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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.18 no.12 Rio de Janeiro Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232013001200019 

TEMAS LIVRES FREE THEMES

 

Adaptação intercultural para português europeu do questionário "Conocimiento del Paciente sobre sus Medicamentos" (CPM-ES-ES)

 

Cross-cultural adaptation to the European Portuguese of the questionnaire "Patient Knowledge about their Medications" (CPM-ES-ES)

 

 

Joaquín Salmerón RubioI; Paula Iglésias-FerreiraII; Pilar García DelgadoI; Henrique Mateus-SantosII; Fernando Martínez-MartínezI

IGrupo de Investigación en Atención Farmacéutica (CTS-131), Facultad de Farmacia, Universidad de Granada. Calle Real de Cartuja 36, Campus de Cartuja. 18.012 Granada España. farjoaquin@gmail.com
IIGrupo de Investigação em Cuidados Farmacêuticos (GICUF), Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa)

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho é realizar a adaptação intercultural do espanhol para português europeu do questionário para medir o grau do "Conocimiento del Paciente sobre sus Medicamentos" (CPM-ES-ES). Aplicou-se um método baseado em seis etapas: 1. Tradução para português; 2. Preparação da primeira versão de consenso em português; 3. Retroversão para espanhol; 4. Preparação da segunda versão (equivalência cultural) de consenso; 5. Realização do pré-teste; 6. Avaliação dos resultados globais. Propõe-se um questionário adaptado culturalmente em português europeu que mede o grau do "conhecimento do doente sobre os seus medicamentos". O pré-teste de confirmação obteve 100% de concordância com a segunda versão de Consenso corrigida após o pré-teste. A metodologia selecionada permitiu adaptar culturalmente a versão em espanhol do questionário CPM-ES-ES para uma versão em português. Estudos adicionais devem demonstrar a equivalência das propriedades psicométricas da tradução intercultural em português do questionário com a versão original.

Palavras-chave: Questionários, Adaptação intercultural, Pacientes, Medicamento, Conhecimento


ABSTRACT

The scope of this work is to conduct the cross-cultural adaptation from Spanish to European Portuguese of a questionnaire to measure the degree of "Patient Knowledge about their Medications" (CPM-ES-ES). A method based on six steps was applied: 1. Translation into Portuguese, 2. Elaboration of the first consensus version in Portuguese; 3.Back-translation into Spanish; 4. Elaboration of the second consensus version (cultural equivalency); 5. Conducting the pre-test; 6. Evaluation of the overall results. A cross-culturally adapted questionnaire in European Portuguese that measures the degree of "Patient Knowledge about their Medications" is proposed. The pre-test confirmation obtained 100% agreement with the corrected version of the second consensus version after pre-testing. The methodology selected made it possible to cross-culturally adapt the Spanish version of the CPM-ES-ES questionnaire to the Portuguese version. Further studies should demonstrate the equivalence of the psychometric properties of the cross-cultural translation into Portuguese with the original version.

Key words: Questionnaires, Cross-cultural adaptation, Patients, Medicine, Knowledge


 

 

Introdução

As falhas da farmacoterapia são uma realidade. A morbimortalidade relacionada com o uso dos medicamentos tem uma prevalência tão elevada que constitui um problema de saúde pública1-4.

O conhecimento do paciente sobre a sua medicação é um dos determinantes para o uso racional do medicamento, o que contribui, embora não garanta, para o aumento dos resultados positivos associados à medicação5.

Se o paciente não tem a informação correta sobre cada um dos aspetos básicos do processo de uso do medicamento pode utilizá-lo de modo inadequado, com a possibilidade de originar um resultado negativo6,7.

García-Delgado et al.8,9definem "grau de conhecimento do paciente sobre os seus medicamentos" como "o conjunto da informação adquirida pelo paciente sobre o seu medicamento necessária para um uso correto do mesmo, a qual inclui o objetivo terapêutico (indicação e efetividade), o processo de uso (posologia, esquema terapêutico, forma de administração e duração do tratamento), a segurança (efeitos adversos, precauções, contraindicações e interações) e a sua conservação.

