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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. Estud. vol.24  Maringá  2019  Epub June 10, 2019

https://doi.org/10.4025/psicolestud.v24i0.42391 

ARTIGO

AUTORIDADE E TRANSFERÊNCIA: NOTAS SOBRE O CASTELO BRANCO, DE O. PAMUK

AUTORIDAD Y TRANSFERENCIA: NOTAS SOBRE EL CASTELO BRANCO, DE O. PAMUK

Fabiano Chagas Rabêlo1  2 
http://orcid.org/0000-0001-5026-8396

Osvaldo Costa Martins3 
http://orcid.org/0000-0002-5024-6573

Karla Patrícia Holanda Martins3 
http://orcid.org/0000-0003-3242-6287

1 Universidade Federal do Piauí (UFPI), Parnaíba-PI, Brasil.

3 Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza-CE, Brasil.


RESUMO

Esta é uma pesquisa bibliográfica, em formato de ensaio, que comenta o livro de O. Pamuk O castelo branco. A partir dele, busca-se esclarecer as condições históricas, culturais e epistêmicas de realização do discurso analítico, interrogando o uso da autoridade na técnica analítica em comparação com outras modalidades de laço social. As categorias de análise adotadas são as contribuições de Koyré sobre a construção do método científico moderno, as elaborações de Lacan sobre o sujeito da ciência, sua teoria dos discursos e os conceitos de transferência, estranho e narcisismo das pequenas diferenças. Salienta-se que o texto de Pamuk possui como centro a problematização do sentimento do estranho entre dois sósias em uma relação fortemente marcada pela distância cultural, a rivalidade e a admiração. Discute-se, em seguida, a participação do sujeito do inconsciente no ato de conhecer e a influência do narcisismo na produção de obstáculos no campo do saber. Salienta-se que, ao não intervir por meio de seus próprios significantes e Ideal de Eu, o psicanalista evidencia a relação do sujeito com seus significantes mestres e seu objeto causa do desejo. A psicanálise vem demostrar por essa via que a injunção social de se colocar no lugar do outro é atravessada pelas contradições do narcisismo das pequenas diferenças. Ao final, indaga-se por meio do sentimento do estranho como móbil da segregação e da violência o que há do outro em mim que eu rejeito.

Palavras-chave: Ohram Pamuk; ciência; discurso do analista

RESUMEN

Esta es una investigación bibliográfica, en formato de ensayo, que comenta el libro de O. Pamuk El castillo blanco. Se busca aclarar las condiciones históricas, culturales y epistémicas de realización del discurso analítico, interrogando el uso de la autoridad en la técnica analítica en comparación con otras modalidades de lazo social. Las categorías de análisis adoptadas son las contribuciones de Koyré sobre la construcción del método científico moderno, las elaboraciones de Lacan sobre el sujeto de la ciencia, su teoría de los discursos y los conceptos de transferencia, ominoso y narcisismo de las pequeñas diferencias. Se destaca que el texto de Pamuk tiene como centro la problematización del sentimiento del ominoso entre dos sosias en una relación fuertemente marcada por la distancia cultural, la rivalidad y la admiración. Se discute la participación del sujeto del inconsciente en el acto de conocer y la influencia del narcisismo en la producción de obstáculos en el campo del saber. Se subraya que, al no intervenir por medio de sus propios significantes e ideal de yo, el psicoanalista evidencia la relación del sujeto con sus significantes maestros y su objeto causa del deseo. El psicoanálisis viene a demostrar por esa vía que la injunción social de colocarse en el lugar del otro es atravesada por las contradicciones del narcisismo de las pequeñas diferencias. Al final, se indaga por medio del sentimiento del extraño, como móvil de la segregación y de la violencia, lo que hay del otro en mí que yo rechazo.

Palabras clave: Ohram Pamuk; ciencia; discurso del analista

ABSTRACT

This is a bibliographical research, in essay format, that comments on the book of O. Pamuk O castelo branco. From it, it was sought to clarify the historical, cultural and epistemic conditions of the accomplishment of the analytic discourse, questioning the use of authority in analytical technique in comparison with other modalities of social ties. The categories of analysis adopted are Koyré's contributions to the construction of the modern scientific method, Lacan's elaborations on the subject of science, his discourse’s theory and the concepts of transference, uncanny and narcissism of small differences. It is emphasized that the Pamuk text has as its center the problematization of the feeling of the uncanny between two look-alikes in a relation strongly marked by the cultural distance, the rivalry and the admiration. It is then discussed the participation of the subject of the unconscious in the act of knowing and the influence of narcissism on the production of obstacles in the field of knowledge. It is emphasized that, by failing to intervene throughits own signifiers and Ideal of Self, the psychoanalyst evidences the relation of the subject with its master-signifiers and its object cause of desire. Psychoanalysis thus demonstrates that the social injunction to place oneself in the place of the other is crossed by the contradictions of the narcissism of small differences. In the end, it is questioned through the feeling of the uncanny as a motive of segregation and violence the manifestations of the other in me that I reject.

Keywords: Ohram Pamuk; science; discourse of the analyst

Introdução

Parte-se do comentário do livro do escritor turco Ohran Pamuk (2007), O castelo branco, para avançar na discussão sobre a técnica psicanalítica, em especial sobre o uso que o analista faz da autoridade que lhe é atribuída e dos meios que ele se vale para promover os efeitos que espera desencadear. Por ser uma construção ao mesmo tempo histórica e ficcional, o livro de Pamuk permite abordar alguns flancos dessa questão a partir de seu avesso, ao explorar os impasses e pontos de impotência do discurso do mestre (Lacan, 1992b). Questiona-se o limite desse discurso a partir do qual uma transição para diferentes formas de laço social se faz possível, incluindo aí o discurso do analista.

