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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.6 Rio de Janeiro June 2020  Epub June 03, 2020

https://doi.org/10.1590/1413-81232020256.25422018 

ARTIGO

Condição de saúde bucal e utilização de serviços odontológicos entre idosos em área rural no sul do Brasil

Franciane Maria Machado Schroeder1 
http://orcid.org/0000-0003-4643-4624

Raúl Andrés Mendoza-Sassi1 
http://orcid.org/0000-0002-4641-9056

Rodrigo Dalke Meucci1 
http://orcid.org/0000-0002-8941-3850

1Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio Grande. R. Gal Osório s/n, Centro. 96200-000, Rio Grande, RS, Brasil. francimachados@gmail.com


Resumo

Este artigo objetiva avaliar a saúde bucal, a utilização de serviços odontológicos e os fatores associados entre indivíduos com 60 anos, ou mais, residentes em área rural. Estudo transversal, de base populacional, realizado na zona rural de um município de porte médio do extremo sul do Brasil. O desfecho foi ter utilizado serviços odontológicos nos 12 meses anteriores à data da entrevista. A análise abrangeu descrição da amostra, prevalência da utilização de serviços odontológicos para cada categoria das variáveis independentes e análise multivariada através da Regressão de Poisson. Foram entrevistados 1.030 idosos, sendo 49,9% edêntulos totais e tendo 13,9% consultado com dentista no último ano. A probabilidade de consultar foi maior em idosos do sexo feminino, com companheiros(as), com maior escolaridade, pertencentes aos melhores níveis econômicos e que referiram ter algum problema de saúde bucal. Por sua vez, idosos que relataram ser ex-fumantes ou fumantes consultaram menos. Planejamentos em saúde devem ser reorganizados com o intuito de priorizar grupos populacionais com maiores dificuldades na utilização dos serviços odontológicos.

Palavras-chave Serviços odontológicos; Saúde bucal; Idoso; População rural; Assistência odontológica

Abstract

Objectives: To evaluate the oral health, the use of dental services and associated factors among individuals aged 60 years, or more, living in the rural area. Method: This is a population-based, cross-sectional study carried out in the rural area of a medium-sized municipality in the extreme south of Brazil. The outcome was to have used dental services in the 12 months before the date of the interview. The analysis included a description of the sample, prevalence of the use of dental services for each category of independent variables and multivariate analysis through Poisson Regression. Results: In total, 1,030 older adults were interviewed, of which 49.9% were totally edentulous patients, and 13.9% had dental visits in the last year. The probability of visits was higher in females, with a partner, higher schooling, of the highest economic levels and that reported some oral health problem. On the other hand, elderly who reported being former smokers or were current smokers had fewer visits. Conclusions: Health planning should be reorganized to prioritize population groups with more significant difficulties in the use of dental services.

Key words Dental services; Oral health; Elderly; Rural population; Dental care

Introdução

Apesar do envelhecimento populacional no Brasil demandar maiores cuidados em saúde, os serviços existentes não atenderam de forma adequada as necessidades dos idosos. Existe a crença de que consultas odontológicas são desnecessárias para essa faixa etária devido aos altos índices de edentulismo1,2. Esse contexto pode ser atribuído a um modelo assistencial que, por muito tempo, foi centrado em práticas mutiladoras e que resultaram em um quadro precário de saúde bucal, além de os serviços odontológicos não considerarem esse grupo como prioridade2-4.

Quando a utilização dos serviços odontológicos se dá por intermédio de intervenções precoces e por meio de acompanhamentos frequentes e periódicos, são diversos os benefícios para a saúde bucal, além de possibilitar ações voltadas para a promoção da saúde, a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação2,5-7. Os fatores que levam à procura por consultas médicas ou odontológicas são variados, envolvendo características demográficas, econômicas, educacionais, psicológicas, perfis de morbidade, além de padrões de cultura e tradições populares que podem ser afetados pelas políticas de saúde vigentes e pelas características do sistema de saúde7-9.

