SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 número43Desenvolvendo atitudes, conhecimentos e habilidades dos estudantes de medicina na atenção em saúde de pessoas surdasTeses índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Interface - Comunicação, Saúde, Educação

versão impressa ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.16 no.43 Botucatu out./dez. 2012

https://doi.org/10.1590/S1414-32832012000400020 

LIVROS

Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde

 

 

Kleidiana Cássia Silva Borges; Adriana Estevão ; Marcos Bagrichevsky

Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Universidade Federal do Espírito Santo. Avenida Fernando Ferrari, 514. Goiabeiras, Vitória, ES, Brasil. 29.075-910. kleidiana.borges@ufes.br

 

 

"Se correr o bicho pega,
se ficar o bicho come":
metáforas e paradoxos do risco

Que nos perdoe o leitor por este título lúdico (talvez um tanto quanto inconveniente aos rigores da academia), mas foi irresistível. Não para roubar a cena. Empenhamos-nos em traduzir, a partir desse dilema-síntese popular/literário (expediente, aliás, usualmente empregado pelo pesquisador que encabeça a autoria do trabalho em apreço), a explosão de sentidos que nos podem interpelar os jogos de palavras, quando acionados. Dispositivo do qual lança mão o livro Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde, com maestria e pertinência, alternando tons ora jocosos, ora sarcásticos (mas sempre de modo consequente).

Indiscutivelmente, os riscos encontram-se na 'ordem do dia'. Em junho do ano passado, a Revista Radis nº 106 (2011) publicou um dossiê bastante ilustrativo e instigante sobre a temática. Nele, argumentações de experts no assunto traduziam substanciais preocupações com a polifonia contemporânea que as acepções do risco acolhem: o modo como estão interligadas à vida cotidiana (sem que, na maioria das vezes, percebamos isso); os efeitos deletérios daí decorrentes, que resultam, invariavelmente, em sofrimento do corpo e da alma; e as problemáticas características dos discursos sanitários tecnocientíficos, que, em grande parte, reduzem as nuances da vida, em toda sua complexidade, à mera capacidade racional de tomar escolhas, suprimindo nossas subjetividades existenciais e mascarando o contexto iníquo que frequenta de forma persistente a realidade brasileira.

É nessa seara que a obra publicada pela Editora Fiocruz, em 2010, e assinada por Luis David Castiel, Maria Cristina Guilam e Marcos Ferreira, mergulha, investindo visceralmente na problematização do risco e nos deixando uma advertência: não se pode interpretá-lo como um constructo (sanitário, ideológico, epistemológico) isento de contradições e conflitos, muito menos, se deve utilizá-lo/apreendê-lo somente a partir de sua funcionalidade instrumental epidemiológica.

As narrativas e ressignificações pós-modernas associadas aos riscos ultrapassam em muito a dimensão dos fenômenos bioestatísticos, sendo necessários outros investimentos teórico-metodológicos densos e uma leitura crítica de mundo, sensível aos imperativos da sociedade manufaturadora de riscos em larga escala (Beck, 2011) que habitamos e que nos habita.

Entre os aspectos abordados no livro, destacamos o enfoque dado ao papel da difusão científico-midiática de informações relativas ao risco. Em particular, devido à geração de uma espécie de sentimento coletivo que sinaliza um cotidiano irremediavelmente eivado de situações perigosas, do qual estaríamos (e permaneceríamos) à mercê, se não nos prevenirmos 24 horas por dia, ao longo da vida.

O exponencial crescimento de estudos sobre o tema nos meios de comunicação também é problematizado: a relação de interdependência com esse tipo de informação do público (receptor), persuadido pelas 'descobertas mais recentes' da ciência que, em última análise, levam-no a buscar e tornar-se consumidor de produtos e/ou serviços (em geral, disponíveis no mercado) sob a promessa de que estes evitariam problemas de toda ordem.

Contudo, apesar de as expectativas e desejos contemporâneos serem capturados pelos fortes apelos retóricos anunciados por instâncias como o complexo médico-industrial e suas estratégias institucionais de determinação/avaliação/gerenciamento dos riscos, raramente conseguimos aplacar nossas angústias diante das ameaças onipresentes, por mais que nos esforcemos no cumprimento rigoroso de preceitos preventivos receitados. Pelo contrário, a despeito de tanta 'recomendação especialista' a circular, a ansiedade parece só crescer no dia a dia. Segundo os autores, esse 'ambiente riscofóbico' incita as pessoas a assumirem comportamentos que incorporam ou excluem determinados 'estilos de vida', os quais implicam a administração de modos de viver nem sempre acessíveis/viáveis à maioria da população.

A obra está organizada em quatro capítulos e compõe a coleção Temas em Saúde. No primeiro capítulo, são tratados aspectos teórico-metodológicos do conceito de risco, sua aplicabilidade nas diversas áreas e as disciplinas que dele fazem uso: a economia, a epidemiologia, a engenharia e as ciências sociais. Nas três primeiras predomina o enfoque quantitativo; na última, as abordagens qualitativas são as mais frequentes.

