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Acta Ortopédica Brasileira

Print version ISSN 1413-7852On-line version ISSN 1809-4406

Acta ortop. bras. vol.15 no.5 São Paulo  2007

https://doi.org/10.1590/S1413-78522007000500005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação da retroversão da cabeça do úmero em jogadores de handebol

 

 

Joel MurachovskyI; Roberto Yukio IkemotoII; Luis Gustavo Prata NascimentoIII; Rogério Serpone BuenoIV; Juliano Almeida CoelhoV; Mario Tadashi KomeçuVI; Philip WilsonVII

IDoutor em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP, Médico assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo da FMABC e Hospital Estadual do Ipiranga
IIMestre em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de SP, Chefe do Grupo de Ombro e Cotovelo da FMABC e Hospital Estadual do Ipiranga
IIIPós-graduando, Médico Assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo da FMABC e Hospital Estadual do Ipiranga
IVMédico Assistente do Grupo de Ombro e Cotovelo da FMABC e Hospital Estadual do Ipiranga
VMédico Residente em Ortopedia e Traumatologia do Hospital Estadual do Ipiranga
VIMédico Residente de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Estadual do Ipiranga
VIIMédico Residente de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Estadual do Ipiranga

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Avaliar a retroversão da cabeça do úmero em jogadores de handebol e sua relação com a movimentação do ombro.
MATERIAIS E MÉTODOS: Foram avaliados 17 jogadores profissionais por meio de exame físico e avaliação radiográfica, para se determinar o ângulo de retroversão e, sua relação com o arco de movimento. O mesmo foi realizado num grupo controle.
RESULTADOS: A diferença entre a média do ângulo de retroversão da cabeça do úmero do membro dominante e não dominante foi de 3,06°. Entre eles, aqueles que tiveram um início de treino antes dos 10 anos, apresentaram uma média desse ângulo de 36,29°, enquanto que aqueles que iniciaram acima dessa idade tinham uma média de 26,6° (p< 0,05). A média da rotação lateral do membro dominante, cujo ângulo de retroversão era maior que 30°, foi 112,27°, e naqueles, em que o ângulo era inferior ou igual a 30°, a média foi 95,10° (p<0,05).
CONCLUSÃO: Houve uma diferença estatística na retroversão quando comparamos os ombros dominantes e não dominantes. Os atletas que começaram a jogar antes dos 10 anos apresentaram, estatisticamente, uma maior retroversão. Há uma relação estatística entre o aumento da retroversão com o aumento da rotação lateral.

Descritores: Ombro; Radiografia; Anatomia.


 

 

INTRODUÇÃO

Nos praticantes de esportes de arremesso há uma grande solicitação da articulação do ombro, principalmente na fase de preparo do arremesso, na qual o atleta faz movimentos de abdução e rotação lateral(1-3).

Isso faz com que esses atletas sofram adaptações, tanto de partes moles quanto da estrutura óssea, tais como: alongamento da cápsula anterior, hipertrofia e encurtamento da cápsula posterior, e o aumento da retroversão da cabeça do úmero.

Vários estudos já documentaram estas adaptações, em especial o aumento do ângulo de retroversão da cabeça umeral e sua relação com o aumento da rotação lateral(2-8).

Valores normais de retroversão da cabeça do úmero se encontram entre 25 e 35° no adulto, porém sua variabilidade é muito grande, podendo variar de -10 a 60° (9, 10). Checchia et al.(11). em estudo sobre a anatomia do úmero em cadáveres encontrou um valor médio de 22° desse ângulo, variando de 8 a 75° .

Sabe-se, também, que a retroversão da cabeça do úmero em crianças é maior do que em adultos, e durante o crescimento sofre um processo de derrotação, semelhante ao que ocorre no quadril, tendo um decréscimo progressivo de 65°, em média, cujo resultado é uma retroversão da cabeça do úmero de 25 a 35°em adultos (10).

O objetivo desse trabalho é avaliar a retroversão da cabeça do úmero do lado dominante de um grupo de atletas profissionais de handebol e compará-la com o lado não dominante, assim como com um grupo controle, além de avaliar sua influência nos movimentos de rotações lateral e medial.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram estudados 17 jogadores de handebol de um time profissional de São Bernardo do Campo, com média de idade de 24 anos (variando de 19 a 40 anos de idade), todos do sexo masculino e com tempo médio de treino de 12 anos (variando de 4 a 30 anos). Cinco tinham como lado dominante o esquerdo e o restante o direito (Tabela 1).