Destaca-se que o advento da psicanálise foi resultado da ação concomitante de fatores históricos com contingências específicas relacionadas à biografia de seu inventor. Isso quer dizer que na ausência de determinadas condições sociais, culturais e epistêmicas, a psicanálise dificilmente teria existido (Lacan, 1998). Alguns anos após essa afirmação, Lacan (1992b)retorna a essa questão, dessa vez apoiado na sua teoria dos discursos, por meio da qual interroga as condições mínimas que possibilitaram a emergência da psicanálise. Sustenta que o discurso do analista aparece pela primeira vez em função de repetidos e sucessivos movimentos de quarto de giro que cambiam os elementos que compõem a estrutura dos discursos. Para Lacan (1998), um dos eventos fundamentais para tanto é a consolidação da ciência e de seu método, o que gerou como correlato uma forma de subjetividade bastante diferente da que existia até então. Doravante, a dúvida metódica - e não mais a fé - passa a constituir o alicerce para a construção do conhecimento.

Além do discurso da ciência, outro ponto crucial para o entendimento das condições de possibilidade da psicanálise é o declínio da figura social do pai, que desencadeou consequências de extrema relevância, nos âmbitos público e privado, promovendo uma substancial transformação da relação do sujeito com a tradição e as figuras de autoridade. Na narrativa de Pamuk, tal declínio está intimamente associado à derrocada do império otomano, repercutindo por sua vez no campo das artes, do conhecimento e da política (Costa, 2017, Imbrizi, Matsubara, & Silva, 2014).

Pode-se afirmar que o título do livro muito provavelmente constitui uma referência a essa questão. O castelo, em sentido denotativo, representa o centro de poder, a casa do sultão. Em sentido metafórico, é possível situá-lo como o edifício teórico e filosófico, cuja base é uma visão de mundo religiosa e a cosmologia aristotélica. Por fim, ele ainda pode constituir uma referência ao narcisismo, em especial, o do sultão, o frágil alicerce do império otomano.

Daí, outra linha de trabalho que o livro permite desenvolver é o da distância entre o que é da ordem do Eu e o que é do sujeito, principalmente no que diz respeito à sua relação com os obstáculos do ato de conhecer. Tendo isso em vista, parte-se da afirmação de Freud (2001) que compara o corte narcísico operado por Copérnico ao sustentar que a terra não é o centro do universo com a proposição psicanalítica de que o Eu não é senhor em sua própria casa. Nesse ponto, a temática da ignorância, uma das paixões engendradas pelo recalque (Freud, 1997a), adquire um lugar central.

Vale destacar ainda que tal discrepância entre o sujeito e o Eu é acentuada pelo fato da trama do livro estar pautada em torno de dois antagonistas com qualidades contrastantes: mestre e escravo, italiano e otomano, cristão e muçulmano. Apesar das diferenças, ambos compartilham a paixão pelo conhecimento, além de uma desconcertante semelhança física. Há aí outro elemento essencial da trama: a temática do duplo e do estranho, que denuncia um ponto estrutural de opacidade do psiquismo, tributário de sua divisão, que faz limite ao pensamento reflexivo e ao ato de conhecer.

Inicialmente são tecidas algumas considerações metodológicas que norteiam a redação deste ensaio. Em seguida, apresenta-se um esboço da história do livro, sublinhando-se os seus pontos considerados mais sensíveis. Discutem-se, posteriormente, as transformações que franquearam o estabelecimento de uma nova subjetividade por influência da ciência moderna. Depois, referindo-se à relação entre os personagens principais, problematiza-se o que nela constitui um ponto de impossibilidade: o assenhoramento pelo sujeito dos significantes que ocupam o lugar de agente no discurso do mestre. Realiza-se então uma interpolação entre o discurso do mestre e do analista, destacando o modo como cada um deles opera. Por fim, aborda-se o problema da autoridade nessas duas modalidades de laço social.

Metodologia

Esta é uma pesquisa bibliográfica, em formato de ensaio, na qual o texto de Pamuk funciona como diretriz do percurso argumentativo. Ela se localiza na fronteira entre a investigação clínica psicanalítica e os estudos literários e culturais. É possível situá-la no âmbito da psicanálise em extensão (Lacan, 2003), uma vez que, pelo diálogo com a literatura, interrogam-se as condições de possibilidade históricas, culturais e epistêmicas de realização da psicanálise.

As principais categorias de análise são as contribuições de Koyré (2006) sobre a construção do método científico moderno, as elaborações de Lacan (1998) sobre o sujeito da ciência, a sua teoria dos discursos (Lacan, 1992b), o conceito de transferência (Freud, 1997c; Lacan, 1992a) e as categorias de estranho (Freud, 1997e) e narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1997f). Além desses autores, foram utilizados alguns artigos que abordam os conceitos acima referidos e que se debruçam sobre a obra de Pamuk. Deve-se acrescentar ainda o verbete da enciclopédia britânica (Enclyclopaedia Britannica, 2017) sobre o califa Mehmet IV que foi fundamental para o entendimento do contexto histórico que serve de pano de fundo para a trama do livro.

