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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.17  supl.1 São Paulo  2014

https://doi.org/10.1590/1809-4503201400050014 

Artigos Originais

Comportamento sexual de adolescentes escolares da cidade de Goiânia, Goiás

Reinaldo Satoru Azevedo SasakiI 

Márcia Maria de SouzaII 

Cláudio Rodrigues LelesIII 

Deborah Carvalho MaltaIV 

Luciana Monteiro Vasconcelos SardinhaIV 

Maria do Carmo Matias FreireIII 

IDepartamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil

IIFaculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil

IIIFaculdade de Odontologia da Universidade Federal de Goiás - Goiânia (GO), Brasil

IVSecretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil


RESUMO

OBJETIVO:

Investigar as características do comportamento sexual de adolescentes escolares e verificar se há diferenças em relação ao sexo dos estudantes e ao tipo de escola.

MÉTODOS:

Estudo transversal utilizando dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2009, realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE. A amostra foi composta por 3.099 escolares do 9° ano residentes em Goiânia (GO), com predomínio das idades de 13 a 15 anos, que responderam um questionário sobre fatores de risco e proteção à saúde. Na análise estatística, foi utilizado o teste de Rao-Scott, considerando o efeito do desenho amostral para amostras complexas.

RESULTADOS:

A prevalência de relação sexual alguma vez na vida foi de 26,5% (IC95% 23,8 - 29,4), e, no último ano, foi de 18,5% (IC95% 16,5 - 20,8), sendo mais frequentes entre os meninos e estudantes de escolas públicas. A maioria teve a primeira relação com 13 anos ou menos, com até 3 parceiros, utilizou algum método contraceptivo na última relação e recebeu orientação sobre prevenção na escola. A idade da primeira relação foi mais precoce e o número de parceiros foi mais elevado entre os meninos. O relato de orientações recebidas sobre prevenção de gravidez foi mais frequente entre meninas e nas instituições privadas. Nestas, foi também mais elevado o relato de orientações sobre DST/AIDS.

CONCLUSÃO:

Os resultados mostraram a necessidade de ações educativas, buscando reduzir as discrepâncias encontradas em relação ao sexo e o tipo de escola, com envolvimento de profissionais das áreas da educação e saúde e dos pais.

Palavras-Chave: Sexo; Saúde sexual e reprodutiva; Adolescente; Saúde escolar; Comportamento sexual; Parceiros sexuais

ABSTRACT

OBJECTIVE:

To investigate the characteristics of sexual behavior in school-aged adolescents and possible differences regarding sex and type of school.

METHODS:

Cross-sectional study using data from the National Adolescent School-based Health Survey (PeNSE) 2009, carried out by the Brazilian Ministry of Health, in partnership with the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE). The sample consisted of 3,099 9th graders living in Goiânia, State of Goiás, Brazil, mostly aged between 13 to 15 years old, who answered a self-applicable questionnaire on risk and protective health factors. The Rao-Scott test was used in the statistical analysis, considering the complex sample design.

RESULTS:

The prevalence of sexual intercourse was of 26.5% (95%CI 23.8 - 29.4) at least once in life and of 18.5% (95%CI 16.5 - 20.8) in the last year. Both behaviors were more frequent among male students and among those attending public schools. Most of the respondents had their first intercourse at the age of 13 or younger, with up to 3 partners. They had also used a pregnancy prevention method in the last intercourse, and received guidance on prevention at school. The age of the first intercourse was earlier and the number of partners was higher among male students. More females and those attending public schools reported having received information on pregnancy prevention. Guidance on STD/AIDS was also more frequent in public schools.

CONCLUSION:

Results showed a need for health education measures involving education and health professionals, as well as parents, to reduce the discrepancies found regarding sex and type of school.

Key words: Sex; Sexual and reproductive health; Adolescent; School health; Sexual behavior; Sexual partners

INTRODUÇÃO

A adolescência constitui um período de transição entre a fase da infância e a fase adulta, com grandes transformações nos aspectos sociais, cognitivos, emocionais e corporais. Neste período, as oportunidades de se atuar na saúde são grandes e padrões futuros de comportamento em saúde na vida adulta são estabelecidos1.

