SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.22 número3Estimulação das habilidades auditivas em pré-escolaresCorrelação entre habilidade de vocabulário receptivo, consciência sintática e escrita de palavras índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.22 no.3 São Paulo  2020  Epub 19-Jun-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216/20202231320 

ARTIGOS ORIGINAIS

Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia do Brasil

Chirlene Santos da Cunha Moura1 
http://orcid.org/0000-0002-3650-6383

Girlany Santana de Moura2 
http://orcid.org/0000-0003-4974-5858

Ivonaldo Leidson Barbosa Lima1 
http://orcid.org/0000-0003-1716-1575

Ariana Elite dos Santos1 
http://orcid.org/0000-0003-1723-7074

Maiara dos Santos Sousa3 
http://orcid.org/0000-0002-7605-7500

Luciana Figueiredo de Oliveira4 
http://orcid.org/0000-0003-1796-0318

1 Centro Universitário de João Pessoa - Unipê, Departamento de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

2 Centro Universitário de João Pessoa - Unipê, Curso de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

3 Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Curso de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

4 Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Departamento de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

investigar a inserção da Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia no Brasil.

Métodos:

trata-se de uma pesquisa documental exploratória descritiva, com base em informações documentais de domínio público. Para a coleta de dados foram realizadas pesquisas no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia seguida pela análise das matrizes curriculares de cada uma das instituições.

Resultados:

das 72 Instituições de Ensino Superior que oferecem o curso de bacharelado em Fonoaudiologia no Brasil e possuem a matriz curricular disponível no site, 34 possuem alguma disciplina voltada para a Fonoaudiologia Educacional. Na maioria das instituições, a disciplina possui carga horária igual ou maior que 40h, sendo que 87,88% dessas disciplinas tem caráter exclusivamente teórico.

Conclusão:

a presença da Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares é um avanço, porém ainda há um longo caminho a percorrer e ajustes a serem feitos para que a formação do fonoaudiólogo contemple satisfatoriamente o campo educacional.

Descritores: Fonoaudiologia; Educação; Educação Superior

ABSTRACT

Purpose:

to investigate the inclusion of Educational Speech-Language Pathology in the curricula of Speech-Language Pathology programs in Brazil.

Methods:

a descriptive, exploratory, documentary research based on information from public domain documents. Data were collected from the search on the website of the Conselho Federal de Fonoaudiologia, each institution’s curricula being analyzed.

Results:

a total of 72 higher education institutions in Brazil, offering a Speech-Language Pathology bachelor program, was found. Of those that had their curricula available on the website, 34 offered at least one course on Educational Speech-Language Pathology. In most institutions, such courses had a study load of 40 hours or more, and 87.88% were exclusively theoretical.

Conclusion:

the presence of Educational Speech-Language Pathology in the curricula represents a progress. However, there is still a long way to go and there are many adjustments to be made for the speech-language pathologist’s training to satisfactorily include the field of education.

Keywords: Speech, Language and Hearing Sciences; Education; Higher Education

Introdução

A relação entre a Fonoaudiologia e a Educação é instaurada desde o surgimento da profissão do fonoaudiólogo. Em quase um século de atividades no Brasil, com a profissão ativa e regulamentada desde 1981, por causas múltiplas, inclusive pelo desconhecimento dos programas e políticas públicas, considera-se que os fonoaudiólogos se afastaram da educação e se firmaram como profissionais da saúde deixando a área educacional em segundo plano1.

No entanto, convém enfatizar que esse afastamento se deu principalmente no campo teórico, quando os cursos de Fonoaudiologia, embasados em modelos médicos centrados que imperavam na época de seus surgimentos - e que ainda hoje apresentam um forte viés na área da saúde - pautaram sua formação prioritariamente em práticas preventivistas, com enfoque na dicotomia normal/patológico2-4.