Existem diferentes ferramentas para avaliar aspetos concretos dos medicamentos, assim como questionários validados para o conhecimento de doenças concretas10,11. Contudo, o único questionário publicado para medir, de modo global, o conhecimento do paciente sobre os seus medicamentos é o validado por García-Delgado et al.9, "Conocimiento del Paciente sobre sus Medicamentos" (CPM-ES-ES). Este questionário, elaborado em espanhol europeu, demonstrou propriedades psicométricas robustas que justificam, por si só, a sua utilização em estudos realizados em outras culturas ou línguas: a validade de conteúdo foi verificada através de uma exaustiva pesquisa bibliográfica e com três técnicas qualitativas (painel de peritos, tormenta de ideias e Delphi) e a validade do constructo foi calculada através da análise fatorial dos componentes principais que evidenciaram a existência de 4 dimensões que explicam 66,99% da variância total; a consistência interna foi avaliada através cálculo do Coeficiente de Alpha de Cronbach que foi de 0,677 (0,60 a 0,72 nas diferentes dimensões do questionário); a equivalência do questionário, avaliada pelo grau de concordância interobservadores (Coeficiente Kappa = 0,99); e a estabilidade avaliada pelo Coeficiente de Correlação Intraclasse (CCI) que foi de 0,745 (IC 95%:0,49-0,87)9.

Por ser um questionário com um caráter geral, o CPM-ES-ES pode aplicar-se a qualquer paciente em tratamento com qualquer tipo de medicamento e que apresente uma patologia qualquer9.

Historicamente, a adaptação de instrumentos elaborados numa outra língua submetia-se a traduções literais do original ou, excecionalmente, a comparações literais de este com versões retrovertidas12. Atualmente, considera-se que não deve existir apenas uma tradução linguística, mas sim uma adaptação cultural que permita garantir a validade do conteúdo do instrumento sob o ponto de vista conceptual13.

Apesar do desenvolvimento na área da tradução linguística nos últimos anos, ainda não existe um consenso global sobre qual a melhor estratégia para realizar uma adaptação intercultural, existindo na literatura diferentes propostas metodológicas para a realização deste processo, estando ainda, o modo de chegar à equivalência entre a versão adaptada interculturalmente e a original em discussão13-32.

O objetivo deste trabalho é realizar a adaptação intercultural do espanhol para português europeu do questionário para medir o grau do "Conocimiento del Paciente sobre sus Medicamentos" (CPM-ES-ES).

 

Método

Obteve-se a autorização dos autores da versão original do questionário CPM-ES-ES para realizar a adaptação intercultural para português europeu.

O questionário concebido e validado por Garcia-Delgado et al. em espanhol europeu é constituído por 23 itens, sendo que apenas 11 integram a escala que mede o conhecimento do medicamento. Estes 11 itens abordam a indicação, a posologia, o esquema terapêutico, a duração do tratamento, a forma de administração, as precauções, os efeitos adversos, as contraindicações, a efetividade, as interações e a conservação, refletindo quatro dimensões: "objetivo terapêutico" (item 6 e 14), "processo de uso dos medicamentos" (itens 7, 8, 9, 10), "segurança" (itens 11, 12, 13, 15) e "conservação" (item 16)8-11,30,33.

Após estudar as técnicas de adaptação intercultural publicadas, elegeu-se a metodologia desenhada por Guillemin e por Beaton34,35 com as adaptações necessárias, a este tipo de tradução, propostas por Arribas36. Para verificar a equivalência intercultural entre as duas versões utilizou-se uma escala analógica visual para a comissão de peritos avaliar o processo de adaptação intercultural31,37.

O processo de adaptação intercultural desenvolveu-se em seis etapas (Figura 1).

Etapa 1 Tradução para português: Foram realizadas duas traduções (T1 e T2) do questionário CPM-ES-ES original do espanhol europeu para o português europeu por dois farmacêuticos comunitários bilingues, isto é, que tinham o português como língua materna e com domínio acreditado do idioma original do instrumento (espanhol), que realizaram, cada um deles, de forma independente, uma primeira tradução do questionário para o português. A um dos tradutores (T1), disponibilizou-se informação das características do questionário e dos parâmetros que teria que avaliar, assim como instruções para que a terminologia fosse simples. O outro tradutor (T2) não recebeu qualquer tipo de recomendações.

Etapa 2 Preparação da primeira versão de consenso em português (Consenso 1): Os dois tradutores juntamente com um grupo de peritos formados por professores de farmácia prática da Universidade Lusófona (Lisboa), membros do Grupo de Investigação em Cuidados Farmacêuticos (GICUF), reviram ambas as traduções e realizaram uma reconciliação dos itens problemáticos com o objetivo de criar a primeira tradução de consenso traduzida em português europeu (Consenso 1).