Dentre as mudanças ocorridas, destacam-se os aspectos do relacionamento afetivo e, sobretudo, o fenômeno da sexualidade2,3. O início da atividade sexual é um marco importante da vida das pessoas, e se sobressai na adolescência pela característica própria desta fase, pois os jovens buscam a afirmação da sua própria identidade e estão ávidos por experiências novas4. De modo geral, por se sentirem jovens, saudáveis e curiosos a novas situações, os adolescentes podem adotar comportamentos sexuais sem proteção, tornando-os vulneráveis a agravos e infecções, especialmente pelas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e a gravidez precoce5,6.

O comportamento sexual dos adolescentes deve ser estudado considerando-se as desigualdades sociais, a cultura sexual, o sexo e a escolaridade, os quais são importantes fatores determinantes para comportamento de risco e podem resultar em morbidades nesta população. Assim, é importante conhecer a realidade deste grupo populacional nos diferentes cenários onde estão inseridos. A maioria dos jovens brasileiros frequenta instituições de ensino, e este ambiente, além de ser reconhecido como espaço social para o aprendizado, é também local de socialização e discussões no âmbito da educação sexual7.

O comportamento sexual dos meninos até recentemente era pouco estudado, sendo o enfoque mais concentrado nas meninas8,9. Estudos sobre o tema são também mais frequentemente realizados em escolas públicas devido à maior facilidade de acesso a estas pelos pesquisadores, e são poucos os estudos comparando ambos os tipos de dependências administrativas das instituições10-13. Os resultados mostraram comportamentos de risco e níveis de informação diferentes em relação ao sexo e ao tipo de escola10-13.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2009 pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi pioneira no cenário nacional, com o intuito de conhecer os fatores de risco e proteção entre adolescentes brasileiros14. O estudo mostrou que 30,5% dos adolescentes brasileiros residentes nas capitais já tiveram relação sexual alguma vez na vida, com frequência maior entre meninos (43,7%), em comparação com as meninas (18,7%), e entre estudantes de escolas públicas (33,1%). Dos que tiveram relação, 40,1% relataram um único parceiro na vida4.

Estudos anteriores utilizando dados da PeNSE 2009 apresentaram resultados importantes a respeito do conjunto da amostra nacional, e alguns dados descritivos de cada capital pesquisada4,15,16. Contudo, é também relevante analisar de forma mais ampla a situação das capitais separadamente, buscando estabelecer comparações com o cenário nacional. Com base na realidade local, estratégias mais apropriadas poderão ser implementadas para beneficiar os envolvidos. Estudos sobre o comportamento sexual de adolescentes no município de Goiânia são escassos e referem-se ao conhecimento sobre os meios de transmissão de DST e uso dos métodos contraceptivos17-19. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi descrever as características do comportamento sexual dos adolescentes escolares do município de Goiânia (GO) e verificar se há diferenças em relação ao sexo dos estudantes e o tipo de escola.

MÉTODOS

Estudo transversal utilizando a base de dados de uma amostra probabilística de escolares do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas do município de Goiânia (GO) que participaram da PeNSE em 200914. A pesquisa utilizou plano amostral de conglomerados em dois estágios, onde as unidades primárias de amostragem foram as escolas e as unidades secundárias foram as turmas do 9º ano das escolas selecionadas. A amostra de escolares foi formada por todos os escolares das turmas selecionadas que se encontravam na escola no momento da coleta dos dados e que aceitaram participar. Para critérios de exclusão, definiram-se estudantes do período noturno, não frequentadores habituais, e aqueles que se recusaram a responder o questionário. A coleta dos dados foi realizada por equipes estaduais do IBGE entre março e junho de 2009. Em Goiânia, foram amostradas 73 escolas e 112 turmas, com número total de 3.727 matriculados.

No presente estudo, foram incluídos os adolescentes que responderam as questões sobre sexo (feminino/masculino) e sobre comportamento sexual, totalizando 3.099 participantes com idade entre 11 e 17 anos ou mais, sendo a maioria de 13 a 15 anos. Foram analisadas as seguintes variáveis relativas ao seu comportamento sexual: ocorrência de relação sexual, características do comportamento sexual e orientações sobre prevenção recebidas na escola. Estas variáveis foram analisadas de acordo com o sexo do escolar e a natureza administrativa da escola, se pública ou privada.