Discute-se, ainda, a 'noção funcional' de risco, articulada ao emprego de indicadores epidemiológicos, para comparações intra- e intergrupos quando se busca medir a morbidade de coletivos populacionais. Os pesquisadores lembram que essa dimensão quantificadora dos fatores de risco à saúde vem acompanhada de determinada racionalidade, prevalente nas maneiras de explicar os processos de adoecimento.

Na mesma seção, os termos 'risco', 'associação' e 'causalidade' (e as relações entre eles) são pormenorizados, levando-se em conta sua recorrência no discurso epidemiológico dominante, que homogeniza e reduz os fenômenos da tríade saúde-doença-cuidado a mecanismos de apreensão lógica, estatística.

O segundo capítulo examina a questão do estilo de vida saudável, vinculada a certas abordagens discursivas de promoção da saúde. Destaca que, em geral, estas se mantêm numa posição hegemônica de culpabilização da vítima. E analisa com rigor a perspectiva comportamentalista de promoção da saúde, criticando as estratégias de redução dos riscos a ela conectada.

A relação entre posturas arriscadas e estilos de vida é posta em xeque justamente porque não considera a processualidade da ambiência social, nem consegue apreender e decodificar emoções, desejos e sensações que influenciam e amoldam comportamentos. O cerne da problematização recai sobre a tirânica apologia à 'vida ativa', 'saudável', sustentada, em boa parte, por argumentações de estudos epidemiológicos que evocam a noção de 'autonomia pessoal' como sinônimo de autocuidado e circunscrita apenas a perspectivas individualizantes. Também são tecidas críticas sobre o modo como a promoção da saúde vem empregando tais discursos para demonizar o sedentarismo e reafirmar incansavelmente (a despeito dos contextos vividos) que 'atividade física é sinônimo de saúde'.

O mote do terceiro capítulo centra-se nos efeitos que a presença do risco genético produz no campo sanitário. Práticas médicas como as de (des)aconselhamento da gravidez de mulheres, baseado nas atuais testagens genéticas pré-natais, a fim de se evitar/detectar condições supostamente indesejáveis e/ou perigosas, são ilustrativas de tais repercussões. Os autores chamam de 'genetização da medicina' o processo de colonização social que extrapola a própria área da saúde. Inúmeras interpretações análogas, restritivas, medicalizantes, vêm sendo aplicadas em esferas não correlatas, sem falar na discriminação genética dirigida a famílias e pessoas. Mencionam, ainda, que, nos meios de comunicação de massa, as explicações genéticas têm servido para doutrinar moralmente fatos, desejos e aspectos da vida humana (por exemplo, a obesidade, preferências sexuais, práticas estéticas, criminalidade etc.), estratégias essas que, em outros tempos históricos, foram rechaçadas e reconhecidas como eugênicas.

O quarto e último capítulo se ocupa do debate sociocultural sobre o risco (já destacado no início deste texto), a partir de sua disseminação midiática, da velocidade das tecnologias de informação e dos consequentes excessos daí originados, que acabam por aumentar em nós a sensação de ameaça cotidiana em distintas esferas do viver. Também é abordada a problemática do risco na adolescência. Tal como o resto da sociedade, exposto aos apelos do consumismo e do individualismo, os adolescentes, em busca de suas identidades, tornam-se mais suscetíveis, por exemplo, ao uso de substâncias ou de intervenções estéticas, a fim de promover modificações corporais que os legitimem socialmente.

Outra noção trabalhada criticamente é a da 'responsabilidade pessoal'. Tomada como estratégia central nas campanhas e programas de prevenção aos riscos, ela tem sido utilizada para execrar os sujeitos que não demonstram capacidade de vigiar-se, autorregular-se. Os autores contrapõem essa perspectiva à ideia de livre-arbítrio (como direito inalienável de decidir, fazer escolhas) e à questão da desrresponsabilização do Estado com o bem-estar social dos cidadãos governados sob sua tutela.

A tematização da longevidade dá fecho ao livro, como mais uma das metáforas contemporâneas a partir da qual se pode contrastar a conflitiva premência de viver correndo riscos com o imperativo de lidar de modo prudente e racional com esse quadro.

Enfim, trata-se de uma importante obra, recomendada não só aos pesquisadores da saúde coletiva, mas, também, de outras áreas, uma vez que oferta análises ricas e multifacetadas sobre o risco, levadas a cabo com o rigor e didatismo necessários, inclusive àqueles ainda 'não-iniciados' no estudo do tema.

 

Referências

BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. 2.ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2011.         [ Links ]

CASTIEL, L.D.; GUILAM, M.C.F.; FERREIRA, M.S. Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010.         [ Links ]

LOPES, C.R. Risco, conceito fundamental em permanente discussão. Radis,n.106, 2011. Disponível em: <http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/106/reportagens/risco-conceito -fundamental-em-permanente-discussao>. Acesso em: 20 jul. 2011.         [ Links ]

 

 

 

Recebido em 15/05/12
Aprovado em 10/07/12

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons