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Psico-USF

On-line version ISSN 2175-3563

Psico-USF vol.24 no.1 Campinas Jan./Mar. 2019

https://doi.org/10.1590/1413-82712019240111 

Artigos

Atitudes de Jovens frente à Pornografia e suas Consequências

Attitudes of Young People towards Pornography and its Consequences

Actitudes de Jóvenes frente a la Pornografía y sus Consecuencias

Cynthia Perovano Camargo Baumel1 
http://orcid.org/0000-0001-6701-3912

Priscilla de Oliveira Martins da Silva1 
http://orcid.org/0000-0002-2922-6607

Valeschka Martins Guerra1 
http://orcid.org/0000-0001-7455-125X

Agnaldo Garcia1 
http://orcid.org/0000-0002-1937-7399

Zeidi Araujo Trindade1 
http://orcid.org/0000-0003-0549-5092

1Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES


Resumo

Esta pesquisa qualitativa objetiva identificar e compreender as atitudes que homens e mulheres têm em relação à pornografia, bem como verificar as vantagens e desvantagens percebidas do consumo desse tipo de material no comportamento sexual e nos relacionamentos amorosos. Foram entrevistados dez homens e dez mulheres nascidos no Brasil, entre 20 e 30 anos de idade. Da análise de conteúdo emergiram quatro eixos temáticos: definição de pornografia, finalidade do uso, mudanças na forma de uso, e impactos do uso no comportamento sexual e no relacionamento amoroso. Os entrevistados, tanto homens quanto mulheres, elencaram prejuízos e benefícios do uso de forma semelhante, e sugeriram que características pessoais possam ser elementos importantes nessa avaliação.

Palavras-chave: pornografia; sexualidade; análise de conteúdo

Abstract

This qualitative research aims to identify and understand the attitudes that men and women have regarding pornography and check the advantages and disadvantages perceived of using this type of material in sexual behavior and in love relationships. Ten men and ten women born in Brazil, between 20 and 30 years old were interviewed. From the content analysis emerged four thematic axes: definition of pornography; purpose of use; changes in the way of use; and impacts of use on sexual behavior and loving relationship. Interviewees, both men and women, have shown similar impairments and benefits of use, and have suggested that personal characteristics may be important elements in this assessment.

Keywords: pornography; sexuality; content analysis

Resumen

Esta investigación cualitativa tiene como objetivo identificar y comprender las actitudes que tienen hombres y mujeres sobre la pornografía y verificar las ventajas y desventajas percibidas del consumo de este tipo de material en el comportamiento sexual y en las relaciones amorosas. Se entrevistaron diez hombres y diez mujeres nacidos en Brasil, entre 20 y 30 años de edad. Del análisis de contenido emergió cuatro temas: la definición de pornografía; el propósito de uso; los cambios en el uso; y los impactos del uso sobre el comportamiento sexual y la relación amorosa. Los encuestados, tanto hombres como mujeres, mencionaron pérdidas y beneficios de utilizar de manera similar, y sugirieron que las características personales pueden ser elementos importantes en la evaluación.

Palabras-clave: pornografía; sexualidad; análisis de contenido

Introdução

A pornografia está presente em nossa sociedade, basta olhar para as bancas de revista ou os sites de busca na internet para se deparar com esse conteúdo. Auxiliada pelas novas tecnologias, como internet, chats, redes sociais e smartphones e aliada à facilidade de acesso, ao anonimato do mundo virtual e à variedade de expressões sexuais retratadas on-line, o uso de pornografia por meio da web tornou-se muito popular (Grov, Gillespie, Royce, & Lever, 2011; Popović, 2011).

Tal nível de curiosidade com relação à pornografia está inserido em um interesse geral relacionado à sexualidade. Esta é definida pela Organização Mundial de Saúde como “um aspecto central do ser humano ao longo da vida que engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução. A sexualidade é vivida e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relacionamentos” (WHO, 2006, p. 5). A maneira como cada indivíduo vivencia a sexualidade é única, pois sofre influências da interação entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais, e que determinam a forma como homens e mulheres amam e praticam sexo (Lins, 2012).

Em termos de atitudes frente à sexualidade, o Brasil é representado na literatura científica como um país moderado (Guerra, Gouveia, Sousa, Lima, & Freires, 2012). Em uma pesquisa realizada no Brasil, em 2005 (Paiva, Aranha, & Bastos, 2008), com a participação de 5.040 homens e mulheres de 16 a 65 anos de todas as regiões do país, observou-se que a alternativa mais escolhida sobre o significado da vida sexual foi “sexo é uma prova de amor pelo(a) parceiro(a)” (46,8% das mulheres e 39,0% dos homens).

Essas crenças acerca do sexo e da sexualidade como um todo são influenciadas pelo sexo biológico e sua categoria social, conhecida na literatura como gênero, que serve como referência normativa para os sujeitos e interfere em suas respostas. A visão que a pessoa tem de si e do mundo contribui para a formação de um sistema de crenças, que se desenvolve ao longo da vida, no contexto das interações sociais, modificando-se com o passar do tempo. Tal sistema influenciará os padrões comportamentais interpessoais e intergrupais, e contribui para a atribuição de uma valência positiva ou negativa ao grupo e ao indivíduo (Petty & Cacioppo, 2018).

Para Okin (2008), “grande parte da experiência real das pessoas enquanto elas viverem em sociedades estruturadas por relações de gênero, de fato depende de qual é o seu sexo” (p. 309). Ser homem ou mulher em nossa sociedade significa estar sujeito a diferentes tipos de estímulos, constrangimentos, limitações e oportunidades. Dessa forma, homens e mulheres percebem o mundo de forma diferente e, consequentemente, lidam com ele de maneira diferente.

