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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.14 no.1 São Paulo Mar. 2011

https://doi.org/10.1590/S1415-790X2011000100012 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Condição de saúde bucal em idosos residentes no município de Manaus, Amazonas: estimativas por sexo

 

 

Evangeline Maria CardosoI; Rosana Cristina Pereira ParenteII; Mario Vianna VettoreIII; Maria Augusta Bessa RebeloIV

ISecretaria de Estado da Saúde do Amazonas
IIDepartamento de Estatística da Universidade Federal do Amazonas
IIIEscola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz
IVFaculdade de Odontologia da Universidade Federal do Amazonas

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Caracterizar, segundo o sexo, as condições de saúde bucal em idosos residentes no município de Manaus, AM.
MÉTODOS: Estudo seccional de base populacional com 667 indivíduos com idade entre 65-74 anos, aleatoriamente selecionados. As informações demográficas e socioeconômicas foram obtidas através de entrevista. O exame bucal para cárie, edentulismo, uso e necessidade de próteses foi conduzido de acordo com as normas da OMS.
RESULTADOS: Participaram do estudo 206 homens e 461 mulheres, com idade média de 69,2 anos, e 71,8% se declararam de cor parda. Em média, os sujeitos apresentaram 4,6 anos de estudo e renda familiar de R$ 1586,27. O índice de dentes cariados, perdidos e obturados foi de 29,0 ± 4,3, com predomínio do componente perdido (95%). A média de dentes por indivíduo foi de 4,1 ± 5,7 e a prevalência de edentulismo foi de 52,2%, sendo que apenas 3% dos idosos apresentaram 20 dentes ou mais. O uso de prótese total superior e inferior foi observado em 79,2% e 37,1%, respectivamente, e a necessidade de prótese total foi de 42,6% para o arco superior e 34,7% para o inferior. Idosos do sexo masculino apresentaram menor índice de dentes cariados, perdidos e obturados, mais dentes e menos edentulismo em comparação com o sexo feminino. O uso de prótese total superior e inferior foi maior nas idosas, enquanto a necessidade de prótese unitária ou parcial superior e inferior foi maior nos idosos.
CONCLUSÃO: As condições de saúde bucal dos idosos em Manaus caracterizaram-se pela elevada ocorrência de perda dentária, especialmente entre as mulheres. As taxas de uso e a necessidade de prótese total foram elevadas e diferentes segundo sexo.

Palavras-chave: Saúde bucal. Idoso. Cárie dentária.


 

 

Introdução

O Brasil, que segue um modelo contemporâneo de transição demográfica e epidemiológica, depara-se atualmente com problemas decorrentes do envelhecimento da população, dentre os quais a elevada prevalência de doenças crônicas e incapacitantes, mudando o paradigma da saúde pública do país1. No período de 1980 a 2000, o grupo de 0 a 14 anos aumentou apenas 14%, o crescimento médio da população foi de 56%, enquanto o grupo de 60 anos ou mais aumentou 107%. A população idosa cresceu, proporcionalmente, oito vezes mais que a de jovens e quase duas vezes mais que a população total2.

A transição demográfica repercute no padrão epidemiológico de morbi-mortalidade de uma população, ocasionando uma série de conseqüências previsíveis. Essas mudanças, associadas as transformações sociais, deveriam estruturar a definição de políticas públicas em saúde3. No contexto da saúde bucal tais mudanças também têm conseqüências previsíveis e deveriam ser determinantes na definição de medidas eficazes para evitar o adoecimento e a perda das estruturas dentais ao longo da vida.

Os estudos epidemiológicos de saúde bucal em idosos realizados no Brasil têm se restringido a grupos específicos, tais como aqueles realizados em idosos institucionalizados, sendo suas inferências loco-regionais4-12. Esses estudos têm mostrado uma alta prevalência de edentulismo, necessidade de prótese dental e de tratamento periodontal em idosos. No entanto, observa-se como importante limitação a impossibilidade de generalização de seus achados para a população em geral.

Apesar de muitos países realizarem inquéritos populacionais em saúde bucal desde as primeiras décadas do século XX, no Brasil o primeiro estudo desta natureza ocorreu em 1986. No entanto, somente no inquérito de saúde bucal de 2003, denominado Levantamento das Condições de Saúde Bucal da Populaçào Brasileira - Projeto SB-Brasil 2003, é que os idosos foram incluídos13. Os resultados para faixa etária de 65 a 74 anos obtidos neste inquérito apontam que apenas 10,2% da população (8,5% na Região Norte) apresentavam 20 ou mais dentes presentes. O índice CPO-D foi de 27,8 (28,3 na Região Norte), com uma participação do componente perdido de 93,0% (93,1% na Região Norte). A condição de periodonto saudável foi encontrada em apenas 7,9% da população do estudo, próximo ao que foi encontrado na Região Norte (7,2 %). Nas suas considerações finais, este estudo refere que "o edentulismo continua sendo um grave problema de saúde em nosso País, especialmente para os idosos"14. Os resultados deste inquérito permitem inferências para o país e suas macrorregiões, não podendo ser extrapolados para níveis municipais, especialmente para as capitais.

Poucos estudos analisaram o perfil epidemiológico bucal de idosos segundo sexo no país8,11,12,15. Além de não pré-estabelecerem tamanho amostral para esta comparação, poucos estudos foram de base domiciliar12,15. Em geral, os homens apresentaram piores condições bucais. Em um estudo com dados do projeto SB Brasil 2003, a pior autoavaliação da saúde bucal foi maior nos idosos em relação às idosas16, mas nenhuma análise secundária comparou condições clínicas bucais em idosos entre os sexos.

O presente estudo teve como objetivo caracterizar, segundo o sexo, as condições de saúde bucal e a utilização de serviços odontológicos em idosos residentes no município de Manaus, AM. Estas informações são relevantes para subsidiar o planejamento e avaliação das ações em saúde direcionadas a esse contingente populacional.

 

Metodologia

Um estudo seccional de base domiciliar foi conduzido em indivíduos na faixa etária de 65 a 74 anos na área urbana de Manaus, AM, no período de abril a junho de 2007.

A população do estudo era constituída de 27.853 idosos residentes nesta área. A amostra probabilística por conglomerados foi calculada de forma estratificada, proporcional às Regiões Administrativas (Centro-Sul, Centro-Oeste, Leste, Norte, Oeste e Sul), divisão político-administrativa do município segundo a Lei Municipal N0 283/85. A amostragem foi feita a partir dos setores censitários, que foram sorteados de forma ponderada tendo como base a proporção da população do município dentro de cada estrato. Todas as quadras dos setores censitários sorteados foram incluídas, eliminando aquelas não residenciais. Dentro de cada quadra, todas as ruas foram incluídas e os idosos identificados até completar o tamanho pré-estabelecido (Tabela 1). O tamanho amostral foi calculado a partir da proporção de 53% de edentulismo estimado para a Região Norte14, com 95% de significância, margem de erro de 10%, um efeito de desenho de 2 e um percentual de perda estimado em 20%. Após o ajuste para populações finitas, o tamanho amostral estimado foi de 807 indivíduos. O tamanho amostral para a comparação entre os sexos foi estabelecido em 192 para cada grupo, considerando o erro tipo I de 0,05, poder de 90% e uma prevalência de necessidade de prótese superior de 20,73% para detectar 10% de diferenças entre os grupos14.

 

 

Foram excluídas as pessoas cujas condições de saúde não permitiram a realização do exame odontológico e aquelas que não alcançaram o escore mínimo do teste congnitivo, determinados pelo método Teste de Fluência Verbal, categoria animais17.

Entrevistas individuais foram realizadas para a obtenção de dados demográficos de idade, sexo e raça/cor da pele, e características socioeconômicas para escolaridade, renda per capita, renda familiar, tipo de moradia, número de pessoas por cômodo na residência e posse de automóvel. Além disso, foram coletadas informações sobre utilização de serviços odontológicos, incluindo consulta pelo menos uma vez, tempo desde a última consulta, local do atendimento e motivo do atendimento.

As medidas clínicas bucais de cárie dentária, edentulismo, e uso e necessidade de prótese foram coletadas à partir dos critérios propostos pela Organização Mundial da Saúde18. A cárie dentária foi avaliada com a utilização do índice de dentes cariados, perdidos e obturados (CPO-D), que proporciona a identificação dos dentes acometidos pela doença cárie em um indivíduo, considerando a sua condição clínica atual: cariado, perdido (extraídos) ou obturado. Além disso, foram registrados o número de dentes e o número de dentes hígidos. O uso e necessidade de prótese dentária foram avaliados a partir da presença de espaços protéticos. O exame bucal foi realizado nos domicílios por um único examinador previamente calibrado, utilizando-se luz artificial controlada, espelho bucal plano nº 5 (Duflex®) e sonda CPI (Stainless®), atendendo as normas de biossegurança.

