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Revista CEFAC

versão impressa ISSN 1516-1846versão On-line ISSN 1982-0216

Rev. CEFAC vol.22 no.3 São Paulo  2020  Epub 08-Maio-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216/202022316719 

ARTIGOS DE REVISÃO

Instituições de ensino como campo de pesquisa fonoaudiológica: análise das publicações de periódicos nacionais

Luciana Figueiredo de Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0003-1796-0318

Ivonaldo Leidson Barbosa Lima2 
http://orcid.org/0000-0003-1716-1575

Brunna Thais Luckwu de Lucena1 
http://orcid.org/0000-0003-4179-6773

Biatriz Lima do Nascimento3 
http://orcid.org/0000-0002-6998-6395

Larissa Leite Filgueira3 
http://orcid.org/0000-0001-7530-6766

Laura Ennay Correia Mendes3 
http://orcid.org/0000-0003-4096-5037

Janaína von Söhsten Trigueiro1 
http://orcid.org/0000-0002-5958-1220

1 Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Departamento de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

2 Centro Universitário de João Pessoa - Unipê, Departamento de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

3 Universidade Federal da Paraíba - UFPB, Curso de Fonoaudiologia, João Pessoa, Paraíba, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

analisar e caracterizar as publicações fonoaudiológicas que têm como campo instituições de ensino brasileiras.

Métodos:

houve o acesso nas páginas de todas as revistas ativas e inativas da Fonoaudiologia nacional para análise dos títulos e resumos de todos os artigos que remetiam à pesquisa em instituições de ensino. Foram selecionados artigos publicados nos periódicos analisados, que tratam de questões fonoaudiológicas e foram desenvolvidos em instituições de ensino. Foi realizada a categorização e análise dos artigos encontrados, na categoria periódico publicado, ano de publicação, área do conhecimento da Fonoaudiologia da qual se aproximavam, cenário da pesquisa/tipo de instituição educacional, público alvo e procedimentos realizados nas instituições. Em seguida, realizou-se análise estatística descritiva.

Resultados:

a maior quantidade de pesquisas realizadas em instituições de ensino brasileiras foi publicada na revista CEFAC, e no ano de 2015. Tais pesquisas estavam relacionadas, principalmente, à área da linguagem, sendo a maioria realizada com estudantes do ensino fundamental e com o objetivo de coletar dados a respeito da avaliação e/ou diagnóstico desses estudantes.

Conclusão:

as pesquisas fonoaudiológicas nacionais realizadas em instituições de ensino tem privilegiado práticas nas áreas de Linguagem e Voz, no Ensino Fundamental, e com estudantes e professores.

Descritores: Fonoaudiologia; Educação; Saúde Escolar; Indicadores; Literatura de Revisão como Assunto

ABSTRACT

Purpose:

to analyze and characterize the speech-language-hearing publications that have Brazilian educational institutions as their field.

Methods:

all the national active and inactive speech-language-hearing journals were accessed to analyze the titles and abstracts of all articles that referred to research in educational institutions. Articles addressing speech-language-hearing issues, developed in educational institutions, and published in the journals analyzed were selected. The articles found were categorized and analyzed. The categories considered the journal of publication, year of publication, the speech-language-hearing field of knowledge they approached, research context/type of educational institution, target audience, and procedures conducted in the educational institutions. Then, a descriptive statistical analysis was carried out.

Results:

the largest amount of research made in Brazilian educational institutions was published in CEFAC, in 2015. Such studies were mainly related to the field of language, most of them conducted with elementary school students, to collect data on their assessment and/or diagnosis.

Conclusion:

national speech-language-hearing research conducted in educational institutions has privileged practices in the fields of language and voice, in elementary school, with students and teachers.

Keywords: Speech, Language, and Hearing Sciences; Education; School Health; Indicators; Review Literature as a Topic

Introdução

Desde o início da sua história, a Fonoaudiologia tem interagido com a Educação e as instituições de ensino sempre se constituíram como locais de atuação e/ou pesquisas na área fonoaudiológica. Uma pesquisa1 a respeito dos locais privilegiados de pesquisa em Fonoaudiologia, observou que o contexto escolar representava o segundo maior campo de investigações na área.