Com o intuito de alterar a realidade da condição de saúde bucal dos brasileiros, serviços odontológicos públicos foram reorganizados e aprimorados com a implementação da Política Nacional de Saúde Bucal. A combinação de diretrizes e ações nos níveis individual e coletivo, englobando a inserção e ampliação da saúde bucal em todos os níveis de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS), possibilitou o acesso a procedimentos odontológicos que anteriormente eram exclusivos do setor privado10-12. No entanto, comparando os dois últimos levantamentos epidemiológicos nacionais, as Pesquisas Nacionais de Saúde Bucal, realizadas em 2003 e 2010 (SBBrasil), mesmo com a grande melhora do índice CPO-D (dentes cariados, perdidos e obturados) na população jovem, entre os idosos de 65 a 74 anos, o CPO-D praticamente não se alterou, ficando em 27,5 dentes em 2010, enquanto que, em 2003, a média era de 27,8 dentes, com a maioria correspondendo ao componente “extraído” ou “perdido”13,14. Essa perda dentária dos idosos, infelizmente, ainda é vista popularmente como parte do processo de envelhecimento, e não como uma deficiência das políticas públicas, que não são voltadas para a população adulta para que possa chegar à senilidade com seus dentes naturais15.

Além da assistência à saúde bucal no Brasil ter sido historicamente restrita a uma gama limitada de procedimentos odontológicos oferecidos nos grandes centros urbanos, que apresentam maior concentração de serviços de saúde tanto públicos quanto privados; as áreas rurais brasileiras possuem piores indicadores de renda, saneamento básico e níveis de escolaridade12,16. Tal cenário pode favorecer o aumento da carga de morbidades e agravos à saúde. O reconhecimento das necessidades dessa população, mediante estudos epidemiológicos, torna-se imprescindível para o planejamento de intervenções realistas que visem melhorar o acesso e a qualidade dos cuidados de saúde, a reorganização dos serviços e a redistribuição dos recursos assistenciais12,17.

Com a intenção de ampliar as informações sobre o padrão de consultas odontológicas em zonas rurais, o presente estudo teve como objetivo descrever a saúde bucal, a utilização de serviços odontológicos e os fatores associados entre indivíduos com 60 anos ou mais residentes na área rural, situados em município do extremo sul do Brasil.

Material e métodos

Este estudo foi realizado na área rural do município de Rio Grande, no Rio Grande do Sul e fez parte de um estudo maior, em forma de consórcio de pesquisa e que abrangeu diversos aspectos da saúde de determinados segmentos da população rural. Para o ano de 2017, houve uma estimativa de 209.378 habitantes, sendo 4% desse total residentes em área rural18. O delineamento do estudo foi do tipo transversal, de base populacional e a população inclusa foi de indivíduos a partir de 60 anos de idade que residiam na zona rural. Indivíduos institucionalizados em asilos ou hospitais foram excluídos. Idosos com déficit intelectual que impedisse o entendimento das perguntas não foram entrevistados..

Para estimar a prevalência da utilização dos serviços odontológicos no último ano foi utilizado no cálculo do tamanho da amostra prevalência de 20%, erro de 2 pontos percentuais e nível de 95% de confiança, com acréscimo de 10% para perdas e recusas, resultando em 679 indivíduos. Para o cálculo dos fatores associados foram definidos os seguintes parâmetros: poder estatístico de 80% para encontrar um risco relativo (RR) de ao menos 2, nível de confiança de 95%, prevalência em não expostos de pelo menos 20% e razão de não expostos para expostos de ao menos 4:1, incluindo acréscimo de 10% para perdas e recusas e 20% para controle de possíveis fatores de confusão (n = 722).

A área rural do município de Rio Grande é constituída por 24 setores censitários com aproximadamente 8.500 habitantes distribuídos em torno de 2.700 domicílios permanentemente habitados19. O processo de amostragem foi aleatório, sistemático e ocorreu de modo a selecionar 80% dos domicílios a partir do sorteio de um número entre “1” e “5”. O número sorteado correspondeu ao domicílio considerado pulo. Por exemplo, no caso do número “3” ter sido sorteado, todo domicílio de número “3” de uma sequência de cinco domicílios não era amostrado, ou seja, era pulado. Este procedimento garantiu que fossem amostrados quatro em cada cinco domicílios.