Essa diferença também irá se manifestar nos comportamentos e atitudes sexuais. Na metanálise realizada por Petersen e Hyde (2010) a respeito das diferenças de gênero nas pesquisas sobre sexualidade, homens relataram levemente uma maior experiência sexual e atitudes mais permissivas que as mulheres na maioria das variáveis; entretanto, a maior parte das diferenças nas atitudes e comportamentos sexuais é pequena. As exceções são para comportamentos autoeróticos, como masturbação e uso de pornografia, e para sexo casual e atitudes a respeito dele, nos quais homens e mulheres diferem significativamente.

Assim, é importante considerar essa assimetria na investigação das atitudes dos participantes em relação à pornografia, visto que estas são o resultado de crenças positivas e negativas aprendidas ao longo da vida, reforçadas por experiências pessoais significativas e pelo contexto social, com seu sistema de crenças compartilhadas (Pessoa, Mendes, Athayde, & Souza Filho, 2013). A atitude, um conceito clássico da Psicologia Social, é definida por Allport (1935) como uma avaliação global pró ou contra um objeto social. Esse autor reuniu centenas de conceitos existentes e encontrou os seguintes elementos fundamentais para a definição de atitudes: 1) são organizações duradouras de cognições e crenças; 2) possuem uma carga positiva ou negativa; 3) são predisposições à ação; e 4) são direcionadas a um objeto social.

A atitude pode ser operacionalizada em um modelo tridimensional, baseada em informações cognitivas, afetivas e comportamentais. As crenças e informações do indivíduo referem-se ao aspecto cognitivo por meio dos quais se expressam as atitudes, podendo ser de ordem consciente ou inconsciente. O componente afetivo representa as emoções conectadas ao objeto atitudinal, e o comportamental, ao estado de prontidão que possibilita a estruturação de uma intenção para ação (Allport, 1935; Ajzen, 2001). As atitudes não podem ser medidas diretamente, mas podem ser mensuradas a partir da autodescrição individual do sujeito de seu posicionamento frente ao objeto.

No entanto, essa predisposição mobilizada pela atitude não garante sua expressão comportamental. Podem haver disposições pessoais ou fatores situacionais, como as normas de adequação do comportamento e a expectativa de outras pessoas, que sejam importantes e possam ser decisivos para a ação (Ajzen, 2001). Portanto, a atitude dos indivíduos frente à pornografia são avaliações desse tipo de material, que servem como indicativos para o uso e percepção dos efeitos do uso no comportamento sexual e nos relacionamentos amorosos.

Na pesquisa de Træen, Spitznogle e Beverfjord (2004), foram identificadas diferenças significativas etárias e de gênero nas atitudes frente à pornografia, com homens e pessoas mais jovens expressando atitudes mais positivas do que mulheres e pessoas idosas. Foram identificadas três dimensões das atitudes em relação à pornografia: 1. pornografia como meio de aprimoramento sexual, como algo para adicionar sabor às vidas sexuais das pessoas; 2. pornografia como uma questão moral; e 3. poder falar sobre pornografia com os amigos como um “clima social”. Byers e Shaughnessy (2014) investigaram atitudes em relação às atividades sexuais on-line e também encontraram que as atitudes dos homens foram mais positivas do que as mulheres. Concluíram ainda que indivíduos menos religiosos e menos tradicionais sexualmente tendiam a ter atitudes mais positivas e que existe uma conexão geral entre a experiência e as atitudes, com pessoas que fazem uso desse material tendo atitudes mais positivas em relação a ele.

Atitudes frente à pornografia e as consequências do seu uso ainda são pouco estudadas no Brasil , apesar do alto consumo desse tipo de material no país. Informações divulgadas pelo site Pornhub, que oferece conteúdo pornô gratuito, indicam que o Brasil é o 8º colocado no mundo em número de visitantes por dia, com cerca de 200 milhões de acessos (Pornhub Team, 2015).

Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Europa apontam efeitos negativos e positivos percebidos com o uso de pornografia. Alguns dos possíveis prejuízos seriam: a associação entre uso de pornografia e atitudes de apoio à violência contra a mulher (DeKeseredy, 2015) e comportamento sexual agressivo (Hald & Malamuth, 2015); o desenvolvimento de um vício (Olmstead, Negash, Pasley, & Fincham, 2013) e a restrição dos meios de estímulo e excitação sexual à pornografia (Şenormanci, Konkan, Güçlü, & Şenormanci, 2014); a idealização do setting pornográfico, no qual todos têm belos corpos e estão sempre disponíveis para todo tipo de sexo (Bonomi et al., 2014; Tylka & Van Diest, 2015), abalando a autoestima dos indivíduos e gerando prejuízos aos relacionamentos amorosos, por meio de cobranças e comparações (Grov et al., 2011; Tylka, 2015). Como prováveis benefícios são identificados o aprendizado sobre práticas sexuais e descobertas sobre si mesmo e sobre o corpo do outro (Elder, Morrow, & Brooks, 2015); a diversificação das práticas sexuais (Chi, Yu, & Winter, 2012; Olmstead et al., 2013); a normalização dos desejos, ao perceber representadas na pornografia suas fantasias sexuais (Elder et al., 2015); e a aproximação dos casais, aumentando o diálogo e a intimidade (Grov et al., 2011; Popović, 2011).

Entretanto, a própria definição do que seria ou não pornográfico é ainda controversa. Diversas pesquisas não apresentam o conceito de pornografia com que estão trabalhando (Grov et al., 2011; Pyle & Bridges, 2012; Hilton, 2013; Şenormanci et al., 2014; Elder et al., 2015; Hald & Malamuth, 2015), ou apenas citam exemplos do que consideram material pornográfico (vídeos, fotos, entre outros) (Chi et al., 2012; Fahs & Gonzalez, 2014; Tylka, 2015), ou ainda que não há consenso na definição (Daneback, Træen, & Månsson, 2009). Entre as que apresentam são encontradas diversas especificações, como material com conteúdo sexual: exclusivamente hard-core (Bonomi et al., 2014); explícito (Olmstead et al., 2013; Staley & Prause, 2013; Muusses, Kerkhof, & Finkenauer, 2015); explícito, que apresenta cenas de submissão feminina (DeKeseredy, 2015); e explícito, para excitação (Popović, 2011; Sun, Miezan, Lee, & Shim, 2015).