 

 

Inicialmente foi realizado o exame físico do ombro, no qual mensurou-se a amplitude de movimento de elevação, rotação lateral, rotação medial, além de manobras descritas na literatura para se tentar diagnosticar instabilidade, impacto interno e subacromial. As rotações lateral e medial foram mensuradas com o atleta deitado em posição supina, com o ombro em abdução de 90° e o cotovelo em flexão de 90°, tomando-se como 0° o antebraço em 90° com a horizontal (Figuras 1 e 2).

 

 

 

 

Após o exame físico completo do ombro, foram realizadas radiografias do úmero em incidência semi-axial, para mensuração do ângulo de retroversão da cabeça do úmero pelo método descrito por Öztuma et al.(12), com o paciente em posição ortostática, com ombro em flexão de 90° e abdução de 20°, com o antebraço apoiado no filme e o raio entrando de posterior para anterior, perpendicularmente ao filme (Figura 3).

 

 

Para mensurar o que consideramos ser a média normal da população geral, realizamos a avaliação radiográfica em um grupo controle composto de 20 indivíduos, todos submetidos às mesmas avaliações descritas previamente.

A retroversão da cabeça do úmero foi calculada, determinando-se o eixo do colo anatômico do úmero, traçando-se uma linha perpendicular à superfície articular da cabeça do úmero, e uma linha tangenciando à tróclea, sendo o ângulo de retroversão da cabeça umeral o ângulo agudo formado pela intersecção das duas linhas (Figura 4).

 

 

Calculamos a média e o desvio-padrão do ângulo de retroversão da cabeça do úmero dos jogadores e do grupo controle. Comparamos os valores encontrados com a amplitude de movimento dos lados dominante e não dominante.

Para a análise estatística utilizamos o teste t de Student, em que comparamos as médias colhidas nesse estudo, considerando significantes resultados com p<0,05.

 

RESULTADOS

Pelo exame físico encontramos que sete jogadores apresentavam frouxidão ligamentar e dez deles não a apresentavam.

O arco de movimento médio dos atletas no membro dominante foi de 174,88° (variando de 140 a 230°), enquanto que no lado não dominante foi de 173,41° (variando de 146 a 225°) (Tabela 2).

 

 

A rotação lateral no membro dominante dos atletas teve média de 104,82° (variando de 85 a 155°), e a média do lado não dominante foi de 100,53° (variando de 80 a 140°). Quando comparamos o membro dominante com o não dominante não encontramos diferença estatisticamente significante (p=0,104) (Tabela 2).

A média do ângulo de retroversão da cabeça umeral foi de 30,59° no lado dominante (variando de 12 a 50°), e 27,53° no lado não dominante (variando de 8 a 40°), esta diferença mostrou-se estatisticamente significante (p=0,018) (Tabela 3). No grupo controle esta média foi de 24,9° no lado dominante (variando de 4 a 44°), e 23,1 no lado contralateral (variando de 2 a 40°). Não houve diferença estatisticamente significante quando comparamos a média dos ângulos de retroversão da cabeça do úmero do lado dominante dos atletas com o grupo controle (p=0,064) (Tabela 4).

 

 

 

 

A rotação lateral dos atletas que apresentavam ângulo de retroversão da cabeça do úmero menor ou igual a 30° foi, em média, 95,10°, enquanto que naqueles em que este ângulo era maior que 30°, esta média foi de 112, 27° e, esta diferença mostrou-se estatisticamente significativa (p=0,0009).

Quando avaliamos a rotação medial do membro dominante encontramos uma diminuição da mesma nos jogadores em relação ao grupo controle de 8,64°, esta relação mostrou-se estatisticamente significativa (p=0,020) (Tabela 5). Porém o mesmo não foi observado quando comparamos a média da rotação medial no membro dominante com o não dominante dos atletas (p=0,237) (Tabela 2).

 

 

Dos atletas avaliados, sete haviam iniciado a prática do handebol antes dos 10 anos de idade, enquanto 10 a iniciaram após esta idade.

Ao compararmos os atletas que começaram a treinar antes dos 10 anos de idade com aqueles que iniciaram a prática do esporte após essa idade, observamos uma diferença de 9,69° nas médias do ângulo de retroversão da cabeça umeral no lado dominante e essa diferença foi estatisticamente significante (p=0,025). Evidenciamos também uma maior rotação lateral nesses atletas, e, também um maior arco de movimento, porém estas diferenças não mostraram significância estatística (p=0,156 e p=0,057 respectivamente).