O trabalho de campo ocorreu no período de abril a outubro de 2017, realizado por uma equipe composta de entrevistadoras e supervisores de campo. Após a elucidação do tema do estudo e o aceite em participar, o idoso assinava o Termo de Consentimento Livre e Informado e, então, era aplicado o questionário. Cuidadores assinaram o TCLE para os idosos incapacitados. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande, sendo assegurado o sigilo das informações individuais dos participantes. O instrumento de coleta utilizado foi um questionário eletrônico, previamente testado em um estudo piloto executado em domicílios excluídos da amostragem. Os dados foram coletados através de tablets, utilizando o programa RedCap®20. Os dados armazenados nos tablets eram diariamente enviados para o servidor da FURG (redcap.furg.br) através de conexão com a internet. Semanalmente, no próprio servidor, era realizado controle de qualidade dos dados (ferramenta “data quality”) para a identificação de variáveis sem resposta ou com algum erro. Após correção, os dados eram novamente enviados ao servidor. Adicionalmente, era realizado um backup semanal do banco de dados em planilha do Microsoft Excel® para garantir que não houvesse perda de informações. Foi aplicada uma versão reduzida do instrumento em 10% dos indivíduos entrevistados. A concordância dos dados foi analisada por meio da estatística Kappa.

A variável dependente constituiu-se na utilização de serviços odontológicos nos 12 meses anteriores à data da entrevista (sim ou não), a partir da pergunta “Desde <MÊS> do ano passado para cá, o(a) Sr(a). consultou com dentista?”. Foram coletadas informações se o idoso já havia utilizados os serviços através da pergunta “Alguma vez na vida o(a) Sr(a). consultou com dentista?” As variáveis independentes incluíram: sexo (masculino ou feminino); idade (em anos completos); cor da pele referida (branca, preta amarela, indígena ou parda); situação conjugal (sem ou com companheiro), escolaridade (em anos completos); classe econômica conforme a Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP)21; razão de ter utilizado a última consulta (consulta de urgência, tratamento convencional e revisão); percepção da necessidade de utilizar prótese dentária; relato de problema de saúde bucal nos 12 meses anteriores à data da entrevista (dificuldade em comer, dormir ou participar de atividades sociais); tipo de serviço utilizado na última consulta (posto de saúde público, serviço público que não posto de saúde, convênio e serviço privado); plano de saúde; tabagismo (nunca fumou, fumou ou fuma); consumo de álcool no último mês; depressão; número de dentes referidos nas arcadas superior e inferior somadas (em quartis); uso de prótese dentária e autopercepção de saúde bucal (muito ruim/ruim, regular e boa/muito boa). Os indivíduos de cor da pele preta, parda, indígena e amarela foram agrupados em categoria denominada “outras” por tratar-se de grupos pequenos. O tratamento convencional na variável “razão de ter utilizado a última consulta” constitui-se do seguimento de duas consultas ou mais que não se enquadrava nas outras categorias. A variável depressão foi coletada pelo instrumento PHQ-9 (The Patient Health Questionnaire), sendo adotado um ponto de corte ≥ 9 pontos.

As análises estatísticas foram executadas no programa Stata® versão 14.022. Foi realizada análise descritiva das variáveis independentes. Calculou-se a prevalência do desfecho e seu respectivo intervalo de confiança (IC95%) e as prevalências de acordo com os fatores associados, sendo utilizado, nesta etapa, o teste Qui-quadrado de heterogeneidade (análise bivariada). Após, utilizou-se a regressão de Poisson com ajuste robusto de variância23 e de tipo “backward stepwise”, para estimar as Razões de Prevalência brutas e ajustadas e seus respectivos intervalos de confiança (IC95%). A análise multivariada seguiu um modelo teórico hierárquico de determinação em níveis, descrito na Figura 1. Esse modelo estabelece uma cadeia de determinantes organizados em níveis de determinação e que influenciam de forma distal ou proximal, o desfecho24. No 1º nível foram inclusas as variáveis sexo, idade, cor da pele referida, escolaridade, classe econômica e situação conjugal. Inseriu-se, no 2º nível, tabagismo, consumo de álcool e depressão. No 3º nível, entraram as variáveis plano de saúde, problema de saúde bucal e autopercepção de saúde bucal. As variáveis de cada nível ajustaram-se no mesmo nível e para o nível superior. Aquelas com um valor de p < 0,20 foram mantidas para se controlar possíveis confundimentos. A significância estatística foi medida pelos testes de Wald de heterogeneidade e de tendência linear, sendo adotado um valor de p < 0,05 de um teste bicaudal.