Entre o oriente e o Ocidente, a ciência e a religião

A história de O castelo branco se passa em meados do século XVII, no início do reinado Mehmet IV, que subiu ao trono com apenas seis anos idade, em 1648. Seu reinado foi marcado por intrigas, levantes, incursões bélicas e algumas conquistas (Enclyclopaedia Britannica, 2017). Mehmet IV, contudo, não se interessava em governar, dedicando boa parte de seu tempo à caça. Por isso, suas atribuições de monarca costumavam ser delegadas a representantes e conselheiros - os paxás e vizires - o que tornou o ambiente político ainda mais instável. O desfecho da trama acontece próximo do fim do reinado de Mehmet IV, deposto em 1687 após sofrer uma desastrosa derrota em uma campanha contra a Áustria. Sua morte ocorre três anos depois, no exílio.

De modo geral, o califado de Mehmet IV constituiu um período de contrastes. Percebe-se nele os efeitos da decadência do império otomano, que se manteve durante boa parte da Idade Média como a maior potência do globo. Esse movimento descendente se evidencia nas esferas política, cultural e econômica. Nomeadamente, por meio da perda da hegemonia militar e da percepção cada vez mais patente dos avanços científicos e artísticos europeus impulsionados pelo iluminismo e a renascença. Não obstante, tal período acalenta a esperança nostálgica de reaver o ápice da glória do império, principalmente por meio de um temerário projeto bélico expansionista. Assim, Mehmet IV buscava igualar os feitos de seu avô, Mehmet II, cujas histórias de conquistas escutara desde tenra idade (Pamuk, 2007).

Pode-se afirmar então que esse livro, como outros do mesmo autor, explora as tensões advindas da ocidentalização dos costumes e tradições turcas. O diferencial dele está na problematização das consequências desse processo no campo do conhecimento, questionando o modo como o iluminismo se vale da tradição epistêmica árabe oriental e o transforma.

O livro segue a narrativa em primeira pessoa de um dos protagonistas, um jovem veneziano de origem abastada, de boa educação, com pouco mais de 20 anos. Seu nome não aparece em nenhum momento em todo o livro. Essa ausência de nomeação desempenha uma função fundamental: a de acentuar os efeitos de despersonalização conjurados pelo fenômeno do duplo. Por isso, tal personagem é designado aqui ora como o protagonista, ora pelo seu gentílico.

No início da história, ele se encontra em um navio prestes a ser tomado de assalto por uma fragata otomana. Após o ataque, ao contrário do destino de muitos de seus companheiros de viagem, sua vida é poupada. O veneziano se apresenta aos seus iminentes algozes como médico. Insiste que poderia ser mais útil em vida do que morto.

Uma vez capturado, sua vida muda radicalmente. O protagonista se vê forçado a deixar para trás família, amigos, noiva, sua história e sua identidade. Aos poucos, adapta-se à condição de escravo/prisioneiro e, pelo exercício de seu novo ofício, consegue conquistar a confiança dos guardas da prisão. Para promover pequenas curas, ele se vale de conhecimentos de física, anatomia e fisiologia. Sua fama se espalha, o que o torna pouco a pouco mais requisitado pelos carcereiros. Sua reputação chega então aos ouvidos do paxá Sadik, o senhor da prisão, que passa a solicitar seus préstimos.

No entanto, outro elemento além de sua habilidade em propiciar curas chama atenção do paxá. O protagonista possui uma incrível semelhança física com um inventor e estudioso local, cujo nome é Hoja, palavra que significa mestre ou senhor em árabe (Pamuk, 2007). Em retribuição aos seus préstimos, o paxá lhe oferece o prisioneiro de presente. Daí em diante a trama se centra em torno da relação entre os dois. É assim que o veneziano se torna escravo de Hoja e assistente em suas pesquisas. Hoja, por sua vez, enuncia de modo bastante claro o que espera do protagonista: que ele lhe transmita, de modo detalhado e minucioso, tudo que sabe e aprendeu no Ocidente. Para obter esse fim, Hoja mostra-se disposto a se valer de todos os expedientes possíveis. No centro de suas pesquisas está a tentativa de demonstração de uma cosmologia heliocêntrica.

O ponto de tensão dessa relação é o fato de que, apesar de ocuparem posições diametralmente opostas, ambos são sósias, de uma semelhança que lhes causa incômodo e perplexidade. Assim, em contraposição à consistência imaginária do Eu, a trama explora o fenômeno do estranho/inquietante como instante de desvanecimento das identidades.

A tese central de Freud (1997e) sobre o estranho é que, por meio desse fenômeno, aquilo que deveria permanecer recalcado se apresenta de modo manifesto, sendo acompanhado frequentemente pelo afeto de angústia e o sentimento de desrealização e dessubjetivação. Freud recorre à etimologia para demostrar a ambiguidade da palavra Unheimliche, acentuando o seu uso tanto no sentido daquilo que é semelhante, familiar, domesticado e habitual como do que é oculto, desconhecido e ameaçador. O estranho não é, portanto, o desconhecido, mas algo já familiar que, por meio do recalque, tornou-se ameaçador.

Freud destaca ainda que o sentimento de estranheza pressupõe uma regressão a um momento do desenvolvimento psíquico no qual uma distinção clara entre o mundo interno (Eu) e o mundo externo (Outro) ainda não está sedimentada, de onde resulta a crença na magia, no sobrenatural e na onipotência dos pensamentos e desejos, cuja suposta eficácia se sobrepõe às leis naturais na explicação dos fenômenos cotidianos (Lustoza, 2015).

Voltando aos personagens do livro, é importante realçar a tensa relação que se estabelece entre eles, marcada ora pelo desprezo, ora pela admiração. Se, por um lado, o escravo - ocidental e infiel - instiga com sua presença a repulsa de Hoja, por outro, o interesse desse pelos conhecimentos europeus é suficiente para sustentar uma quota de curiosidade e expectativa. Do lado do veneziano, o respeito também não está ausente, haja vista que Hoja encarna o legado cultural do império otomano, herdeiro de toda uma tradição científica, filosófica e artística do mundo antigo. No entanto, a condição de escravo e as lembranças da vida que levava e da qual fora privado garante um componente agressivo à relação, ainda que na forma de uma ambivalência resignada. Entre a provável morte em liberdade e a vida preservada como escravo, o protagonista opta pela última, ainda que nunca deixe de arquitetar planos de fuga.