Diante do exposto, nota-se a relevância de um estudo sobre esse tema. Observa-se, atualmente, a grande disponibilidade de informação, que foi possível por meio das novas tecnologias. O discurso sobre sexo e sua exposição na mídia, de forma velada ou explícita, é constante, e o mercado de produtos pornográficos e similares segue em franca expansão (ABEME, 2014). A disponibilidade desse conteúdo, especialmente por meio da internet, permite que, além de adultos, crianças e adolescentes o acessem com maior facilidade e em grande diversidade, e as consequências dessa oferta para os indivíduos e seus relacionamentos precisam ser investigadas.

Assim, o presente estudo tem como objetivo identificar e compreender as atitudes que homens e mulheres têm frente à pornografia, bem como verificar as vantagens e desvantagens percebidas do consumo desse tipo de material no comportamento sexual e nos relacionamentos amorosos. Ressalta-se que este estudo tem como foco os aspectos cognitivos da atitude e não o seu processo formativo. Optou-se por um estudo de natureza qualitativa para explorar a diversidade de temas que envolvem a pornografia. Dessa forma, pretende-se colaborar com o desenvolvimento científico sobre o tema, notadamente para a realidade brasileira, elucidando as vivências sobre sexualidade desses indivíduos. Esse conhecimento poderá contribuir com intervenções a serem realizadas pelos profissionais de saúde, especialmente psicólogos.

Método

Participantes

Foram entrevistados dez homens e dez mulheres nascidos no Brasil. A média de idade dos participantes é de 25,7 (DP = 2,06), variando entre 23 e 30 anos. Quanto à escolaridade, 17 possuem o ensino superior completo, um tem especialização e dois concluíram o mestrado. As áreas de formação foram bastante diversificadas; entre as mulheres, a maior parte é graduada em Psicologia (n = 7). A maioria dos sujeitos reside no município de Vitória (ES) (n = 12); apenas um dos respondentes reside em outro estado, em Ouro Preto (MG). Todos afirmam morar em zona urbana. Dentre os entrevistados, 15 não tem filhos; todos os que têm filhos afirmaram que moram com eles. Quando perguntados se estão em um relacionamento amoroso no momento, 14 afirmam estar em um relacionamento com uma pessoa do sexo oposto e quatro não estão em um relacionamento. Entre os homens, dois estão em um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo. Dentre os que estão em um relacionamento, apenas entre os heterossexuais há os que moram juntos (n = 9). O tempo de relacionamento médio é de 3,9 anos (DP = 2,7), variando entre um mês e oito anos.

Instrumento

O instrumento de coleta de dados foi um roteiro de entrevista semiestruturado (Bauer & Gaskell, 2008) que continha questões referentes à definição de pornografia, finalidade, formas e impactos do uso de materiais com conteúdo sexual no comportamento sexual e no relacionamento amoroso, além das informações sociodemográficas, como idade, escolaridade e renda.

Procedimentos de Coleta e Análise de Dados

A divulgação da pesquisa foi feita por meio eletrônico (Facebook, Whatsapp e e-mail), através das listas de contatos dos pesquisadores e de mailing disparado aos programas de pós-graduação de uma universidade da região sudeste. Cada participante que compareceu foi incentivado a indicar outro da sua rede de amigos e conhecidos, utilizando a técnica de amostragem bola de neve (Bauer & Gaskell, 2008).

As entrevistas foram realizadas individualmente, em uma sala isolada, com duração média de 30 minutos. Os métodos, objetivos e procedimentos da pesquisa foram previamente esclarecidos e consentidos pelos participantes, com assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas vias. O sigilo e anonimato de todos os entrevistados foi garantido em todas as etapas da pesquisa (Protocolo do Comitê de Ética em Pesquisas nº 80663417.0.0000.5542). Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas, e os sujeitos identificados com um novo nome iniciado pela letra J, de jovens.

As informações sobre os dados sociodemográficos foram sistematizadas com o auxílio do software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) para realização das análises estatísticas e descrição dos participantes. As respostas referentes à pornografia foram submetidas à análise de conteúdo, que é conceituada por Bardin (2004) como um conjunto de técnicas que objetiva identificar os conteúdos temáticos presentes em um material, por meio de procedimentos sistemáticos e objetivos de codificação e categorização para organização e análise dos dados, e que permitem a inferência de conhecimentos relativos à temática.

De posse das transcrições, foi realizada a leitura flutuante do material transcrito; a partir desse passo e da revisão de literatura o corpus foi organizado em blocos por sexo, e também pelas questões do roteiro de entrevista. O conteúdo foi categorizado a partir dos recortes em unidades de registro comparáveis e com conteúdo semântico semelhante, ou seja, foi utilizada a análise de conteúdo temática. Essas unidades foram reunidas em subcategorias e, posteriormente, em categorias, e o agrupamento progressivo delas resultou em quatro eixos temáticos de análise. Nos resultados, optou-se por apresentar a quantidade de participantes que mencionou cada uma das subcategorias, o que permitiu uma análise qualitativa do corpus. Nesse caso, o foco da análise recaiu sobre a presença ou ausência do tema (Bardin, 2004).

A validação externa das categorias pode ser realizada tanto pela utilização de juízes quanto pela discussão em grupos de pesquisa (Campos, 2004). No âmbito desta pesquisa foi realizada a discussão com pesquisadores experientes em pesquisas qualitativas que fazem parte de um grupo de pesquisa e assinam o presente manuscrito.

Resultados

As respostas referentes à pornografia e às consequências de seu uso estão descritas a seguir, organizadas segundo os eixos temáticos, com categorias e subcategorias realçadas em negrito e em itálico, respectivamente, e resumidas nas Tabelas 1 e 2, que apresentam também as frequências de resposta. As frases entre aspas e em itálico referem-se a falas dos sujeitos entrevistados.