Acredita-se que a regulamentação da especialidade de Fonoaudiologia Educacional, por meio da resolução nº 387 do Conselho Federal de Fonoaudiologia, no ano de 20102, possa ter impulsionado ainda mais o desenvolvimento de estudos no contexto educacional. Tal documento explica que o fonoaudiólogo que atua nesse contexto deve ter o foco em ações que englobem o processo de ensino e aprendizagem2. Dessa forma, entende-se que as ações do fonoaudiólogo educacional devem ser amplas, considerando todas as singularidades da instituição na qual o profissional esteja inserido, abrangendo aspectos que vão muito além da identificação, avaliação e/ou (re)habilitação de distúrbios específicos da comunicação.

Não se pode negligenciar o fato de que além da área de Fonoaudiologia Educacional outras áreas da Fonoaudiologia têm utilizado, de forma legítima, o âmbito educacional como campo de pesquisa. Não obstante, é preciso considerar ainda que a maior parte dos profissionais que atuam na área de Fonoaudiologia Educacional não tem especialização voltada à Educação, mas sim às outras especialidades da Fonoaudiologia, mesmo considerando a crescente quantidade e diversidade de cursos voltados para o fazer do fonoaudiólogo educacional. Tais fatores certamente podem influenciar nos objetivos e objetos de pesquisa realizadas em instituições de ensino brasileiras3.

O desenvolvimento de pesquisas científicas aponta o crescimento e a expansão dos conhecimentos produzidos por uma determinada área4. Por isso, é importante verificar a produção científica nacional na Fonoaudiologia Educacional, para observar a disseminação de conhecimentos na área e incentivar a produção de mais pesquisas que fortaleçam essa especialidade. Nesse sentido, esta pesquisa foi desenvolvida com o objetivo de analisar e caracterizar as publicações fonoaudiológicas que tem como campo instituições de ensino brasileiras.

Métodos

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica com método integrativo que tem como finalidade sintetizar resultados obtidos em pesquisas sobre um tema ou questão, de maneira sistemática, ordenada e abrangente5.

Portanto, esta pesquisa foi desenvolvida com o intuito de responder a seguinte questão norteadora: Quais as características das pesquisas fonoaudiológicas realizadas em instituições de ensino brasileiras? Para isto, quatro pesquisadores independentes realizaram a pesquisa bibliográfica em todos periódicos nacionais da Fonoaudiologia existentes na literatura brasileira.

Primeiramente, foram selecionados todos os volumes dos periódicos, ativos e inativos publicados online entre os anos de 2011 a 2018 - cabe esclarecer que a definição deste intervalo teve como norte a criação da especialidade de Fonoaudiologia Educacional, pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa)2. Após a seleção dos volumes, cada pesquisador realizou a análise individual dos mesmos a fim de identificar estudos publicados que retratassem pesquisas realizadas em instituições de ensino brasileiras.

Critérios de Seleção

Para a seleção dos artigos que iriam compor o corpus desta pesquisa, foram adotados os seguintes critérios de elegibilidade:

Estar publicada em periódico científico na área de Fonoaudiologia cadastrado com código no International Standard Serial Number (ISSN), ativo ou descontinuado, entre os anos de 2011 e 2018;

Tratar de questões fonoaudiológicas;

Ter como campo de pesquisa instituições de ensino brasileiras.

Nessa seleção, todas as publicações cujo título e/ou resumos remetiam à práticas fonoaudiológicas em instituições de ensino brasileiras foram incluídas.

Posteriormente, foi realizada a análise da metodologia dos artigos selecionados. Nesta etapa, foram excluídos artigos que não diziam respeito a questões fonoaudiológicas; que foram realizados em instituições de ensino estrangeiras; que foram realizados a partir de banco de dados; ou que o público alvo foi selecionado por meio de atendimentos realizados em clínicas e/ou hospitais. Foram excluídos ainda artigos do tipo revisão de literatura, resumos de tese e dissertações ou artigos que não continham metodologia clara a respeito da seleção do público-alvo e/ou objeto de estudo.

A Figura 1 mostra a quantidade de artigos excluídos a partir dessa análise.