Calibração

Previamente ao estudo foi realizada calibração envolvendo a examinadora da pesquisa com o objetivo de verificar a concordância para os registros. Foram selecionados 20 idosos funcionalmente independentes de uma unidade de internação (N = 10) e de um Centro de Atenção Integral a Melhor Idade (N = 10), com o objetivo de incluir idosos com diferentes condições bucais.

Todos os pacientes foram examinados em dois momentos com 7 dias de intervalo. Para a availação da consistência da examinadora foi utilizado o Coeficiente Kappa, cujos valores foram 0,97 para CPO-D, 1,00 para edentulismo, e 1,00 para uso de prótese e 0,81 para necessidade de prótese.

Coleta dos dados

A coleta dos dados ocorreu nos domicílios, a partir do sorteio de setores censitários, proporcionalmente à população de cada Região Administrativa. O percurso dos setores censitários foi feito segundo a dinâmica utilizada para a realização do censo demográfico, ou seja, percorrendo as quadras, casa a casa, no sentido horário, para identificação das moradias onde residia a população de interesse.

A abordagem inicial foi realizada por uma assistente social que explicava os objetivos da pesquisa e obteve a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido daqueles que aceitaram participar da pesquisa. Registraram-se ainda os que se recusaram a participar da pesquisa para posterior cálculo da taxa de não-resposta.

As variáveis discretas e contínuas foram apresentadas pela média e desvio-padrão, enquanto as categóricas foram através de proporções. A comparação das estimativas entre os sexos foi feita empregando-se os testes Mann-Whitney (variáveis discretas e contínuas) e Qui-quadrado (variáveis categóricas). Diferenças em relação à utilização de serviços odontológicos foram analisadas através da comparação dos intervalos de 95% de confiança. O nível de significância estabelecido nas análises foi de 0,05. A análise dos dados foi realizada no software SPSS (Statistical Package for Social Sciences).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas, protocolo nº 0234.0.115.000-07.

 

Resultados

Foram convidados a participar do estudo 807 idosos de 65 a 74 anos de idade residentes na zona urbana do município de Manaus, capital do Amazonas, Brasil. A taxa de não-resposta foi de 5,4%, e 12,2% não apresentaram condições de saúde que possibilitassem a realização do exame ou não atingiram o escore mínimo do teste de Fluência Verbal, resultando em uma amostra de 667 idosos. A caracterização da amostra de acordo os setores censitários e Zonas Administrativa está apresentada na Tabela 1.

A média de idade foi 69,2 + 3,0 anos, sendo a maioria do sexo feminino (69,12%) e de cor parda (71,8%). A média de anos de estudo foi de 4,6 + 4,0 anos de estudo, enquanto a renda per capita média foi de R$ 711,2 + 900,6, e a média de renda familiar de R$ 1.586,3 + 1505,2. O tipo de moradia foi predominantemente própria, 94,0% com uma média de 0,97 (+ 0,73) pessoas por cômodo. Quanto à posse de automóvel, 74,4% relataram não possuir. (Tabela 2).

A utilização de serviços odontológicos foi relatada por 98,8% da amostra, a maioria dos participantes relatando que a última consulta foi há 1 ano ou mais (74,2%). O atendimento odontológico no setor privado foi predominante (68,1%). O principal motivo de atendimento relatado foi a consulta de rotina ou manutenção (59,7%), seguida de dor (19,8%) e sangramento gengival ou cavidade nos dentes (15,9%). O motivo de atendimento foi estatisticamente diferente entre os sexos. A proporção de idosas que utilizou o serviço odontológico por motivo de rotina ou manutenção foi maior em relação aos idosos (63,6% vs 50,1%) (Tabela 3).

As condições clínicas dentárias estão apresentadas na Tabela 4. A média de CPO-D foi de 29,1 ± 4,3, sendo que 95,5% do índice foi composto pelo componente perdido. As idosas apresentaram médias estatisticamente maiores para CPO-D e para o componente perdido em relação aos idosos (p < 0,001). A média de dentes presentes e dentes hígidos foi de 4,1 ± 5,7 e 2,8 ± 4,1, respectivamente, e foram estatisticamente maiores nas idosas. A prevalência de edentulismo foi 52,9% (IC95%: 49,1 - 56,7%), e 3% dos indivíduos apresentaram 20 ou mais dentes presentes. A proporção de idosos edêntulos foi estatisticamente menor quando comparados com as idosas (Tabela 4).