Tabela 1 Eixos Temáticos, Categorias, Subcategorias da Análise de Conteúdo e Número de Participantes (Homens) 

Eixos temáticos Categorias Subcategorias N
1. Definição de pornografia 1.a Conteúdo sexual 10
1.b Mercado 2
1.c Diversificação 1
2. Finalidade do uso 2.a Satisfação pessoal 7
2.b Benefícios ao relacionamento 3
2.c Aprendizado 3
2.d “Suprir carência” 2
3. Mudanças na forma de uso 3.a Uso no início 3.a.1 Materiais físicos 6
3.a.2 Internet 3
3.a.3 Televisão 2
3.a.4 Acessórios 1
3.a.5 Texto 1
3.b Uso atual 3.b.1 Vídeos 8
3.b.2 Acessórios 2
3.b.3 Imagens 2
3.b.4 Textos 1
4. Impactos do uso no comportamento sexual / no relacionamento amoroso 4.a Negativos 4.a.1 Idealização 3 / 2
4.a.2 Prejuízos à saúde 3 / 2
4.a.3 Estímulo à violência 3 / 1
4.a.4 Contrato da relação 0 / 3
4.b Positivos 4.b.1 Benefícios ao relacionamento 5 / 6
4.b.2 Satisfação pessoal 5 / 3
4.b.3 Aprendizado 5 / 1

Nota. No Eixo Temático 4, o número de participantes com respostas dos impactos do uso no comportamento sexual e no relacionamento amoroso nas subcategorias estão separados por uma barra (/); N = 10.

Tabela 2 Eixos Temáticos, Categorias, Subcategorias da Análise de Conteúdo e Número de Participantes (Mulheres) 

Eixos temáticos Categorias Subcategorias N
1. Definição de pornografia 1.a Conteúdo sexual 8
1.b “Alguma coisa mais suja” 3
1.c Mercado 1
2. Finalidade do uso 2.a Benefícios ao relacionamento 6
2.b Satisfação pessoal 4
2.c Aprendizado 3
2.d “Não vejo graça” 1
3. Mudanças na forma de uso 3.a Uso no início 3.a.1 Aprendizado 7
3.a.2 Iniciação 5
3.a.3 Materiais físicos 3
3.a.4 Real x Cinematográfico 1
3.b Uso atual 3.b.1 Acessórios 7
3.b.2 Vídeos 7
3.b.3 Textos 4
3.b.4 Imagens 2
4. Impactos do uso no comportamento sexual / no relacionamento amoroso 4.a Negativos 4.a.1 Idealização 4 / 4
4.a.2 Prejuízos à saúde 3 / 2
4.a.3 Estímulo à violência 2 / 2
4.a.4 Contrato da relação 0 / 2
4.b Positivos 4.b.1 Benefícios ao relacionamento 6 / 5
4.b.2 Satisfação pessoal 6 / 3
4.b.3 Aprendizado 4 / 2

Nota. No Eixo Temático 4, o número de participantes com respostas dos impactos do uso no comportamento sexual e no relacionamento amoroso nas subcategorias estão separados por uma barra (/); N = 10.

Eixo temático 1: definição de pornografia

Nesse eixo temático, foram aglutinadas as respostas que apresentaram as definições sobre pornografia e materiais pornográficos. Todos os participantes deram uma definição do que é pornografia e a maioria definiu como material com conteúdo sexual, que remete à sexualidade; que retrata situações que envolvam o ato sexual, inclusive com conteúdo erótico e com sexo explícito. Respondentes de ambos os sexos também apontaram uma função de mercado, como um material que adapta a sexualidade para o consumo, com um objetivo mercadológico, de lucro.

Observa-se, porém, uma diferença nas respostas entre homens e mulheres. Para os homens a pornografia também é definida como diversificação, por ser um material que permite explorar outras dimensões da sexualidade. Já para as mulheres aparece como “ alguma coisa mais suja ”, como um material que representa algo ruim, sujo, que “não deveria mexer”; algo “fora dos limites”. Duas das entrevistadas afirmaram “não consigo ver como ruim”, criando suas definições a partir dessa oposição.

“Pornografia seria uma produção com conteúdo de sexo explícito voltada para o consumo erótico da pessoa, para o consumo de realização sexual da pessoa, ou do casal” (José).

“A pornografia é o que o capitalismo fez com o erotismo. É a produção do desejo. É produzir desejo lucrando em cima” (Joana).

Eixo temático 2: finalidade do uso

Os entrevistados foram convidados a elucidar a finalidade do uso de materiais com conteúdo sexual e os respondentes falaram tanto sobre material pornográfico quanto sobre acessórios sexuais. Entre os homens o principal motivo apresentado foi a satisfação pessoal, para ter prazer, relaxar e se masturbar. Alguns apontam benefícios ao relacionamento, como estímulo e variação do ato sexual, ou ainda um aprendizado incitado pela curiosidade e pela diversidade de situações apresentadas. Apenas entre eles o uso para suprir carência foi identificado, assinalando a utilização da pornografia quando se sentem frustrados, carentes ou sozinhos, como atividade para “passar tempo”, ou ainda quando a “sexualidade está em baixa na relação”.

“É, ou passar tempo ou quando eu estou frustrado, com um tipo de carência, vamos dizer assim, afetiva, principalmente, porque eu vejo as duas coisas uma ao lado da outra, a questão afetiva e sexual. [...] Então quando eu me sinto sozinho, eu vejo ou tento pensar em outra coisa para não ver” (Jonas).