O comportamento sexual do adolescente foi obtido a partir da questão "Você já teve relação sexual (transou) alguma vez?", com as categorias de respostas "Sim" e "Não". Foram também investigadas as variáveis relação sexual nos últimos 12 meses, idade da primeira relação sexual, com quantas pessoas teve relação sexual, se na última relação usou método para evitar gravidez, se usou preservativo, se recebeu orientação na escola sobre prevenção de gravidez, AIDS ou outras DST, ou sobre como conseguir preservativo.

Inicialmente foram calculadas as frequências (porcentagem e respectivos intervalos de confiança de 95%) das variáveis. Para a análise das associações entre cada uma das variáveis relacionadas ao comportamento sexual e as variáveis sexo e tipo de escola, foi utilizado o teste do χ2 com correção de Rao-Scott. Como se trata de amostra por conglomerados, em todas as análises foi considerado o efeito do desenho amostral para amostras complexas, utilizando-se pesos amostrais calculados no módulo Complex Samples do programa estatístico SPSS, versão 17.0. O peso amostral representa a probabilidade de cada escolar participar da amostra, segundo a escola que ele frequentava20.

O projeto da PeNSE foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP, através do Parecer de Emenda nº 005 de 10 de junho de 2009, sendo registrado sob o nº 11.537.

RESULTADOS

Dos 3.099 respondentes, aproximadamente a metade era do sexo feminino (51,6%). Quanto à cor da pele/raça autorrelatada, menos da metade eram pardos (41,1%), 39,0% eram brancos, 10% eram pretos, 5,3% eram orientais e 3,9% eram indígenas. Quase a metade dos participantes estava na faixa etária de 14 anos (49,8%), enquanto 29,7% tinham 13 anos ou menos e 20,4% tinham 15 anos ou mais. Mais da metade dos estudantes (66,1%) era de escola pública.

A prevalência de relação sexual alguma vez na vida foi de 26,5%, e, nos últimos 12 meses, foi de 18,5% (Tabela 1). Mais da metade dos adolescentes que tiveram relação sexual alguma vez na vida iniciaram com 13 anos ou menos (63,2%). O número de parceiros variou de 1 a 6, sendo um único parceiro a categoria mais frequente (41,9%). A maioria dos adolescentes afirmaram que utilizaram algum método para evitar a gravidez na última relação (71,9%) e usaram preservativo na última relação (75,9%). A grande maioria relatou também ter recebido orientação sobre saúde sexual na escola em relação à prevenção de gravidez (82,1%), AIDS e outras DST (89,6%), e sobre como conseguir preservativo (70,1%).

Tabela 1 Distribuição de frequência das variáveis analisadas no estudo. Adolescentes do município de Goiânia. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), Brasil, 2009. 

Variáveis Categorias n % (IC95%)*
Comportamento sexual
Teve relação sexual alguma vez na vida (n = 3099) Sim 823 26,5 (23,8 – 29,4)
Não 2276 73,5 (70,6 – 76,2)
Teve relação nos últimos 12 meses (n = 3048) Sim 563 18,5 (16,5 – 20,8)
Não 2485 81,5 (79,2 – 83,5)
Idade na primeira relação sexual (n = 808) < 13 anos 500 63,2 (58,8 – 67,4)
14 anos 188 22,0 (18,8 – 25,7)
> 15 anos 120 14,8 (12,0 – 18,1)
Com quantas pessoas teve relação (n = 811) 1 346 41,9 (38,2 – 45,6)
2 a 3 220 27,4 (24,3 – 30,7)
4 a 6 168 21,0 (18,0 – 24,2)
Não Lembra 77 9,8 (8,2 – 11,7)
Na última relação usou método para evitar gravidez (n = 819) Sim 594 71,9 (67,9 – 75,6)
Não 176 22,4 (18,8 – 26,2)
Não sabe 49 5,8 (4,2 – 8,0)
Na última relação usou preservativo (n = 817) Sim 625 75,9 (73,2 – 78,5)
Não 171 21,7 (19,0 – 24,7)
Não sabe 21 2,3 (1,5 – 3,7)
Orientações sobre saúde sexual na escola
Prevenção de gravidez (n = 3041) Sim 2475 82,1 (79,2 – 84,6)
Não 387 12,4 (10,5 – 14,5)
Não sabe 179 5,6 (4,5 – 6,8)
Prevenção de AIDS ou outras DST (n = 3055) Sim 2733 89,6 (88,0 – 91,0)
Não 233 7,5 (6,4 – 8,8)
Não sabe 89 2,9 (2,2 – 3,6)
Como conseguir preservativo (n = 3055) Sim 2132 70,1 (67,0 – 73,1)
Não 661 21,5 (19,1 – 24,0)
Não sabe 262 8,4 (7,2 – 9,7)