O uso de prótese total superior foi de 79,2%, enquanto para o arco inferior foi de 37,1%. A frequência de necessidade de prótese total superior e inferior foi de 42,6% e 34,7%, respectivamente. O uso de prótese total foi estatisticamente maior na pessoas do sexo feminino para ambos os arcos. A necessidade de prótese unitária ou parcial no arco superior foi maior para o sexo masculino em ambos os arcos (p < 0,001) (Tabela 5).

 

Discussão

O presente estudo pode ser considerado como o primeiro estudo de base populacional em saúde bucal com amostra representativa para os idosos residentes em Manaus, AM. Em geral, a caracterização da saúde bucal de idosos no Brasil tem sido conduzida por meio de pesquisas com amostras não probabilísticas e pouco representativas da população em geral. Por isso, historicamente são escassas as informações sobre o quadro epidemiológico dos idosos que possam subsidiar a formulação de estratégias e políticas em saúde bucal para os idosos. Somente em 2004, após a divulgação dos resultados do inquérito nacional de saúde bucal, foi possível conhecer as condições de saúde bucal dos idosos no país14. Todavia, as inferências para a população idosa são de nível macrorregional e, portanto, não representativos para as cidades, inclusive as capitais.

As características demográficas do presente estudo foram semelhantes aos achados de outros estudos epidemiológicos em saúde bucal em idosos, incluindo o último inquérito nacional de saúde bucal6,7,11,12,14,19. A amostra foi composta por 69,1% de mulheres, enquanto de acordo com o IBGE, 56,5% da população urbana de Manaus entre 65 e 74 é do sexo feminino20. A sobrerepresentação de mulheres observada no presente estudo tem sido relatada na literatura6,7,12,16. Este aspecto representa uma limitação para validade externa dos achados, porém com pouca implicação para sua validade interna.

De acordo com as condições bucais encontradas, o edentulismo foi o principal agravo dos idosos residentes em Manaus. Este achado corrobora os resultados do SB Brasil para a região Norte. A prevalência de edentulismo não foi estatisticamente diferente entre a cidade de Manaus (53,6% IC95%: 49,8-57,4) e a região Norte do país (47,3% IC95%:43,7-50,9). A comparação de características relacionadas ao edentulismo demonstrou diferenças entre a capital do Amazonas e a região Norte. Em comparação com a população idosa da região Norte, observou-se na cidade de Manaus uma maior proporção de idosos que usam prótese superior (79,2% IC95%:7 6,1 - 82,3 vs 51,9% IC95%: 48,3 - 55,5) e inferior (37,1% IC95%: 33,4 - 40,8 vs 29,4% IC95%: 26,1 - 32,7). Apesar do uso de prótese ser maior para Manaus, a necessidade de prótese também foi elevada. A proporção de idosos que necessitavam de prótese superior em Manaus foi acima do dobro em relação à região Norte (42,6% IC95%: 38,8 - 46,4 vs 20,7% IC95%: 7,8 - 23,6), enquanto para o arco inferior esta diferença foi menor (34,7% IC95%: 31,1 - 38,3 vs 26,9% IC95%: 23,7 - 30,1). Possíveis explicações podem ser apresentadas para tais discrepâncias, incluindo o padrão de utilização de serviços odontológicos. Em Manaus, os idosos relataram maior utilização de serviços odontológicos em relação à região Norte (98,8% IC95%: 97,9 - 99,6 vs 92,8% IC95%: 90,9 - 94,7). O local de atendimento odontológico foi diferente entre Manaus e a região Norte. Enquanto na cidade de Manaus o atendimento no setor privado foi maior do que na região Norte (68,1% IC95%: 64,6 - 71,6 vs 34,6% IC95%: 31,2 - 38,0), na Região Norte o atendimento público ou filantrópico foi maior que em Manaus (48,9% IC95%: 45,3 - 52,5 vs 30,7% IC95%: 27,2 - 34,2). As diferenças na utilização de serviços odontológicos entre Manaus e a região Norte podem ser entendidas por alguns fatores. A amostra do inquérito nacional e da região Norte incluiu municípios com diferentes portes populacionais, incluindo aqueles de pequeno porte. Além disso, o estudo na região Norte incluiu populações ribeirinhas e rurais.