Entre as mulheres a subcategoria com maior frequência é benefícios ao relacionamento: usam por incentivo do companheiro; pelo tipo ou qualidade da relação, que traz confiança para esse uso e permite liberdade para explorar a sexualidade; ou ainda como forma de agradar o parceiro, além de servir de estímulo à diversificação na vida sexual do casal. Indicam a satisfação pessoal por meio do prazer, do aumento da autoestima e da masturbação. Mencionam também o aprendizado excitado pela curiosidade; o conhecimento permite escolhas mais qualificadas, ao descobrir do que se gosta; um questionamento do que pode ou não fazer e do que é ser mulher. Apenas entre elas surgiu a resposta “ não vejo graça ” no uso desse material.

“Eu acho que dá mais prazer, pros dois, e também pra gente se sentir atraente, eu acho que tem a ver com autoestima também no meu caso. Eu gosto de colocar uma roupa e me sentir bem e é uma coisa que eu sei que ele gosta. Então como os dois gostam eu acho que rola, que é bom” (Jurema).

Eixo temático 3: mudanças na forma de uso

Foram questionadas as mudanças na forma de uso de material com conteúdo sexual ao longo da vida, entre quando começou a usar e o uso atual, o tipo de material utilizado e também as formas de acesso. Entre os homens, todos iniciaram o uso na adolescência e contam terem tido dificuldade na aquisição de vídeos, revistas e livros, em virtude da idade. O uso no início foi majoritariamente de materiais físicos, como revistas, VHSs e DVDs, que podiam ser carregados, emprestados, levados para a escola, trocados com os amigos - muitas vezes “escondido”. Alguns relatam o uso de fotografias e vídeos vistos na internet, com algumas limitações: a navegação era lenta, por meio de conexão discada, e geralmente havia apenas um computador disponível na residência, localizado em um cômodo de uso comum. Outra fonte recorrente era a televisão por meio da programação da madrugada em alguns canais, com conteúdo sexual não explícito. Foram citados, ainda, lubrificante e camisinha (acessórios) e literatura erótica (texto).

“Tudo começa na escola com as revistas. Aí depois você vai pra casa de um colega, aí mostra uma coisa, mostra outra” (Júlio).

Em relação ao uso atual, entre os homens, a principal mudança observada foi na forma de acesso; antes era um material mais físico, hoje mais virtual e com possibilidade de interação. Nove dos entrevistados usam a internet como fonte para o uso de pornografia, principalmente vídeos vistos em sites e por meio de redes sociais, como o Whatsapp. Dois sujeitos homossexuais relatam como principal mudança o tipo de material escolhido: antes assistiam vídeos com conteúdos heterossexuais, hoje selecionam os exclusivamente homossexuais. Há ainda a utilização de acessórios, como cremes, gel e fantasias para incrementar a relação, e lubrificantes e camisinha, para prevenção. Alguns homens relatam o uso de imagens em revistas masculinas e fotografias em sites, e ainda textos por meio de livros eróticos e blogs na internet.

“Vídeo é fácil de acessar porque a gente consegue na internet, então não tem nenhum tipo de exposição e nenhum tipo de julgamento quanto a isso” (Jonas).

Entre as mulheres o uso no início apresenta-se como ambíguo; se por um lado é um meio de aprendizado, motivado pela curiosidade, que aumenta o conhecimento sobre o próprio corpo e o corpo do outro, sobre prazer e liberdade, por outro desperta sensações como timidez, vergonha, arrependimento e culpa. Algumas mulheres contam que usaram para conhecer o que é sexo e como se faz, antes de fazer sexo “de verdade”. Metade das entrevistadas não havia usado nenhum material com conteúdo sexual antes do relacionamento com o parceiro atual (iniciação). Uma das mulheres relata que iniciou o uso durante a gestação, com o aumento da libido em virtude dos hormônios. As respondentes relatam que no início usavam mais materiais físicos, como revistas, VHSs e DVDs. Também foi mencionada a forma como o material pornográfico é produzido, com uso de maquiagem, luzes e photoshop que permite uma diferenciação entre real e cinematográfico.

“É interessante porque eu nunca tinha usado anteriormente, mas eu acho que desde o começo do namoro a gente teve muita liberdade de conversar isso um com o outro, [...] Eu acho que isso ajudou” (Jurema).

Em relação ao uso atual, há uma diversidade de tipos de materiais utilizados pelas mulheres: acessórios, como óleos, cremes, brinquedos e lingerie, objetivando incrementar e diversificar a relação sexual; e também vídeos, pela internet e pelas redes sociais, como o Whatsapp. Uma das respondentes diz usar vídeos com restrições, pois lhe faz mal a forma como as mulheres são tratadas majoritariamente na pornografia: como um objeto sexual para satisfação masculina. Algumas mulheres relatam o uso de textos, como livros eróticos e informação acadêmica, além do uso de imagens, por meio de fotografias em sites da internet.

“Ganhei de aniversário um consolo, vibrador. Eu uso isso, óleos pra massagem. Gosto de usar até coisa mais de fetiche, tipo uma mascarazinha, alguma coisa assim, quase todos os tipos, eu vou experimentando, joguinhos também, tipo baralho, dadinho, um monte de coisa” (Jandira).

Eixo temático 4: impactos do uso no comportamento sexual e no relacionamento amoroso

Os respondentes foram convidados a dar sua opinião sobre como o uso de material com conteúdo sexual poderia ter alguma influência prejudicial ou benéfica ao comportamento sexual dos indivíduos e aos relacionamentos amorosos. As subcategorias elencadas para comportamento sexual e para relacionamento amoroso se sobrepuseram - à exceção de contrato da relação - e, por isso, foram unificadas em um único eixo temático. Tanto homens quanto mulheres citaram aspectos negativos e positivos semelhantes, que são apresentados a seguir.

