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Genetics and Molecular Biology

Print version ISSN 1415-4757On-line version ISSN 1678-4685

Genet. Mol. Biol. vol.23 n.2 São Paulo June 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47572000000200044 

OBITUARY

William D. Hamilton e a Evolução do Comportamento Social e do Altruísmo

(William D. Hamilton and the Evolution of Social Behavior and Altruism)

 

Warwick Estevam Kerr
Diretor do INPA/MCT/PR

 

No dia 6 de março de 2000 faleceu, em Londres, o Dr. William Donald Hamilton, de malária que contraiu na África. Era o meu melhor amigo na Inglaterra. Sua história é um conjunto de eventos que nos fazem rir e, logo a seguir, quase chorar e que foram recentemente reunidos em dois volumes. Tenho o primeiro: 550 páginas. Ele leu um livro de um poeta japonês (Matsuo Basho) que percorreu o norte do seu país a pé e intercalava prosa (do que esta vendo) com poesias. O Dr. William Hamilton achou nesses poemas os pensamentos mais comoventes de sua vida. O livro chamava-se "Narrow Roads of Ohu" e William resolveu chamar seu livro (magnífico livro que deveria ser traduzido) de "Narrow Roads of the Gene Land". Ele ironiza dizendo que poderia chamá-lo de "The tragedies of William D.H. Shakespeare" (que traduzido livremente para o português seria "As tragédias de William D.H. Camões") mas não o fez, pois sempre haveria algum chato que resmungaria: "Realmente é uma tragédia". Seu trabalho era criativo e inovador, o que fez muita gente afastar-se dele. É o que o Dr. Cristovão Buarque, ex-Reitor da Universidade de Brasília, diz: "Muitas Universidades têm o síndrome de Salamanca, não ousam" (não ousaram informar aos reis de Espanha que a Terra era redonda). Foi assim com o jovem William: nem o Dr. David Glass nem o Dr. Lionel S. Penrose, FRS, do University College, entusiasmaram-se com o seu primeiro trabalho publicado nem com seu projeto. Embora doutorado do Galton Laboratory, por 2 anos não teve uma escrivaninha, nem foi convidado para apresentar um trabalho nem para dizer o que estava fazendo! Ninguém que o visse na biblioteca ou nos corredores sabia porque ele estava lá. Diz ele: "eu nem sabia o que era um PhD, e a conseqüência de não me darem espaço na Universidade é que tive todos os meus pensamentos, todo o meu trabalho e escritos sentado à beirada da cama do meu quarto,… e todas as minhas dúvidas eu as tirei lendo na biblioteca". Quando o jovem Hamilton, já doutor, perguntou ao Dr. Penrose se o Galton Laboratory poderia financiar suas pesquisas sobre o problema do altruísmo recebeu um enfático NÃO. "Minha auto-estima e meu otimismo alcançaram meus pontos mais baixos". Porém, nessa altura dos acontecimentos apareceram dois professores, Dr. John Hudson e Dr. C.O. Carter, que o recomendaram para o curso de demografia humana no London School of Economics e recebeu a bolsa Leverhalme. Ele começou a ficar com tanta raiva de sua cama-cadeira que, quando a Biblioteca Senate House ou a Biblioteca Pública de Holborn fechavam, ele ia para a estação Waterloo e continuava lendo ou escrevendo sentado nos bancos-de-espera de passageiros ou nos bancos de Kew Gardens, onde mais de uma vez ele foi "cantado" por homossexuais. Nessa época, 1963, chegou a notícia que o Journal of Theoretical Biology aceitara o seu trabalho, apenas exigindo que o dividisse em duas partes e fizesse uma boa revisão. Daí começou nossa correspondência e ele veio para o meu laboratório, hoje UNESP - Rio Claro, onde por 8 meses coletou dados, preparou melhor os dois manuscritos e aprendeu português. O William (ou Bill, como o chamávamos) sempre afirmava que ele admirou muitíssimo a atmosfera "warm and cheerful" do Departamento de Biologia de Rio Claro, especialmente quando comparado com o frígido ambiente da Universidade de Londres, onde recebia a mais completa indiferença. Mas… no dia 11.04.1964 fui preso pela primeira vez, em Rio Claro (a segunda foi em Ribeirão, 1969), o que o deixou aborrecido e inseguro: pôs toda a sua bagagem no seu jeep e seguiu para a Inglaterra via Belém, pela Rio Claro-Brasília-Belém, Trinidad, Barbados, Panamá, todos os países da América Central e Norte até o Canadá, não antes de colocar no correio o seu super criativo manuscrito "The Genetical Evolution of Social Behaviour, I and II". Estes dois trabalhos de William D. Hamilton são considerados a maior contribuição à teoria da Evolução depois de Darwin, onde demonstra como o altruísmo pode ter vantagens seletivas. Em 1993 recebeu das mãos do rei da Suécia o Prêmio Crafood, criado pela Comissão dos Prêmios Nobel, da Academia Sueca de Ciências, ou seja, recebeu o 1o. Prêmio Nobel de Biologia. Logo no ano seguinte recebeu o rico Prêmio Kyoto de Ciências Básicas da Fundação Inamori, do Japão.

Veio várias vezes ao Brasil. Em Mamirauá, perto de Tefé, AM, era divertido vê-lo tentar explicar aos ribeirinhos suas teorias e hipóteses.

Não gostava de ver sofrimento humano. Certa vez, pesquisando nas matas de Mato Grosso, ao norte de Cuiabá, viu um casal de crianças doentes e desnutridas. Depois de passar 3 dias seguidos em frente àquela cabana, em seus últimos dias aqui, teve uma idéia: pediu as crianças ao pai. Foram até o juiz, que exigiu que ele trouxesse as crianças de volta antes de completarem 18 anos. Ficou com elas cerca de 10 anos e, quando o rapaz estava perto de 18 anos, trouxe-os de volta (a moça é professora de inglês e o rapaz é um bom mecânico). Em praticamente todas as viagens que fez ao Brasil visitou esses "filhos" e uma irmã deles em Goiás.

Era um pensador extraordinário. Perto de Londres, numa mata rala, mostrou-me um passarinho "sky lark" (cotovia do céu; Alauda arvensis L.) cujo macho subia a cerca de 80-90 metros cantando e, de repente, soltava-se voando para baixo, na vertical, a toda, até chegar a 2 metros do solo, fazia um "loop" e parava num galho próximo ao ninho. "Porque esse gasto de energia?" perguntava ele! "Talvez seja porque no "loop", pela força centrífuga, o pássaro perca seus parasitas". Em outra viagem a Londres, um de seus alunos confirmou-me que o "sky lark" tinha muito menos parasitas que outras aves de mesmo tamanho e que não tinham este hábito!

Na ilha de Maracá (Roraima), passando 5 dias sem comer hortaliças, viu uma palmeira cheia de espinhos. "Se tem tanto espinho é porque o seu palmito deve ser muito bom". Com um terçado e uma forquilha cortou a ponta do coqueiro; com muita dificuldade retirou o palmito e comeu-o deliciando-se. Nunca comera um melhor. Nisso passa um ribeirinho e comenta: "É muito gostoso mas é muito difícil de tirar". Era mesmo!

Sua lista de publicações e os seus títulos acadêmicos são testemunha de sua enorme capacidade de pensar, de resolver problemas, de criar.

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