Em um estudo de base domiciliar com amostra probabilística realizado em Biguaçu, SC, observou-se um menor uso de prótese total superior e inferior, e uma maior necessidade de prótese total superior e inferior comparado com o presente estudo7. Resultados da avaliação de uso e necessidade de prótese em Botucatu, SP, demonstraram proporções um pouco menores de uso de prótese total, e maiores de uso de prótese total inferior. No entanto, a necessidade de prótese total diferiu significativamente, sendo 4 vezes menor para o arco superior e quase 2 vezes menor para o inferior12. A inclusão de áreas rurais no estudo de Collussi7 e as diferenças socioeconômicas entre Manaus e Botucatu podem ser possíveis fontes para estas diferenças.

A prótese total foi o tipo de prótese que apresentou maior percentual de uso para ambos os arcos, assim como, para a necessidade de prótese no arco superior. No entanto, quanto à necessidade para o arco inferior, embora com uma diferença discreta em relação a prótese total, o maior percentual foi para a necessidade de prótese parcial, dado diferencial em relação a outros estudos que apresentam maior percentual para prótese total7,9,14.Todos os idosos deste estudo apresentaram alguma experiência de cárie, e o CPO-D encontrado (29,08) foi semelhante ao dos idosos da região Norte do inquérito nacional (28,3), bem como para os idosos dos municípios de maior porte do inquérito nacional (27,3). Outra semelhança foi a predominância do componente perdido do CPO-D, sendo 95,5% neste estudo e 93,1% na região Norte do SB Brasil14.

Com referência aos estudos loco-regionais realizados no Brasil, de base populacional, o CPO-D observado neste estudo foi semelhante aos valores de 28,9 descritos por Colussi em Biguaçu, Santa Catarina7; 27,9 por Mesas em Londrina, Paraná11 e 29,9 por Moreira em Botucatu, São Paulo12. A pior condição bucal para cárie dentária e edentulismo em mulheres observada neste estudo é similar aos realizados em Santa Catarina e Botucatu7,12.

Estudos com idosos institucionalizados8,9,10,11,22,23 referem um CPO-D que variou de 27,7 a 31,9 com uma participação percentual de dentes perdidos de 85,9% a 96,3%.

Apesar do crescente interesse pela caracterização do perfil epidemiológico bucal em idosos, poucos estudos analisaram as diferenças entre os sexos. A pior condição bucal observada nas mulheres em relação aos homens, avaliada pela maior perda dentária8 e maior número de dentes cariados8,11,12,24, também foi relatada por estudos prévios. Apenas uma pesquisa, realizada em Londrina (PR), comparou o uso e a necessidade de próteses totais entre sexos11. O uso e a necessidade de prótese total superior e inferior foram maiores no presente estudo em comparação com o estudo realizado em Londrina. Estas diferenças estão possivelmente relacionadas ao menor número de dentes encontrado em Manaus em relação à Londrina. Embora o estudo anterior não tenha sido representativo da população idosa do município, os achados foram consistentes em relatar uma maior prevalência do uso de prótese total superior e inferior em idosas em relação aos idosos, bem como a maior necessidade de prótese parcial superior e inferior em homens11.

Na comparação dos resultados deste estudo com as metas propostas pela Federação Mundial de Odontologia para o ano 2000, observa-se que a saúde bucal do idoso de Manaus está muito aquém da meta de 50% com 20 ou mais dentes presentes na boca25,14. Apesar dos dados do presente estudo terem sido coletados em 2007, apenas 3% dos idosos de Manaus possuíam 20 ou mais dentes, resultado pior do que o observado para o país, que foi de 8,6%. Desta forma, os dados do presente estudo nos permitem indicar qua a meta proposta pela Federação Mundial de Odontologia para o ano de 2010, 96% das pessoas com pelo menos 20 dentes funcionais, não será atingida em Manaus26.

A elevada ocorrência de edentulismo e de necessidade de prótese total em idosos em Manaus evidencia um quadro epidemiológico desfavorável para a saúde bucal. Considerando as tendências demográficas e a situação clínica bucal encontrada é importante salientar a necessidade de uma maior atenção à saúde deste grupo etário, não só nas políticas públicas de promoção de saúde, mas em ações individuais para a reposição dos dentes perdidos.

 

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Correspondência:
Maria Augusta Bessa Rebelo.
Rua Rio Itannauá, 194/504, Bairro Nossa Sra das Graças
Manaus-AM 69.053-040.
E-mail: augusta@ufam.edu.br

Recebido em: 14/07/09
Versão final reapresentada em: 11/08/10
Aprovado em: 29/08/10

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