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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.4 Brasília Dec. 2002

https://doi.org/10.1590/S1414-98932002000400006 

ARTIGOS

 

Da cultura do dentro à etnicidade do fora: o devir como desafio à psicologia brasileira1

 

 

Édio Raniere da Silva

Acadêmico do 8° semestre de Psicologia da Universidade Regional de Blumenau e membro do Grupo de Estudos Deleuzeanos Oí é Uá = Uá!!!

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Por meio dos cruzamentos experienciados entre o XIV Erep-Sul - Encontro Regional dos Estudantes de Psicologia - e o II Fórum Social Mundial, o artigo se propõe a discutir o desafio da pluralidade étnica para a Psicologia brasileira. Demostra haver duas pluralidades possíveis: a do folclore, da essência do dentro, e a da fronteira, da etnicidade do fora, chega, conseqüentemente, a uma Psicologia da homogeneização, cuja intervenção se debruça sobre o indivíduo; e numa outra que, experimentando o devir por desafio, pretende trabalhar com as relações do múltiplo. O texto aponta o devir como desafio à psicologia plural.

Palavras-chave: Pluralidade étnica, desafio, devir.


ABSTRACT

Through the intersection experienced between the XIV Erep-Sul - Regional Meeting of Psychology Students - and the II World-wide Social Forum, this article proposes to discuss a defiance of ethnic multiplicity to the Brazilian psycology. It shows the existence of two possible multiplicities: the folklore, the essence of in, and the frontier, the ethnicity of out. It reaches, consequently, a Psychology that makes people homogeneous, who mediate above the individual and another that, experiencing the 'come to be' a challenge, intends to deal with the relations of multiple. The text shows the 'come to be' as a challenge to the plural psychology.

Keywords: Multiplicity race, challenge, 'come to be'.


 

 

Pluralidade étnica, um desafio à Psicologia brasileira? A que se está convocando tantos e tão diferentes? Que Psicologia poderia se pretender plural? Afinal, qual é realmente a questão?

Experimentamos, compartilhamos e fomos provocados por esse desafio no cruzamento de dois encontros: XIV Erep-Sul - Encontro Regional dos Estudantes de Psicologia da Região Sul - que aconteceu entre 25 e 30 de janeiro de 2002, na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, e II Fórum Social Mundial a suceder o supracitado uma semana depois, na cidade de Porto Alegre.

O objetivo deste artigo é refletir sobre o desafio da pluralidade étnica à Psicologia brasileira, tomando tal experiência como norte. Para que isso seja possível, dividimos este trabalho em seis quadros. Num primeiro momento - Cultura, uma mansão de quartos semióticos - demostra-se a cultura do dentro, da essência e do folclore como fábrica de corpos cerceados na afirmação de sua diferença.

Corpos que existem apenas em direção ao ideal de ser: Indivíduos, homens de plástico. Descreve-se a cultura em três núcleos semânticos - Valor, Alma e Mercadoria - e pergunta-se da possibilidade de se proclamar o direito à singularidade em meio a essa produção.

A seguir - A Invenção da Etnia - uma breve genealogia do conceito, que pretende situar o leitor ao campo de discussão do trabalho, pontuando o nascimento, os debates clássicos e contemporâneos sobre etnia.

Em 'Da Cultura do Dentro à Etnicidade do Fora' seguem-se os passos de Barth (1998), para sair do espaço fixo da essência e habitar o território em movimento da fronteira. Uma rápida demarcação aponta duas possibilidades para a Psicologia plural: uma psicologia da 'cultura do dentro folclórico', que invariavelmente desemboca no indivíduo, e uma outra, da etnicidade do fora, onde é possível encontrar-se com o devir.

'Indivíduo, Identidade e Niilismo: possibilidades de reterritorialização a partir da pluralidade étnica' mostra o confronto entre essas duas psicologias, preferindo a segunda como realização da Pluralidade Étnica, pois consegue ultrapassá-la.