Esse é o ponto da trama que este trabalho visa explorar. Reconhece-se na relação entre Hoja e o protagonista uma tensão que remonta a uma impossibilidade estrutural do discurso do mestre. Hoja esmera-se por meio do discurso do mestre em obter algo cujo acesso só é franqueado por meio do discurso analista. Isto é, saber por que, apesar das semelhantes físicas, cada um deles permanece tão diferente um do outro.

Desse modo, evidencia-se a razão de Lacan (1992b) considerar o discurso do analista como o avesso do discurso do mestre: enquanto este comanda, governa e, por consequência disso, produz o inconsciente, uma vez que exige o recalque de determinados significantes e moções pulsionais; aquele busca dar expressão e favorecer a elaboração das formações do inconsciente.

Após a realização de algumas pequenas tarefas, como a organização de uma apresentação pirotécnica, a dupla é incumbida pelo Paxá de desenvolver “[...] uma arma que transforme o mundo em uma prisão para nossos inimigos” (Pamuk, 2007, p. 47). Com o pretexto de levar adiante esse empreendimento, Hoja recebe uma vultosa quantia. Todavia, ele se vale desses recursos para a execução de outros projetos científicos de sua preferência, tais como a construção de um relógio que fosse capaz de determinar a hora exata das preces em todo o mundo árabe e uma cartografia do universo por meio do qual pretendia confirmar ou refutar a existência de um astro invisível que orbitaria no espaço entre a Terra e a Lua. Essas duas linhas de pesquisa indicam a sintonia de Hoja com o espírito iluminista europeu do séc. XVII.

A hipótese do inconsciente e o sujeito da ciência

Os inventos de Hoja refletem o percurso histórico de construção do método científico moderno, que ocorreu pela junção de dois processos correlacionados à intrumentalização da razão e ao desenvolvimento de uma linguagem matematizada (Koyré, 2006). Tais procedimentos, por sua vez, pressupõem a necessidade de se colocar em dúvida de forma metódica e racional os dados que se apresentam como uma verdade imediata sejam eles obtidos por meio da percepção, do senso comum ou da intuição. Por isso, ainda que sabidamente excêntrica e estapafúrdia, a hipótese da existência de um astro invisível a olho nu que orbitaria entre a terra e a lua deveria ser considerada válida, verossímil e digna de investigação enquanto não fosse refutada por meio de argumentos matemáticos e experimentais.

Os modelos astronômicos de Hoja encarnam, portanto, uma etapa do percurso da ciência moderna. Eles são a materialização de uma teoria - de um esforço de abstração apoiado numa linguagem algébrica e lógica - cujo objetivo é a matematização do real. Tais modelos, por sua vez, também constituem o cerne de situações experimentais que cumprem a função de demonstrar ou refutar a veracidade de uma determinada conjectura.

Vale ressaltar a diferença entre matematização e quantificação. A primeira transforma o entendimento e a abordagem da realidade por meio de uma redução do real pelo simbólico; já a segunda reduz-se à contabilidade de elementos sensíveis da realidade. A matematização permite a substituição lógica de elementos indeterminados, o que torna possível o avanço na pesquisa científica; já a quantificação representa um procedimento de organização de informações que antecede e prepara o salto teórico que a matematização viabiliza (Ferreira & Alberti, 2013).

A hipótese do inconsciente, tal como Freud (1997d) a define nos ‘Artigos metapsicológicos’, também é produto das mesmas exigências que levam Hoja a postular a existência do planeta invisível. Tal afirmação, antes de demostrar a inconsistência da invenção freudiana, indica que o percurso freudiano segue de perto as exigências do discurso científico moderno (Biazin & Kessler, 2017; Lima & Ferreira, 2015). Tal fato pode ser constatado na necessidade de construção de um modelo de aparelho anímico que lhe serve de compasso para a pesquisa clínica. A função desse modelo é minorar tanto quanto possível a pregnância que a premissa de uma consciência autorreflexiva impõe à pesquisa psicológica. Daí Freud sustenta que a hipótese do inconsciente constitui um constructo teórico legítimo e necessário, uma vez que, na sua ausência, muitos fenômenos psíquicos permaneceriam obscuros e irracionais (Freud, 1997d).

Dessa forma, assim como o modelo astronômico de Hoja, a perspectiva do inconsciente não exclui um referente material: os fenômenos psicopatológicos que a clínica apresenta. Por outro lado, a constatação e o entendimento das formações do inconsciente não são alcançados por pura observação e acúmulo de dados. Faz-se necessária uma mediação teórica, a metapsicologia, que traz consigo importantes consequências éticas e filosóficas.

A narrativa de Pamuk possibilita ainda abordar o que Freud (2001) apresenta como as três feridas narcísicas advindas dos avanços da ciência: a primeira, com Copérnico, ao indicar que a terra não é o centro do universo; a segunda, com Darwin, ao propor que o ser humano tem uma origem semelhante a outras espécies; por fim, a psicanálise, ao sustentar que pensamento, consciência e psiquismo não são territórios comuns sobrepostos, que há um pensamento inconsciente inacessível à consciência e que a maior parte de nossas atividades psíquicas são, de fato, inconscientes.