A escola em si nunca deixou de ser campo de atuação do fonoaudiólogo. Com intuito de legitimar as práticas desse profissional no cenário educacional, o Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) publicou a resolução n° 3095, em 2005 e finalmente, em 2010, regulamentou a especialização de Fonoaudiologia Educacional, por meio da Resolução 3876.

A atuação do fonoaudiólogo educacional tem como proposta o trabalho voltado principalmente para a promoção da educação e da aprendizagem por meio de ações direcionadas à comunidade escolar nos diferentes níveis da vida, levando-se em consideração a realidade sócio educacional dos envolvidos, a partir de estudos que envolvam o contexto de saúde e educação daquela população7.

Não se pode esquecer que tradicionalmente, a formação do fonoaudiólogo tem enfatizado que este é o profissional certificado para identificar, diagnosticar e tratar pessoas com distúrbios da comunicação oral e escrita, voz, audição, motricidade orofacial, entre outras. E que por isso, na Educação, é comum que os objetivos de sua atuação estejam relacionados a estes verbos, ainda sob a justificativa da prevenção. Do ponto de vista da atuação educacional, o fonoaudiólogo deve se afastar das concepções puramente clínicas e investir na promoção da saúde8, por meio de uma atuação que possibilite uma educação de qualidade e aprendizagem significativa.

É inegável que os conhecimentos específicos desse profissional relacionados à aquisição da leitura e escrita, linguagem oral, voz e audição, podem contribuir com as escolas no processo educativo, estabelecendo forte interface entre a Educação e a Saúde. No entanto, é importante que o fonoaudiólogo passe a ser considerado como parte de uma equipe interdisciplinar e para isso, é necessário que o próprio passe a ter como objetivo atuar com a Educação, e não mais para a Educação, como tradicionalmente, acontece. Desta forma, o fonoaudiólogo educacional pode atuar em parceria com a equipe pedagógica da escola ou diretamente com os alunos, em todos os níveis e modalidades de ensino. O entendimento deste profissional a respeito dos processos que são voltados à promoção de saúde está conjugado à qualidade de ensino e caracterizam a importância da interlocução entre as áreas da Fonoaudiologia e da Educação9.

Apesar da resolução que rege a especialidade possibilitar um grande leque no que se refere às possibilidades de atuação do fonoaudiólogo educacional, percebe-se que tal atuação ainda pode ser considerada discreta e incipiente no Brasil. De acordo com o Conselho Federal de Fonoaudiologia, transcorridos cerca de dez anos de reconhecimento dessa especialidade, atualmente existem apenas 102 fonoaudiólogos especialistas em Fonoaudiologia Educacional10 em nosso país, o que representaria apenas 1,37% dos profissionais brasileiros.

Levando em consideração esta realidade, questiona-se o espaço que vem sendo dado, durante a formação do fonoaudiólogo, para fomentar a atuação na especialidade de Fonoaudiologia Educacional. E, além disto, como este espaço tem sido utilizado durante a graduação em Fonoaudiologia.

Portanto, se entende que é necessário refletir a respeito de como temas relacionados à Educação e da própria prática em Fonoaudiologia Educacional têm sido ofertados durante a formação deste profissional. Assim, o objetivo deste estudo foi investigar a inserção da Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia do Brasil.

Métodos

Trata-se de um estudo de base documental exploratória descritiva, cuja coleta foi realizada por meio de dados virtuais a partir da pesquisa da matriz curricular dos cursos de Fonoaudiologia, com o olhar voltado para a investigação de componentes curriculares relacionados à Fonoaudiologia Educacional. Apesar de não ser necessária a apresentação da pesquisa ao Comitê de Ética, cabe esclarecer que as instituições acadêmicas investigadas não tiveram seus nomes revelados, nem foram coagidas a fornecer informações ou manter contato colaborando com o pesquisador. Todas as informações obtidas em relação a esta pesquisa permanecerão em sigilo assegurando a proteção e imagem das instituições.