No espaço que surge logo a seguir - Multíplice Rizomático ou Redes Transversais de Legiões -discute-se a necessidade de a Psicologia acolher o múltiplo, dada a morte do indivíduo. Fala da positividade de uma não-promessa e da incoerência de uma Psicologia plural que pretenda ainda debruçar-se sobre esse que foi a óbito.

E, finalmente, em 'Identidade Local X Identidade Global ou XIV Erep-Sul X II Fórum Social Mundial', uma nova brisa começa a soprar; nela navegam sussurros a dizer, em leves ondas senoidais: Estamos. A experiência dos dois encontros é retratada de forma a sugerir o Estar como linha de fuga ao Ser. Ou seja, a multiplicidade toma definitivamente o espaço antes dado ao homem de plástico.

A tentativa deste trabalho é apontar para uma psicologia da diferença, da fronteira, do confronto. Sim! Uma Psicologia plural, mas que trabalhe com a pluralidade. Que consiga respirar os matizes da etnicidade sem homogeneizar todos os processos de singularização que dela emergem. Que enfrente as problemáticas de uma etnia sem sufocar a singularidade que a compõe. Ou seja, uma psicologia que consiga acolher o devir.

 

Cultura, uma Mansão de Quartos Semióticos

Século XIX, países industrializados do continente europeu necessitam inventar consumidores.

Necessitam ampliar territórios. É preciso expandir o mercado, é preciso apresentar as novidades, oferecidas pela recente tecnologia, aos sujeitos que as desconhecem. E mais que isso: proporcionar a eles o desejo. Sim! O desejo incontrolável, insaciável e irrevogável de consumir.

Junto a isso, dogmas do cristianismo despencam do trono interpretativo por não suportarem mais a realidade. Tentativas biológicas e sociais conectadas aos equipamentos darwinianos explicam o mundo através da teoria evolucionista. O homem assume, em companhia dos animais, a categoria de espécie em evolução.

Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Esta é uma relação muito íntima (Santos, 1986: 31).

Fragmentos rizomáticos2 . Pedaços de uma rede de conexões do conceito de cultura. Uma máquina que funciona ligada aos desdobramentos da ciência e aos interesses político-econômicos de algumas nações. Linton (1991), lubrificando algumas engrenagens desse sistema, define cultura como o resultado de conduta padronizada e compartilhada por uma determinada sociedade. Ou seja, "uma cultura é a configuração de conduta aprendida e resultados de conduta cujos elementos componentes são partilhados e transmitidos pelos membros de uma sociedade particular" (Linton, 1991:43).

Cultura, herança, acervo, catálogo. Um depósito de informações tão precisos e sistemáticos que nada, em nenhum momento, escapa ao padronizado. Um manual de comportamentos que podemos consultar sempre que estivermos em dúvida sobre nós e sobre os outros.

Singularidades que respiram através de próteses pulmonares. O sujeito existe como negação, ele é sempre referenciado num modelo, num espaço comum. O acervo cultural define os papéis, cabendo a cada indivíduo desempenhá-lo mais e melhor. Neste caso, fabrica-se um corpo que, cerceado na afirmação de sua diferença, existe apenas em direção ao ideal de ser.

Além disso, é mais freqüente que as variações da dita série caiam dentro de certos limites facilmente reconhecíveis, e que podem ter ficado estabelecidos por considerações de ordem puramente prática. É o caso da cestaria, em que só há poucas maneiras de fazer o tecido em espiral. Podem esses limites ser também fixados por sanções sociais, como se verifica no fato de contar toda sociedade com determinadas técnicas para a celebração do casamento ou para se aproximar de um superior, a fim de pedir um favor, e, em ambos os casos, os comportamentos que se afastarem do normal não obterão resultados almejados (Linton, 1991: 54).

Nas paisagens desenhadas até então percebe-se quanto o conceito de cultura pode ser reacionário. Uma ferramenta maniqueísta construída para melhor subjugar e dominar o outro, o diferente. Esse dispositivo tem servido para criar territórios cristalizados, espaços fragmentados. Quartos de uma luxuosa mansão de plástico3, onde cada qual é delimitado em sua cela, em seu folclore, em sua semiótica. Dimensões de um panóptico étnico. Imagens de um sistema de controle que busca capturar todos os processos de singularização para registrá-los como personagens em volumosos manuais de diagnóstico estatístico. Uma casa cuja biblioteca permanece sempre de portas abertas, oferecendo confortavelmente, num dia frio, um bom lugar para ler um livro, permitindo, assim, que todos apreendam as dimensões e os lugares de seus hóspedes.

O conceito de cultura é profundamente reacionário. É uma maneira de separar atividades semióticas (atividades de orientação no mundo social e cósmico) em esferas, às quais os homens são remetidos. Tais atividades, assim isoladas, são padronizadas, instituídas potencialmente ou realmente e capitalizadas para o modo de semiotização dominante - ou seja, simplesmente cortadas de suas realidades políticas (Guattari, 2000: 15)

Bem alojados em quartos semióticos, os sujeitos aqui retratados são, ao mesmo tempo, hóspedes e personagens do acervo literário dessa mansão. A irônica problemática que habita essa casa é a homogeneidade resultante do isolamento folclórico das etnias, pois quando se hospeda uma cultura em quartos, decorando cada ambiente com o resultado das atividades dos grupos, nega-se o confronto. O corredor, a sala, a garagem, o pátio, o telhado, a cozinha, tudo é esquecido, nada disso é levado em conta. É como se um 'genoma condutal' fosse apreendido de forma diferente em cada quarto. O código permaneceria universal para todas as culturas, mas o comportamento ético/ estético brotaria de uma certa essência interna, peculiar a cada grupo.

Isso se deve às linhas de força que, no decorrer da História, atuaram, e ainda atuam, sobre esse conceito. Guattari (2000) propõe uma divisão em três núcleos semânticos que se cruzam o tempo todo:

Núcleo A: O Cultivo do espírito. É a cultura-valor. Sentido correspondente ao julgamento de valor, onde é possível reconhecer quem tem e quem não tem cultura. O conceito é aquecido em brasa até marcar a carne do ignóbil com um código que permita separá-lo do sábio e vice-versa.

Núcleo B: Cultura-alma coletiva. O binarismo ter/ não ter dá lugar à democracia cultural; todos a possuem: cultura alemã, cultura indígena, cultura hip hop. Dimensões políticas utilizadas tanto pela extrema direita em reação ao diferente como por movimentos sociais cujo interesse passa pela reapropriação da identidade do grupo, pela criação de territórios coletivos.

Núcleo C: Cultura Mercadoria. Cultura como bem de consumo. Trata-se de todo o equipamento que produz e difunde mercadorias culturais: casas de cultura, especialistas, livros, filmes, referências teóricas sobre esse funcionamento etc. Sentido que permite à UNESCO4 classificar o nível cultural das cidades através do número de salas, livros e filmes produzidos para essa finalidade.

Enfim, "(...) como fazer para que a cultura saia dessas esferas fechadas sobre si mesmas? (...) como proclamar um direito à singularidade no campo de todos esses níveis de produção, dita 'cultural', sem que essa singularidade seja confinada num novo tipo de etnia?" (Guattari, 2000: 22-23).

Ou talvez, como pensar etnia fora dos quartos da mansão? Existiria uma etnia 'fora da casinha'? Uma forma de resistência? Talvez a mansão não nos sirva mais. Talvez todo esse conforto tenha apenas nos ensinado a fazer promessas, a nos tornar previsíveis e normais. Poderia a rua nos mostrar aquilo que a mansão, por detrás de seus muros, tenta esconder? Onde se situaria nessa discussão a pluralidade étnica? E finalmente, em meio a tudo isso, qual seria o desafio de uma Psicologia brasileira?

Façamos as coisas claramente diferentes.

 

A Invenção da Etnia

O conceito de etnia, segundo Poutignat (1998), surge ainda no século XIX com a tentativa de responder à seguinte questão: como delimitar os princípios que fundam a atração e a separação das populações? A paternidade é referenciada em Vacher de Lapouge, que procurava distinguir as características morfológicas entre cultura e linguagem. Sobre essa tela serão desenhados os mais diversos matizes discursivos. Inicialmente, permeados pelo conceito de raça, alguns, no caso a grande maioria, desembocam no etnocentrismo5 e na eugenia. Sendo etnocentrismo a insuportabilidade da diferença e eugenia uma prática cujo objetivo é o aperfeiçoamento das raças humanas, notamos que "(...) nesta acepção, a etnia combina os aspectos biológicos e culturais. Ela é simultaneamente comunidade de sangue, de cultura e de língua" (Poutignat,1998: 43).

Outros discursos, buscando "salvar" o conceito, aproximam-no de um aspecto mais dinâmico e relacionai. O que estabeleceria, segundo o mesmo autor, o debate contemporâneo sobre etnicidade?

Contudo, alguns cuidados são necessários. Sabe-se que o conceito de etnia ou de etnicidade não pertence tradicionalmente ao jargão da Psicologia, mas ao da Antropologia - ou como preferem os franceses, Etnologia. Uma disciplina que se desenvolveu junto à "(...) expansão colonial dos povos europeus (...) sistema que se reduz essencialmente à subjugação de um povo por outro povo melhor equipado, sendo içada uma vela vagamente humanitária no término da operação" (Thomas , apud Leiris, 1974: 127). E que, de uma forma ou de outra, as conexões históricas de sua instauração e de suas manifestações, ou seja, a rede teórico-prática que alimentou essa máquina, que a fez girar pela primeira vez, ainda estão presentes em seu motor.

Dito isso, é possível irmos adiante.

 

Da Cultura do Dentro à Etnicidade do Fora

Etnia, etnicidade e cultura. Conceitos que adoecem confortavelmente acomodados, cada qual em sua prateleira empoeirada, na biblioteca da luxuosa mansão de plástico. Na rua, porém, são equipamentos em plena atividade. Usinas de subjetividades que se conectam fazendo operar inúmeras outras máquinas que, ao serem plugadas, criam redes - rizomas - de ação.

Contudo, para sairmos do espaço fixo da mansão e passarmos ao território em movimento da fronteira precisamos fortalecer nossos corpos para respirar os ares da batalha. Para tal, sugerimos uma fragmentação provisória desses equipamentos:

Etnia: atribuição dada a um grupo de pessoas que surge a partir da relação com a diferença cultural de outros grupos.

Etnicidade: a prática de confronto entre etnias.

Cultura: o resultado dessa prática.

Com isso, provocamos um certo deslocamento no olhar: do dentro essencialista para o fora do dentro. A questão central deixa de ser a cultura resultante das fronteiras e passa a ser a própria fronteira.

Ao contrário da antiga concepção do grupo étnico como isolat, as teorias da etnicidade afirmam que o grupo étnico não pode se tornar uma categoria pertinente de agrupamento humano senão nas situações plurais. Em conseqüência, a análise se desloca do conteúdo cultural do grupo étnico para a análise da emergência e da manutenção das categorias étnicas tais como elas se constróem nas relações intergrupos (Poutignat,1998: 82).

Podemos, portanto, demarcar o eixo antropológico de duas psicologias plurais. Uma primeira e mais tradicional, que busca aproximar a etnia do folclore e da essência cultural, resultando no tratamento sistemático do homem de plástico, e uma segunda, ainda em fase de construção, cuja intervenção recai sobre o múltiplo, que pretende lidar diretamente com a relação, com a fronteira e com a diferença.

Grande parte dos estudos contemporâneos sobre etnicidade apontam Fredrik Barth como precursor dessa análise. Em Grupos Étnicos e suas Fronteiras -famoso artigo de Barth6 - o grupo étnico, anteriormente compreendido como substância, como coisa, como um em si, ganha uma dimensão política e fronteiriça. É definido como organização social, um grupo que somente existe em relação aos demais grupos. E é nesse sentido que a fronteira étnica, e, por conseqüência, o estudo sobre etnicidade, passa a ocupar o espaço que antes era da matéria cultural por elas abrangida. "Assim, a escolha dos tipos de traços culturais que irão garantir a distinção do grupo enquanto tal depende dos outros grupos em presença e da sociedade em que se acham inseridos, já que os sinais diacríticos devem poder se opor, por definição, a outros de mesmo tipo." (Cunha, 1987:100)

Se preciso fosse, numa única e breve imagem, reunir todos os quadros desenhados até aqui, 'nietzscheanamente' nos arriscaríamos assim: quando dois guerreiros se encontram para o combate e içando suas espadas ao céu produzem uma centelha de fogo com o cruzamento das armas, produz-se cultura. A centelha é a cultura (resultado do confronto), a luta e toda a tecnologia do combate formam a etnicidade (prática de confronto) e os guerreiros são etnias (corpos em confronto).