Pode-se dizer que a passagem do discurso do mestre ao do analista pressupõe um trabalho de agenciamento dessas feridas narcísicas que passam a ocupar um lugar na estrutura discursiva. Em vez de ignorar a falta ou o impossível de dizer, a psicanálise passa a considerá-los, demarcando sua condição de limite dos discursos.

Do exposto, é possível afirmar que as dificuldades da pesquisa em psicanálise remontam a um dilema que habita o cerne de toda teoria do psiquismo. Isto é, onde situar o sujeito do conhecimento. No caso da psicanálise, o pesquisador/analista muito dificilmente deixará de influenciar e ser influenciado pelo analisando, o que Freud problematiza a partir do reconhecimento de uma dimensão irredutível da sugestão presente em toda relação intersubjetiva. Tal fato, na visão de alguns críticos, compromete todos os resultados da pesquisa analítica, desqualificando suas conclusões (Grünbaum segundo Mezan, 2014). Essa dificuldade, por exemplo, é em parte sanada no campo das ciências naturais pelo método experimental. Deve-se salientar, contudo, que Freud, antes de se apoiar acriticamente no uso da sugestão, avança em direção à redução de seus efeitos por meio do manejo psicanalítico da transferência. Por isso, segundo ele, a psicanálise adota a visão de mundo da ciência, que é inevitavelmente incompleta e parcial, sujeita a correções, acréscimos e substituições (Freud, 1997g).

Lacan (1998) vai abordar esse problema por outro ângulo. Para ele, o sujeito da psicanálise é o mesmo da ciência (Biazin & Kessler, 2017; Lima & Ferreira, 2015). Todavia, enquanto nessa o sujeito é foracluído, retornando no real na forma de um padecimento ou um erro subjetivo do pesquisador; a psicanálise, por sua vez, recolhe os efeitos das manifestações do sujeito no real e busca daí construir uma via racional de investigação e tratamento dos fenômenos psíquicos. Isso quer dizer que, se a ciência exclui a divisão psíquica do ato de conhecer, a psicanálise alicerça seu campo de pesquisa nessa própria divisão.

Vejamos então como essa dimensão foracluída do sujeito da ciência comparece no livro de Pamuk (2007). As investigações de Hoja demonstram o frágil contexto no qual as pesquisas científicas modernas acontecem em seu nascedouro. Ora percebidas com desconfiança, haja vista que algumas de suas conclusões se chocam com a visão de mundo dos representantes do Estado e da religião, ora como algo desejável e salutar, uma vez que seus resultados favorecem o desenvolvimento de técnicas úteis para a guerra, o controle da natureza e a governança dos homens.

Percebe-se a impotência de Hoja em convencer os outros da teoria heliocêntrica do universo. Sua conclusão: o paxá, o vizir, o sultão, os nobres e demais membros da corte são idiotas, pois não se deixam convencer. Sua meta principal parece persuadir o sultão de que a terra não é o centro do mundo. Desse modo, Hoja estaria prestando um grande serviço ao império, contribuindo para a formação intelectual do sultão, o refreamento de suas paixões e a consolidação de um modo de pensar e agir mais racional e ponderado, o que refletiria no seu modo de governar. A ironia está no fato de que o jovem califa, um menino de oito anos, está mais interessado nas suas habilidades de astrólogo do que de astrônomo. Diante das perguntas do monarca sobre as previsões do futuro, Hoja dá respostas evasivas e abstratas, temendo o destino dos astrólogos que o precederam: a acusação de conspiração e a condenação à morte.

É interessante colocar em relevo o contraste de afetos que o sultão inspira nos protagonistas. Enquanto sua presença desperta em Hoja sentimentos de reverência, respeito e temor; seu sósia é tomado por uma discreta moção de carinho e simpatia. Onde o primeiro percebe uma figura de autoridade com o qual mantém relações de obrigação, que comporta riscos, mas também oportunidades; o segundo, talvez já imbuído por uma concepção de família e infância que doravante se tornará cada vez mais difundida no Ocidente, concebe diante de si apenas uma criança, com todas as necessidades e vicissitudes a ela associadas. Nos dois casos, contudo, é perceptível as manifestações do Ideal do Eu na dinâmica social. Do lado de Hoja, trata-se do principal referente social do império otomano de quem todos buscam obter a aprovação; já com o veneziano, percebe-se a projeção de um anseio de completude de seu próprio narcisismo, similar ao que acontece com os pais em relação aos seus filhos. Propõe-se, portanto, uma analogia entre o lugar do sultão para o império e o do bebê na economia narcísica dos pais: “[...] sua majestade, o bebê” (Freud, 1997b, p. 57, tradução nossa)3. Por isso, o narcisismo assentado sobre ideais é hipotetizado por Freud como obstáculo à verdade do inconsciente e, por consequência, ao exercício da psicanálise.

Dentro dessa conjuntura, o problema da ignorância se coloca de modo premente para Hoja, incitando afetos e paixões contraditórios. Ele se pergunta: o que leva tantas pessoas ao erro, impedindo que avancem em direção a um entendimento mais acurado e racional dos fatos? Por que justamente um escravo infiel é capaz de ir tão longe onde tantos nobres muçulmanos falham?

Os impasses do discurso do mestre e a autoridade do analista

Entre um projeto e outro, Hoja questiona incansavelmente o seu escravo, instando-o a contar tudo o que sabe sobre si, o que lera e aprendera. Para além de uma informação específica, Hoja possui um objetivo mais amplo: entender como os outros, os ocidentais, pensam. Por isso, o interrogatório assume um caráter quase confessional. Ele exige que o veneziano relate tudo, inclusive os seus atos e pensamentos mais repulsivos. Nada deveria ser omitido. Hoja almeja acessar a sua verdade mais íntima - a dele e a do escravo -, o que fez eles se tornarem o que são.