Figura 1 Modelo de análise hierarquizado da utilização de serviços de saúde odontológicos. 

Resultados

Do total de 1.785 domicílios amostrados, foram identificados 1.131 idosos na área rural do município de Rio Grande em 2017. Desse total, 1.030 participaram da pesquisa, o que corresponde a uma taxa de 8,9% de perdas e recusas. A prevalência da utilização de serviços odontológicos, nos 12 meses anteriores à entrevista, foi de 13,9% (IC95% 11,8-16,2) e a prevalência da não utilzação dos serviços foi de 86,1% (IC95% 83,8-88,2). Uma parcela de 6,6% dos idosos referiu nunca ter consultado um dentista.

A Tabela 1 apresenta a descrição das principais características da amostra. Predominaram homens (55,2%), indivíduos de cor da pele branca (91,6%), pertencentes à classe econômica C (51,2%) e que utilizavam algum tipo de prótese dentária (74,8%). Aproximadamente metade dos indivíduos era edêntulos totais (49,9%) e 73% possuíam até oito dentes em ambas arcadas.

Tabela 1 Descrição das características da amostra dos idosos residentes em zona rural. Rio Grande, RS, Brasil, 2018 (n = 1030). 

Variável n %
Sexo (1030)
Masculino 568 55,15
Feminino 462 44,85
Idade em anos completos (1029)*
60 a 64 267 25,95
65 a 69 262 25,46
70 a 74 197 19,14
75 a 79 130 12,63
80 ou mais 173 16,82
Cor da pele referida (1028)*
Branca 942 91,63
Outras 86 8,37
Situação conjugal (796)*
Sem companheiro(a) 170 21,36
Com companheiro(a) 626 78,64
Escolaridade em anos completos (1017)*
0 206 20,26
1 a 3 364 35,79
4 a 7 336 33,04
8 ou mais 111 10,91
Classe econômica# (1018)*
D-E 407 39,98
C 526 51,67
A-B 85 8,35
Tabagismo (1029)*
Nunca fumou 545 52,96
Fumou ou fuma 484 47,04
Consumo de álcool (1030) 172 16,7
Depressão (994)* 81 8,15
Tipo de serviço utilizado (945)*
Posto de saúde publica 126 13,33
Serviço público, menos posto de saúde 84 8,89
Convênio 76 8,04
Serviço privado 659 69,74
Plano de saúde (960)* 99 10,31
Razão para utilizar a consulta (952)*
Consulta de urgência 91 9,56
Tratamento convencional 796 83,61
Revisão 65 6,83
Problema de saúde bucal (953)* 29 3,04
Número de dentes arcadas superior e inferior (1010)*
1º quartil (0 a 8) 738 73,07
2º quartil (9 a 16) 129 12,77
3º quartil (17 a 24) 108 10,69
4º quartil (25 ou mais) 35 3,47
Usa prótese dentária (1030) 770 74,76
Necessidade de utilizar prótese dentária (958)* 592 61,8
Autopercepção de saúde bucal (1026)*
Muito ruim/Ruim 50 4,87
Regular 199 19,4
Boa/Muito boa 777 75,73

*Perdas de informações da amostra.

#Classificação econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa21.