Queremos dizer que a persistência da diferença entre os guerreiros é o que gera sua cultura, sua etnia, sua identidade. E que a fronteira só pode ser mantida enquanto ela estiver presente. Ou seja, é a diferença que fabrica o próprio corpo em confronto, que possibilita haver unidade entre os grupos e que define sua continuidade. "Assim, a persistência da unidade depende da persistência dessas diferenças culturais, ao passo que sua continuidade pode igualmente ser especificada por meio das mudanças da unidade resultantes das mudanças nas diferenças culturais definidoras da fronteira" (Barth, em Poutignat 1998: 226).

O paradoxo que se instala aqui é a possibilidade de duas psicologias absolutamente opostas se declararem plurais. Ambas podem trabalhar com etnias. Porém, enquanto a psicologia do folclore busca auxiliar o retorno do homem de plástico ao seu quarto, enquanto procura adaptá-lo ao grupo de referência, a psicologia da fronteira se confronta com as linhas de força do grupo. Ou seja, ao mesmo tempo que a primeira promete a felicidade ao indivíduo, a segunda trabalha a partir das relações do grupo, fazendo emergir o processo de singularidade e provocando a suportabilidade à diferença.

 

Indivíduo, Identidade e Niilismo: Possibilidades de Reterritorialização a Partir da Pluralidade Étnica

Historicamente, as práticas psi, em sua grande maioria, permitiram que o múltiplo voltasse a ser justo e suportável ao rebanho. Reterritorializações ainda hoje desejadas. Ora, se o niilismo fez do devir um insuportável e um injusto, nada mais coerente do que aprisioná-lo em um núcleo, em um uno, em um território bem definido e confortável. Urge a voz do psicólogo promotor que, apontando ao banco dos réus diz: múltiplo e devir são culpados e, portanto, devem ser ajustados.

(...) porque o Ser, sabe-se já há muito tempo, parece-se com o Nada como um irmão. (...) O niilismo considera o devir como qualquer coisa que deve expiar e deve ser reabsorvido no Ser; o múltiplo como qualquer coisa de injusto, que deve ser julgado e reabsorvido no Uno. O devir e o múltiplo são culpáveis, tal é a primeira palavra, e a última, do niilismo (Deleuze, 1997: 28 e 29).

Uma psicologia que trabalhe de forma plural deve cuidar do múltiplo e não do homem de plástico. Seu método precisa dar conta do grupo. Ou seja, deve dirigir seu olhar às relações, às fronteiras, às formas de organização, à estrutura do grupo e não mais à essência. É preciso parar de fazer promessas ao indivíduo para que se possa trabalhar com a materialidade das relações.

Contudo, mesmo assim ainda há um risco. Se tais acolhimentos ao devir se conciliarem com forças reacionárias da pluralidade étnica, retornaremos ao ser estático. Como afirma Poutignat (1998), a pluralidade étnica é inventada para amenizar as tensões raciais que conturbavam os Estados Unidos na década de 70. Os brancos norte-americanos (americanos de origem européia) teriam sido obrigados a renunciar à sua não-classificação étnica como estratégia política, a fim de continuar perpetuando o racismo, pois ao mesmo tempo que adotaram o termo wasp por etnia, recorreram aos velhos subterfúgios do etnocentrismo, permanecendo assim como referência para os demais grupos. Pensar a pluralidade étnica dessa forma é transformar a etnicidade em "(...) uma dimensão essencial e universal da identidade humana" (Poutignat, 1998: 75).

Eis onde precisamos ultrapassar essa pluralidade: na soma dos indivíduos não há espaço para o múltiplo, não há campo de força, não há fronteira política, mas, sim, identitária. O espaço do fora, do confronto e da ação é absorvido pelos determinismos do interno e do psicologismo.

Ou seja, mais uma vez reterritorializamos o sujeito aos papéis cristalizados e bem definidos que dispomos em nossos catálogos,pois, ao elaborarmos fazeres que colaboram na produção de identidades cuja essência ainda é possível procurar, domesticamos, ao mesmo tempo, todos os demais fluxos e devires possíveis à subjetividade. Mais uma vez tentamos governar, mais uma vez tentamos limitar, mais uma vez tentamos adaptar aquilo que em Holanda, o Chico Buarque já nos disse cantando: "(...) o que não tem descanso nem nunca terá, o que não tem cansaço nem nunca terá, o que não tem limite (...) o que não tem governo nem nunca terá, o que não tem juízo."

Precisamos, sim, construir, em nossas oficinas, máquinas de devir, em nossos laboratórios belas cápsulas com linhas de fuga, em nossos terminais conectados à Internet produzir milhares e milhares de vírus ao império de BBBB (Big Bush Brother Brazil). Somente assim poderemos saborear, sem remorso, um bom prato de desejos. Novas existências são esperadas. Conexões etnopolíticas de resistência e criação são necessárias. Anuncio-vos o além da pluralidade cultural, anuncio-vos a realização da pluralidade étnica: o multíplice rizomático.

 

Multíplice Rizomático ou Redes Transversais de Legiões

Segundo Foucault (1994), a morte de Deus, anunciada por Nietzsche, matou também o homem. A esperança no humano como fundamento de todas as coisas deixa de existir com a ausência da metafísica. Espaço agora ocupado pelo vazio, pelo nada, pelo niilismo. O sol nunca mais girou em torno da Terra, a espécie humana deixou de ser o centro da criação divina e até mesmo o próprio homem - aquele que herdaria o trono de Deus assim que conseguisse matá-lo - fora exilado no passado.

Cenas de uma história de promessas. O homem tornou-se humano, demasiadamente humano: um animal que faz promessas e que aprende rapidamente a desejá-las. Foi assim que inventou o paraíso para si e para todos que prometessem marcar seus corpos com dez culpas. Eles salvariam suas almas e seriam arrebatados em grande alegria aos céus onde viveriam pastando a verde grama dos bons e dos justos. Muitos rezaram; outros, de joelho, ainda hoje suplicam: paz, paz, paz! Trocam-se os deuses, dá-se graças pela miséria e pela fome e continua-se a prometer.

Surge o período das luzes e, com ele, novas promessas. Conscientes seriam aqueles que iluminassem sua razão com a chama da ciência. Em nome dessa promessa mais uma vez matou-se a Deus, destruiu-se a maior parte do Planeta e chegou-se à promessa prometêica, a cornucopia tecnológica - lembram? - que permitiria a todos viver sem trabalhar. Mas continuamos analisando, investigando e colecionando informações em nome do "progresso" e do "avanço" tecnológico da civilização. Promessas e mais promessas. E uma vez mais, promessas.

Eu vos digo: é preciso ter caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós. Ai de nós! Aproxima-se o tempo em que o homem não dará mais à luz nenhuma estrela. Ai de nós! Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, que nem sequer saberá mais desprezar-se a si mesmo. Vede! Eu vos mostro o último homem. (...) Inventamos a felicidade - dizem os últimos homens, piscando o olho (Nietzsche, 1999: 34).

Consumir, eis a felicidade; devemos pois, consumir. Consumir MacDonald's, academias, pagodes, shoppings, imagens, roupas, carros, cervejas, bundas, celulares, Internet, etc. O consumo é nossa promessa mais desprezível.

Desprezamos quotidianamente a singularidade quando reduzimos a prática psicológica a uma prática de "inclusão". Todas as possibilidades processuais de singularização são destruídas para se fortalecer um padrão universal de subjetividade: o de consumidor. Procurar simplesmente integrar etnias - que historicamente foram preteridas - ao mundo do consumo é o que verdadeiramente poderíamos chamar "exclusão". Precisamos parar de fazer promessas ao indivíduo, precisamos de uma psicologia que acolha o devir.

