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Revista CEFAC

Print version ISSN 1516-1846On-line version ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.9 no.3 São Paulo July/Sept. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462007000300012 

VOZ
ARTIGO ORIGINAL

 

Desenhos e depoimentos: recursos para investigação da percepção e do conhecimento vocal

 

Drawings and statements: resources for the investigation of perception and vocal recognition

 

 

Priscila Fabiana Agostinho PereiraI; Regina Zanella PenteadoII

IFonoaudióloga pela Universidade Metodista de Piracicaba
IIFonoaudióloga; Docente do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Metodista de Piracicaba; Especialista em Linguagem; Especialista em Voz; Especializanda em Ergonomia pela Universidade Metodista de Piracicaba; Mestre e Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: caracterizar, em desenhos e depoimentos sobre a voz, os aspectos de percepção e de conhecimento vocal em participantes de grupos de vivências de voz.
MÉTODOS:
análise documental de relatórios finais de quatro grupos de Vivência de Voz realizados nas disciplinas Estágio em Fonoaudiologia Comunitária I e II de um Curso de Fonoaudiologia para análise de conteúdo dos desenhos e depoimentos escritos de 53 sujeitos.
RESULTADOS:
as categorias identificadas pela análise dos desenhos e dos depoimentos foram: imagem vocal ou valoração atribuída à voz com freqüência da imagem/valoração positiva nos desenhos e negativa nos depoimentos. Quanto aos atributos vocais, houve freqüência do atributo auditivo-proprioceptivo, com menor ocorrência dos atributos sócio-cultural, psico-emocional e profissional. Os parâmetros vocais com maior ocorrência foram os de loudness, pitch, articulação e qualidade vocal.
CONCLUSÃO:
desenhos e depoimentos escritos sobre a voz se mostram como recursos que podem possibilitar a expressão da percepção e conhecimento dos sujeitos acerca da sua voz e necessitam ser melhor explorados nas ações educativas fonoaudiológicas que prezam pela troca de saberes, diálogo e participação ativa dos sujeitos, coerentes com a perspectiva da promoção da saúde.

Descritores: Voz; Promoção da Saúde; Educação em Saúde


ABSTRACT

PURPOSE: to characterize the aspects of perception and vocal recognition in voice training groups through the participants' drawings and statements about voice.
METHODS:
documental analysis of final reports from four Voice Training groups which took place in the probationary period in Community Speech-Language-Pathology I and II of one Speech-Language-Pathology course for the analysis of content of the drawings and statements written by 53 subjects.
RESULTS:
the categories identified by the analysis of drawings and statements were: vocal image or value attributed to voice with a positive image/value prevailing in the drawings and negative one in the statements. As for vocal attributes, the auditive-proprioceptive attribute prevailed, whereas there was less stress on socio-cultural, psycho-emotional and professional attributes. Vocal parameters with higher occurrence were loudness, pitch, articulation and vocal quality.
CONCLUSION:
drawings and statements written about voice are showed as resources which can enable the expression of perception and knowledge of the subjects about their voice and need to be better explored in educational and speech and language training areas which have the exchange of knowledge, dialogs and active participation of subjects in high regard and are coherent with the health-promoting perspective.

Keywords: Voice; Health Promotion; Health Education


 

 

INTRODUÇÃO

Na literatura fonoaudiológica nota-se a primazia do olhar científico nos processos de avaliação vocal e poucos estudos estão voltados para a investigação do prisma dos sujeitos envolvidos nas ações: o que ele pensa, sabe, conhece e como percebe a sua voz. Poucos são os estudos que empregam estratégias alternativas às tradicionais entrevistas ou questionários para abordar o conhecimento e a percepção dos sujeitos sobre a própria voz 1-3.

Assumir o paradigma da Promoção da Saúde nas ações fonoaudiológicas implica em buscar constituir processos avaliativos e educativos que, pautados pelo diálogo, favoreçam a participação ativa dos sujeitos e propiciem a capacidade de expressão e a troca de conhecimento acerca dos aspectos contextuais, sociais, subjetivos e culturais que influenciam as percepções dos sujeitos sobre seu processo saúde-doença-cuidado 3-5. A ação educativa se faz fundamental para a promoção da saúde, na perspectiva de se criar condições para que as pessoas se capacitem para reconhecer suas necessidades e expressá-las, com autonomia para tomar decisões a respeito de aspectos que afetam os seus processos saúde-doença 6,7. Diversos autores afirmam a importância de se levar em conta os processos subjetivos, identitários e culturais nas ações educativas 8-14.