Etapa 3 Retroversão para espanhol: A tradução Consenso 1 foi submetida a duas retroversões independentes (R1 e R2) para espanhol por dois tradutores com língua materna espanhola e domínio acreditado em português. Os tradutores desconheciam a versão original do questionário e trabalharam em separado.

Etapa 4 Preparação da segunda versão de consenso (equivalência intercultural) (Consenso 2): Pretende-se com esta etapa avaliar o grau da equivalência intercultural e preparar uma versão de consenso que tenha o mesmo significado (equivalência intercultural) na população portuguesa que o instrumento original na população espanhola. Para avaliar a equivalência intercultural, consideraram-se as quatro áreas de equivalência: semântica (as palavras terem o mesmo significado), idiomática (existir equivalência de provérbios ou expressões coloquiais), experiencial ou cultural, ou seja, da experiência dos termos empregados, a equivalência das situações descritas ou retratadas na versão original devem adaptar-se ao contexto da cultura alvo em que se realiza, com vocabulário simples, direto e conceptual (existe homogeneidade de conceitos entre as culturas?) e a equivalência conceptual, a equivalência dos conceitos e dos acontecimentos experienciados pelas pessoas na cultura alvo34,35. Embora possa haver diferenças entre o grau de compreensão na leitura entre os questionários na língua espanhola e portuguesa estabelece-se como requisito obrigatório, que seja compreensível na leitura por qualquer pessoa que fale a língua portuguesa que tenha o nível de instrução correspondente ao sexto ano de educação primária37.

Foi realizada a avaliação (da concordância entre a versão original do questionário e a retroversão) da equivalência intercultural com recurso à medição do significado referencial (A1) e do significado geral (A2) propostas por Streiner e Norman37, cujo objetivo é avaliar as diferenças literais, isto é, do significado das palavras e de sentido (conceitos), respetivamente, entre a versão original e as respetivas retroversões (R1 e R2).

Para cada aspeto de equivalência intercultural avaliado, foram usados formulários específicos e a medição foi realizada com recurso a uma escala analógica visual.

Primeiro, avaliou-se o significado referencial que consiste na equivalência literal entre cada palavra do instrumento original e das suas retroversões (R1 e R2). Presume-se que, se o significado referencial é o mesmo no original e na respetiva retroversão existe uma correspondência literal entre estes.

Para avaliar o significado referencial ponderou-se a equivalência dos itens do questionário original e dos das retroversões (R1 e R2) correspondentes de forma continuada com valores que vão de 0 a 100%, sendo 0% a equivalência mínima e 100% a máxima (ou concordância total). Estabelecendo como valores de máxima equivalência 100%, 80-89 quase equivalentes e < 80%, não equivalentes37.

O segundo aspeto apreciado foi o significado geral de cada pergunta, instrução ou opção de resposta do instrumento captado nas duas retroversões em comparação com o instrumento original em espanhol. Esta correspondência transcende a literalidade de termos ou frases, incluindo aspetos mais subtis, como, por exemplo, o impacto que estas têm no contexto cultural da população-alvo. Nesse sentido, interessa avaliar a pertinência e a aceitabilidade do estilo empregado ou o uso específico de uma palavra, escolhida dentre uma gama de termos similares. Esta apreciação é importante porque a correspondência literal de um termo não implica, necessariamente, que a mesma reação emocional ou afetiva seja evocada em diferentes culturas. Assim, é indispensável uma sintonia cuidada que alcance também uma correspondência de perceção e de impacto.

Para avaliar o significado geral (A2) comparou-se os itens do questionário original em espanhol com cada item de cada uma das retroversões (R1 e R2) utilizando uma classificação com quatro níveis: inalterado (IN), pouco alterado (PA), muito alterado (MA) ou completamente alterado (CA)37.

Para cada item foi utilizado um formulário no qual os pares das retroversões (R1 e R2) foram confrontados com o questionário original.

Elaborou-se um segundo relatório correspondente ao processo de análise intercultural que apresentava: uma análise individual de cada pergunta do questionário, das instruções do mesmo, das diferentes respostas do questionário sobre a primeira versão portuguesa e a justificação em cada caso.

A comissão de peritos com base nos resultados de concordância obtidos para cada um dos itens elaborou uma segunda versão de tradução de consenso (Consenso 2) com base nos itens da tradução T1 e T2 que obtiveram maior concordância na avaliação da respetiva retroversão contra a versão original do instrumento.