Entre os entrevistados houve homens e mulheres que disseram não perceber efeitos negativos do uso no comportamento sexual (homens = 2; mulheres = 2) e no relacionamento amoroso, (homens = 3; mulheres = 1). Um dos aspectos levantado por ambos foi a idealização na comparação do próprio corpo com o corpo dos atores e suas performances, que pode alimentar a insegurança, abalar a autoestima, gerar cobranças na relação e instigar uma forma e um desempenho artificial ao perceber que “a vida real não é assim”. Foram indicados, ainda, prejuízos à saúde física e mental com o uso excessivo do material, destacando a preocupação com o desenvolvimento de um vício e suas consequências. Outra preocupação é que o uso de pornografia pode mudar a forma de se relacionar com as mulheres, colocando-lhes em condições objetais, de submissão e, assim, estimular a violência contra elas, ou ainda pode contribuir com situações de desrespeito ao outro, quando um dos envolvidos se sente estimulado e busca forçar o outro a fazer algo que não deseja. Também foram indicadas ameaças à manutenção da relação e as perdas sofridas por ela em virtude do uso de pornografia por um ou ambos os companheiros, como quando um destes não concorda com seu uso ou o considera como traição, como uma quebra no contrato da relação.

“[...] prejudicar no sentido de cobrança, tanto do parceiro idealizar aquilo. Então ele cobrar da parceira aquelas performances, ou a parceira cobrar dele aquela expectativa que o vídeo [gera]” (Janaina).

“Pode prejudicar caso os dois não concordem, ou um material que um dos dois ache ofensivo” (Jeferson).

Quanto aos efeitos positivos, apenas um dos homens disse não os perceber, para nenhum dos aspectos. Todas as participantes relataram perceber efeitos positivos do uso tanto no comportamento sexual quanto no relacionamento amoroso. Homens e mulheres indicam benefícios ao relacionamento, tanto na vida sexual, como incentivo para tentar algo diferente, “sair da rotina” com criatividade, desinibindo e melhorando o sexo, incrementando a relação; quanto na intimidade, como estratégia para aumentar o diálogo entre o casal e promover maior proximidade, cumplicidade e “autoconhecimento do casal”, além de ser um momento de entretenimento e diversão, se ambos gostarem. Um dos entrevistados que mantém um relacionamento monogâmico à distância diz que o uso de pornografia o auxilia na manutenção da fidelidade. Afirmam que o uso contribui com a satisfação pessoal, por meio da diversificação dos recursos pessoais, como aumento da autoestima; normalização e validação de desejos e fantasias, ao perceber que “não é só você que sente isso”; como possibilidade de “se soltar”, ter prazer e perceber que também tem “direitos na cama”; além do uso para masturbação, para “aliviar a tensão”, facilitando o orgasmo feminino. Contribui, ainda, com a ampliação dos horizontes sexuais, pois pode ser fonte de aprendizado, conhecimento e descobertas sobre si mesmo e também sobre o corpo do outro.

“É de repente ver e mostrar, eu acho isso legal, de conversar mesmo, trocar, porque eu acho que essa abertura que é bacana, de poder assistir junto [filme pornográfico] e falar eu acho isso aqui legal [...]” (Julieta).

“Talvez a questão da autoestima de pensar que eu não sou como aquele ator pornô, mas eu posso ser aquele amante desejável, alguém que cause aquela sensação que a mulher pode ter” (Jonas).

Discussão

A partir do conjunto de dados, verificou-se que a maioria dos participantes definiu pornografia, assim como os acessórios sexuais, como um material com conteúdo sexual. Tal definição de pornografia é semelhante à encontrada no meio científico (Muusses et al., 2015).

No que diz respeito à aproximação com esse tipo de material, para as mulheres, essa é feita de forma ambígua. Por um lado, como algo que pode contribuir para um processo de descobertas e expansão das possibilidades sexuais. O uso de acessórios sexuais, por exemplo, aparece como muito importante para as mulheres nesse sentido (e é mais comum do que entre os homens); além disso, pode influenciar a autoestima e a satisfação. Nesse sentido, a pornografia funciona como meio de aprimoramento sexual, conforme sugerido por Træen et al. (2004). Por outro lado, representa algo sujo, ruim, que traz sensações de vergonha e culpa. Essa barreira é nítida quando se percebe que metade das entrevistadas nunca havia usado qualquer material com conteúdo sexual antes do relacionamento com o parceiro atual. Essa contraposição diz respeito à percepção do uso de pornografia como uma questão moral, como apontado por Træen et al. (2004).

Parece haver, então, um importante componente sociocultural que influencia a escolha de usar ou não esse tipo de material. Isso pode ser explicado em parte pela socialização feminina que é mais restritiva nas experimentações de sua sexualidade se comparada com a socialização masculina (Oliveira & Amâncio, 2002; Petersen & Hyde, 2010). Tais resultados podem indicar uma atitude mais positiva dos homens frente à pornografia quando comparado às mulheres, resultado esse observado por Træen et al. (2004) e por Byers e Shaughnessy (2014), como resultado das crenças construídas no processo de socialização. Apesar das avaliações desfavoráveis sobre o tema, como “alguma coisa mais suja”, que “não vejo graça”, as mulheres fazem uso do material com conteúdo sexual e relatam benefícios ao comportamento sexual e ao relacionamento amoroso. Assim, a predisposição negativa mobilizada pela atitude não impede a expressão comportamental, pois existem disposições pessoais e fatores situacionais que são decisivos para a ação (Ajzen, 2001; Pessoa et al., 2013).

Para as mulheres, parece ser a qualidade da relação, associada ao estímulo do companheiro, que possibilita a exploração do uso de materiais pornográficos, ainda que como forma de agradar o parceiro. Verifica-se que, para algumas mulheres, a busca se dá pela curiosidade e para satisfação do próprio desejo; para outras, apesar de não terem interesse no material, o fazem pelos benefícios à relação e à vida sexual do casal. Esse comportamento parece ser reflexo das crenças e atitudes sobre sexo e relacionamento. Nesse sentido, a literatura demonstra que o sexo pode ser considerado uma prova de amor pelo parceiro (Paiva et al., 2008), ou ainda que seja papel da mulher prezar pela manutenção da relação e ceder às demandas do parceiro, o que possibilita um controle sobre seu corpo e suas escolhas (Narvaz & Koller, 2006). Petty e Cacioppo (2018) sugerem que as expectativas de outras pessoas podem ser fundamentais para mudanças de atitudes acerca de um objeto, assim como experiências pessoais diretas com ele.

