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Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial

On-line version ISSN 1980-5500

Rev. Dent. Press Ortodon. Ortop. Facial vol.10 no.2 Maringá March/Apr. 2005

https://doi.org/10.1590/S1415-54192005000200010 

ARTIGO INÉDITO

 

Influência do agente clareador peróxido de carbamida a 10% na resistência mecânica da colagem de braquetes ortodônticos

 

Influence of 10% carbamide peroxide gel on the shear bond strength of orthodontic brackets

 

 

Edgard Norões R. da MattaI; José de Albuquerque Calasans MaiaII; Orlando ChevitareseIII

IProfessor assistente da Disciplina de Ortodontia da UFAL. Mestre em Ortodontia pela Faculdade de Odontologia da UFRJ. Doutorando em Ortodontia pela Faculdade de Odontologia da UFRJ
IICoordenador do Curso de Especialização em Ortodontia da UGF. Mestre em Ortodontia pela Faculdade de Odontologia da UFRJ. Doutorando em Ortodontia pela Faculdade de Odontologia da UFRJ
IIIProfessor emérito da Faculdade de Odontologia da UFRJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O propósito deste estudo in vitro foi determinar a influência do agente clareador peróxido de carbamida a 10% na resistência mecânica da colagem de braquetes ortodônticos. Foram estudados três grupos denominados G1 (não submetido ao clareamento), G2 (com clareamento e colagem realizada 1 semana após) e G3 (com clareamento e colagem realizada 24h após). O teste de cisalhamento foi conduzido na máquina de ensaios mecânicos Emic, com a velocidade de deformação de 0,5 mm/min.A resitência ao cisalhamento em relação à área de colagem foi calculada para cada dente e expressa em MPa. Os resultados mostraram aumento estatisticamente significante (p<0,001) da resistência mecânica da colagem após clareamento.

Palavras-chave: Clareamento dentário. Peróxido de carbamida. Resistência da colagem.


ABSTRACT

The purpose of this in vitro study was to determine the influence of 10% carbamide peroxide gel on the shear bond strength of orthodontic brackets. Three group were studied: G1 (without bleaching), G2 (bleaching and bonding after 1 week) and G3 (bleaching and bonding after 24h). The shear test was conduced in a Emic testing machine with a crosshead speed of 0,5 mm/min. The shear bond strength was calculated for each tooth and expressed in MPa. The results show enhance statistical significant (p<0,001) on the shear bond strength after bleaching and encreased with the time interval between bleaching and bonding, significantily.

Key words: Dental bleaching. Carbamide peroxide. Bond strength.


 

 

INTRODUÇÃO

A estética, na atualidade, é indubitavelmente uma exigência dos pacientes que procuram o consultório odontológico para modificarem ângulos,posições dentárias e a cor dos dentes 1.

O clareamento dentário é o tratamento estético mais popular na Odontologia com o objetivo da modificação da cor do dente5 e o peróxido de carbamida é o agente clareador mais utilizado para o tratamento do manchamento intrínseco de dentes hígidos que apresentam ou não o tratamento endodôntico, pela sua ação na superfície do esmalte, tendo diversas concentrações e tempos de aplicação 7,14.

A influência dos procedimentos de clareamento na resistência mecânica da colagem de braquetes à superfície dentária foi investigada por Bishara, Sulieman e Olson2, tendo constatado que o processo de clareamento com peróxido de carbamida a 10% não interfere na resistência adesiva do esmalte dentário. Entretanto, Miles, Pontier, Bahirael et al.8 afirmam que há alteração na resistência mecânica da colagem do esmalte submetido ao procedimento de clareamento, onde possivelmente o resíduo do material clareador interfere junto ao compósito, impedindo ou alterando a formação dos tags, diminuindo desta forma a resistência mecânica da colagem. No entanto, Torneck, Tytley, Smith e Adibfar11 relatam aumento da adesividade da resina ao esmalte quando submetido ao clareamento.

A procura de tratamento ortodôntico após a realização de procedimento de clareamento dos dentes, leva o ortodontista a questionar a influência deste agente clareador nos procedimentos de colagem e descolagem do braquete ao esmalte dentário. Esta é a razão deste trabalho que pretende avaliar a influência do processo de clareamento com peróxido de carbamida a 10% sobre a resistência adesiva do esmalte.

 

MATERIAL E MÉTODO

Quarenta e dois dentes bovinos, recém-extraídos, foram armazenados em solução aquosa de Timol a 1%. Iniciando o preparo dos dentes para colagem, cada elemento dentário teve sua face vestibular marcada com um ponto feito com lápis preto em sua porção central, exatamente no local onde o braquete deveria ser colado. Cada dente teve sua coroa incluída em resina acrílica autopolimerizável, sobre uma placa de vidro, de modo que a área marcada pudesse ser pressionada contra a placa até tocá-la, enquanto a superfície da placa ficou em posição aproximadamente paralela ao eixo da coroa. Com tal disposição, conseguiu-se a obtenção de uma área plana, tendo obtido assim uma superfície plana resina/dente.