Conforme indicado na introdução, a proposta dos discursos em Lacan (1992b) representa uma tentativa de matematização das relações possíveis entre os elementos heterogêneos que compõem o laço social. São eles: S1 e S2, respectivamente o significante mestre e o saber, que, quando articulados, compõem a estrutura mínima da cadeia significante, o objeto pequeno ‘a’ - objeto mais-de-gozar e causa do desejo - e S/, o sujeito dividido, que representa a hipótese freudiana do inconsciente. Deve-se salientar que o sujeito comparece nessa fórmula em sua dupla determinação, simbólica e real, a partir do significante e do gozo.

Conclui-se daí que o sujeito na psicanálise não se confunde com o pensamento reflexivo consciente, tal como defendido por diferentes correntes filosóficas. Trata-se antes de um operador lógico que se infere a partir da ordem simbólica que rege a linguagem. Nessa perspectiva, o sujeito é antes efeito da linguagem do que seu agente, de onde se deduz a divisão subjetiva e a existência de um saber descentrado do próprio Eu. Para a psicanálise, há algo que habita o âmago de nosso ser, que se mantém como impossível de ser representado e que determina o pensamento.

Ao longo dos seus seminários entre os anos de 1970-1971, Lacan desenvolve sua proposição sobre os discursos, considerando sua fundação no jogo de posições sociais. Sua formulação se relaciona aos três ofícios impossíveis mencionados por Freud: governar, psicanalisar e educar. Lacan propõe daí quatro fórmulas de estruturação para os discursos: do mestre, do universitário, da histérica e do analista4, conforme a ilustração. Para Lacan (1992b, p. 158): os discursos são o aparelho, cuja mera presença “[...] domina e governa tudo o que eventualmente pode surgir de palavras. São discursos sem palavras, que vêm em seguida alojar-se nele”.

O discurso do mestre define-se pela sua relação com o ‘saber’, que não está do lado do agente, mas no lado do Outro. O agente desse discurso são os significantes que o mestre encarna para comandar (S1). Tais significantes se dirigem ao escravo no lugar de saber (S2), que é instado a produzir, mas que é expropriado do fruto de seu trabalho. Para Lacan, no discurso do mestre está representada a própria condição do sujeito como efeito da linguagem. Percebe-se que o matema que representa o sujeito (S/) encontra-se debaixo da barra, no lugar de verdade, na condição de resto. Dessa forma, o sujeito é aquilo que escapa à regulação da distribuição de gozo no laço social pelo discurso do mestre.

No discurso do analista, o agente é o objeto causa do desejo que, incidindo sobre o sujeito, o impele ao trabalho, fazendo-o produzir um saber a partir dos seus próprios significantes mestres. Trata-se, nesse caso, diferentemente do conhecimento gestado no campo da ciência, de um saber singular e não universalizável. Por isso, Lacan sustenta uma dimensão ética inerente ao discurso do analista, que não visa o apaziguamento do sofrimento, a inserção pacífica do indivíduo no laço social ou a produção de um conhecimento sobre si que possa ser amplamente compartilhado. O que se espera de uma análise é que ela possa tocar o real que constitui a verdade para cada sujeito.

Há, portanto, segundo Nguyên (2016), uma responsabilidade da parte de quem ocupa o lugar de agente do discurso do analista. Trata-se, para o autor, de uma responsabilidade sexual, pois o saber produzido nesse discurso e o que advém dele em forma de ato não servem ao gozo do analista.

O que a fórmula lacaniana permite isolar é o limite do discurso do mestre: a impossibilidade presente nele de o sujeito acessar a sua própria verdade. A tensão que surge da forçagem desse limite franqueia a passagem para outras modalidades de laços sociais, dentre eles, o discurso do analista. Esse, na condição de avesso do discurso do mestre, evidencia o que permanece velado nesse discurso.

Defende-se que a tensão entre os personagens do livro permite vislumbrar o quarto de giro - o câmbio dos elementos nos lugares demarcados na estrutura dos discursos - que poderia culminar no discurso analítico. É possível representar a situação da seguinte maneira: Hoja, movido pelo seu desejo, interroga o veneziano no lugar de escravo, que é incitado a trabalhar. O fato de o protagonista ser alguém ilustrado e culto evidencia que o saber no discurso do mestre está do lado do Outro. No entanto, se o senhor comanda, ele o faz a partir de seus significantes mestres. A procedência desses significantes, no entanto, lhe escapa, restando-lhe o enigma de sua divisão subjetiva debaixo da barra, no lugar da verdade.

Hoja tenta avançar nesse ponto, valendo-se para isso de sua autoridade de senhor. Isto é, ele se esforça em ir até onde for possível dentro desse modo de discursividade que é o discurso do mestre. Por isso, impõe castigos e oferece recompensas para pressionar o protagonista a enunciar a sua verdade mais íntima. O curioso é que, quanto mais avança nesse jogo, mais ele incorpora os modos de agir, falar e proceder do escravo, de forma que, com o tempo, torna-se cada vez mais difícil para os demais distinguir um do outro.

É possível estabelecer um paralelo desse procedimento com a técnica freudiana em um momento anterior à adoção da associação livre e posterior ao abandono da hipnose, quando Freud se valia da sugestão como meio para superar as resistências de seus pacientes (Ferreira & Carrijo, 2016, Rabêlo, Danziato, Veras Filho, Quadros, & Carvalho, 2017). A diferença está no fato de que, para Freud, a resistência é resultado da divisão psíquica, enquanto para Hoja trata-se de uma covardia do pensamento. É curioso imaginar qual seria o resultado se Hoja resolvesse fazer uso da hipnose em seus interrogatórios.

