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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2014

https://doi.org/10.1590/1413-81232014194.09452013 

Resenhas

The new sociology of the health service

Cristiane Spadacio

1Departamento de Saúde Coletiva, Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp

Gabe, J; Calnan, M. The new sociology of the health service. 2009. Routledge, London, New York:


O livro "The new sociology of the health service" (A nova sociologia do serviço de saúde), organizado por Jonathan Gabe e Michael Calnan tem uma história bastante interessante. Este livro é uma reedição do livro "The sociology of the health service" publicado em 1991, também organizado por estes autores e Michael Bury. A primeira versão do livro foi publicada em um contexto no qual se iniciavam alguns questionamentos sociológicos acerca das políticas de saúde na Grã-Bretanha.

Passados 20 anos, a sociologia da saúde prosperou em suas pretensões teóricas e práticas, trazendo à tona a necessidade de reeditar este trabalho incluindo temas recorrentes na atualidade, tais como: a emergência de políticas e práticas baseadas em evidências; aumento na atenção sobre os serviços primários de saúde; um reconhecimento da necessidade de se lidar com as questões das desigualdades sociais nos serviços públicos de saúde; a influência cada vez mais crescente da indústria farmacêutica e um foco crescente na voz dos usuários dos serviços de saúde. É possível afirmar que tais temas tangenciam discussões que compõem o campo da saúde coletiva no Brasil, do qual as ciências sociais e a sociologia da saúde, em específico, fazem parte1.

Seguindo a proposta da primeira edição do livro, foi realizado em 2007, na Universidade de Londres, um novo seminário que estimulou sua reedição, mas com elementos novos, tais como enunciado no próprio título do livro publicado em 2009. O livro é muito bem estruturado e organizado, composto por 11 capítulos além da introdução. Nesta, pretende-se um mapeamento da história da sociologia no contexto das mudanças das políticas de saúde no Reino Unido, oferecendo uma moldura histórica para os capítulos que se seguem. Os 11 capítulos são, em realidade, artigos com diferentes temáticas que buscam ressaltar as contribuições da sociologia ou de teorias orientadas sociologicamente.

Ao percorrermos os capítulos é possível perceber a importância dos questionamentos sociológicos sobre a prática dos serviços de saúde e como as abordagens teóricas qualificam e explicam a realidade muitas vezes banalizada no cotidiano desses serviços. Teoricamente, diversas perspectivas foram abordadas ao longo dos capítulos: teorias neoweberianas sobre dominação profissional; economia-política inspirada na perspectiva marxista; perspectivas interpretativas e feministas; preocupação foucaultiana sobre vigilância e governamentabilidade; temas relacionando a consumo e identidade; novas tecnologias em saúde; papel das redes sociais e a natureza da confiança em saúde. No Brasil também é possível verificar uma tendência de diversas possibilidades de análises nos estudos de sociologia da saúde, sejam elas macro (políticas de saúde, estado); micro (indivíduo e sociedade); trabalho (discussões sobre profissão, ocupação); conceituais (que envolvem representações sociais, conceito de risco, confiança); econômicos; informacionais, comunicativos e tecnológicos1.

Para efeitos didáticos de apresentação do livro, pretendo assinalar brevemente as principais questões dos 11 capítulos em dois blocos: o primeiro, composto pelos artigos que trazem as temáticas tratadas na primeira edição do livro; e o segundo, agrupando os artigos que trabalham temas novos, contemporâneos.

Dentre as discussões que reaparecem nesta edição por sua persistente importância nos serviços de saúde ao longo destes 20 anos está o primeiro capítulo intitulado "Remaking a trustworthy medical profession in twenty-first-century Britain?" de Mary Elston. Neste artigo a autora apresenta uma visão geral acerca da emergência do discurso médico sobre confiança e o "novo profissionalismo", relacionando este nascente discurso com atuais análises sociológicas globais sobre confiança e profissão médica.

No segundo capítulo "Changing forms of managerialism in the NHS: hierarchies, markets and network", Sue Dopson problematiza o conceito de "nova gestão pública" (em inglês new public managemnt) que envolve questões como a maior concorrência na prestação dos serviços de saúde e o estilo de gestão trazido pelo setor privado. Para isso, a autora considera as maiores mudanças na organização e na gestão do sistema nacional de saúde inglês, o NHS (National Health System) desde os anos de 1980, refletindo também sobre a necessidade de um trabalho informado sociologicamente nestes serviços.

Ainda como parte das discussões da primeira edição do livro, Gabe e Calnan examinam a mudança no cuidado primário ao longo desses 20 anos na Inglaterra com o terceiro capítulo: "The restratification of primary care in England? A sociological analysis". Para esta análise, os autores utilizam-se da perspectiva neoweberiana, discutindo pontos como a mercantilização do cuidado; acesso do paciente aos serviços; além de escolha e participação nos serviços de saúde. No capítulo quarto, Jonh Mohan revitaliza a discussão sobre a existência de uma tênue fronteira entre o cuidado em saúde produzido por serviços públicos e privados no Reino Unido. No capítulo intitulado "Visions of privatization: New Labour and the reconstruction of the NHS", o autor se preocupa em analisar a relação entre esses dois setores e os efeitos gerados pelos interesses do setor privado sobre o NHS.