A seguir, a área foi lixada (lixa d'água nº 100) até a obtenção de uma superfície suficientemente larga para receber um braquete ortodôntico, seguindo-se lixa nº 600, para o alisamento final de modo a conseguir-se praticamente a mesma profundidade do desgaste no esmalte.

A seguir, cada dente teve sua raiz incluída em resina acrílica autopolimerizável contida em um anel de PVC de bases perpendiculares ao seu eixo, de tal forma que a superfície planificada da coroa estivesse em 90º com as bases, o que se conseguiu por meio de um esquadro-guia de acrílico preparado para este fim (Fig. 1, 2).

 

 

 

 

Após a polimerização da resina acrílica autopolimerizável, todos os corpos de prova foram estocados em água à temperatura ambiente.

Os incisivos bovinos foram divididos em 3 grupos de 14 dentes. O Grupo I (G1) incluiu os dentes que não se submeteram ao clareamento. O Grupo II (G2) constitui-se de 14 dentes que foram submetidos a 1 semana de clareamento e, após, armazenados em água a 36 ± 1ºC e, após 1 semana, foi executada a colagem. Já o Grupo III (G3) foi composto de 14 dentes que também foram submetidos a 1 semana de clareamento, porém a colagem foi executada após 24 horas, armazenados em água a 36 ± 1ºC, após finalizado o clareamento.

O clareamento foi executado com peróxido de carbamida a 10% da marca comercial Whitheness fabricado por FGM Produtos Odontológicos. Sobre cada superfície de esmalte correspondente à área da futura colagem foi colocada uma máscara de fita adesiva plástica, com espessura total correspondente a 6 vezes a sua espessura individual com perfuração central de 6 mm de diâmetro, simulando dessa forma uma moldeira com alívio suficiente para o depósito do material clareador. Por sobre essa moldeira colocou-se um segmento de fita protegendo e selando o material clareador para que o mesmo não seja diluído em água (Fig. 3).

 

 

O tempo estipulado para o clareamento foi de 10 dias, com aplicação de 4 horas diárias conforme recomendações do fabricante, imersos em água e mantidos em estufa à temperatura de 36 ± 1ºC. Após o tempo estipulado para o clareamento, a solução clareadora, bem como a máscara de fita adesiva foram removidas e os dentes imersos em água mantidos em estufa à temperatura de 36 ± 1ºC, simulando a temperatura corpórea.

O polimento das superfícies dentárias, foi realizado em um único dia e compreendeu: profilaxia com pasta de pedra pomes e água em taça de borracha à baixa rotação por 10 segundos, lavagem com água e ar por 15 segundos e secagem com jato de ar na seringa tríplice por 10 segundos. Visando tornar o desgaste do esmalte oriundo da profilaxia, o mais homogêneo possível, a taça de borracha foi trocada por outra nova a cada 5 profilaxias executadas.

Procedeu-se ao condicionamento ácido por 15 segundos com ácido ortofosfórico a 37% sob a forma de gel e em seguida,à lavagem da superfície condicionada por 15 segundos e à secagem por 10 segundos.

Os braquetes foram colados nas áreas delimitadas com auxílio de um esquadro guia que contem um fio retangular, de forma que o slot esteja em posição vertical e perpendicular à base do anel de PVC. A manipulação do compósito seguiu rigorosamente as instruções do fabricante, sendo pressionado contra a base do braquete e após esta etapa o braquetefoi levado ao esmalte com o auxílio do esquadro, onde o mesmo estará previamente fixado.

Passados 30 minutos de polimerização do compósito, cada grupo de dentes foi estocado em água à temperatura de 36º ± 1º C em estufa durante 14 dias. Ao final deste período, os dentes foram submetidos ao ensaio mecânico de cisalhamento, executado em uma máquina EMIC, com a velocidade de deformação de 0,5 mm por minuto (Fig.4). As cargas de ruptura foram registradas em papel milimetrado por uma impressora acoplada à máquina, em MPa (Mega Pascal). Para o cálculo da resistência ao cisalhamento dividiu-se o valor da força de descolagem fornecida pela máquina de ensaios mecânicos pelo valor da área de superfície da base do braquete em cm2. Os dados foram analisados estatisticamente e as comparações executadas.

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A busca de tratamento odontológico com objetivos cosméticos tem levado o ortodontista a investigar a influência dos agentes clareadores na resistência mecânica da colagem de braquete ortodônticos, já que esses profissionais enfrentam situações clínicas em que o paciente foi submetido a tratamento clareador imediatamente antes da execução do tratamento ortodôntico.