O procedimento se inverte quando o veneziano objeta que para entender os outros - os idiotas - seria necessário que antes ele compreendesse o seu próprio modo de pensar. Ao aceitar essa provocação, percebe-se que Hoja está fortemente imbuído do ideal iluminista. Para ele, o pensamento, pela via da reflexão metódica, deve mostrar-se apto a aceder à sua verdade. Trata-se de um procedimento similar à dúvida hiperbólica cartesiana, que representa uma etapa anterior necessária para a formulação da hipótese do inconsciente (Lacan, 1998).

Talvez possamos localizar nesse ponto um movimento de histericização da posição de Hoja, quando ele abandona a posição de agente do discurso de mestre e assume sua divisão enquanto sujeito do desejo no discurso da histérica. Lacan (1992b) sustenta que o discurso da ciência é o discurso da histérica, na medida em que esse interroga a causa, o objeto pequeno a no campo do Outro, a partir de sua própria divisão subjetiva.

Cria-se então um jogo. O protagonista, por iniciativa própria, constrói uma mesa - mobiliário inexistente de acordo com os costumes locais - onde cada um se senta frente a frente com uma folha de papel na qual tentam responder por escrito à pergunta: como me tornei o que sou? Nesse ponto, é interessante pôr em relevo o contraste entre a função do divã na técnica psicanalítica e a da mesa, no livro de Pamuk. Se o divã - palavra que vem do árabe e significa lugar de fala (Quinet, 1992) - no dispositivo analítico é um acessório que funciona como anteparo que dificulta a produção de uma reciprocidade escópica e de um modo de discursividade pautado no discurso corrente comum (Lacan, 1986); a mesa, nesse contexto, representa um espaço que separa e demarca uma distância, mas que também abre a possibilidade para um movimento de báscula por inversão especular.

Consolida-se então um forte laço transferencial entre os protagonistas, que se engajam em uma técnica de pesquisa psicológica fortemente alicerçada no discurso do mestre, alternando-se no lugar de agente. Cabe então interrogar o destino e os efeitos desse laço em comparação com o discurso do analista.

Freud (1997c) escreve que a transferência é uma função do analisando, sendo suas manifestações espontâneas, na análise ou fora dela. Se o analista é incluído nas manifestações afetivas mobilizadas pela transferência, isso se deve às vicissitudes da dinâmica psíquica do analisando, o que, via de regra, acontece da forma mais paradoxal: pela expectativa de uma retribuição afetiva ou, como indica Lacan (1992a), pela esperança de que lhe seja revelado um saber a respeito daquilo que lhe é mais íntimo e que lhe esclareça os motivos de seu sofrimento. Essa atitude inicial na maioria das vezes não tarda em se converter em ódio, raiva ou frustração, sendo tais sentimentos, assim como o amor, a expressão da transferência (Freud, 1997c). Com isso, toda uma paleta de manifestações afetivas que povoam as relações humanas cotidianamente é desdobrada artificialmente no laço a dois dentro do dispositivo psicanalítico.

Isso não quer dizer, contudo, que a transferência se estabeleça como um vínculo entre dois sujeitos. O analista está advertido da disparidade que a transferência implica, haja vista que nela sempre está em voga aquilo que é escamoteado nos outros discursos, mas que representa a sua base e o seu alicerce: que todo laço social remonta à estrutura da relação de um sujeito dividido com seu objeto perdido, sua agálma (Lacan, 1992a), o qual tenta recuperar. A agálma no ensino de Lacan constitui esse enigmático objeto causa do desejo que se acredita estar contido na pessoa amada. Seu brilho é a mola propulsora do amor de transferência. A suposição de sua posse engendra a autoridade da qual o analista se vale de um modo bastante peculiar para promover a análise.

No laço analítico, o analista, esse estranho interlocutor, consente em se esvaziar de suas marcas subjetivas para assim recolher o que emerge de singular da fala do analisando, dando um destino outro aos seus próprios ideais narcísicos. Para isso, ele deve se abster de responder às demandas de satisfação que lhe são endereçadas. Ressalta-se mais uma vez que essa é uma situação extremamente artificial, haja vista que, no dia a dia, somos incessantemente convocados a responder a partir do discurso do mestre, que se vale da autoridade com o intuito de regular os laços sociais na polis e promover uma partilha de gozo.

Como consequência desse argumento, a realização de uma análise não pode ocorrer de modo espontâneo ou aleatório, requerendo para tanto a presença de uma analista que consinta de forma advertida em ocupar esse lugar em ato. Por isso, Lacan (1992b) acrescenta que o desejo de analista constitui o elemento decisivo para que uma análise aconteça. Trata-se de um desejo depurado na própria análise do analista, que o habilita a ocupar o lugar de semblante de objeto a nesse discurso (Danziato & Rabêlo, 2018).

O desfecho da trama expõe uma impostura estrutural inerente ao discurso do mestre, evidenciando que o saber está inexoravelmente do lado do escravo. A solução encontrada por Hoja é trocar de identidade e assumir o lugar do veneziano na sua cidade natal. Ao consentir com essa troca, Hoja demonstra uma mudança de posição em relação ao impasse no qual estava envolvido, o que não necessariamente representa a resolução desse impasse. Restou ao protagonista a possibilidade de escrever suas memórias, desta vez assumindo como o lugar de seu enunciado a pessoa que ele foi um dia.

