posteriormente, pelos acostamentos das rodovias (as campinas), visando à efetividade da ação normalizadora no controle, no fluxo e na vigilância de suas movimentações.

Ao andarilho cabe obedecer e resignar-se a essa vontade suprema, enquanto os demais, sobretudo os dirigentes e profissionais que atuam nesses albergues, movidos por sentimentos de compaixão e piedade, devem assegurar-lhe uma vida mínima, ou seja, mantê-lo num estado de sobrevivência suficiente para o cumprimento desse destino de sofrimento de uma pessoa errante. Neste aspecto, tais entidades pesquisadas servem apenas como casas de passagem - onde o andarilho pode renovar suas energias ou receber novos impulsos para continuar sua andança sem fim.  Até mesmo a ajuda espiritual/religiosa é bastante abreviada, restringindo-se geralmente a um culto ou uma reza, reforçando esse lugar do andarilho como o de um fiel ou devoto errante e mantido à distância.

Como conclusão, é possível ponderar que o assistencialismo filantrópico-caritativo desenvolvido nessas entidades deveria ser repensado no sentido de adicionar outros entendimentos do modo de vida dos andarilhos e, consequentemente, acrescentar um atendimento menos homogêneo e sacralizador, que possa assegurar uma assistência mais digna, transformadora e calcada na garantia de direitos sociais a todos os seus usuários.

Isso requer, evidentemente, uma abertura dessas instituições caritativas para a inserção de outros conhecimentos nas áreas das ciências humanas para potencializar reflexões acerca dessas práticas assistenciais objetivantes para que seja possível atenuar os efeitos do poder pastoral. Repensar essas práticas caritativas de assistência pode favorecer a promoção de novos sentidos no cotidiano com outros significados para a subjetividade e a própria condição humana, mesmo que os andarilhos tenham que carregar o peso da culpa pelas agruras da vida, no saco que carregam às costas pelos acostamentos das rodovias.

 

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Endereço para correspondência:
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho- Av. Dom Antonio, 2100, Pq. Universitário. CEP 19.806-900 – Assis-SP.
E-mail: nascimentoec@gmail.com

Recebido em 27/06/2013
Aceito em 16/12/2013

 

 

1 Apoio e financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Processo nº 2009/00641.

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