Etapa 5 Realização do pré-teste: O pré-teste pretendeu avaliar como funciona o questionário Consenso 2 e se seriam necessárias alterações antes da sua aplicação em estudos no terreno.

Selecionou-se um grupo reduzido de 40 indivíduos, nos quais estiveram representados os diversos segmentos que compõem a amostra (Tabela 1).

A recolha dos questionários foi realizada numa farmácia de Lisboa durante uma semana.

Os questionários foram preenchidos por entrevista direta farmacêutico-paciente, por um único entrevistador, previamente preparado para o efeito, que realizou os seguintes passos:

1. Apresentação do projeto de investigação ao paciente selecionado e do consentimento informado para participar no estudo;

2. Leitura integral das perguntas do questionário por parte do entrevistador e transcrição das respostas dadas pelos pacientes. Realizou-se uma única entrevista para apenas um medicamento de cada paciente.

No final, administrou-se um questionário, por entrevista direta, de avaliação cognitiva, com 10 questões para identificar quais as perguntas que originaram mais dificuldades, para determinar as razões destas dificuldades e ainda para registar as soluções propostas para melhorar a clareza das perguntas38. Todos os comentários foram registados. Elaborou-se um relatório final desta etapa.

Pelo facto de algumas palavras terem demonstrado ser de difícil compreensão pelos entrevistados, após as retificações, foi elaborado um novo questionário que foi submetido a um pré-teste de confirmação, por entrevista direta farmacêutico-paciente, a 20 pacientes, seguindo a mesma metodologia utlizada no pré-teste.

Etapa 6 Avaliação dos resultados globais (preparação da versão final do questionário para medir o grau do conhecimento que os pacientes têm sobre os seus medicamentos em português

europeu): Nesta fase, integraram a comissão de peritos os tradutores, os tradutores que fizeram a retroversão, o investigador principal, os professores da Universidade Lusófona, um professor da Universidade de Granada e os autores do questionário original. Reuniram-se e de um modo definitivo verificaram os relatórios e o cumprimento de cada etapa assim como a análise individual de cada pergunta do questionário e das instruções.

Registaram-se as dificuldades detetadas durante o pré-teste, avaliou-se o grau de concordância entre as traduções Consenso 1 e Consenso 2, as modificações realizadas sobre a tradução Consenso 2 em português na versão do pré-teste de confirmação e a justificação para cada caso, optando-se pela versão dos itens com maior grau de concordância dando origem à versão final do questionário para medir o grau de Conhecimento dos Pacientes sobre os seus Medicamentos (CPM-PT-PT) adaptado interculturalmente para o português europeu.

 

Resultados

Avaliação da equivalência intercultural

Foi realizada a avaliação da concordância para o significado referencial e para o significado geral de cada item de cada uma das retroversões (R1 e R2) contra a versão original do instrumento CPM-ES-ES em espanhol (Tabela 2).

A partir dos resultados obtidos em cada item a comissão de peritos criou uma segunda tradução de consenso (Consenso 2) que adotou o item da tradução (T1 ou T2) que alcançou maior concordância neste processo.

Título: Optou-se pelo termo "doente" por a retroversão R2 ter alcançado uma concordância de 100% e IN, respetivamente para o significado referencial e para o significado geral, mantendo-se a versão da tradução T2. A comissão de peritos considerou que a palavra doente, parecia ser mais geral e integradora. A avaliação da concordância entre a tradução Consenso 1 e Consenso 2 foi total.

Instruções: na avaliação do significado geral ficaram inalteradas as duas traduções no estudo comparativo com as suas respetivas retroversões, assim como a versão de consenso elaborada pela comissão de peritos.

Dados: Hora de início do questionário, dia de realização, nome da farmácia e número do questionário. Foi obtida a concordância total na retroversão e na avaliação da tradução de Consenso 1 e Consenso 2.

Questionário (itens 1 a 23): Foi elaborada uma tradução Consenso 2 optando pelos itens da tradução que alcançaram uma maior concordância para o significado referencial e para significado geral na etapa 4, isto é durante a tradução intercultural.

Na avaliação da tradução Consenso 1 e Consenso 2 a maioria dos itens apresentou uma percentagem de concordância do significado referencial de 100% (catorze itens), 98% (dois itens), 95% (cinco itens) e apenas dois itens obtiveram 90%. Na avaliação do significado geral, dezanove itens obtiveram um nível inalterado (IN), quatro itens obtiveram um nível pouco alterado (PA) e nenhum item alcançou um nível de muito alterado (MA) ou completamente alterado (CA).