A prevalência do desfecho de acordo com as variáveis independentes à utilização de serviços odontológicos e as razões de prevalência brutas e ajustadas estão descritas na Tabela 2. Após o ajuste, percebeu-se que mulheres tiveram 90% maior probabilidade de consultar o serviço nos últimos 12 meses quando comparadas aos homens. Os idosos que possuíam 8 ou mais anos de estudo consultaram 155% mais em relação aos que não estudaram nenhum ano. Indivíduos pertencentes às classes econômicas A/B utilizaram 289% mais os serviços que aqueles das classes D/E; e os que relataram ter um companheiro(a) aumentaram em 77% a probabilidade de consultar o dentista. Por sua vez, ex-fumantes ou fumantes consultaram 40% menos. Idosos que referiram problema de saúde bucal que interferisse com comer, dormir ou participar de atividades sociais aumentaram em 121% a probabilidade de utilizar serviços odontológicos no último ano.

Tabela 2 Análise bruta e ajustada para utilização de serviços odontológicos, no último ano, entre idosos residentes na zona rural em 2017 e fatores associados. Rio Grande, RS, Brasil, 2018. 

Nível Variável Prevalência
(%)
Análise Bruta Análise Ajustada
RP (IC 95%) Valor p RP (IC 95%) Valor p
Sexo < 0,01 < 0,001c
Masculino 11,09 1 1
Feminino 17,39 1,57 (1,14-2,15) 1,90 (1,34-2,67)
Idade (anos completos) 0,08a 0,7a
60 a 64 17,06 1 1
65 a 69 15,98 0,94 (0,63-1,39) 1,11 (0,72-1,72)
70 a 74 13,30 0,78 (0,49-1,23) 1,01 (0,60-1,70)
75 a 79 13,68 0,80 (0,47-1,36) 1,31 (0,75-2,30)
≥ 80 6,96 0,41 (0,22-0,77) 0,77 (0,36-1,65)
Cor da pele referida 0,5 0,6
Outras 11,25 1 1
Branca 14,11 1,25 (0,66-2,37) 1,27 (0,58-2,78)
Escolaridade (anos completos) < 0,001b < 0,01b,c
0 7,73 1 1
1 a 3 8,96 1,16 (0,63-2,13) 1,03 (0,53-2,02)
4 a 7 15,38 1,99 (1,13-3,50) 1,68 (0,91-3,10)
≥ 8 35,78 4,63 (2,63-8,12) 2,55 (1,27-5,11)
Classe econômica* < 0,001b < 0,001b,c
D-E 6,52 1 1
C 14,65 2,25 (1,44-3,52) 1,65 (0,95-2,85)
A-B 40,48 6,21 (3,88-9,97) 3,89 (2,04-7,41)
Situação conjugal 0,05 0,04c
Sem companheiro(a) 8,97 1 1
Com companheiro(a) 15,49 1,73 (1,01-2,94) 1,77 (1,04-3,02)
Tabagismo 0,02 0,01c
Nunca fumou 16,57 1 1
Fumou ou fuma 11,06 0,67 (0,48-0,93) 0,60 (0,39-0,89)
Consumo de álcool 0,2 0,9
Não 13,33 1 1
Sim 16,97 1,27 (0,87-1,86) 0,99 (0,63-1,55)
Depressão 0,9 0,5
Não 14,30 1 1
Sim 14,67 1,03 (0,58-1,81) 1,2 (0,66-2,21)
Plano de saúde < 0,01 0,2c
Não 12,78 1 1
Sim 24,24 1,90 (1,29-2,80) 1,34 (0,89-2,01)
Problema de saúde bucal 0,09 0,01c
Não 13,64 1 1
Sim 24,14 1,77 (0,91-3,44) 2,21 (1,18-4,14)
Autopercepção de saúde bucal 0,8b 0,3b
Muito ruim/Ruim 10,26 1 1
Regular 14,05 1,37 (0,51-3,71) 1,62 (0,36-7,29)
Boa/Muito boa 14.15 1,38 (0,54-3,55) 1,86 (0,43-8,07)

*Classificação econômica da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa21.

aTeste de Wald de Heterogeneidade.

bTeste de Wald de Tendência Linear.

cVariáveis do modelo final. RP: Razão de Prevalência. IC: Intervalo de Confiança. 1º nível (n = 738); 2º nível (n = 738); 3º nível (n = 734).