Esta pesquisa se deu com base em informações documentais de domínio público, coletadas a partir de buscas no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia, tendo como alvo as grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia pelo Brasil. O período da coleta de dados foi de junho à agosto de 2018 e fizeram parte da amostra desta pesquisa as Instituições de Ensino Superior (IES) apresentadas no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia.

Foram considerados critérios de inclusão:

  • Estar listada dentre as instituições que apresentam o curso de Fonoaudiologia no site do CFFa;

  • Estar com o site em funcionamento no período da coleta;

  • Ter a matriz curricular disponível para consulta.

Como critério de exclusão foi utilizado o não cumprimento dos requisitos acima. Desta forma, as instituições cujos sites não estavam disponíveis no momento da pesquisa, ou que não dispunham da matriz curricular para consulta foram excluídas do estudo.

Cabe informar que a coleta de dados se deu em duas etapas: na primeira foram pesquisadas as instituições no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia e na segunda foi realizada a análise das matrizes curriculares nos sites das IES. Para esta análise foram consideradas as seguintes variáveis: 1) existência de disciplina relacionada à especialidade de Fonoaudiologia Educacional; 2) investigação da relação entre teoria e prática nas disciplinas voltadas para a Fonoaudiologia Educacional, e 3) a análise da carga horária das disciplinas encontradas.

É importante salientar que mesmo entendendo que a atuação em Fonoaudiologia Educacional se aproxima bastante da área de linguagem, principalmente da linguagem escrita e leitura, considera-se que durante a formação do fonoaudiólogo as disciplinas voltadas para esta área apresentam, tradicionalmente, um olhar voltado à prática clínica. Por este motivo, para este estudo foram consideradas aqui apenas as disciplinas com a nomenclatura “Fonoaudiologia Educacional e/ou Escolar”. Disciplinas de linguagem oral e/ou escrita não fizeram parte do corpus de análise da pesquisa.

Diante das pesquisas realizadas nas matrizes curriculares de instituições com seu endereço disponível no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia foram encontradas 72 (setenta e duas) Universidades/Faculdades, em todo o Brasil, que oferecem o curso de bacharelado em Fonoaudiologia.

Dentre estas, 34 (trinta e quatro) instituições apresentaram alguma disciplina relacionada à Fonoaudiologia Educacional em sua matriz curricular e 23 (vinte e três) instituições que não possuem disciplinas relacionadas à esta área. Ainda é preciso chamar atenção que 15 (quinze) instituições não estavam com o site disponível no período da pesquisa. Este número torna-se relevante à medida que representa cerca 20% das instituições brasileiras que apresentam o curso de Fonoaudiologia.

Resultados

Os resultados da pesquisa mostram que a 2ª e a 4ª Regiões do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia detém o maior número de IES que oferecem o Curso de Graduação em Fonoaudiologia, sendo que cada uma dessas regiões apresenta 14 IES, como pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição de Instituições de Ensino superior que oferecem o curso de Fonoaudiologia no Brasil, de acordo com as regiões do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) 

IES Públicas IES Privadas Total
N % N % N %
1ª região 02 28,6 05 71,4 07 9,7
2ª Região 08 57,1 06 42,9 14 19,4
3a Região 03 25 09 75 12 16,7
4a Região 07 50 07 50 14 19,4
5a Região 01 25 03 75 04 5,6
6a Região 02 33,3 06 66,7 08 11,1
7a Região 03 42,9 04 57,1 07 9,7
8a Região 01 16,7 05 83,3 06 8,3
Total 27 37,5 45 62,5 72 100

Legenda: IES = Instituição de Ensino Superior

Fonte: (CFFa).

Em relação à quantidade de IES que apresentam disciplinas relacionadas à Fonoaudiologia Educacional, por região, os resultados revelam uma proporção maior, de modo geral, no total do número de Cursos de Fonoaudiologia que contemplam em sua matriz curricular alguma disciplina relacionada com a Fonoaudiologia Educacional (Tabela 2).

