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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.19 no.4 Rio de Janeiro Apr. 2014

https://doi.org/10.1590/1413-81232014194.20232013 

Resenhas

Ce qui circule entre nous

Eleonor Minho Conill

1Observatório Iberoamericano de Políticas e Sistemas de Saúde

Godbout, JT. Ce qui circule entre nous, .. 2007. Éditions du Seuil, Paris:


É necessária uma introdução acerca da trajetória de Jacques T. Godbout para entender melhor esta publicação que sintetiza seus trabalhos de investigação sobre a dádiva e suas interfaces com a ciência política e social. Num conjunto de trabalhos realizados nas décadas de 1970 e 1980 como pesquisador do Institut National de Recherche Scientifique do Québec, o autor se concentrou no estudo da participação local investigando as possibilidades dos usuários exercerem um maior controle sobre as organizações, incluindo aquelas da área da saúde. É de sua autoria um dos trabalhos mais completos sobre a participação nas Clínicas Populares de Montréal e nos Centros Locais de Serviços Comunitários.

Intrigado com os resultados (e com os desvios) desses processos publicou dois livros instigantes: La participation contre la démocratie1e La Démocratie des usagers2. Essa sequência de trabalhos certamente fermentou e amadureceu algumas das questões que lhe levaram ao estudo da dádiva, um domínio até então reservado aos antropólogos. L´Esprit du don publicado em 1995 e traduzido para o português3 marca o início de uma colaboração mais intensa com o Mouvement Anti-Utilitariste em Sciences Sociales, conhecido como MAUSS. Mas, quais seriam as perguntas que constituem o fio condutor de suas inquietações e da atual publicação? E, qual a importância de seus trabalhos para a área da saúde coletiva?

As principais advêm da constatação de que entre as relações de mercado e àquelas impostas pelo Estado que terminam por se burocratizar, há algo mais que circula entre os indivíduos em suas relações e laços sociais. Em tempos de um gerencialismo exacerbado cujos objetivos nem sempre são atingidos, considerar que as interações sociais ocorrem por outras vias pode ser fértil.

Para o autor, a modernidade traz um modelo de pensamento dominante no qual o interesse é considerado como o motor universal da ação e o olhar para compreender o que circula entre as pessoas tem privilegiado a dimensão econômica. Outras maneiras de ver a sociedade são aceitas e podem enfocar as trocas simbólicas ou psíquicas, desde que não abordem o que "de fato" circularia e que é conhecido por "bens e serviços". O livro pretende quebrar esse "monopólio" constituindo-se numa contribuição para quem se interessa a outro modo de pensar e analisar la circulation des choses, que não passa nem pelo mercado nem pela redistribuição pública.

Está dividido em cinco partes: os atrativos do ganho, os atrativos da dádiva, a dádiva e os outros modelos, o potencial e pertinência do modelo da dádiva e o convite à dádiva (que corresponde a conclusão). A primeira inicia por uma revisão das diferentes correntes que explicam a vida em sociedade (ursos ou formigas?) para ater-se ao predomínio da teoria da escolha racional baseada no interesse individual e na busca de resultados. Segundo o paradigma utilitarista, a razão instrumental permitiria, ainda que por efeitos indiretos, obter o melhor em termos coletivos. Essa teoria situa-se num cruzamento de concepções psicológicas (motivação, tomada de decisão), sociais (mecanismos sociais de ajustes positivos) e morais (bem estar coletivo). Tem se sustentado por alguns atrativos, entre os quais, o fato de que a relação mercantil permite e reforça a ilusão de liberdade uma vez que se caracterizaria pela possibilidade da liquidação imediata de uma "dívida ancestral" através da transação monetária. Trata-se da idéia do exit, voice and loyalty desenvolvida por Albert Hirschman para análise das relações dos consumidores no mercado. Toda transação tende a ser clara (clearing), imediata, sem passado nem futuro e a liberdade de sair está ancorada numa liquidação imediata e permanente da dívida. A liberdade moderna seria essencialmente a ausência de "dívida".

Ao abordar essa questão da "dívida ancestral", Godbout recorre, por exemplo, a Nietsche e a seu trabalho sobre a genealogia da moral. Mas, também usa o estudo de Marcos Lanna4 sobre as relações de troca e patronagem no nordeste brasileiro para mostrar como a percepção de uma dívida ancestral negativa tem facilitado situações de dependência e exploração.

Mas o modelo parece ser insuficiente e o autor desenvolve seus argumentos refletindo a partir de inúmeras situações concretas num diálogo com uma ampla gama de pensadores, tanto clássicos como contemporâneos. Alguma das situações utilizadas para ilustrar esses argumentos advém de pesquisas na área da saúde, como por exemplo, o funcionamento dos Alcoólicos Anônimos e os laços que se estabelecem nos processos de doação de órgãos. Há também uma crítica aos limites do modelo e das intervenções de prevenção na linha de outros trabalhos já realizados no Brasil por Castiels5e que certamente enriquecem e agregam novos elementos aos limites da ideologia de uma sociedade sem riscos.

Na parte que se refere aos atrativos da dádiva são discutidos os elementos que compõem um sistema de dádiva sendo revisado o modo como o tema é tratado por diversos autores incluindo, evidentemente, os clássicos estudos de Marcel Mauss. Embora trabalhando com sociedades primitivas e com um sistema arcaico de dádiva, esse autor já realizava frequentes analogias com as sociedades modernas. Godbout descreve diversas formas contemporâneas da dádiva e aborda questões que para ele são centrais, tais como, o conceito de reciprocidade.

No âmbito da circulação mercantil é feita a distinção entre valor de uso e valor de troca, mas a circulação pela dádiva introduz um terceiro tipo de valor: o valor do laço social (la valeur de lien). O espírito contratual e a lógica do mercado tendem a negar esse valor ou dele se apropriam modificando seu sentido.

O objetivo central do livro é demonstrar a importância de reconhecermos a existência de um modelo de ação humana intrinsicamente relacional em oposição ao "homem econômico" que busca a relação pelo produto, le lien pour le bien. Para o autor, o ser humano é social, o que implica numa pulsão em direção ao outro, um desejo e um interesse pelos outros que é diferente do interesse por si mesmo, por seus bens ou pela pulsão de se autopreservar. E isto persiste e está presente em nossas sociedades.

Eis um aporte ainda explorado de forma tímida no âmbito da saúde coletiva, o que justifica uma resenha de um livro publicado para além do período sugerido (até 2 anos). Há regras que convém serem quebradas.

Referências

1. Godbout JT. La Participation contre la Démocratie. Montréal: Éditions Saint-Martin; 1983. [ Links ]

2. Godbout JT. La Démocratie des Usagers. Montréal: Boréal; 1987. [ Links ]

3. Godbout JT, Caillé A. O Espírito da Dádiva. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas; 1999. [ Links ]

4. Lanna MPD. A Dívida Divina. Troca e Patronagem no Nordeste Brasileiro. Campinas: Editora da Unicamp; 1995. [ Links ]

5. Castiel LD, Alvarez-Dardet C. A saúde persecutória: os limites da responsabilidade. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. [ Links ]

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