Ora, tal desfecho mostra que o discurso do mestre promove um intricado jogo de identificações mútuas, o que leva à ilusão de uma intersubjetividade. Lacan (1986) denunciou o risco de tomar a identificação com o analista como índice do final de uma análise. A identificação, nesse contexto, quando muito, pode representar uma etapa do trabalho analítico - uma manifestação das resistências do analisando - e, na pior das hipóteses, o seu fracasso. O que se espera de uma análise é que ela possa ensejar a emergência de um desejo inédito pela redução do sintoma a um traço singular do sujeito (Danziato & Rabêlo, 2018).

A temática do duplo e do estranho aponta para uma inconsistência originária e residual presente em toda constituição identitária, que se apresenta ora na forma de fascinação, ora de ameaça. A abordagem do estranho na trama do livro possui, além de repercussões estéticas e clínicas, uma dimensão política (Lima & Vorcaro, 2017). O seu questionamento favorece o isolamento e a simbolização dos traços mobilizadores de agressividade e rivalidade, nos quais se apoia o narcisismo das pequenas diferenças.

O narcisismo das pequenas diferenças constitui a projeção de uma moção agressiva para uma pessoa semelhante e próxima que é portadora de um traço diferencial (Freud, 1997f). Sustentados por uma dialética que evolve processos psíquicos individuais e grupais, dois movimentos coordenados e dependentes se articulam: por um lado, seleciona-se um objeto catalizador da agressividade que passa a ser alvo de práticas de violência e segregação; por outro, promovem-se identificações mútuas entre membros de um determinado círculo social a partir da referência ao elemento excluído.

Dessa forma, a irrupção do sentimento do estranho - para o qual o narcisismo das pequenas diferenças (Freud, 1997f) constitui uma defesa - pode ensejar diferentes desfechos. Acredita-se que, uma vez reconhecidos e subjetivados, tais traços podem agenciar outras modalidades de respostas sociais que não a barbárie, a violência e a segregação. O fato de a arte e a literatura buscarem no sentimento do estranho a obtenção de um efeito estético corrobora esse argumento.

O livro de Pamuk permite abordar essa questão, uma vez que ele explora o paroxismo da presença de um estrangeiro na vida de um cientista turco esclarecido, na alvorada do iluminismo, no início da derrocada do império otomano. Além disso, articula o tema da produção do conhecimento com os pontos cegos e a ignorância que o narcisismo inevitavelmente promove. O desafio a que Pamuk alude é o de reconhecer e temperar tais manifestações, dando-lhes outros destinos e tratamentos. Espera-se que a psicanálise esteja à altura desse desafio.

Considerações finais

Demonstrou-se que o livro de Pamuk aqui comentado possui como centro a problematização do sentimento do estranho em uma situação social fortemente marcada pela distância cultural, rivalidade e por tensões identitárias. Ao acompanhar sua narrativa, interrogaram-se, a partir do referencial psicanalítico, as consequências do narcisismo para o que é da ordem do saber e do conhecimento. Foi possível extrair daí algumas consequências epistêmicas, metodológicas e políticas, que se considera de extrema relevância para o psicanalista, mas que muito provavelmente possa interessar a outras áreas, tais como a crítica literária e os estudos culturais.

Salientaram-se os desdobramentos epistémicos, pois, ao se discutir a participação do sujeito do inconsciente no ato de conhecer e a influência do narcisismo na produção de obstáculos no campo do saber, pavimenta-se o caminho para se interrogar a situação da psicanálise na atualidade. Como sustentar o seu lugar atópico em relação à ciência, privilegiando as manifestações daquilo que o discurso científico não cessa de produzir como retorno das manifestações do sujeito no real?

Mencionaram-se também consequências metodológicas, haja vista que a leitura do livro incitou a discussão sobre a técnica analítica no sentido de precisar o uso que nela se faz da autoridade, contrastando com outras modalidades de laço social. Pontuou-se que, ao não intervir por meio de seus significantes mestres e seu Ideal de Eu, o psicanalista permite evidenciar a relação do sujeito com seus significantes mestres e seu objeto causa do desejo.

Do exposto, ao contrário do que comumente se afirma como corolário de uma atitude de tolerância e reconhecimento das diferenças, a psicanálise vem demostrar que a injunção de se colocar no lugar do outro é atravessada pelas contradições do narcisismo das pequenas diferenças. Propõe-se então um deslocamento do problema. Indaga-se pela via do sentimento do estranho o que há do outro em mim que eu rejeito. É possível que surja daí uma atitude de mais abertura em relação ao que existe de singular em cada um. Tal fato não deixa de ter consequências políticas e éticas. Assim, se chega ao tema da segregação e da exacerbação dos radicalismos identitários, infelizmente tão em voga hoje.

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3“[...] his majesty, the baby”.

4Em outra situação, ele se refere a um quinto discurso, nomeando-o discurso do capitalista.

Recebido: 16 de Abril de 2018; Aceito: 06 de Dezembro de 2018

2 E-mail: fabrabelo@gmail.com

Fabiano Chagas Rabêlo: Psicanalista, professor da Universidade Federal do Piauí - UFPI, Campus Parnaíba. Doutorando em Psicologia, pela Universidade Federal do Ceará - UFC, Bolsista Capes/PDSE.

Osvaldo Costa Martins: Psicanalista. Doutorando em Psicologia, pela UFC - Universidade Federal do Ceará/Capes_DS. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano.

Karla Patrícia Holanda Martins: Psicanalista, professora nos cursos de graduação e pós-graduação em psicologia da UFC - Universidade Federal do Ceará - Doutora em teoria Psicanalítica, pela UFRJ.

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