Foi possível constatar que a 7ª região do Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia - que compreende o estado do Rio Grande do Sul detém, proporcionalmente, a maior quantidade de IES que apresentam disciplinas relacionadas à Fonoaudiologia Educacional, já que das sete IES relacionadas nessa região, cinco (71,42%) obedecem a este critério. Na terceira, primeira e quinta região, a proporção de IES que possuem tais disciplinas são iguais ou maiores a 50%. Também, deve-se considerar a discrepância de algumas regiões com um grande número de instituições com o curso de Fonoaudiologia, mas que em contrapartida, apresenta um número pequeno de instituições que englobem a Fonoaudiologia Educacional em sua matriz curricular, como é visto na Tabela 2. Destaca-se aqui a oitava região, com o menor índice (33,33%), composta por quatro estados (Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão), possui seis instituições que oferecem o Curso de Fonoaudiologia, porém apenas duas delas dispõem, em sua matriz curricular, alguma disciplina voltada a Fonoaudiologia Educacional.

Os dados sobre a nona região não estavam descritos no site do Conselho Federal de Fonoaudiologia durante a coleta dos dados, assim não foi relatado no presente estudo. Segundo o Conselho Federal de Fonoaudiologia, esta, até então recém-criada, nona região, compreenderá seis estados do norte do Brasil: Acre; Amapá; Amazonas; Pará; Rondônia e Roraima, as quais pertenciam à quinta região. A criação vem ao encontro da necessidade de aproximar os fonoaudiólogos de seus Conselhos Regionais e é uma demanda antiga da região.

Tabela 2: Descrição do quadro da Fonoaudiologia Educacional das matrizes curriculares dos Cursos de Fonoaudiologia nas Faculdades/Universidades pelo Brasil 

Região Possuem disciplinas de FE Não possuem disciplinas de FE Site indisponível % Por Região
4 2 1 57,14%
5 6 3 35,71%
7 2 3 58,33%
6 5 3 42,85%
2 2 0 50,00%
3 3 2 37,05%
5 1 1 71,42%
2 2 2 33,33%
0 0 0 00,00%
Total 34 23 15

Legenda: FE = Fonoaudiologia Educacional

Foi avaliado o caráter (teórico, prático ou teórico/prático) das disciplinas que se relacionavam com a especialidade de Fonoaudiologia Educacional. É visível uma proporção maior no número de aulas teóricas nas instituições pesquisadas (Tabela 3).

Tabela 3: Total de instituições que possuem aulas práticas nas disciplinas de Fonoaudiologia Educacional 

Modalidade da disciplina Nº de Instituições %
Exclusivamente teórica 29 87,88%
Exclusivamente prática 2 6,06%
Teórico/ Prática 3 6,06%
Total 34 100%

Com relação à carga horária nas disciplinas voltadas a Fonoaudiologia Educacional a pesquisa mostra que em 69,70% das IES que apresentam disciplinas relacionadas com a especialidade de Fonoaudiologia Educacional, as mesmas apresentam mais de 40 horas aula (Tabela 4).

Tabela 4: Total de carga horária das disciplinas de Fonoaudiologia Educacional 

Carga horária Nº de Instituições %
<40 horas 23 69,70%
>40 horas 11 30,30%
Total 34 100%

Discussão

A interface entre a Fonoaudiologia e a Educação não é uma atividade recente. Diante dos limites das diferenças regionais, culturais e linguísticas, os registros das atividades dos primeiros fonoaudiólogos estavam relacionados principalmente à preocupação de problemas que surgiam nas escolas, como dificuldades de comunicação e dificuldade de compreensão. Tais dificuldades sempre foram motivo de preocupações e desafios para os educadores, já que os mesmos exercem grande influência nas questões de aprendizagem2-4,8.