 

DISCUSSÃO

Na literatura existem diversos trabalhos que demonstram uma menor derrotação dos úmeros de atletas de arremesso, acarretando numa maior retroversão da cabeça do úmero no lado dominante quando comparados com o não dominante(2-4,7,8,12).

Segundo alguns autores isto seria um processo adaptativo para se evitar o impacto da cabeça do úmero com a cavidade glenoidal(13). Inclusive, alguns autores propõem uma osteotomia nos pacientes com impacto interno, cujo objetivo é o aumento da retroversão da cabeça umeral para o tratamento do mesmo(14).

Além disso, essa retroversão aumentada predispõe a uma maior rotação lateral no momento do preparo do arremesso, o que pode acarretar num ganho de velocidade de arremesso.

Neste estudo a média do ângulo de retroversão da cabeça umeral foi compatível com o resultado obtido por Checchia et al.(11) em estudo de úmeros de cadáveres, porém não encontramos uma diferença significante entre o ângulo de retroversão do úmero do lado dominante dos jogadores profissionais de handebol estudados, quando comparados com a população geral; tal fato foi encontrado por Pieper em 38 dos 51 jogadores de handebol que estudou(6). Contudo, em nosso estudo, houve diferença significativa quando comparamos a retroversão do lado dominante com o lado não dominante (p=0,018).

Nos pareceu que, devido à grande variabilidade da retroversão da cabeça do úmero na população geral, fica difícil compararmos a retroversão entre atletas e grupo controle e, seria mais sensato comparar a retroversão do membro dominante com o contralateral, pois isso nos mostraria as diferenças no desenvolvimento dos membros superiores de uma mesma pessoa, onde um lado é submetido constantemente às forças que agem durante as diversas fases do movimento de arremesso, enquanto que no outro lado não.

Osbahr et al.(3) em seu estudo de 19 jogadores de beisebol sugerem que o desenvolvimento de uma retroversão aumentada da cabeça do úmero ocorreria após os 11 anos de idade, pois a maior parte do crescimento desse osso ocorre na epífise proximal após essa faixa etária, que também foi encontrado por Levine et al.(2) em estudo de 298 jogadores da liga infantil. Esses autores afirmam que a idade em que ocorre o aparecimento de adaptações ósseas que levam a um aumento da rotação lateral seria entre 13 e 16 anos, porém não consideraram a idade de início da prática esportiva desses atletas.

Quando comparamos os resultados dos jogadores que iniciaram a prática esportiva abaixo dos 10 anos de idade com os demais, encontramos uma média de ângulo de retroversão da cabeça do úmero com diferença estatisticamente significativa, tanto quando comparados com os atletas que iniciaram a prática esportiva após os 10 anos (p=0,025), como quando comparados ao grupo controle (p=0,0170). Isto pode ser explicado pelo estudo de Edelson, que afirma que a retroversão da cabeça do úmero se encontra dentro dos padrões do adulto aos oito anos de idade, podendo variar dos quatro aos onze anos de idade, sendo que esse processo ocorre lentamente após esse período até os 16 anos de idade aproximadamente(10,15).

Observamos relação entre o aumento da retroversão da cabeça umeral com o aumento da rotação lateral, assim como diversos outros autores(2-4,6-8,16). Em nosso estudo encontramos que nos casos em que o ângulo de retroversão da cabeça do úmero foi maior que 30° os atletas apresentaram uma média de rotação lateral estatisticamente superior (p=0,0009).

 

CONCLUSÃO

A retroversão da cabeça umeral do lado dominante dos atletas de handebol foi estatisticamente superior quando comparada com o lado não dominante. Contudo não houve diferença estatística quando comparada ao grupo controle.

A idade de início da prática esportiva, em nosso estudo, influenciou no aumento do ângulo de retroversão da cabeça do úmero no lado dominante.

Os atletas com ângulo de retroversão da cabeça do úmero superior a 30° apresentaram uma média de rotação lateral estatisticamente significante superior à média daqueles com ângulo inferior ou igual a 30°.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência:
R. Traipu, 1269 - Pacaembu - São Paulo, SP
Brasil - Cep: 01235-000
e-mail: jd.mura@uol.com.br

Trabalho recebido em 23/12/06
aprovado em 01/08/07

 

 

Trabalho realizado pelo Grupo de Ombro e Cotovelo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Estadual do Ipiranga e Faculdade de Medicina do ABC .

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