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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.7 Rio de Janeiro July 2020  Epub July 08, 2020

https://doi.org/10.1590/1413-81232020257.25602019 

RESENHAS

Brown J. Influenza: The Hundred Year Hunt to Cure the Deadliest Disease in History. Nova York: Atria Books; 2018.

Giovanna Marchetti Bataglia1 
http://orcid.org/0000-0002-5727-960X

Carla Jorge Machado2 
http://orcid.org/0000-0002-6871-0709

1Faculdade de Farmácia, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil.

2Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte MG Brasil.

Brown, J. Influenza: The Hundred Year Hunt to Cure the Deadliest Disease in History. Castro, Antonia García. Nova York: Atria Books, 2018.


No centenário da pandemia de influenza (ou gripe) de 1918, o evento mais letal da história1, artigos revisitam a pandemia, e refletem sobre prognóstico da letalidade e mortalidade de uma epidemia por influenza1,2; evolução da imunidade do hospedeiro frente à doença2; perspectivas de vacinação em populações especiais3. Aos que se interessam por um artigo mais abrangente podem se beneficiar da revisão publicada em 2019 por Nickol e Kindrachuk4, e detalhamento, devem se debruçar sobre a obra Influenza: The Hundred Year Hunt to Cure the Deadliest Disease in History, do médico de emergência Jeremy Brown, que atua nos Estados Unidos da América. A obra é indicada a vários públicos. Mesmo com muitos detalhes sobre mapeamento genético dos vírus, métodos diagnósticos e medicamentos, a recuperação da história da pandemia frente à situação atual da gripe é ponto de partida para futuras leituras de um público menos especializado, abrindo caminho para o avanço do conhecimento. Já para o público mais especializado e da área da saúde, a obra surge como oportunidade de revisitar cem anos de pandemia, sob a ótica de alguém da área do pronto atendimento, que precisa de respostas rápidas a pacientes sintomáticos, que por vezes procuram o serviço de saúde já muito doentes.

Os temas principais são: descoberta do vírus que causou a pandemia de 1918, vacinas e mutações virais, coleta de dados, necessidade de previsão de epidemias. Aborda ainda o lobby da indústria farmacêutica - com enfoque no caso do Tamiflu em 2005.

O primeiro capítulo - Enemas, blodleting, and whiskey: treating the flu - faz um paralelo entre a eficiência dos métodos no início do século e a dos atuais, os clínicos e os chamados ‘domésticos’, concluindo que, apesar do avanço da medicina moderna, a cura para a gripe não foi encontrada. O Capítulo 2 - The Jolly rant: a history of the virus - trata das especificidades dos vírus - que podem se tornar novos e irreconhecíveis ao sistema imune, desafiando a produção de vacinas. O Capítulo 3 - Something fierce: the Spanish Flu of 1918 - aborda origem do nome, tratamentos, mortalidade, e tentativas dos estudiosos em descobrir a razão de tamanha letalidade da gripe espanhola.

A obra se aprofunda a partir do Capítulo 4 - Am I gonna die?: round one, two, three and four - e apresenta as epidemias de gripe de anos mais remotos aos mais recentes, indicando as especificidades destas, com ênfase no H2N2. Enfoca a pandemia de 2009, com rapidíssima capacidade de alastramento, mas Brown enfatiza que a recuperação ocorreu para a maioria dos infectados sem precisar de tratamento médico e relata o que considera o efeito mais duradouro da pandemia de gripe, qual seja, a confusão da população: embora documentos oficiais previssem inverno perigoso e a mídia noticiasse mortes frequentemente, o surto viral não foi mais nem menos letal do que outras gripes comuns. Houve, ainda, acusações que o número de mortes divulgado era exagerado: sobre esse aspecto, editora de periódico reportou que as mensagens que circulavam sobre a alta letalidade da pandemia de 2019 estava associada a interesses da indústria farmacêutica para que esta pudesse vender seus medicamentos no mercado, e que alguns profissionais da Organização Mundial de Saúde eram coniventes com isso, para desconforto geral. Para Brown mesmo com o acúmulo do conhecimento científico sobre a gripe, inadequações de políticas públicas preventivas e de resposta, além da reação da mídia, são obstáculos para o combate efetivo do vírus. Contudo, lacuna da obra é não tratar de gastos diretos e indiretos decorrentes da epidemia, pois ganhos em relação à mortalidade não significaram menores dispêndios para o sistema de saúde em áreas onde as populações foram acometidas pela pandemia de 20194. Assim, a gripe pode não ter sido mais mortal, mas causou impactos negativos nas populações em termos de seus indicadores de morbidade, incapacidade e saúde em geral.

O Capítulo 5 - Ressurecting the flu - analisa estudos do sequenciamento genético do vírus de 1918. Um dos maiores estudiosos da gripe espanhola, Jeffery Taubenberger, subdivide a epidemia de 1918 em ondas e aponta que a identificação de um caso de RNA positivo para influenza da primeira onda poderia indicar uma base genética para a virulência, permitindo que diferenças nas sequências virais pudessem ser destacadas5. A identificação de amostras de RNA da gripe humana anteriores a 1918 ajudaria pesquisadores a compreender o momento da emergência do vírus de 1918, lançando luz a todas as pandemias de gripes5.