A tradução Consenso 2 foi submetida a um pré-teste e por terem surgido problemas de entendimento foram introduzidas alterações que motivaram a realização de um pré-teste de confirmação.

Resultados do pré-teste e pré-teste de confirmação

A amostra do pré-teste foi composta por 40 pacientes, dos quais, 29 eram mulheres (Tabela 1). A idade média da amostra foi de 60,3 anos, com um mínimo de 23 anos e um máximo de 95 anos. A maioria (30 indivíduos) concluiu apenas o ensino primário. Cada paciente foi questionado apenas sobre um medicamento. O médico foi o prescritor em 37 dos medicamentos sobre os quais se mediu o conhecimento.

Dos 40 pacientes, 23 atribuíam bastante importância ao seu problema de saúde. É importante destacar que se tratou de um início de tratamento apenas em 8 casos e que 35 dos 40 pacientes entrevistados tomavam mais que um medicamento.

Todos os entrevistados concordaram que o questionário não incluía nenhuma pergunta em excesso nem desnecessária.

Verificou-se durante o pré-teste que algumas perguntas eram de difícil interpretação por parte da população em estudo, pelo que foram introduzidas alterações no questionário: 1) o termo "nível de estudos" foi alterado para "nível de instrução" 2) o termo "regular" que não era entendido pela população portuguesa, foi substituído por "mais ou menos", por ser mais comum 3) a pergunta referente ao item 16 "Como deve conservar o seu medicamento?" foi alterada para "que cuidados deve ter para manter em bom estado de conservação o seu medicamento?", após consulta a um perito em língua portuguesa para garantir que não se adulterava o sentido original.

Para garantir que todas as alterações realizadas sobre o questionário tinham entendimento adequado foi realizado um segundo pré-teste a 20 pacientes, dos quais 14 eram mulheres. A idade média da amostra foi de 58 anos. A maioria8 concluiu apenas o ensino primário. Cada paciente foi questionado apenas sobre um medicamento. O médico foi o prescritor de todos os medicamentos.

Destes 20 pacientes, 7 atribuíam bastante importância ao seu problema de saúde. É importante destacar que se tratou de um início de tratamento apenas em 3 casos e que 18 dos 20 pacientes entrevistados tomavam mais que um medicamento.

As alterações realizadas e testadas no pré-teste de confirmação demonstraram ter um entendimento total.

Por último, verificaram-se todos os relatórios, o cumprimento de cada etapa, assim como a análise individual de cada pergunta do questionário e das instruções. Registaram-se todas as dificuldades detetadas durante o trabalho de campo, as modificações realizadas na segunda versão em português e a justificação para cada caso.

O resultado deste processo é o questionário CPM-PT-PT (Quadro 1) adaptado interculturalmente ao português europeu que estará pronto para ser submetido ao processo de avaliação das suas propriedades psicométricas em estudos posteriores.

 

Discussão

Selecionou-se o questionário CPM-ES-ES de Garcia-Delgado et al.9 por ser um instrumento desenvolvido e testado no contexto da farmácia comunitária para medir o grau de conhecimento dos pacientes sobre os seus medicamentos. As propriedades psicométricas do questionário CPM-ES-ES demonstraram uma fiabilidade considerada adequada (Coeficiente Alpha de Cronbach de 0,68), um grau de concordância elevado (Kappa = 0,99) e uma estabilidade boa (CCI = 0,77), motivos pelos quais selecionámos este questionário para ser submetido ao processo de tradução intercultural de espanhol para português (europeu), apesar de serem necessários estudos adicionais que demonstrem a validade do instrumento9.

A maioria dos questionários publicados estão na língua inglesa e foram desenvolvidos para culturas anglo-saxónicas. Na área da saúde, os que foram mais traduzidos para outras línguas, para uso noutros países, são na sua maioria, questionários destinados a avaliar qualidade de vida relacionada com a saúde.

As diferentes fontes bibliográficas consultadas sugerem a necessidade de se adaptar interculturalmente para o português o instrumento original em espanhol para medir o grau de conhecimento que têm os pacientes sobre os seus medicamentos, embora ambas as línguas sejam latinas e muito semelhantes.

O objetivo do processo de adaptação intercultural é elaborar um instrumento adaptado às pessoas objeto da investigação, quer dizer, à população portuguesa e que seja equivalente ao instrumento original, evitando-se assim adaptações posteriores para as diversas subculturas e, elaborando-se, tanto quanto possível, um instrumento que possa ser utilizado pela maior parte da população.