Figura 1: Quantidade de artigos analisados e excluídos 

Análise dos Dados

Para a análise dos dados foi realizada a categorização e análise dos artigos encontrados a partir das seguintes variáveis: (1) periódico publicado, (2) ano de publicação, (3) área do conhecimento da Fonoaudiologia da qual se aproximavam, (4) cenário da pesquisa/tipo de instituição educacional, (5) público alvo e (6) procedimentos realizados nas instituições de ensino (IE). É importante informar que durante o processo de seleção e análise dos artigos, todas as divergências sobre estudos foram resolvidas pelo consenso entre os quatro pesquisadores.

Para a classificação dos estudos quanto a especialidade fonoaudiológica do qual se aproximam, se tomou por base as especialidades estabelecidas pelo CFFa, bem como suas definições e/ou campo de atuação a partir de suas resoluções específicas. Nos artigos que se enquadravam em mais de uma especialidade, procurou-se distinguir aquela que prevalecia, de acordo com os objetivos do estudo, palavras-chaves e resultados apresentados, nesses casos, os artigos foram lidos na íntegra. Quando não foi possível determinar a especialidade que prevalecia, o artigo foi direcionado para a categoria “interespecialidade”. Artigos que faziam interface entre a Fonoaudiologia e outra ciência foram denominados de “multidisciplinares”. Foram encontrados ainda artigos que não se encaixavam em nenhuma especialidade fonoaudiológica específica, mas tratavam de práticas de ensino e/ou formação em Fonoaudiologia, para esses casos, foi criada a categoria “ensino em Fonoaudiologia”.

Para análise dos dados foram utilizadas técnicas de estatística descritiva com o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 20.0 para Windows.

Revisão da Literatura

A identificação dos periódicos, bem como a quantidade de volumes e artigos selecionados (Figura 2), indica que a maior quantidade de pesquisas realizadas em instituições de ensino brasileiras foi publicada na revista CEFAC.

Figura 2: Relação de periódicos e artigos analisados 

A Figura 3 traz os valores das pesquisas realizadas em instituições de ensino brasileiras publicadas nos periódicos analisados entre os anos de 2011 e 2018, apontando uma queda de estudos que tem tais instituições como campo de pesquisa a partir do ano de 2016.

Figura 3: Quantidade de artigos publicados e analisados de acordo com o ano 

A divisão de artigos por área mostra que a grande maioria das pesquisas realizadas em instituições de ensino brasileiras está relacionada à área de linguagem, seguida pelos estudos na área de voz e audiologia. Estudos vinculados à Fonoaudiologia educacional representam apenas 6,1% dessas pesquisas (Tabela 1).

Tabela 1: Quantidade de publicação por áreas da Fonoaudiologia 

ÁREA N %
Audiologia 38 13,6
Ensino em fonoaudiologia 5 1,8
Fluência 2 0,7
Fonoaudiologia educacional 17 6,1
Fonoaudiologia do trabalho 2 0,7
Gerontologia 1 0,4
Interespecialidade 4 1,4
Linguagem 124 44,4
Motricidade orofacial 10 3,6
Saúde coletiva 8 2,9
Voz 67 24
Multidisciplinar 1 0,4
TOTAL 279 100

Pode-se observar que a maioria dos estudos realizados em contexto educacional são realizados no ensino fundamental, e que apenas um estudo foi realizado no ensino profissionalizante/EJA (Tabela 2). O público alvo da maioria das pesquisas foi estudantes, seguidos dos professores. É valido ainda ressaltar que foi encontrada apenas uma pesquisa que foi realizada com a equipe gestora (Tabela 3).