Contudo, nunca foi possível, ainda, haver o distinto. O múltiplo sempre foi expulso pelo indivíduo. Todos que buscaram e que buscam produzir uma existência singular à normalidade vigente, geralmente:

(...) assistem, atônitos, ao desmanchamento de seus modos de vida. Passam então a se organizar segundo padrões universais, que os serializam e os individualizam. Esvazia-se o caráter processual (para não dizer vital) de suas existências: pouco a pouco, eles vão se insensibilizando. A experiência deixa de funcionar como referência para a criação de modos de organização do cotidiano: interrompem-se os processos de singularização. E, portanto, num só movimento que nascem os indivíduos e morrem os potenciais de singularização (Guattari, & Rolnik 2000: 38)

A realização da pluralidade étnica, portanto, aproxima-se de um espaço que não suporta o indivíduo. O múltiplo e/ou multíplice é aquele que "(...) não é simples nem único; que abrange muitas coisas" (Obiol, 1990: 555 ). É um algo "(...) complexo, copioso, variado" (Cunha,1982: 539). E "(...) que se manifesta de vários modos "(Obiol, 1990: 555).

Assim como o indivíduo nasce com a morte do processo de singularização, a cultura coisificada do dentro e do folclore sobrevive na destruição dos rizomas. Em outras palavras, quando o 'multíplice rizomático' é colado à 'essência étnica', universalizam-se desejos, ações e agenciamentos, esvazia-se a vida, diminui-se a potência e determina-se apenas uma única possibilidade de existência. É o mundo da representação. Os rizomas capturados estatisticamente pelas próteses biônicas do capitalismo transformam-se em usinas de adoráveis seres de plástico. Existências sem cheiro e sem sabor. Sujeitos padronizados, cristalizados, manufaturados em série, que consomem produtos industrializados em série e que praticam um cotidiano esforço serializado para continuarem vivendo em série. Desejos bovinos de paz sem voz.

 

Identidade Local X Identidade Global ou XIV Erep-Sul XII Fórum Social Mundial

Alguns, mais desavisados, poderiam supor que estamos propondo, nessa batalha contra a identidade, algum tipo ideal de subjetividade local: alemão de Blumenau que no Früstick come chukrut com chops ou, ao contrário, algum tipo de sujeito universal que somasse todas as subjetividades possíveis em seu núcleo individual. Pois não se trata disso. Nossa guerra é contra a referência identitária, à própria idéia de identidade, esse é o bom combate que nos propomos a travar.

O que se coloca para as subjetividades, hoje, não é a defesa de identidades locais contra identidades globais, nem tampouco da identidade em geral contra a pulverização; é a própria referência identitária que deve ser combatida, não em nome da pulverização (o fascínio niilista pelo caos), mas para dar lugar aos processos de singularidades, de criação existencial, movidos pelo vento dos acontecimentos (Rolnik, 1997: 23).

Uma nova brisa começa a soprar; nela navegam sussurros a dizer, em leves ondas senoidais: "eis o clamor que há muito se esperava, eis as trombetas, os aviões e os clarins a anunciar em finalmente um coice nas fronteiras". Mas que fronteiras?

Esse foi o tema do XIV Erep-Sul, Um Coice nas Fronteiras: Eugenia, Políticas Públicas e Interdiciplinariedade. O encontro aconteceu entre 25 e 30 de janeiro de 2002 na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, precedendo assim, em uma semana, o II Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Durante o Erep-Sul nos perguntávamos: o que é melhor? A eugenia contemporânea - que regula e controla todas as identidades a partir de um único padrão estético, o Jeans-bata-indiana, a Coca branca-preta e o BigMac-Rap, ou a eugenia clássica, a limpeza étnica direta, objetiva e sem restrições? Ah! Claro -dizíamos - podemos também inverter: O que é pior? O fortalecimento de uma subjetividade universal - a possibilitar igualdade, liberdade e fraternidade a todos, ou a regionalização, resistência à massificação, maior cultura e diversidade?