Ainda hoje, muitos profissionais da educação afirmam não se sentirem preparados para lidar com essas questões, e frequentemente buscam auxílio fonoaudiológico. Apesar da estreita relação entre as áreas datar e até mesmo marcar o início das práticas fonoaudiológicas, a especialização em Fonoaudiologia Educacional só foi regulamentada em 2010, pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia - CFFa1,8,11,12.

Passados quase dez anos da regulamentação da especialidade, e principalmente, considerando a história da profissão, chama atenção o fato de que atualmente, menos de 50% das instituições que oferecem o curso de Fonoaudiologia no Brasil, tenham ao menos uma disciplina voltada para a Fonoaudiologia Educacional. Entende-se que o interesse e atuação em determinada área pode ser diretamente influenciada pelas experiências vivenciadas durante a graduação, e que, portanto, a formação tem um importante papel tanto na visibilidade que a Fonoaudiologia Educacional tem dentro da área de trabalho, quanto no reconhecimento do fonoaudiólogo educacional por profissionais de áreas afins, principalmente da Educação.

Além disto, é necessário destacar que a grande maioria (87,88%) das IES que apresentam a disciplina, o faz de forma exclusivamente teórica, com cargas horárias iguais ou - muitas vezes - um pouco maiores que 40h. De acordo com as recomendações do conselho nacional de saúde (CNS) e a proposta das diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação bacharelado em Fonoaudiologia, os cursos de Fonoaudiologia devem ter carga horária mínima de 4.000 (quatro mil) horas, na modalidade presencial com a formação articulada nas experiências da realidade13. É sabido que o cumprimento das 4.000 horas recomendado pelo CNS, deve englobar uma formação generalista, que possibilite que o discente, ao cumpri-las em totalidade, esteja apto para atuar com excelência em qualquer uma das áreas da Fonoaudiologia. No entanto, convém refletir o que significa e o que possibilita uma formação nos moldes vivenciados atualmente. O que significa e possibilita o curso de pouco mais de 40h voltadas à atuação do fonoaudiólogo educacional, em um universo de pelo menos 4.000h voltadas em sua maioria a identificação e (re)habilitação de patologias?

É notório e legítimo que o fonoaudiólogo deseje, cada vez mais, buscar o reconhecimento de que é um profissional que pode também atuar em parceria com a Educação. Mas, para que isto de fato aconteça, é preciso também que este profissional esteja bem preparado. Em outras palavras, a formação do fonoaudiólogo deve acontecer de forma a possibilitar também a atuação deste profissional em parceria com a Educação, ultrapassando os limites impostos historicamente, quando este era um profissional que, dentro de escolas, tinha o papel de identificar problemas de comunicação e traçar metas para preveni-los8,11.

Atualmente, tem se caminhado enquanto sociedade - mesmo que muitas vezes a passos lentos - para o respeito e reconhecimento das diversidades. No que tange à Educação, as Políticas Públicas voltadas à inclusão também têm destacado e procurado alternativas e soluções para os diferentes modos de aprender. Muitas das propostas passam por mudanças conceituais, que buscam ressignificar o fazer com as diferenças, bem como o status dessas dentro do ambiente educacional.

Assim, o fonoaudiólogo que pretende atuar na área educacional deve conhecer, para além das alterações que se manifestam no ambiente escolar, a legislação que rege este contexto, bem como as diferentes metodologias e teorias de aprendizagem, e ainda considerar as particularidades existentes em cada local. A atuação com escolas públicas, certamente apresenta demandas diferentes das encontradas em escolas privadas, por exemplo. E ainda, a atuação em cada instituição deve estar vinculada ao contexto sócio, histórico e cultural no qual aquela se encontra.

Para que isto aconteça, no entanto, é necessário que seja lançada uma nova forma de olhar, entender e vivenciar a Educação, ampliando o campo de visão, as estratégias e ações que, tradicionalmente, vêm sendo dirigidas exclusivamente às alterações de linguagem que se manifestam na escola11,12.