Na área de voz, faz-se, portanto, necessário o investimento em ações educativas grupais, coletivas ou comunitárias que possam oferecer subsídios para a orientação e fundamentação de mudanças necessárias no sentido de promover a capacitação dos sujeitos como agentes de sua saúde por meio de estratégias metodológicas que levam em conta a subjetividade e o ponto de vista dos sujeitos sobre a sua própria saúde (vocal) e que possibilitam a expressão do seu conhecimento, do seu saber e das suas maneiras de perceber a própria voz 3.

O processo de avaliação da voz parte integrante importante de uma ação em saúde vocal representa a oportunidade do sujeito se deparar com as suas condições de saúde, significando e (re) interpretando seu processo saúde-doença. Desta maneira, o conhecimento, a percepção e participação dos sujeitos envolvidos não podem ser subestimados ou desconsiderados; pelo contrário, são aspectos que precisam ser valorizados, viabilizados e melhor explorados sendo que, para tanto, é preciso buscar construir caminhos no contexto de uma prática que valorize a integração de saberes - acadêmico e popular - na construção conjunta do conhecimento em saúde vocal 3.

O desenho está no foco de poucos trabalhos fonoaudiológicos, sendo que a maioria deles se trata de pesquisas desenvolvidas por estudiosos da área de linguagem e são poucos aqueles que empregam o uso do desenho na área de voz.

No contexto clínico, alguns autores 15 empregaram desenhos da própria pessoa e da sua voz como componentes da avaliação de sujeitos disfônicos. Os autores afirmam a importância dos desenhos, como meio simbólico de comunicação e de expressão de conteúdos psíquicos inconscientes e de características psicológicas, de personalidade, cognitivas, afetivas, comportamentais e corporais. A análise de desenhos e das cores, para estes autores, pode trazer conteúdos e contribuições para ações futuras e soluções de problemas no contexto terapêutico.

Estudos 16 voltados para o uso do desenho na clínica fonoaudiológica com crianças concluíram que este vem sendo empregado em processos avaliativos e terapêuticos em linguagem oral, escrita, motricidade oral e voz (estes últimos como auxiliar na realização de exercícios) e também considerado um recurso auxiliar na vinculação terapeuta-paciente. As autoras sugerem a ampliação de pesquisas fonoaudiológicas a respeito do desenho.

Desenhos de crianças disfônicas foram utilizados em estudos 17 para avaliar a compreensão dos pacientes acerca dos objetivos do processo terapêutico fonoaudiológico na clínica de voz, afirmando o valor dos desenhos como recursos expressivo e avaliativo.

Desenhos e depoimentos foram utilizados para investigar o conhecimento sobre a voz de estudantes de Comunicação Social Habilitação Jornalismo 18,19, empregando metodologia similar à da pesquisa que ora se apresenta, e os resultados indicam que desenhos e depoimentos sobre a voz se mostram como recursos que possibilitam a expressão dos sujeitos acerca da voz e saúde vocal, aspectos que necessitam ser melhores explorados nas ações fonoaudiológicas.

Na presente pesquisa, o interesse pelo desenho não está na exatidão de suas formas, mas sim enquanto sistema de representação simbólica e possibilidades de projeção do esquema corporal e da própria imagem (vocal) refletida no papel, de comunicação, de significação, de objetivação de sentimentos, pensamentos, conhecimentos e de expressão da subjetividade, da cultura e de modos de participação 17,20-24. Aqui, entende-se que desenhar sobre a própria voz é uma oportunidade de o sujeito pensar sobre ela, as suas características e os aspectos intervenientes na qualidade e saúde vocal, bem como de expressar o conhecimento, a experiência e as percepções relacionados à voz e de refletir sobre estes.

O objetivo deste estudo é caracterizar, em desenhos e depoimentos sobre a voz, os aspectos de percepção e de conhecimento vocal, na perspectiva de contribuir para que os aspectos de subjetividade, da cultura, do saber e da perspectiva dos sujeitos envolvidos possam ser melhores investigados e explorados nos processos avaliativos e nas ações educativas e terapêuticas da área de voz.

 

MÉTODOS

Os sujeitos dessa pesquisa são participantes dos Grupos de Vivência de Voz, desenvolvidos como parte das ações da disciplina Estágio em Fonoaudiologia Comunitária I e II do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Tais grupos constituem-se por procura espontânea de sujeitos da cidade de Piracicaba, de ambos os sexos e com idades entre 15 e 80 anos que fazem ou não uso profissional da voz. São integrantes da comunidade acadêmica (funcionários, professores, universitários) ou não, como educadores e professores da rede pública e particular, cantores, atores, advogados, jornalistas, radialistas, locutores, pastores, profissionais de turismo, vendedores, palestrantes, músicos e vocalistas de bandas de diversos estilos musicais (MPB, "country", rock, forró, gospel, pagode, sertanejo e caipira), além de donas de casa, praticantes de capoeira, integrantes de grupos corais e de louvor de diversas igrejas.

Os Grupos de Vivência de Voz desenvolvem-se em encontros semanais de uma hora e meia, durante um semestre, quando são abordados diversos temas e conteúdos, dentre eles o da avaliação vocal dos participantes 3,7. Os grupos são desenvolvidos com número variável de participantes, entre 10 e 30, em média 20.

Nestes grupos, logo nos primeiros encontros, uma das atividades realizadas implica no oferecimento, aos sujeitos, de papel sulfite e canetas coloridas sob a seguinte instrução: "faça um desenho sobre a sua voz, uma imagem que a represente e, a seguir, escreva um depoimento sobre a sua voz".

Tais produções gráficas (o desenho e o depoimento) são apresentadas para os participantes do grupo e depois anexadas ao corpo do relatório final, elaborado pelos alunos estagiários do Curso, sob supervisão docente. Nota-se, entretanto, que os desenhos e depoimentos sobre a voz não vêm se configurando como objetos de análise e de interpretação no processo avaliativo vocal.

O presente artigo se refere à pesquisa qualitativa que analisa relatórios finais de quatro grupos de Vivência de Voz para o levantamento de dados – os registros dos desenhos e depoimentos escritos sobre a voz. Foram incluídos os sujeitos que continham os registros de desenhos e de depoimento e excluídos aqueles que não continham um dos dados (ou que faltaram no dia em que a atividade foi realizada), de maneira que a pesquisa foi realizada com 53 sujeitos.

Buscou-se analisar os desenhos e os depoimentos nas suas possibilidades de expressão e representação do conhecimento, do saber e da percepção que os sujeitos têm da sua voz, levando-se em conta a sua representatividade. A análise se dá no sentido de se identificar conteúdos e/ou temas 25 aos quais as produções remetem ou se referem. Feita a análise de conteúdo/análise temática, realizada a partir dos procedimentos de pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Na pré-análise serão realizadas observações dos desenhos e várias leituras dos textos dos depoimentos, permitindo aflorar os sentidos e descobrindo impressões e orientações para a análise. A exploração do material possibilitou identificar temas e conjuntos temáticos, bem como selecionar imagens e trechos significativos e identificar conteúdos e núcleos de sentidos que orientem recortes e agregações na organização do material em categorias temáticas que se referem às percepções e conhecimentos dos sujeitos. Os desenhos e trechos dos depoimentos são classificados e categorizados em função da imagem sobre a voz/ imagem vocal e também de alguns atributos relacionados à voz, orientado por estudos anteriores 18,25 e também em função de alguns parâmetros vocais como: articulação, loudness, qualidade vocal, pitch, respiração/coordenação pneumofônica, velocidade de fala e ressonância 26.

A imagem vocal é classificada como entre predominantemente positiva ou negativa, mista ou neutra. É considerada imagem/valoração mista quando um mesmo material explicita conteúdos positivos e negativos; enquanto que a imagem/valoração neutra é a ausência de expressão de imagem vocal e/ou de valoração da voz.

No que diz respeito aos atributos, são considerados aqueles já identificados em estudos anteriores que se valeram da mesma metodologia da presente pesquisa 18, quais sejam: a) auditivo-proprioceptivo, o qual se refere aos aspectos relacionados à percepção auditiva da voz e às sensações proprioceptivas na produção vocal; b) sócio-cultural, o qual remete às percepções referentes aos aspectos de interação social, atividades sociais e culturais, de comunidade e de grupos sociais; c) profissional, o qual compreende as percepções referentes aos aspectos relacionados aos traços e opções de acordo com a profissão e as necessidades no serviço profissional; e d) psico-emocional, o qual engloba as percepções referentes a aspectos emocionais e psicológicos.

O projeto que originou a presente pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UNIMEP sob nº 76/04, em 21/12/2004.

 

RESULTADOS

Houve maior freqüência da imagem/valoração positiva nos desenhos e da imagem/valoração negativa nos depoimentos escritos, ambos com 20 (37%) ocorrências. A imagem/valoração mista foi observada em 10 desenhos (20%) e em 13 depoimentos (24%) e a neutra em 8 desenhos (15%) e em 6 depoimentos (11%). Uma vez que a ocorrência da valoração mista refere-se à conjunção de imagem vocal ou valorações positiva e negativa, pode-se considerar que, somando-se a ocorrência isolada com a mista, a ocorrência total de valoração positiva e negativa foi de aproximadamente 30 (57%) para desenhos e 33 (62%) para depoimentos.

Alguns resultados de trechos de depoimento escrito e desenhos são apresentados nas Figuras 1, 3,6, 8 e 9.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Figuras 2, 4, 5 e 7 apresentam os resultados da categoria atributos relacionados à voz e as Figuras de 10 a 12 da categoria dos parâmetros vocais. Abaixo, o depoimento escrito do sujeito 34 expressa os atributos auditivo-proprioceptivo e sócio-cultural e os parâmetros vocais de articulação e velocidade de fala:

(S.34) - "Usei a bala ardida porque às vezes arde minha garganta, geralmente quando canto, chego até a afogar; usei a corda porque, às vezes, eu me enrolo no falar; usei o cadeado porque, às vezes, eu prendo a bochecha para falar; usei o trem porque, às vezes, falo rápido e as pessoas não me entendem (...) também às vezes eu grito sem perceber; e eu preciso da minha voz perfeita para agradar ainda mais ao meu Deus e não deixar ninguém surdo".

 

 

 

 

 

 

A Figura 1 refere-se aos desenhos do sujeito 34 e expressa os atributos auditivo-proprioceptivo e sócio-cultural e os parâmetros de articulação e velocidade de fala.

A Figura 2 expressa a distribuição dos resultados de desenhos e depoimentos sobre a voz conforme o atributo auditivo-proprioceptivo.

O depoimento escrito do sujeito 9 expressa os atributos sócio-cultural e profissional:

(S.9) - "os círculos unidos representam o convívio social, onde minha voz é um vínculo de ligação" e "minha voz é como instrumento de trabalho".

A Figura 3 apresenta os desenhos do sujeito 9 e expressa os atributos sócio-cultural e profissional.

A Figura 4 expressa a distribuição dos resultados de desenhos e depoimentos sobre a voz conforme o atributo sócio-cultural.

A Figura 5 expressa a distribuição dos resultados de desenhos e depoimentos escritos sobre a voz conforme o atributo profissional.

O depoimento escrito do sujeito 4 expressa o atributo psico-emocional:

(S4) - "eu acho minha voz de criança".

A Figura 6 apresenta os desenhos do sujeito 4 e expressa o atributo psico-emocional.

A Figura 7 mostra a distribuição dos resultados de desenhos e depoimentos escritos sobre a voz conforme o atributo psico-emocional.

O depoimento do sujeito 8 expressa o parâmetro qualidade vocal:

(S.8) - "A minha voz é como o fogo: apaga e acende; precisa de lenha para se manter, só que a minha fogueira nunca se mantém no mesmo nível. Quando necessito que a chama se mantenha ela me deixa na mão."

A Figura 8 apresenta os desenhos do sujeito 8 e expressa o parâmetro qualidade vocal.

O depoimento do sujeito 47 expressa os parâmetros: loudness, pitch, qualidade vocal e respiração/coordenação pneumofônica.

(S.47) - "minha voz começa baixinha e fina; de repente aumenta e se quebra com falta de fôlego".

A Figura 9 apresenta os desenhos do sujeito 47 e expressa os parâmetros: loudness, pitch, qualidade vocal e respiração/coordenação pneumofônica.

A Figura 10 apresenta a distribuição dos resultados da análise de desenhos e depoimentos segundo os parâmetros vocais de articulação e loudness.

A Figura 11 mostra a distribuição dos resultados da análise de desenhos e depoimentos segundo os parâmetros vocais: qualidade vocal e pitch.

A Figura 12 apresenta a distribuição dos resultados da análise de desenhos e depoimentos segundo os parâmetros vocais: respiração/coordenação pneumofônica, velocidade de fala e ressonância.

 

DISCUSSÃO

Os resultados demonstraram que a maioria dos sujeitos foi capaz de expressar suas percepções a respeito da imagem e valoração da voz por meio do desenho e dos depoimentos, e a maior ocorrência de depoimentos sugere que a linguagem escrita parece oferecer maiores possibilidades para se expressar percepções e impressões sobre a imagem/valoração voz. Desta maneira, desenhos e depoimentos escritos podem se configurar como recursos de linguagem e possibilidades simbólicas para a expressão das percepções subjetivas e a análise e avaliação da imagem vocal e da valoração da voz.

Os achados encontram-se em conformidade com estudos com professores 25-28 e com estudantes de Jornalismo 18 que se valeram de depoimentos para a identificação da imagem vocal. A imagem vocal e a valoração da voz são aspectos relevantes na análise e avaliação de profissionais da voz, os quais podem atribuir valorações e importâncias distintas à voz, em conformidade com as variações perceptivas individuais e as características, demandas e necessidades de uso da voz em cada categoria 2,29.

No contexto das ações educativas em saúde vocal, o fonoaudiólogo deve buscar conhecer a imagem e a valoração que os sujeitos têm a respeito da própria voz, a fim de conhecer e melhor adequar tais ações às percepções, expectativas, saberes, conhecimentos, necessidades e realidades daqueles aos quais elas se dirigem. Isso deve ser feito levando-se em conta que as maneiras pelas quais os sujeitos percebem, representam e lidam com o seu processo saúde-doença-cuidado são determinadas por seus conhecimentos, experiências, cultura e historicidade e que as educativas em saúde devem favorecer a expressão desses aspectos num processo de trocas entre os envolvidos 3.

Na Figura 1 se visualiza a grande ocorrência de atributos auditivo-proprioceptivos, tanto no desenho como no depoimento, ainda que predominante neste último. Ou seja: este é o atributo mais percebido e referido pelas duas modalidades gráficas. A ocorrência deste atributo afirma os achados de estudos anteriores 18,19 e confirma a importância da sua percepção nas ações fonoaudiológicas, pois as capacidades de ouvir e de discriminar a própria voz são muito valorizadas quando se trata de promover mudanças da qualidade vocal.

A correspondência entre os sentidos das representações gráficas dos desenhos (figuras, formas e cores) e dos depoimentos escritos (texto, frases e palavras) é evidente nas Figuras 4, 5 e 7, indicando a complemen-taridade entre linguagens - desenho, fala e escrita 22 e confirmando a importância do desenho e depoimento como formas de expressão da subjetividade, da percepção e dos conhecimentos dos sujeitos sobre a voz. Os atos de desenhar e de escrever sobre a própria voz são oportunidades para os sujeitos pensarem sobre a voz, as maneiras pelas quais a percebem, os usos que fazem dela, as suas características e os aspectos intervenientes na saúde e qualidade vocal.

Os círculos da Figura 3 e os resultados da Figura 4 afirmam o foco nos aspectos relacionais, comunicação e nos impactos da voz sobre o outro, confirmando a importância da voz como componente relevante para a comunicação interpessoal e responsável pelo sucesso das interações humanas 2,3,15,26.

A análise das Figuras 4 e 7 articulam-se no que diz respeito às produções do sujeito 3, ou seja, as aves cantam e representam o cantor; as flores e o colorido representam a vida, a sensibilidade e as emoções; o canto, enquanto forma de manifestação artística, exprime características da sociedade e da cultura em que se insere e, ao dirigir-se para alguém, uma platéia ou público específico, provoca uma relação entre o cantor e seu ouvinte provocando reações e emoções. Assim, desenho e depoimento do sujeito 3 exprimem a junção dos atributos: sócio-cultural e psico-emocional este último representando a importância da relação entre a qualidade vocal e os aspectos subjetivos, de ordem psicológica, afetiva e emocional do falante 15,26 (Figuras 6 e 7).

Desenhos e depoimentos dos sujeitos 2 e 9 (Figuras 3 e 5) se complementam na representatividade da voz como ferramenta/instrumento de trabalho e de qualificação profissional, confirmando que estes podem revelar aspectos do uso profissional da voz dos sujeitos e auxiliar o fonoaudiólogo no direcionamento das ações de promoção da saúde vocal, já que a voz merece atenção específica em função das necessidades, particularidades e singularidades de cada categoria profissional 2,15,26,29.

As Figuras 10, 11 e 12 demonstraram que os parâmetros vocais que ocorreram com maior freqüência foram os de loudness, pitch, articulação e qualidade vocal, o que sugere ser aqueles os parâmetros sobre os quais recaem, mais facilmente, a atenção, a crítica e as queixas dos sujeitos.

Estudos 26 que abordam a psicodinâmica vocal ajudam a compreender a importância da avaliação destes parâmetros e de como o sujeito percebe os impactos deles na sua comunicação.

Neste sentido, a loudness possui relação com a manifestação da personalidade e temperamento da pessoa, bem como com as maneiras como ela lida com a noção de limite próprio e do outro 26.

Já o pitch diz respeito à altura de um som e tem ligação direta com a personalidade do falante (vozes graves se relacionam a indivíduos autoritários e energéticos e vozes agudas a pessoas dependentes, infantis e frágeis) e com a intenção do discurso(alegria pode ser expressa por meio de tons mais agudos e a tristeza por tons mais graves) 26.

Uma articulação ampla, clara e bem definida confere credibilidade, favorece a projeção vocal, evita o esforço à fonação e permite ao falante transmitir uma sensação de franqueza, desejo de ser compreendido e clareza de idéias 26.

Por fim, a qualidade vocal é o conjunto de características que identificam a voz humana e fornece impressões e informações sobre o falante, nas dimensões biológica, psicológica, sócio-educacional, profissional, bem como a presença ou não de uma disfonia 26.

Nota-se que alguns sujeitos (1, 4, 6, 11 e 13) referem dois ou mais parâmetros vocais e que não houve desenhos ou depoimentos que pudessem ser relacionados aos parâmetros de modulação e ataque vocal, o que sugere que estes últimos parâmetros não são facilmente percebidos pelos sujeitos.

O fato de a qualidade vocal ser expressa tanto pelo desenho como pela escrita demonstra as capacidades dos sujeitos em refletir sobre a própria voz e manifestar as impressões e percepções a ela relacionadas. Isso mostra que o saber popular abarca conteúdos, informações e percepções importantes de serem conhecidas e levadas em conta nas ações em saúde vocal e que a oportunidade de desenhar e escrever sobre a voz se apresenta como possibilidade de expressar esses aspectos na perspectiva de se estabelecer canais para o diálogo entre a percepção do fonoaudiólogo e a dos sujeitos, ou seja, entre os saberes acadêmico/científico e comunitário/popular, em conformidade com estudos anteriores 3. Sugere-se a realização de pesquisas futuras focadas nesta temática.

 

CONCLUSÃO

Em geral houve correspondência entre os sentidos das representações gráficas dos desenhos e dos depoimentos sobre a voz, confirmando a interação entre essas duas formas de linguagem nas possibilidades de expressão das percepções, pensamentos, conhecimentos, emoções e experiências relacionadas com a voz/saúde vocal.

Desenhos e depoimentos sobre a voz se mostram como recursos que podem possibilitar a expressão e o conhecimento vocal dos sujeitos e precisam ser melhores explorados nas ações educativas, terapêuticas e assessorias fonoaudiológicas que prezam pela valorização e troca de saberes, pelo diálogo e pela participação ativa dos sujeitos.

O estudo aponta um caminho no sentido de se construir canais de expressão e relações dialógicas nas ações Fonoaudiológicas de maneira a se considerar as percepções e os saberes dos sujeitos envolvidos nas ações.

 

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Endereço para correspondência:
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Tel: (19) 35346144
E-mail: rzpenteado@unimep.br

Recebido em: 04/05/2007
Aceito em: 25/07/2007

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