A tradução intercultural transforma uma mensagem de um idioma noutro. O processo é complexo e exige uma técnica metódica e sistemática que permita: a) transferir dados do idioma de origem ao idioma destino, b) manter ou estabelecer a equivalência intercultural.

A realização do pré-teste realizado com a tradução Consenso 2 permitiu identificar palavras que, embora tenham sido aceites pelos investigadores, tradutores e pela comissão de peritos, demonstraram ter um difícil entendimento na população alvo do questionário. Este foi o motivo pelo qual a comissão de revisão optou pelas palavras/expressões "manter em bom estado de conservação" no item 16, "mais ou menos" no item 17 e "nível de instrução" no item 23, dando origem a uma tradução final (tradução intercultural) do questionário CPM-PT-PT que ao ser submetida a um pré-teste de confirmação obteve 100% de concordância em todos os itens com a versão Consenso 2 corrigida após o pré-teste.

A técnica utlizada para avaliar as alterações realizadas em cada etapa permitiu que a comissão de peritos tivesse uma perceção global sobre o grau de alterações em cada etapa quanto ao significado referencial e ao significado geral e introduzir as alterações necessárias com vista à obtenção de uma versão final do questionário.

A equivalência intercultural consegue-se mediante a interpretação, que vai mais além da tradução palavra a palavra para explicar o significado dos conceitos, utilizando temos compreensíveis e as normas gramaticais do idioma destino.

O método de adaptação intercultural incluiu orientações para obter a equivalência semântica, idiomática, experiencial e conceitual das traduções34,35. Seu objetivo é facilitar o processo de adaptação intercultural para preservar a sensibilidade do instrumento da cultura de chegada.

A origem comum do português e do espanhol acentua a necessidade de fazer uma tradução intercultural para que não se cometam erros de tradução, pois a aparente similaridade entre as duas línguas pode esconder muitas diferenças39.

A existência de palavras conhecidas como 'falsos cognatos', 'falsos amigos' ou palavras de tradução enganosa fazem com que esta tarefa deva ser realizada por tradutores experientes e por profissionais entendidos na área a que se refere o documento. A tradução por etapas adiciona qualidade ao trabalho e a participação multidisciplinar dos intervenientes no processo garante que a tradução obtida seja um documento, no que diz respeito aos conceitos, equivalente ao original40.

A adaptação intercultural permite que a versão final seja um documento de trabalho onde estão minimizadas as diferenças de significado entre o texto inicial e o final.

 

Conclusões

Instrumentos elaborados numa língua original necessitam de um processo sistemático de adaptação intercultural para poderem ser utilizados em realidades socioculturais distintas. A metodologia selecionada permitiu adaptar interculturalmente a versão espanhola do questionário "Conocimiento del Paciente sobre sus Medicamentos" (CPM-ES-ES) para a versão portuguesa "Conhecimento do doente sobre os seus medicamentos" (CPM-PT-PT).

Os resultados obtidos demonstram que a versão portuguesa e espanhola são conceptualmente equivalentes.

Estudos adicionais devem demonstrar a equivalência das propriedades psicométricas (fiabilidade e validade) da versão portuguesa para que possa ser utilizado em investigação e serviços de cuidados farmacêuticos.

A utilização deste questionário contribui para determinar se existe uma necessidade de informação por parte dos pacientes e permite identificar os aspetos concretos onde existe falta de informação. A aplicação desta ferramenta permite medir o grau de conhecimento dos portugueses sobre os medicamentos que usam. Também avaliar e classificar se a informação que detêm é suficiente ou insuficiente para garantir um processo de uso correto do (s) medicamento (s). Consequentemente, permite estimar e justificar o emprego de meios e de pessoas qualificadas para implementarem programas de educação/orientação terapêutica adequados e adaptados às necessidades dos pacientes. O resultado da aplicação deste instrumento permitirá ainda identificar oportunidades de melhoria para a prática farmacêutica, tais como, entre outras, desenvolver ações que promovam a eficácia do processo de transmissão da informação personalizada sobre os medicamentos que cada paciente necessita.

 

Colaboradores

JS Rubio, P Iglésias-Ferreira, PG Delgado, H Mateus-Santos e F Martínez-Martínez participaram igualmente de todas as etapas de elaboração do artigo.

 

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Artigo apresentado em 20/08/2012
Aprovado em 30/11/2012
Versão final apresentada em 16/12/2012

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