Discussão

O presente estudo identificou que, na zona rural de Rio Grande, a população possui alta proporção de edentulismo total (49,9%) e que a prevalência da utilização de serviços odontológicos no último ano foi de 13,9%. Gênero, situação conjugal, grau de escolaridade, nível econômico, tabagismo e problemas de saúde bucal influenciaram a utilização dos serviços.

O uso de serviços de saúde está ligado às barreiras de acesso, que podem impedir ou dificultar a possibilidade de as pessoas utilizarem esses serviços6. Em uma revisão sistemática, Moreira et al.3 apontaram como barreiras de utilização de serviços odontológicos a baixa escolaridade e a baixa renda. Em concordância com a literatura, idosos pertencentes às classes econômicas melhores2,8,12,25-27 e que possuem maior escolaridade2,5,8,9,12,25-30 consultaram mais com o dentista. Cerca de 69,7%, do total de indivíduos, utilizaram o serviço privado em suas últimas consultas, sendo maior que a frequência de 55,2% que o levantamento epidemiológico nacional realizado em 201014 apontou para o uso desses. Esse resultado, aliado à baixa prevalência da utilização de serviços odontológicos deste estudo, pode indicar que os idosos residentes em áreas rurais possuem maiores dificuldades de acesso aos serviços odontológicos públicos, visto que a cobertura odontológica das Unidades de Saúde na zona rural de Rio Grande não chega a 60%31. A baixa adesão aos planos de saúde que cubram consultas com dentista (10,3%) também pode ser um fator para os idosos procurarem com maior proporção o serviço privado autônomo. Outro fator que denota o acesso é a proporção de pessoas que nunca consultaram o dentista32. Aproximadamente 6,6% dos idosos deste estudo referiram nunca ter ido ao dentista. Esse valor foi inferior quando comparado ao dado do SBBrasil 201014, que assinalou 14,7%, mas foi similar quando comparado à região Sul (5,1%), confirmando a disparidade entre as regiões brasileiras14,33,34.

A prevalência da utilização dos serviços odontológicos em países anglo-saxões é quase 5 vezes maior, quando comparada ao nosso estudo, denotando as diferenças existentes em termos de sistema de saúde, de valores contextuais a respeito do uso de serviços e do comportamento em saúde27-29.

Nossos achados, em concordância com estudo realizado em Pelotas1, não mostraram associação entre a autopercepção da necessidade de tratamento odontológico e a utilização de serviços odontológicos, diferindo de resultados previamente relatados, o que pode ser devido a alta taxa de edentulismo em ambas populações26,30. Ainda, quase 40% dos idosos relataram não ter a necessidade de utilizar próteses dentárias. Um motivo para explicar essa relação negativa é o elevado custo de um tratamento protético5. Outros estudos ainda sugerem que a ausência de dentes não é percebida pelos idosos como um problema de saúde bucal significativo35-37. Além disso, diferentemente da medida de avaliação da qualidade da prótese por um cirurgião-dentista, muitos idosos consideram suas próteses mal-adaptadas devido às dificuldades de adaptação e retenção de próteses novas2.

Embora não seja resultado significativo neste estudo, a recente utilização de serviços odontológicos vem sendo inversamente associada à maior idade, sugerindo a diminuição na utilização regular de serviços odontológicos entre idosos e podendo gerar causalidade reversa com as elevadas taxas de edentulismo4,12.

Neste e em outros estudos27,29, as mulheres idosas tiveram 90% mais probabilidade de consultar com um dentista quando comparadas aos homens, o que pode ser devido aos homens procurarem menos os serviços de saúde por fatores culturais e ocupacionais14,26. Os idosos que possuíam um companheiro(a) também consultaram mais, talvez, pelo fato de ter alguém que apoie a busca por atenção à saúde27. Por outro lado, ser fumante ou ex-fumante diminuiu a probabilidade de utilizar os serviços odontológicos. Apesar de não ser uma variável descrita com ocorrência na literatura, sabe-se que fumantes cuidam menos da sua saúde e usam menos os serviços de saúde em geral29.