Na tabela 1 encontram-se os resultados da estatística descritiva, onde constam os valores médios, desvio-padrão, valores mínimos e máximos da resistência ao cisalhamento (em MPa) dos três grupos, bem como também os resultados do tratamento estatístico.

Os valores médios apresentados na tabela acima evidenciam a influência do agente clareador peróxido de carbamida a 10% na resistência mecânica, de tal forma que a média encontrada no grupo 1, dentes não submetidos ao clareamento, foi de 6,5 MPa, sendo a diferença estatisticamente significativa quando comparada ao grupo 2 e grupo 3 que apresentaram os valores de 10,2 MPa e 10,6 MPa, respectivamente, corroborando com os achados de Torneck,Titley,Smith e Adibfar11.A diferença entre o grupo 1 e os grupos 2 e 3 é apresentada no gráfico 1 que expressa a resistência (MPa) ao cisalhamento segundo os grupos e evidencia a discrepância entre o grupo sem clareamento (G1) e os grupos que foram submetidos ao clareamento (G2 e G3). Esses achados discordam dos resultados encontrados por Murchison, Charlton, Moore9, Bishara, Sulieman e Olson2, que afirmam não haver interferência do clareamento na resistência adesiva do esmalte dentário, assim como também, diferem dos achados relatados por Cvitko, Denehy, Swift3; Stokes, Hood, Dhariwal et al.10; Titley, Torneck, Ruse12; Garcia-Godoy, Dodge, Donohoue et al.4; Titley, Torneck, Ruse et al.13; Miles, Pontier e Bahirael et al.8, que afirmaram que o clareamento reduz significativamente a resistência mecânica da colagem de braquetes.

 

 

A influência do tempo decorrido do final do processo de clareamento do esmalte até a execução da colagem, foi investigada com intuito de esclarecer questionamentos a respeito do melhor momento em se montar o aparelho ortodôntico após o tratamento clareador. Os valores médios da resistência ao cisalhamento dos grupos 2 e 3 apresentaram-se bem próximos, 10,2 MPa e 10,6 MPa, respectivamente, não apresentando diferenças estatisticamente significativas, conforme mostra a tabela 1. Miles, Pontier, Bahirael et al.8 concluiram que dentes submetidos ao clareamento, e nos quais é realizada a colagem somente 1 semana após o tratamento cosmético e imersos em água durante esse período, retornam a apresentar a mesma resistência mecânica do grupo controle que não foi submetido a tratamento, achado esse que difere do encontrado neste trabalho, já que neste trabalho no grupo 2 a colagem foi realizada somente 1 semana após a finalização do clareamento e os mesmos também foram estocados em água, sendo que os valores médios evidenciaram diferença estatisticamente significante entre o grupo 1 e 2.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste trabalho permitem concluir:

1) O agente clareador aumenta significativamente a resistência mecânica da colagem de braquetes ortodônticos.

2) O tempo decorrido do final do tratamento clareador até a colagem do braquete ortodôntico não interferiu na resistência mecânica da colagem quando a mesma foi realizada 24 horas ou 1 semana após o clareamento.

 

REFERÊNCIAS

1. BARATIERI, L. N.; MONTEIRO JÚNIOR; S.; ANDRADE, M. A. C. et al. Clareamento dental. 2. ed. São Paulo: Ed. Santos, 1993. p. 4-7.         [ Links ]

2. BISHARA, S. E.; SULIEMAN, A. H.; OLSON, M. Effect of enamel bleaching on the bonding strength of orthodontic brackets. Am J Orthod Dentofacial Orthop, St. Louis, v. 104, no. 5, p. 444-447, Nov. 1993.         [ Links ]

3. CVITKO, E.; DENEHY, G. E.; SWIFT, E. J. JR.; PIRES, J. A. Bond strenght of composite resin to enamel bleached with carbamide peroxide. J Esthet Dent, Philadelphia, v. 3, no. 3, p. 100-102, May/June 1991.         [ Links ]

4. GARCIA-GODOY, F.; DODGE, W. W.; DONOHUE, M.; O'QUINN, J. A. Composite resin bond strenght after enamel bleaching. Oper Dent, Seattle, v. 18, no. 4, p. 144-147, July/Aug. 1993.         [ Links ]

5. GOLDSTEIN, R. E.; GARBER, D. A.; GOLDSTEIN, C. et al. Esthetic update: changing esthetic dental practice. J Am Dent Assoc, Chicago, v. 125, no. 11, p. 1447-1456, Nov. 1994.         [ Links ]

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Endereço para correspondência
Edgard Norões Rodrigues da Matta
Faculdade de Odontologia da UFRJ - Disciplina de Ortodontia
Av. Brigadeiro Trompowsky, s/n - Cidade Universitária
CEP: 21941-590 Ilha do Fundão - RJ
E-mail: edgard@ortodontia.ufrj.br

Enviado em: Março de 2002
Revisado e aceito: Março de 2003

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