*Corrigido para o desenho amostral

A prevalência de relação sexual alguma vez na vida e nos últimos doze meses foi maior em escolares do sexo masculino que no sexo feminino, e entre os estudantes de escola pública em comparação com aqueles que estudavam em escolas privadas (p < 0,001). A idade da primeira relação foi mais precoce e o número de parceiros foi mais elevado entre os estudantes do sexo masculino do que do feminino (p < 0,001), e não houve diferença estatística entre o tipo de escola e o sexo quando comparado ao uso de algum método preventivo na última relação (Tabelas 2 e 3).

Tabela 2 Comportamento sexual dos adolescentes escolares do município de Goiânia segundo sexo. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), Brasil, 2009. 

Variáveis Masculino
n (%)*
Feminino
n (%)*
Valor p**
Teve relação sexual alguma vez na vida (n = 823) 584 (38,3) 239 (15,2) < 0,001
Teve relação nos últimos 12 meses (n = 563) 379 (25,4) 184 (12,0) < 0,001
Idade na primeira relação sexual (n = 808)
< 13 anos 383 (68,8) 117 (49,8) < 0,001
14 anos 120 (19,2) 68 (28,6)
> 15 anos 70 (11,9) 50 (21,6)
Com quantas pessoas teve relação (n = 734)
1 208 (35,0) 138 (58,5) < 0,001
2 a 3 170 (29,6) 50 (21,9)
4 a 6 138 (24,2) 30 (13,2)
Na última relação usou método para evitar gravidez (n = 594) 410 (70,6) 184 (75,0) 0,048
Na última relação usou preservativo (n = 625) 447 (77,0) 178 (73,3) 0,292

*Corrigido para o desenho amostral

**Teste de Rao-Scott

Tabela 3 Comportamento sexual dos adolescentes do município de Goiânia segundo tipo de escola. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), Brasil, 2009. 

Variáveis Escola pública
n (%)*
Escola privada
n (%)*
Valor p**
Teve relação sexual alguma vez na vida (n = 823) 627 (30,4) 196 (18,8) < 0,001
Teve relação nos últimos 12 meses (n = 563) 418 (20,9) 145 (14,0) < 0,001
Idade na primeira relação sexual (n = 808)
< 13 anos 389 (64,1) 111 (60,4) 0,512
14 anos 135 (20,8) 53 (25,8)
> 15 anos 92 (15,1) 28 (13,7)
Com quantas pessoas teve relação (n = 734)
1 255 (41,8) 91 (44,2) 0,535
2 a 3 172 (28,1) 48 (25,2)
4 a 6 125 (20,1) 43 (23,7)
Na última relação usou método para evitar gravidez (n = 594) 451 (71,7) 143 (72,5) 0,501
Na última relação usou preservativo (n = 625) 477 (76,6) 148 (73,9) 0,376

*Corrigido para o desenho amostral

**Teste de Rao-Scott

O relato de orientação sobre prevenção de gravidez recebida na escola foi mais frequente entre adolescentes do sexo feminino e em escolas públicas (p < 0,05). Informações sobre prevenção da gravidez e sobre AIDS e outras DST foram mais frequentes nas escolas privadas (p < 0,05). Não houve diferenças entre os grupos quanto à orientação sobre como adquirir preservativo (Tabela 4).

Tabela 4 Orientações recebidas na escola sobre saúde sexual entre adolescentes do município de Goiânia segundo sexo e tipo de escola. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), Brasil, 2009. 