Como esperado, os idosos que referiram possuir problemas odontológicos consultaram mais com dentista no último ano, tendo uma probabilidade maior em relação aos que não eram portadores de problemas bucais8,12,29. Ainda, em torno de 83,6% dos idosos mencionaram ser tratamentos convencionais a razão de consultarem, em detrimento de apenas 9,5% para consultas de urgência. Essa proporção pode indicar, também, melhor cobertura dos serviços odontológicas, visto que historicamente grande parte dos municípios brasileiros desenvolvia ações de saúde bucal apenas para a faixa etária escolar, designando para os idosos acesso, apenas, a serviços de urgência, geralmente mutiladores32.

O aumento do acesso dos idosos aos serviços odontológicos pode ser atribuído a incorporação gradativa dos profissionais de saúde bucal nas Equipes de Estratégia da Saúde da Família (ESF) e ao programa do Ministério da Saúde chamado “Brasil Sorridente”, que ao instituir a Política Nacional de Saúde Bucal, possibilitou maior atenção e financiamento à saúde bucal2,10,12. Houve maior esforço para promover o aumento da integração da saúde bucal nos serviços de saúde em geral a partir da conjugação de saberes e práticas que apontaram para a promoção, prevenção e vigilância em saúde e para a revisão das práticas assistenciais que incorporaram a abordagem familiar e a defesa da vida38. A atenção especializada foi ampliada e qualificada, em especial, com a implantação de Centros de Especialidades Odontológicas e Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias.

Possíveis limitações metodológicas podem afetar os resultados observados. O viés recordatório tende a inferir nos relatos, porém, como o desfecho foi medido de forma dicotômica, pode ser mais fácil de lembrar se foi ou não ao dentista. Outra possível limitação se refere à resposta da percepção da condição de saúde bucal pelo idoso, quando na presença de cuidador. Essa situação ocorreu apenas em 46 casos. Nos questionários restantes a resposta foi dada pelo próprio entrevistado. Portanto, tendo acontecido a subestimação ou superestimação dessa prevalência, a mesma deve ter sido muito baixa, não afetando maiormente o resultado encontrado. Ainda, os achados referentes ao número de dentes podem não ser precisos por terem sido autorrelatados, e não por exame clínico. Todavia, estudo de coorte brasileira sugere que informações obtidas de forma referida sobre a saúde bucal, quando comparadas ao exame clínico, apresentaram boa sensibilidade39. Como aspecto positivo pode ser assinalado o fato do estudo ter sido realizado em um município brasileiro de porte médio. Seus achados podem ser extrapolados para os municípios similares, podendo dar subsídios sobre as características dos cuidados em saúde bucal de uma zona rural.

Em conclusão, os resultados deste estudo apontam que as condições de saúde bucal dos idosos brasileiros residentes em zona rural são precárias. Os índices de utilização de serviços de odontológicos são baixos, especialmente em homens, sem alfabetização, de nível econômico inferior, sem companheiros(as), ex-fumantes ou fumantes e que referiram não identificar problemas bucais. Planejamentos em saúde devem ser reorganizados com o intuito de priorizar esses grupos populacionais, aprimorando o modelo de atenção à saúde disponível. Além disso, ações intersetoriais de políticas públicas devem buscar melhores índices de educação e renda para a redução das desigualdades destes determinantes sociais que, mesmo nos dias atuais, configuram amplas barreiras de acesso aos serviços odontológicos.

Referências

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Recebido: 29 de Maio de 2018; Aceito: 26 de Novembro de 2018; Publicado: 28 de Novembro de 2018

Colaboradores

FMM Schroeder participou da concepção, delineamento, análise e interpretação dos dados e redação do artigo. RA Mendoza-Sassi participou na análise e interpretação dos dados, sua revisão crítica e da aprovação da versão a ser publicada. RD Meucci participou do delineamento, redação do artigo, sua revisão crítica e da aprovação da versão a ser publicada.

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