Tabela 2: Quantidade de publicações por modalidades de ensino 

CONTEXTO EDUCACIONAL N %
Ensino Infantil 38 13,6
Ensino Fundamental 147 52,7
Ensino Médio 7 2,5
Ensino Superior 37 13,3
Educação Especial 4 1,4
EJA / Profissionalizante 1 0,4
Misto 18 6,4
Não especificado 27 9,7
TOTAL 279 100

EJA - Educação de Jovens e Adultos

Tabela 3: Quantidade de publicações de acordo com o público-alvo 

PÚBLICO-ALVO N %
Estudantes 176 63,1
Professores 82 29,4
Familiares 3 1
Comunidade Escolar 16 5,7
Gestão 1 0,4
Outros 1 0,4
TOTAL 279 100

No que diz respeito aos procedimentos realizados por fonoaudiólogos educacionais, foi possível verificar que a grande maioria das pesquisas as utilizaram como cenário de coleta de dados que se referem, principalmente, à avaliação e diagnóstico, sendo que apenas 13% dos artigos que fazem parte do corpus deste estudo dizem respeito a descrição e/ou análise de propostas de intervenção, como pode ser observado na Figura 4.

Figura 4: Procedimentos realizados por fonoaudiólogos em Instituições de Ensino, distribuidos em duas categorias: coleta de dados (avaliação e diagnóstico) e intervenção 

De acordo com o Conselho Federal de Fonoaudiologia, o fonoaudiólogo educacional pode atuar no âmbito escolar com: capacitação e assessoria, planejamento; desenvolvimento e execução de programas fonoaudiológicos; observações, triagens fonoaudiológicas e orientações quanto ao uso da linguagem, motricidade oral, audição e voz; ações no ambiente escolar as quais favoreçam as condições apropriadas para o processo de ensino e aprendizagem; e contribuições para a realização do planejamento e das práticas pedagógicas de instituições educacionais6. Portanto, é inegável a amplitude e diversidade das ações que o fonoaudiólogo pode realizar em parceria com área educacional. Todavia, os resultados desse estudo podem indicar que essa ampla gama de possibilidades, ao mesmo tempo que parece estar sendo negligenciada pelo fonoaudiólogo, - na medida em que a grande maioria das pesquisas tem se detido um determinado público, com um determinado tipo de ação - parece estar sendo utilizada para embasar a entrada do fonoaudiólogo na escola de maneira que pode ser considerada reducionista, já que o mesmo parece estar considerando a escola apenas como cenário de pesquisas, e não como palco de ações.

Assim, observou-se uma maior quantidade de pesquisas realizadas em instituições de ensino que dizem respeito à área de linguagem, com estudantes e no ensino fundamental. E, em consonância com pesquisa anterior1, foi possível observar que grande parte dos estudos estiveram voltados ao diagnóstico e/ou avaliação dos distúrbios da comunicação, mesmo quando realizados em contexto escolar1.

É valido lembrar que, historicamente, a escola foi considerada um espaço privilegiado de prevenção e correção dos erros linguísticos, e o fonoaudiólogo surgiu devido à necessidade de um profissional que pudesse avaliar, diagnosticar e tratar os desvios de linguagem que se manifestavam principalmente nas instituições de ensino7,8. Entende-se, portanto, que provavelmente, os achados aqui expostos têm suas raízes na história do surgimento da Fonoaudiologia no Brasil e, por isso, sofrem grande influência de concepção de saúde restrita e tradicional, que prioriza as dicotomias normal-patológico e saúde-doença9,10.

Outro fator que justifica um maior número de pesquisas na área de linguagem é a predominância desta nas queixas registradas e na demanda dos serviços fonoaudiológicos11,12. Em estudo sobre o mapeamento dos fonoaudiólogos educacionais brasileiros3, foi observado que as modalidades de ensino educação infantil e o primeiro ciclo do ensino fundamental abarcam a maior concentração de profissionais atuantes. Fato que, provavelmente, está ligado ao processo de alfabetização, etapa crucial para o desenvolvimento na fase inicial da vida escolar e gera preocupação em toda a comunidade educacional13.

Todavia, ressalta-se que a atuação do fonoaudiólogo educacional deve deixar de centrar-se somente nos aspectos patológicos dos estudantes e favorecer saúde e aprendizagem em parceria com todos os membros da comunidade educacional, contribuindo no aperfeiçoamento da comunicação oral e escrita, nos padrões de voz, fala, audição e linguagem8,10. Atualmente, pode-se observar uma discreta tendência de atuação com bases em concepções menos restritas, que tendem a considerar os sujeitos em sua totalidade e a saúde de forma mais ampla, e dependente da integração de diversos fatores (sociais, econômicos, individuais, entre outros)10.