Outro tema tratado na edição anterior é o desenvolvimento da medicina baseada em evidências que reaparece no sexto capítulo: "Evidenced-based practice in UK health policy". Os autores explicam como a prática da medicina baseada em evidências vem sendo burocratizada e institucionalizada no interior do NHS como uma medicina científica burocrática, sendo vista prioritariamente como um componente do Estado. Teoricamente, os autores utilizam de uma teoria "neomarxista de economia-política"; além de empregarem o conceito de governamentabilidade de Foucault, a fim de analisar autonomia e status da profissão médica, tratando também dos atuais movimentos sociais em saúde.

As novas discussões que integram a obra iniciam-se com o capítulo quinto: "The pharmaceutical industry, the state and the NHS", destacando a relação entre esses três atores sociais: a indústria farmacêutica, o Estado e o NHS. Outro artigo que apresenta um novo tema é o capítulo sétimo, intitulado "Innovation and implementation in health technology: normalizing telemedicine" de Carl May, que questiona a incorporação das tecnologias nos serviços e saúde. Para isso, o autor trabalha o recurso específico da telemedicina, destacando claramente a dificuldade de incorporação deste tipo de tecnologia no cotidiano dos serviços de saúde.

Com o desenvolvimento desse campo nos últimos 20 anos, exigiu-se a discussão de uma temática bastante atual para os serviços de saúde representada no capítulo oito "Health care, consumerism and the politics of identity". Consumo em saúde e políticas de identidade são analisadas por Timothy Milewa, que nos chama atenção para a natureza híbrida e fluida do consumo em saúde em nossa sociedade atual. O capítulo subsequente também apresenta um tema até então não trabalhado no livro anterior que corresponde ao aumento das terapias alternativas e complementares nos serviços de saúde. Segundo os autores, a emergência destas terapias ocasionou mudanças na prática médica na Grã-Bretanha desde a publicação da primeira edição do livro. Assim, no capítulo "Mainstream marginality: non-orthodox medicine in an orthodox health service", Sarah Kant relaciona o crescimento no uso das medicinas "não ortodoxas" com a "condição pós-moderna", na qual sistemas plurais de conhecimento coexistem.

O décimo capítulo "Social care: relationships, markets and ethics" considera a prestação de cuidado a pessoas que, por motivos de doença, deficiência ou envelhecimento precisam de cuidados constantes, incluindo a rede familiar de cuidado. Este artigo traz uma visão mais ampla da natureza do cuidado, concentrando-se em teorias filosóficas e feministas, levando em conta a crescente importância da dimensão das políticas de Estado e de bem-estar social para o cuidado em saúde. O último capítulo "Equalizing the people's health: a sociological perspective" explora a relação mais ampla entre: sociedade, saúde da população e políticas de saúde. Os autores focam nas questões de classe social e desigualdades de renda. Consideram dois paradigmas em suas análises: por um lado, a perspectiva neomarxista de economia política para dar conta da questão das desigualdades sociais e de saúde; e por outro, análises interpretativas para compreenderem como as pessoas lidam com os impactos dessas desigualdades em suas vidas cotidianas.

As discussões e os questionamentos assinalados nesta obra nos remete ao que Nunes assinala como desafios atuais tanto para orientar os futuros passos da área como para evidenciar a situação do campo em termos de suas principais publicações2, para os contextos inglês e brasileiro de produção em sociologia da saúde. Assim, com uma ampla variedade de temas e perspectivas teóricas que perpassam os capítulos, este livro fornece um importante e revitalizado referencial sociológico para análise das políticas e cuidado em saúde. Embora o contexto de produção das temáticas seja a Grã-Bretanha e o livro ainda não tenha sido traduzido para o português, acredito ser esta uma leitura imprescindível para estudantes, pesquisadores e gestores, uma vez que os conceitos apresentados e, sobretudo, a maneira como eles foram utilizados para solucionar questões dos serviços de saúde podem ser ricamente aproveitados no campo da sociologia da saúde no Brasil.

Referências

1. Nunes ED, Ferreto LE, Oliveira ALO, Nascimento JL, Barros NF, Castellanos MEP. O campo da Saúde Coletiva na perspectiva das disciplinas. Cien Saude Colet 2010; 15(4):1917-1922. [ Links ]

2. Nunes ED. Sociologia da saúde e da doença: novos desafios. História, Ciência, Saúde - Manguinhos. 2009; 16(4):1128-1132. [ Links ]

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