Assim, propõe-se que a atuação do fonoaudiólogo educacional vá além da orientação aos alunos e professores, e do foco exclusivo em alterações de linguagem - seja com intuito de preveni-las ou identificá-las para que os devidos encaminhamentos possam ser realizados. O trabalho a ser desenvolvido pelo fonoaudiólogo educacional deve visar antes de tudo uma relação horizontal entre as áreas de conhecimento, objetivando a construção compartilhada e identificação das demandas específicas de cada contexto a fim de promover melhor dinamicidade no processo de ensino-aprendizagem14.

Além disto, é necessário que este profissional entenda e se capacite para atuar além dos muros da escola. A atuação em Fonoaudiologia Educacional pode e deve ser realizada também considerando a equipe gestora e comunidade. O planejamento em parceria à gestão bem como a formação continuada de profissionais da Educação, são exemplos de práticas legitimadas pelo CFFa para o fonoaudiólogo educacional6,15. Mas, na prática, pode-se afirmar que pouco se tem ocupado tais espaços.

De acordo com estudo realizado com base nos periódicos nacionais de Fonoaudiologia16, majoritariamente, o fonoaudiólogo ainda tem como foco a atuação com crianças, com objetivos relacionados à identificação e (re)habilitação de alterações. Ou seja, a atuação deste profissional, mesmo em instituições de ensino, ainda está pautadas em uma perspectiva clínica, na maioria das vezes. Este fato parece refletir a formação do fonoaudiólogo que, como pode ser constatado pelos dados aqui apresentados, parece ainda não possibilitar a este profissional outra atuação, ou a ampliação do seu fazer em parceria com a Educação. É importante ressaltar também que ainda pode ser considerado baixo o número de fonoaudiólogos que integram, realmente, as equipes multidisciplinares das escolas, já que muitas vezes, a atuação deste profissional se dá apenas em forma de consultoria. Além disto, não há como esquecer que ainda falta (re)conhecimento - tanto por parte dos educadores quanto dos próprios fonoaudiólogos - a respeito da amplitude das ações que este profissional pode desenvolver. Tais fatores, certamente, também contribuem para o baixo número de ações realizadas na área de gestão educacional.

Outro aspecto a ser considerado é a qualidade das experiências na área educacional vivenciadas pelos graduandos em Fonoaudiologia durante sua formação. Como já relatado, a grande maioria das disciplinas tem caráter exclusivamente teórico. E embora se reconheça a fundamental importância do embasamento teórico para qualquer prática, não se pode negligenciar o papel, não menos importante, que a experiência prática traz ao aprendizado, principalmente durante a formação profissional. A importância da vivência prática proporciona aos alunos uma relação maior com o seu meio físico e social, fazendo que os mesmos assimilem mais rápido as informações teóricas17. Possibilita ainda que os professores tenham a iniciativa de um ensino mais dinâmico, integrando os alunos com o contexto, fazendo com que compreendam a si mesmo e ao mundo que está sendo apresentado a eles, levando-os a adquirir o saber em um tempo menor.

As aulas práticas ajudam no desenvolvimento dos conceitos científicos, além de permitir que os estudantes aprendam como abordar o seu futuro mundo fora da sala de aula e como desenvolver soluções para problemas complexos dentro da sua área, além disso, as aulas práticas servem de estratégia e podem auxiliar uma nova visão sobre um assunto18.