Depois de algumas oficinas, percebemos que as coisas estão mudando. As grandes teorias não conseguem suportar realidades sempre em movimento. "As oposições dualistas tradicionais que guiaram o pensamento social e as cartografias geopolíticas chegaram ao fim. Os conflitos permanecem, mas engajam sistemas multipolares incompatíveis com adesões a bandeiras ideológicas maniqueístas" (Guattari, 1990:13). As intervenções clínicas não acontecem mais entre quatro paredes brancas, a História agora é on-line, transmitida ao vivo e a cores - bem e mal, certo e errado, senhor e escravo - nada disso mais faz sentido. Tudo é múltiplo, fragmentado, sem cheiro e sem sabor. O Niilismo tornou-se a grande chaga.

Quando o evento terminou, fomos ao II FSM. Nesse novo espaço, quando nos encontrávamos, tínhamos uma expressão corriqueira que era: "e aí, táis Fórum?" A brincadeira, aparentemente ingênua, tomou outra dimensão ao ouvirmos Eduardo Passos, no dia 03/02/2002, usá-la no sentido de uma linha de fuga. Dizia ele, na mesa promovida pelo CFP, "(...) o que nos une deve ser tolerante o suficiente para não apagar o que nos diferencia." A partir de então, sempre que um "táis Fórum" aparecia, sentíamos vibrar a poesis existencial. Anarcopunks, sociólogos franceses, Hare Krisnas, acadêmicos, conselheiros federais de Psicologia, teatreiros, policiais, pipoqueiros, guerrilheiros.... Etnias que se encontram num multíplice rizomático, grupos étnicos que fazem de sua diferença aquilo que os une. O mais belo é que, nesses encontros, de grande intensidade e velocidade infinita, tornou-se impossível dizer sou ou és, dizia-se estamos.

Estamos Fórum! Fórum da Casinha, fora da luxuosa mansão de plástico. É possível respirar nesse espaço nômade o que antes não compreendíamos: nós não somos a resistência. Quem resiste, defendendo a inércia sedentária, são os adoráveis seres de plástico que negam o trágico, o caos e o risco. Nós estamos nos aproximando da arte, da política e do incerto. Não se trata de promover mundialmente o lançamento de camisetas "Che", novos modelos e desainers. Nós estamos afirmando a vida para que ela retorne. Queremos fazer com que cada atividade humana seja intensa como a arte, sem que necessariamente haja arte em toda atividade humana. Estamos nos afastando da adaptação, da normalidade e dos idealismos.

Estamos procurando intervenções psicológicas que potencializem a existência do sujeito e tentando "(...) agenciar os processos de singularidade no próprio nível de onde eles emergem" (Guattari, 2000: 130) Estamos trocando o arquivo erudito pela rede de aliados, passando a ver a vida como campo de força e não mais como representação.

Estamos saindo da cultura individual do dentro para experienciarmos a pluralidade do fora. Estamos, finalmente, experimentando o devir como desafio à Psicologia Brasileira.

 

Referências bibliográficas

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Endereço para correspondência
Édio Raniere da Silva
Rua Porto Alegre, 32- Bom Retiro,
Blumenau-SC
CEP-89010-680
E-mail: zaraedio@terra.com.br

Recebido 21/06/02
Aprovado 16/08/02

 

 

1 Agradecimento especial a Alejandro Labale e Álvaro Luiz de Aguiar.
2 Num rizoma, segundo Deleuze (1995), não existem pontos ou posições como acontece na raiz. Existem somente linhas.
3 Utilizaremos o termo 'plástico' para falar daquilo que é homogeneamente maleável. Que por ser fabricado em série não possui cheiro, sabor, cor, ou algo que o torne distinto. Uma espécie de padronização do flexível.
4 Agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, a Ciência e a Cultura.
5 Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de estranheza, meda, hostilidade etc (Rocha, 1994:07).
6 A edição utilizada encontra-se junto ao livro de Poutignat referenciado na bibliografia.

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