O Capítulo 6 - Data, intuition and other weapons of war - traz impressões do autor como médico de emergência. Brown não considera comum em pronto atendimento solicitar exames em caso de gripe: histórico do paciente e sintomas são mais importantes para o diagnóstico. Para o autor os dados não servem para solucionar surtos e epidemias imediatas, mas sim para epidemiologias que precisam de previsão. Nesse ponto, falta clareza sobre a função e o papel da vigilância epidemiológica, que atua em momentos de crise, sendo esta visão um equívoco: em sua lógica imediatista, o autor não compreende que dados do passado podem levar a controle de epidemias futuras. Nesse ponto as ideias do autor se contradizem, pois o próprio Brown dedica boa parte do livro à compreensão de uma epidemia remota. Assim, tal capítulo deve ser lido criticamente. Ademais, é interessante a incursão sobre as iniciativas que tentaram prever a gripe, como o Google Flu Trends, assunto pouco explorado em artigos científicos.

O Capítulo 7 - Your evening flu forecast - trata da suposta sazonalidade da influenza. Esse assunto é controverso e Brown é didático, argumentando que a doença ser sazonal causaria a falsa impressão de segurança em determinadas épocas do ano. No Brasil, autores também vão além da sazonalidade e discutem a gripe conjuntamente à estrutura sanitária no país, trazendo visão abrangente de necessidade de vigilância permanente e de resposta articulada dos governos nos vários tipos de gripe (sazonais ou não)6.

O Capítulo 8 - The fault in our stockfiles: tamiflu and the cure that wasn’t there - aborda os medicamentos, desde o peramivir até o tamiflu, explicitando questões como a aprovação dessas drogas, efeitos colaterais, e questões éticas: para o autor, o impulso para estocar o Tamiflu surgiu de uma recomendação provavelmente tendenciosa ligada a interesses comerciais. Brown analisa profundamente as questões científicas referentes a este medicamento e conclui que o que se sabe é que os antivirais, em geral, parecem proteger alguns camundongos se administrados precocemente. Na sequência, o Capítulo 9 - The hunt for a flu vaccine - avança na procura pela vacina, situando a gripe frente a outras doenças infecciosas mais facilmente controladas pela imunização. Brown sugere ser difícil uma única. De fato, se o objetivo for uma vacina universal contra a gripe que cubra todas as cepas de influenza, novo método de engenharia de vacinas, ainda inexistente, é necessário7. Tal vacina teria efeito neutralizante, inibindo, assim, a infecção7.

O Capítulo 10 - The business of flu - trata de aspectos econômicos referentes à influenza. Explica como certos setores se beneficiam da gripe, como farmácias e funerárias, e a própria indústria farmacêutica. Contudo, a gripe é inequivocamente danosa a toda a sociedade e o custo estimado de um grave surto de gripe nos Estados Unidos, por exemplo, seria de 20 a 25 bilhões de dólares8.

No epílogo, o autor sugere que a memória coletiva da epidemia de 1918 deve ser resgatada, pois o que suscita que os indivíduos permaneçam alertas na prevenção de uma doença é a capacidade da sociedade em compreender seus impactos, e de avaliar o que funcionou no passado para conseguir lidar com o presente, projetando o futuro. Nesse ponto, observa-se referência constante ao passado e ao futuro, feita por um médico de emergência, que lida essencialmente com o presente. A leitura é desafiadora, mesmo porque o próprio autor se envolve com suas concepções de necessidades imediatas e às vezes se perde em alguns argumentos. Por isso, o livro se torna interessante, devendo ser apreciado com leveza e criticamente.

Referências

1 Shanks GD, Wilson N, Kippen R, Brundage JF. The unusually diverse mortality patterns in the Pacific region during the 1918-21 influenza pandemic: reflections at the pandemic’s centenary. Lancet Infect Dis 2018; 18(10):e323-e332. [ Links ]

2 Francis ME, King ML, Kelvin AA. Back to the Future for Influenza Preimmunity-Looking Back at Influenza Virus History to Infer the Outcome of Future Infections. Viruses 2019; 11(2):122. [ Links ]

3 Edwards K, Lambert PH, Black S. Narcolepsy and Pandemic Influenza Vaccination: What We Need to Know to be Ready for the Next Pandemic. Pediatr Infect Dis J2019 ; 38(8):873-876. [ Links ]

4 Nickol ME, Kindrachuk J. A year of terror and a century of reflection: perspectives on the great influenza pandemic of 1918-1919. BMC Infect Dis2019 ; 19(1):117. [ Links ]

5 Taubenberger JK, Morens DM. 1918 Influenza: the mother of all pandemics. Emerg Infect Dis 2006; 12(1):15-22. [ Links ]

6 Costa LMC, Merchan-Hamann E. Pandemias de influenza e a estrutura sanitária brasileira: breve histórico e caracterização dos cenários. Rev Pan-Amaz Saude 2016; 7(1):11-25. [ Links ]

7 Mohn KG, Zhou F. Clinical Expectations for Better Influenza Virus Vaccines-Perspectives from the Young Investigators’ Point of View. Vaccines (Basel) 2018; 6(2):32. [ Links ]

8 Tempia S, Moyes J, Cohen AL, Walaza S, Edoka I, McMorrow ML, Treurnicht FK, Hellferscee O, Wolter N, von Gottberg A, Nguweneza A, McAnerney JM, Dawood H, Variava E, Cohen C. Health and economic burden of influenza-associated illness in South Africa, 2013-2015. Influenza Other Respir Viruses 2019 ; 13(5):484-495. [ Links ]

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