Variáveis Masculino
n (%)*
Feminino
n (%)*
Valor p** Escola pública
n (%)*
Escola privada
n (%)*
Valor p**
Orientação sobre prevenção de gravidez (n = 2475) 1158 (80,1) 1317 (83,9) 0,037 1650 (85,3) 825 (89,9) 0,020
Orientação sobre AIDS ou outras DST (n = 2733) 1297 (88,1) 1436 (91,0) 0,097 1840 (91,4) 893 (93,9) 0,024
Orientação sobre como conseguir preservativo (n = 2132) 1036 (70,4) 1096 (69,9) 0,345 1439 (75,8) 693 (78,0) 0,437

*Corrigido para o desenho amostral

**Teste de Rao-Scott

DISCUSSÃO

Este estudo foi o primeiro a avaliar a prevalência de relação sexual e sua associação com o sexo dos estudantes e o tipo de escola no município de Goiânia. Dentre os seus aspectos relevantes, destaca-se a utilização de uma base de dados de pesquisa nacional, com metodologia bem fundamentada e amostra representativa das capitais brasileiras14.

As características da amostra são também importantes por contemplarem tanto o sexo feminino quanto o masculino em suas proporções reais, pois até na Conferência do Cairo21, os meninos não tinham a atenção necessária do ponto de vista de pesquisa, avaliação e ações.

A prevalência de relação sexual alguma vez na vida entre os escolares de Goiânia (26,5%) foi inferior àquela observada na amostra nacional da PeNSE (30,5%)4. Estudos realizados em adolescentes nas escolas ou em domicílios de outros municípios brasileiros mostraram prevalências mais altas, mas as amostras apresentavam indivíduos mais velhos10-12,22-24.

Quanto à distribuição por sexo, foi mais elevada entre os meninos, coincidindo com os dados nacionais da PeNSE 20094 e de pesquisas realizadas em outras localidades10-13,22-24. Nos Estados Unidos, o Sistema de Vigilância de Risco e Comportamento da Juventude, avaliando estudantes que corresponderiam no Brasil aos estudantes do 9° ano do ensino fundamental ao 3° ano do ensino médio em 2009, não encontrou diferença entre meninos e meninas quanto ao relato de relação sexual25. Os resultados diferentes podem ser devido aos fatores culturais e à idade, pois no estudo americano, a amostra incluiu indivíduos mais velhos.

Os resultados em relação ao tipo de escola mostraram que nas instituições públicas a prevalência de relação sexual alguma vez na vida foi mais alta do que nas instituições privadas. Estudo anterior realizado em estudantes de 15 a 18 anos na área metropolitana de São Paulo confirma este achado11. Da mesma forma, na amostra nacional da PeNSE, os alunos de escola pública tiveram maior frequência de relação sexual (30,4%) do que os de escola privada (18,8%)4. Malta et al.4 consideraram que a maior prevalência nas escolas públicas poderia ser explicada pela diferença etária, já que nestas os estudantes do nono ano são mais velhos que os estudantes das escolas privadas, e alunos mais velhos apresentam maior prevalência de iniciação sexual.

O percentual de adolescentes que tiveram entre quatro e seis parceiros (21%) foi o mesmo encontrado nos dados nacionais da PeNSE4. O número elevado de parceiros constitui motivo de preocupação no campo da saúde, pois pode aumentar o risco de transmissão de HIV e outras DST. Assim, estratégias educativas são necessárias para a redução da vulnerabilidade dos adolescentes, respeitando suas escolhas. A criação do Programa Saúde na Escola (PSE) pelo Governo Federal em 200726constitui um exemplo de iniciativa que inclui a abordagem da saúde sexual e reprodutiva no contexto das escolas do país e que pode ter impacto positivo nesta questão.

A idade é um fator importante a ser considerado, pois caso se saiba da probabilidade de início da vida sexual nesta época, ações educacionais e preventivas podem ser aplicadas antes da primeira relação sexual. Vieira et al.17, estudando adolescentes do sexo feminino sexualmente ativas, com idade entre 15 e 19 anos, residentes em um distrito sanitário de Goiânia, encontraram que mais da metade teve a primeira relação sexual com idade igual ou menor a quinze anos. Segundo estudo realizado pelo Ministério da Saúde, a frequência das mulheres que iniciaram a relação antes dos 14 anos passou de 13,6% a 32,3% no período de 1984 a 1998, tendo mais que dobrado27. Observamos em nosso estudo que a maioria dos adolescentes teve a primeira relação aos 13 anos ou menos (63,2%), sendo este percentual maior que o encontrado a nível nacional (47,1%)4. Iniciação em idades mais jovens tem sido relatada também em outros estudos10,12,24,28.Na maioria das vezes, o início da relação sexual dos meninos ocorre antes das meninas10,12,24,29.