Em contrapartida, a aproximação dos homens à pornografia se dá desde muito jovens, a partir do acesso a revistas, filmes e livros, que são trocados entre colegas. O conhecimento e manipulação desses materiais tornam o assunto comum, reduzindo tabus e preconceitos sobre seu uso, e a pornografia aparece como uma fonte de informações sobre o sexo. Esses resultados de fato demonstram que a socialização masculina é mais permissiva nas experimentações de sua sexualidade, com estímulos para que a explorem nas diferentes interações sociais (Oliveira & Amâncio, 2002), apresentando atitudes sexuais mais permissivas que as mulheres, especialmente para comportamentos autoeróticos, como masturbação e uso de pornografia (Petersen & Hyde, 2010). Entre eles, o uso principal é para satisfação pessoal. Nesse sentido, as experiências pessoais com a pornografia e o “clima social” gerado pela socialização masculina tornam o uso desse material mais aceitável para os homens (Træen et al., 2004; Pessoa et al., 2013).

Apenas entre os homens foi identificado o uso da pornografia para “suprir carência”, consonante com outras pesquisas já realizadas. Popović (2011) traz evidências que homens (e, eventualmente, algumas mulheres) podem ser atraídos para a pornografia quando se sentem solitários e frustrados sexualmente. Muusses, Kerkhof e Finkenauer, (2015) assinalam que maridos em relacionamentos insatisfatórios utilizam mais pornografia e que o maior uso de pornografia pelos maridos contribui para a insatisfação, em um efeito aparentemente recíproco. Nesse contexto, o uso talvez funcione como uma maneira de escapar do relacionamento insatisfatório, sendo a pornografia uma alternativa atraente para a baixa de atividades sexuais no relacionamento. Outra pesquisa aponta, ainda, que alguns homens em relacionamento tendem a preferir a pornografia ao sexo real; como uma fonte infinita de mulheres e atos sexuais diversificados, a pornografia parece mais emocionante (Sun et al., 2015), além de não demandar um investimento (emocional, sexual, de tempo, entre outros) na relação real com a parceira.

Uma preocupação de homens e mulheres com o uso de pornografia é que esta, ao reproduzir a expressão da cultura patriarcal, possa influenciar a compreensão dos papeis de gênero e comportamentos sexuais esperados em um relacionamento, partindo da premissa de subordinação das mulheres, normatizando-as, colocando-lhes em condições objetais, de submissão e, assim, estimular a violência, ou ainda contribuir com situações de desrespeito no relacionamento, nas quais um dos parceiros pode ser forçado a fazer algo que não deseja. Essa associação entre consumo de pornografia e comportamento violento já foi identificada na literatura. Em outras palavras, o uso de pornografia em excesso está associado a atitudes de apoio a violência contra a mulher (DeKeseredy, 2015) e comportamento sexual agressivo em homens que tem baixos escores para agradabilidade (Hald & Malamuth, 2015).

Homens e mulheres elencam como impacto negativo o uso excessivo do material com conteúdo sexual e um possível prejuízo à saúde física e mental, destacando a preocupação com o desenvolvimento de um vício e seus efeitos. Tal impacto negativo nos relacionamentos e na saúde física e mental já foi observado na literatura, pela menor disponibilidade do parceiro para interação e, especialmente, pelo uso em segredo (Popović, 2011; Pyle & Bridges, 2012), além de outras consequências danosas decorrentes de um vício, como isolamento social, dificuldade no cumprimento das atividades diárias e apenas alcançar a excitação sexual com o uso de pornografia (Hilton, 2013; Şenormanci et al., 2014).

Não é possível generalizar os prejuízos a todo relacionamento, pois cada relação tem a sua dinâmica. Embora o uso de pornografia possa ser considerado traição quando os envolvidos não concordam com o seu uso, e ser classificada como quebra de confiança, para um dos sujeitos desta pesquisa, por exemplo, a utilização de pornografia é benéfica ao relacionamento na medida em que favorece a manutenção da monogamia enquanto o casal está distante. É possível que algumas das ameaças percebidas à manutenção da relação em virtude do uso de pornografia por um ou ambos os companheiros sejam reflexos da condição da relação, notadamente quando o casal já possui algum problema prévio relativo à confiança, ao sexo ou, ainda, quando os parceiros têm uma percepção negativa da pornografia em si (Muusses et al., 2015), uma vez que essa interpretação depende de características individuais e socioculturais.

Outro aspecto negativo levantado por ambos foi a idealização do setting pornográfico, que não é reproduzível numa relação sexual real. Diversas pesquisas indicam que essa comparação com um corpo ideal, um desempenho ideal e um parceiro ideal resultam em pressão nos indivíduos e naqueles com os quais se relaciona, contribuindo com cobranças na relação (Bonomi et al., 2014; DeKeseredy, 2015; Tylka & Van Diest, 2015) gerando uma percepção de si negativa, abalando a autoestima, e trazendo insegurança no estabelecimento de relações mais próximas (Grov et al, 2011; Staley & Prause, 2013; Tylka, 2015). Embora a internalização desses modelos idealizados não seja exclusiva da pornografia, visto que permeia toda produção midiática, parece ser intensificado nesse aspecto, pela sua grande disponibilidade, em especial na internet (Grov et al., 2011; Popović, 2011).

As preocupações com os impactos negativos do uso estiveram presente nos discursos dos homens e mulheres entrevistados, na medida em que a pornografia parece ser uma fonte de informação sobre sexo e ter uma influência nas práticas sexuais. Os prejuízos apontados seriam decorrentes da comparação de uma sexualidade cinematográfica com uma sexualidade real. Essa discrepância aponta para a necessidade de incluir o uso de pornografia como tópico de educação sexual, ensinando sobre as influências da mídia e o não realismo desse material, sobre a sexualidade representada e a sexualidade vivida, discutindo sobre o que leva ao uso e quais são os possíveis benefícios e efeitos nocivos desse tipo de consumo (Chi et al., 2012).