Sendo assim, é necessário refletir se a formação em Fonoaudiologia tem permitido ao estudante uma atuação educacional que realmente ultrapasse os limites da clínica, possibilitando ao aluno o conhecimento e reflexão a respeito das situações que podem ser vivenciadas em tal contexto, para além das alterações fonoaudiológicas que se manifestam na escola. Certamente, as IES que dispõem das disciplinas de Fonoaudiologia Educacional durante o curso de graduação, viabilizam aos estudantes mais conhecimentos em áreas de trabalho podendo ampliar o campo de atuação nesta área e fortalecer a Fonoaudiologia Educacional no país. Mas, ainda é necessário se investigar e refletir se as bases teórico-metodológicas utilizadas em tais disciplinas realmente possibilitam o deslocamento da visão clínica, tradicionalmente utilizada, para a visão educacional, comprometida com a promoção de uma educação de qualidade, antes de tudo.

Não obstante, considera-se urgente que esta área comece a apresentar mais corpo no que se refere ao quesito científico, principalmente, com pesquisas que retratem experiências de fonoaudiólogos educacionais que atuam no sentido da promoção da educação e da aprendizagem, em detrimento daquelas que utilizam uma perspectiva clínica como alicerce, utilizando as instituições de ensino, prioritariamente, como cenário de coleta de dados referentes à avaliação e diagnósticos fonoaudiológicos.

Conclusão

Por meio dos resultados desta pesquisa, foi possível concluir que a inserção de alguma disciplina voltada para a especialidade em Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia representa um avanço significativo na formação do fonoaudiólogo. No entanto, ainda se tem um longo caminho a percorrer e ajustes a serem feitos dentro das instituições, para que, assim, as ações dos fonoaudiólogos não fiquem restritas, apenas, à saúde, mas também às demandas do sistema educacional do país e não fique esquecida como área de atuação deste profissional.

É preciso que sejam realizadas novas pesquisas sobre a inserção da Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia do Brasil, para atualização de dados, e conscientização da importância desta área de trabalho. Assim, as instituições poderão mostrar aos alunos de graduação em Fonoaudiologia um novo campo de atuação, que pode ser feito em parceria com as escolas. Portanto, se faz necessário o estudo aprofundado dos objetivos e práticas vivenciadas durante as disciplinas de Fonoaudiologia Educacional. Não obstante, é urgente que o fonoaudiólogo educacional defina e assuma sua identidade, a fim de ampliar, (re)significar e legitimar suas práticas.

REFERÊNCIAS

1. Queiroga BAM. Bons motivos para investirmos na Fonoaudiologia Educacional. In: Queiroga BAM, Zorzi JL, Garcia V (orgs). Fonoaudiologia Educacional: reflexões e relatos de experiências. Brasília: Editora Kiron; 2015. p.44-53. [ Links ]

2. Berberian AP. Fonoaudiologia e Educação: um encontro histórico. São Paulo: Plexus, 2ª ed; 2007. [ Links ]

3. Figueiredo Neto L. O início da prática fonoaudiológica na cidade de São Paulo-seus determinantes históricos e sociais [Dissertação]. São Paulo (SP): Pontifica Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, Faculdade de Fonoaudiologia; 1988. [ Links ]

4. Bortolozzi KBB. Fonoaudiologia e Educação: a construção de uma parceria responsiva ativa [Tese]. Curitiba (PR): Universidade Tuiuti do Paraná; 2013. [ Links ]

5. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução Nº 309, 01 de abril de 2005. Dispõe sobre a atuação do Fonoaudiólogo na educação infantil, ensino fundamental, médio, especial e superior, e dá outras providências. Brasília; 2005. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/resolucoes/resolucoes_html/CFFa_N_309_05.htmLinks ]

6. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Resolução Nº 387, 18 de setembro de 2010. Dispõe sobre as atribuições e competências do profissional especialista em Fonoaudiologia Educacional reconhecido pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, alterar a redação do artigo 1º da Resolução CFFa nº 382/2010, e dá outras providências. Brasília; 2010. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/resolucoes/resolucoes_html/CFFa_N_387_10.htmLinks ]

7. Celeste LC, Zanoni G, Queiroga B, Alves LM. Hearing and Speech Sciences in Educational Environment Mapping in Brazil: education, work and professional experience. CoDAS [periódico na internet]. 2017 [acesso em: 14.04.2020]; 29(1): [7p.]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/codas/v29n1/en_2317-1782-codas-2317-178220172016029.pdfLinks ]

