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Psico-USF

Print version ISSN 1413-8271

Psico-USF (Impr.) vol.13 no.2 Itatiba July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-82712008000200016 

RESENHA

 

Educação e cultura africana no Brasil

 

 

Geraldina Porto Witter*

UNICASTELO

 

 

Serano, C. & Waldman, M. (2007). Memória d'Africa: a temática africana em sala de aula. São Paulo: Cortez. 327p.

 

A educação em países multiculturais deve se desenvolver sem discriminações, sem fazer omissões, garantindo, valorizando, respeitando os vários segmentos e etnias que constituem a nação. Considerando a forte presença de afrodescendentes no Brasil, é de se esperar que a escola freqüentemente enfoque a temática africana. O livro de Serrano e Waldman, mestre em Antropologia e doutor em Geografia, ambos preocupados com a Educação, trata dessa questão.

A apresentação da obra começa com uma explicação dos objetivos dos autores e justificativa da existência do texto em face da história do Brasil e da presença negra em sua cultura, muitas vezes inadequadamente tratada em sala de aula.

O primeiro dos sete capítulos apresenta a percepção distorcida que foi criada pelo imaginário europeu quanto aos povos, civilizações e culturas africanas. A hegemonia do pensamento europeu evoluiu de atitude negativa no passado quando a África era vista ainda por muitos como "um continente simplesmente carente de civilização" (p.31). seguem-se sucessivas leituras desqualificadas do continente africano. A globalização não melhorou a situação. Há um afropessimismo. É necessário rever esses aspectos, repensar a África, trabalhar para reapresentá-la ao mundo, o que pede uma revisão e mudanças no que se faz nas escolas. São apresentados nesse e nos demais capítulos dados interessantes, mapas e fotos que enriquecem muito a obra.

O capítulo seguinte é uma caracterização do espaço físico africano desmistificando falsas idéias sobre a região. Os autores consideram aspectos políticos, geológicos, hidrográficos, organização do espaço, flora etc. Estabelecem relações com o Brasil e a ação do negro, por exemplo, plantando a Floresta da Tijuca, como escravo, recuperando condições ambientais, já que na época foi considerada degradada.

Os autores destacam (capítulo 3) as semelhanças e as diferenças que caracterizam a rica variedade africana, mas que sua interação com o mundo, feita via europeus, foi inadequadamente restritiva, padronizada e desvirtuada da realidade dos fatos. Geralmente é uma imagem distorcida e preconceituosa da África que é passada nas escolas, ignorando-se sua história e seu potencial de desenvolvimento.

Após a descrição geral da África, no capítulo 4, fazem uma rápida apresentação da história, das tradições, da produção cultural, dos problemas do impacto que a modernidade está tendo no modo tradicional de vida. Enfocam as sociedades tradicionais africanas a partir do conceito de família extensa, as autarquias e formas de integração da sociedade, a religiosidade, visão de mundo, força social, oralidade e a variada arte tradicional cheia de significados atendendo ao imaginário de cada povo. Fornecem um bom referencial para uma psicologia social que trabalhe com os problemas de etnia e cuide da cultura afro-brasileira. As informações são relevantes no direcionamento de discussões diversas nas escolas.

A presença européia na África é o tema seguinte (capítulo 5) começando pelo mercantilismo que levou "ouro, grandeza e glória" (p. 181) a vários países europeus, mas em detrimento do povo, da cultura, dos estados africanos. A inclusão do capitalismo industrial também teve repercussão na África. Destacam o quadro das colônias de Grã-Bretanha, França, Portugal e Bélgica, sendo que outros países tinham se associado em territórios menores (Alemanha, Itália, Espanha). A formação de atitudes discriminatórias foi fortalecida pelos colonizadores, pelas suas atitudes e pela divulgação de informações desvinculadas do contexto psicossocial dos africanos. São aspectos que ainda hoje marcam a presença do negro nos livros didáticos.

O capítulo seguinte enfoca a heróica resistência e lutas pela independência dos países africanos. A descolonização da África só começa a se processar depois da Segunda Guerra Mundial. O domínio colonial europeu, altamente rentável, foi em geral breve, quando muito durou algumas décadas, mas sempre encontrou uma persistente resistência. A dominação européia em razão dessa resistência teórico-cultural e da tradição que valoriza a independência levou ao desejo de pôr fim à colonização e à busca pela independência. Os impérios europeus desabam, sendo dramática a luta dos países para descolonização, e Portugal o primeiro a chegar e o último a sair. Também discutem o apartheid social na África do Sul. Há muito ainda por lutar. A escola é uma fonte para romper os mitos e as discriminações, mas pouco ainda se fez ou se faz neste sentido.

O sétimo e o último capítulo tem por título "África: desafios e oportunidades". O modelo da Libéria tem sido usado em vários países, sem o devido cuidado, e acabou gerando um neocolonialismo, em que países, nações africanas passam a colonizar outros países ou mesmo tribos do mesmo continente. As reações são fortes. Novas fontes de esperança aparecem e a retomada da tradição

surge como um amplo manancial de esperanças, de criatividade e de releituras escorando novas formas de pensar e de atuar dos africanos (p. 277).

Destacam a religiosidade e a freqüência das pessoas concomitantemente a várias, inclusive o catolicismo, o que ocorre também no Brasil, com o qual fazem um paralelo. Há um alerta para não se reeditarem velhos perigos. As distorções feitas nas narrativas históricas, nos noticiários brasileiros mostram, segundo os autores, atitudes preconceituosas em relação ao continente africano, o que precisa ser corrigido.

A obra apresenta rica ilustração em todos os capítulos, nos quais aparecem também, em destaque, quadros com textos que exemplificam o assunto tratado. A bibliografia é rica e atual, mas a experiência pessoal dos autores é também um suporte essencial para o texto apresentado. Além das fontes bibliográficas, recorreram a outras bases de dados, todos devidamente referenciados.

Os anexos são, por si só, de muito interesse. O primeiro apresenta resumidamente a história de Ginga (1587-1663), rainha quilombola de Matamba e Angola, heroína que resistiu na memória africana e que, no folclore brasileiro, aparece com Ginga, mas cujo nome era Nzinga Mbandi Ngolo. O segundo é história tradicional em Angola, que trata de um rapaz que consegue comprar sua liberdade. O último anexo-texto é uma descrição do reino das Mnasa (imperadores) de Mali. No anexo aparecem documentos sobre a inserção da história da cultura afro-brasileiras nas escolas brasileiras, sobre a política nacional de promoção e integração social, que ainda não chegaram de forma adequada ao sistema educacional, o que torna o livro ainda mais atual e atraente.

Trata-se de livro de grande valia para os interessados na cultura africana, sobre seu impacto no Brasil e sobre as questões educacionais envolvendo avaliação psicológica desse grupo, sua inclusão social de um modo geral e em sala de aula, em particular.

 

 

Sobre a autora:

* Geraldina Porto Witter é doutora e livre-docente em Psicologia Escolar pela USP, professora emérita pela Universidade Federal da Paraíba e pelo UNIPÊ - Centro Universitário de João Pessoa, membro da Academia Paulista de Psicologia e atua como coordenadora-geral da Pós-Graduação Stricto Sensu da Universidade Camilo Castelo Branco.
E-mail: witter@uol.com.br

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