Entre os entrevistados, a pornografia parece ser a primeira fonte de informação sexual, contribuindo com o aprendizado sobre práticas sexuais e descobertas sobre si mesmo e sobre o corpo do outro, dados já encontrados em pesquisa anterior (Elder et al., 2015). Os acessórios sexuais também cooperam nesse processo de exploração sensorial e de ampliação dos horizontes sexuais. Esse conhecimento colabora com a satisfação pessoal, não apenas por meio da masturbação, mas como ferramenta de diversificação das práticas sexuais (Chi et al., 2012; Olmstead et al., 2013) e de normalização e validação de desejos e fantasias sexuais (Elder et al., 2015).

Homens e mulheres indicam que o uso de material com conteúdo sexual traz benefícios ao relacionamento. Esse resultado também foi encontrado em pesquisas anteriores. A diversidade de situações que podem ser retratadas com esse material contribui para a criatividade do casal, convidando a “sair da rotina” (Chi et al., 2012), além de funcionar como ferramenta para que os casais falem e experimentem suas fantasias (Fahs & Gonzalez, 2014) e para aumentar o diálogo entre o casal e promover maior proximidade e cumplicidade (Grov et al., 2011; Popović, 2011).

Considerações Finais

A percepção dos respondentes sobre a pornografia e as consequências de seu uso indicam uma perspectiva tanto de prejuízos quanto de benefícios, consonante com outras pesquisas realizadas sobre essa temática. A pornografia aparece ora como negativa, estimulando comportamentos violentos, idealizados ou levando ao vício, ora como positiva, contribuindo com o aprendizado sobre sexualidade e fortalecendo as condutas sexuais e os relacionamentos amorosos.

Os entrevistados, tanto homens quanto mulheres, elencaram preocupações e contribuições de forma semelhante e sugeriram que características pessoais possam ser elementos importantes na avaliação do consumo desse tipo de material. O sexo parece ser uma dessas características, pela forma como os sujeitos se aproximam e iniciam o uso do material, por exemplo.

As atitudes majoritariamente positivas encontradas frente à pornografia nesse estudo podem estar associadas à faixa etária dos participantes, por serem pessoas mais jovens (Træen et al., 2004) e que já fizeram uso desse tipo de material (Byers & Shaughnessy, 2014). Outra possível limitação desta pesquisa é que a chamada para as entrevistas foi feita de forma aberta e a maioria dos entrevistados e entrevistadores não se conheciam. Esses indivíduos aceitaram conversar com desconhecidos sobre sua sexualidade, o que nos leva a refletir que esse público em particular tem uma postura mais aberta para o diálogo sobre sexo.

Este artigo não pretende esgotar tal discussão, mas trazer elementos para enriquecê-la, auxiliando na compreensão da realidade brasileira. Futuras pesquisas podem colaborar com o debate diversificando o público-alvo a ser investigado, com especial atenção aos elementos específicos trazidos por homens e mulheres. É preciso ampliar os canais para que se possa falar sobre a sexualidade humana, contribuindo para vivências menos limitadoras e mais saudáveis.

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Recebido: 04 de Julho de 2017; Revisado: 20 de Junho de 2018; Aceito: 01 de Agosto de 2018

Contato com os autores: Cynthia Perovano Camargo Baumel Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal do Espírito Santo - UFES, Prédio Lídio de Souza, Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras, Vitória-ES, Brasil CEP: 29075-910

Cynthia Perovano Camargo Baumel é psicóloga na Universidade Federal do Espírito Santo, onde desenvolve ações de prevenção e promoção à saúde junto a servidores e estudantes. Possui graduação em Psicologia, especialização em Saúde Coletiva, mestrado em Psicologia Institucional e é doutoranda em Psicologia (UFES). Tem interesse, dentro da Psicologia, nos aspectos relacionados à Saúde Coletiva, especialmente à Saúde do Trabalhador, e à Psicologia Clínica e Psicoterapias, como Sexualidade Humana, Hipnose Ericksoniana e Psicologia Positiva. ORCID: 0000-0001-6701-3912 E-mail: cynthiapcbaumel@gmail.com

Priscilla de Oliveira Martins da Silva é doutora, mestre e graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: Psicologia Organizacional e do Trabalho e Teoria das Representações Sociais. Atualmente é professora do Departamento de Administração e professora do Programa de Pós-Graduação em Administração e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo. ORCID: 0000-0002-2922-6607 E-mail: priscillamartinssilva@gmail.com

Valeschka Martins Guerra é doutora em Psicologia Social pela University of Kent (Inglaterra), mestre e graduada em Psicologia, especialista em Sexualidade Humana pela Universidade Federal da Paraíba e professora do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo. Tem experiência nas áreas de Psicologia Social, com interesse nos seguintes temas: Valores humanos, Bem-estar, Atitudes, Códigos morais e Cultura de honra. ORCID: 0000-0001-7455-125X E-mail: valeschkamartins@gmail.com

Agnaldo Garcia é doutor em Psicologia Experimental pela USP (2001), professor titular do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, editor-chefe da revista Interpersona: An International Journal on Personal Relationships, representante do Brasil junto à Sociedade Interamericana de Psicologia e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq Nível I-B. ORCID: 0000-0002-1937-7399 E-mail: agnaldo.garcia@uol.com.br

Zeidi Araujo Trindade é professora titular em Psicologia Social da Universidade Federal do Espírito Santo, vinculada ao Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Temas de interesse: práticas sociais e cultura, relações de gênero, paternidade/maternidade e juventude. ORCID: 0000-0003-0549-5092 E-mail: zeidi.trindade@gmail.com

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