8. Figueirêdo LC. O outro na escola: algumas representações a respeito das diferenças [Tese]. Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, Instituto de Estudos da Linguagem; 2015. [ Links ]

9. Cabral ILA, Gomes IC. A importância da Fonoaudiologia no âmbito educacional. Rev Cient. InFOC. 2017;2(1):40-5. [ Links ]

10. Consulta especialistas por especialidade/região [homepage da internet] Brasília: Conselho Federal de Fonoaudiologia. 2020 [acesso em: 29.03.2020]. Disponível em: https://www.fonoaudiologia.org.br/cffa/index.php/consulta-especialistas-por-especialidaderegiao/Links ]

11. Figueiredo LC, Lima ILB, Silva HSE. Representations of educational professionals for Speech, Language and Hearing Sciences practice in schools. Distúrb. Comun. [periódico na internet]. 2018 [acesso em: 14.04.2020]; 30(1):[8p.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/dic/article/view/32254/25281Links ]

12. Lima ILB, Delgado IC, Lucena BTL, Figueiredo LC. Contributions of the institutional diagnosis for speech language pathology and audiology practice in schools. Distúrb. Comun. [periódico na internet]. 2015 [acesso em: 14.04.2020];27(2):[11p.]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/dic/article/view/19765/17407Links ]

13. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n°610, 13 de dezembro de 2018. Recomendações do Conselho Nacional de Saúde (CNS) à proposta das diretrizes curriculares nacionais do curso de graduação bacharelado em Fonoaudiologia; 2018. [ Links ]

14. Gertel MCR, Tenor AC. Educational Speech, Language Pathology and Audiology: considerations on the medicalization of education. Distúrb. Comun. [periódico na internet]. 2018 [acesso em: 14.04.2020];30(4):[12p]. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/dic/article/view/36349Links ]

15. Conselho Regional de Fonoaudiologia - 2ª Região. Fonoaudiologia na Educação: políticas públicas e atuação do fonoaudiólogo. 2010. [ Links ]

16. Berberian AP, Ferreira LP, Jacob LC, Azevedo JBM, Mendes JM. A produção de conhecimento em Distúrbios da Comunicação: análise de periódicos (2000-2005). Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2009;14(2):153-9. [ Links ]

17. Baptista GCS. A importância da reflexão sobre a prática de ensino para a formação docente inicial em ciências biológicas. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências. 2003;5(2):86-96. [ Links ]

18. Leite ACS, Silva PAB, Vaz ACR. A importância das aulas práticas para alunos jovens e adultos: uma abordagem investigativa sobre a percepção dos alunos do PROEF II. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências. 2005;7(3):166-81. [ Links ]

Esta pesquisa foi desenvolvida no Departamento de Fonoaudiologia do Centro Universitário de João Pessoa - UNIPÊ, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

ERRATA

No artigo, “Fonoaudiologia Educacional nas grades curriculares dos cursos de Fonoaudiologia do Brasil”, com número DOI: 10.1590/1982-0216/20202231320, publicado no periódico Revista Cefac 2020;22(3):e1320, no nome da autora (página 1):

Onde se lia:

Chirlene dos Santos da Cunha Moura

Leia-se:

Chirlene Santos da Cunha Moura

Recebido: 06 de Fevereiro de 2020; Aceito: 07 de Maio de 2020

Endereço para correspondência: Chirlene dos Santos da Cunha Moura, Centro Universitário de João Pessoa - Unipê, Departamento de Fonoaudiologia, Cidade Universitária - Campus I - Castelo Branco, CEP: 58051-900 - João Pessoa, Paraíba, Brasil, E-mail: chirlene.cunha@unipe.edu.br

Conflito de interesses: Inexistente

Creative Commons License This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License