Chama a atenção no presente estudo a alta prevalência de relatos de uso de preservativo masculino e de recebimento de orientação escolar sobre questões relacionadas à saúde sexual. Este resultado está de acordo com aquele verificado na amostra nacional da PeNSE4. Contudo, em outra investigação realizada pelo Ministério da Saúde em 2009, a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas da População Brasileira, apenas 33,6% dos indivíduos do sexo feminino e 57,4% do sexo masculino entre 15 e 24 anos usaram preservativos em todas as relações30. Em estudo anterior, realizado no município de Goiânia, o uso inconsistente do preservativo (às vezes, raramente e nunca) totalizou 79,5% dos casos entre adolescentes do sexo feminino17. Além disso, em um município da Região Sudeste31, foi observada uma lacuna entre o conhecimento e o uso de contraceptivos, pois as adolescentes, apesar de conhecê-los, não os utilizavam.

Quanto às orientações sobre prevenção da gravidez e das DST/AIDS, chama a atenção o fato de terem sido menos frequentes nas instituições públicas, pois sabe-se que geralmente atendem escolares oriundos de estratos socioeconômicos mais baixos e, portanto, mais vulneráveis a fatores de risco à saúde. Resultados similares foram observados na amostra nacional da PeNSE em relação à DST/AIDS, enquanto que a orientação sobre aquisição de preservativo foi mais comum nas escolas públicas15. Nestas, são geralmente desenvolvidos programas públicos de saúde, especialmente aqueles voltados para a prevenção das DST, que podem contribuir para um maior nível de informação entre os estudantes e resultar em práticas mais seguras, apesar de não reduzirem necessariamente a frequência das relações sexuais. Contudo, estas medidas não parecem ter sido suficientes para a superação das desigualdades existentes.

Algumas considerações devem ser feitas quanto à amostra, pois ela se limita aos estudantes com frequência regular na escola, excluindo os adolescentes fora do sistema educacional regular e aqueles em situação de rua. Contudo, esta situação é geralmente encontrada em indivíduos de 15 a 17 anos, que tiveram menor representatividade na amostra da PeNSE. Além disso, a cobertura do sistema de ensino, quando considerados adolescentes mais jovens (entre 10 e 14 anos), foi alta em 200732, o que serviu de base para o cálculo amostral da pesquisa. Também não estão contemplados nesta amostra os estudantes dos cursos noturnos. Estes podem diferir daqueles do turno diurno, pois frequentemente são estudantes de situação econômica inferior, com objetivos diferentes, inseridos no mercado de trabalho, com maior taxa de abandono das escolas e muitas vezes com educação de pior qualidade33.

CONCLUSÃO

Conclui-se que o comportamento sexual dos adolescentes escolares de Goiânia em 2009 foi associado ao sexo e ao tipo de escolas que frequentavam, sendo a prevalência de relação sexual mais elevada em meninos e em escolas públicas. Estes resultados podem contribuir para o planejamento e avaliação das ações no campo da saúde sexual voltados para este grupo populacional. Analisando o comportamento sexual e os fatores associados, os pais, educadores e profissionais da saúde têm, portanto, informações para identificar os adolescentes escolares com maior chance de iniciar ou ter iniciado vida sexual e promover ações de promoção da saúde sexual para que, nesta fase de profundas mudanças na vida dos escolares, os riscos deste comportamento sejam minimizados. A orientação sexual instituída precocemente tem o potencial de minimizar as intercorrências que podem comprometer a saúde sexual e reprodutiva do adolescente. Merecem atenção especial os estudantes adolescentes do sexo masculino, por terem iniciação sexual mais frequente, precoce e maior número de parceiros. As escolas públicas devem expandir e fortalecer suas ações de educação em saúde com enfoque no comportamento sexual. De modo geral, a orientação sexual nas escolas tem o potencial de contribuir para o bem-estar dos jovens na vivência de sua sexualidade atual e futura.

REFERÊNCIAS

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 18 de Janeiro de 2014; Revisado: 20 de Março de 2014; Aceito: 24 de Março de 2014

Autor correspondente: Reinaldo Satoru Azevedo Sasaki. Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal de Goiás. Alameda Cel. Joaquim Bastos, n°. 134, Setor Marista, CEP: 74175-150, Goiânia, GO, Brasil. E-mail: reinaldo_sasaki@yahoo.com.br

Conflito de interesses: nada a declarar

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