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Revista de Economia Contemporânea

versão On-line ISSN 1980-5527

Rev. econ. contemp. v.11 n.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2007

https://doi.org/10.1590/S1415-98482007000100006 

NOTAS DE FALECIMENTO

 

José Ricardo Tauile: um colega e amigo inesquecível

 

 

João Saboia

Professor titular e diretor do Instituto de Economia da UFRJ

 

 

Conheci José Ricardo Tauile em 1963, na época do vestibular para Engenharia. Passamos para a UFRJ e, a partir daí, além de colegas, nos tornamos amigos para o resto da vida. Enquanto ele fazia Engenharia Civil, eu cursava Eletrônica. Poucos anos depois fomos fazer o doutorado nos Estados Unidos. Embora tenhamos seguido para cidades distantes — ele, para Nova Iorque, e eu, para Berkeley —, sempre mantivemos contato e nos visitamos várias vezes naquele período.

Voltando ao Brasil, passamos a trabalhar juntos na COPPE/UFRJ, de onde havia me afastado para cursar o doutorado, participando da criação do mestrado em Economia da Tecnologia. Fizemos concurso para professor assistente na antiga Faculdade de Economia e Administração (FEA), em 1978, e fizemos parte do grupo de professores que iniciou a pós-graduação em Economia na FEA, em 1979.

José Ricardo chegou a trabalhar alguns anos como engenheiro civil no Rio de Janeiro. Suas preocupações sociais e seu interesse pela política, entretanto, fizeram com que ele modificasse seu percurso, decidindo pelo doutorado em economia na New School University, uma escola de esquerda, na contramão do ensino de economia nos Estados Unidos.

Sua vida profissional foi pautada pela visão marxista e interesse pelo entendimento do funcionamento do sistema capitalista e de suas mudanças recentes. Sua tese de doutorado analisava as transformações do trabalho e do processo produtivo introduzidas com a microeletrônica. Seus trabalhos da década de 1980 são bastante ilustrativos dessa fase inicial, como, por exemplo, o artigo "Microeletrônica e automação: implicações para o trabalho e a organização da produção no Brasil", Pesquisa e Planejamento Econômico, 1984.

De volta ao Brasil, dedicou especial interesse por um dos motores da economia capitalista — a indústria automobilística. Em sua produção nessa área pode ser mencionado, entre outros, o artigo "Microeletrônica e automação: a indústria automobilística no Brasil", Revista de Economia Política, 1986.

Dois textos publicados na Revista de Economia Política ilustram sua produção nos anos 1990, sendo considerados por ele próprio entre os melhores do período: "Flexibilidade dinâmica, cooperação e eficiência econô­mica" (1994) e "As transformações do capitalismo contemporâneo e sua natureza na análise de Marx" (em co-autoria com Luiz Augusto Faria, 1999).

Embora interessado pelas transformações mundiais do capitalismo, José Ricardo nunca deixou de estudar o Brasil. O título de seu livro, Para (re)construir o Brasil contemporâneo —, publicado pela Contraponto, em 2001, é ilustrativo. Há em sua produção inúmeros outros exemplos de projetos e propostas de transformação para a economia brasileira.

Nos últimos anos ele trabalhava em temas da economia solidária, como uma alternativa para o desenvolvimento do capitalismo no país. O artigo "Do socialismo de mercado à economia solidária", publicado pela Revista de Economia Contemporânea, em 2002, é um ótimo exemplo desse período. Por sinal, José Ricardo foi o principal responsável pela escolha do nome da Revista do Instituto de Economia da UFRJ.

Dentro da UFRJ, José Ricardo teve uma carreira impecável. Além de seus cursos, muito apreciados pelos alunos, orientou inúmeras monografias de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Participou dos vários conselhos. Foi vice-diretor e diretor do Instituto de Economia. Atualmente, dirigia o Laboratório de Economia Marxista, que a partir de sua morte passou a ser chamado Laboratório de Economia Marxista José Ricardo Tauile.

Se uma palavra pudesse ser usada para qualificar Tauile, essa poderia ser "vida". Ele esbanjava alegria pela vida e vontade de viver. Sempre defendeu suas idéias com vigor. Lutou bravamente contra a doença que o atingiu no final de 2005. Acompanhei de perto sua luta nos últimos meses. Seu comportamento nesse período representou um verdadeiro ensinamento para o resto de minha vida. Era um grande colega e para mim um amigo inesquecível.

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