Nos últimos anos, é crescente a atuação da Fonoaudiologia em parceria com Educação e, atualmente, é mais sólida a conscientização quanto à necessidade do desenvolvimento de ações voltadas à promoção de saúde e de aprendizagem de todos os sujeitos envolvidos no contexto escolar (alunos, professores, funcionários e pais)14. Nessa direção, destaca-se que apesar do fazer fonoaudiológico em parceria com a Educação ainda se embasar em concepções médico-centradas e na dicotomia normal/patológico, é necessário o investimento em ações mais amplas, que considerem a escola para além de um local no qual alterações fonoaudiológicas se apresentam e/ou acontecem.

Um dos papéis do fonoaudiólogo educacional é a realização e divulgação de pesquisas científicas que contribuam para a melhoria da qualidade da educação e para a consolidação da atuação fonoaudiológica no âmbito educacional15. Assim, chama atenção o fato de que apesar de cada vez mais os fonoaudiólogos estarem inseridos em contextos educacionais, o número de pesquisas realizadas na área venha sofrendo queda. Este fato pode sugerir que o fazer do fonoaudiólogo educacional, além de estar restrito a um determinado público e com objetivos ainda reducionistas, pode estar caminhando para (ou persistindo em) um fazer intuitivo, pouco baseado em evidencias científicas.

Além disso, é necessário refletir a respeito da maneira que o fonoaudiólogo tem utilizado as instituições de ensino com o intuito de fazer pesquisa. Os dados revelam a imensa predominância de estudos que utilizam a escola como campo para coleta de dados, sendo poucos aqueles que se propõem a analisar as ações e a atuação deste profissional realizadas nesses cenários.

Alguns estudos16,17 já apontam que as representações dos profissionais da Educação a respeito do fonoaudiólogo educacional muitas vezes estão relacionadas a um profissional que apresenta um perfil clínico, de atuação pontual nos distúrbios da comunicação, principalmente quando estes estão relacionados aos estudantes. Analisar os dados gerais colhidos nessa pesquisa pode levar a crer que tais representações são apresentadas às escolas pelos próprios fonoaudiólogos. Ir a escola apenas coletar dados a respeito de dificuldades, patologias e alterações, apesar de ser uma prática legítima do fonoaudiólogo, acaba por limitar suas possibilidades de atuação, o que, por consequência, pode levar a não valorização deste profissional no âmbito educacional.

Há que se refletir também nas possibilidades de mudanças de concepções e atuação que estão sendo deixadas para traz. Repensar a respeito do fazer fonoaudiológico em parceria com Instituições de ensino, a partir de um olhar crítico, pode permitir o avanço desta área, ampliação das possibilidades de atuação e melhora na eficácia das ações propostas por esse profissional.

Ressalta-se ainda que que a escola deve ser vista pelo fonoaudiólogo não mais como entidade autônoma e independente, responsável pelo ensino da língua escrita, em seu variante padrão, cenário pronto para a realização de coleta de dados. Para além disso, as instituições de ensino podem e devem ser percebidas como locais condicionados a contradições sociais, constitutivas dos diferentes projetos de sociedade em curso em nosso país, e por isso palco para a geração de registros18. Isso pressupõe o reconhecimento de articulações estabelecidas entre as diferentes áreas, como os campos da Educação e da Saúde e as formas de organização materiais e subjetivas de nossa sociedade19.

Conclusão

A maioria das pesquisas fonoaudiológicas nacionais realizadas em instituições de ensino privilegiam práticas nas áreas de Linguagem e Voz, tendo como público alvo predominante estudantes do Ensino Fundamental.

Tais praticas, em sua maioria, têm o objetivo de identificar alterações e/ou realizar ações a fim de prevenir as mesmas, com base em concepções que acabam por desconsiderar as questões sócio-histórico e culturais que estão imbricadas nos processos de ensino e aprendizagem. Dessa forma, observa-se que a atuação do fonoaudiólogo educacional ainda pode ser considerada restrita.

Faz-se necessário a realização de ações e pesquisas que, uma vez realizadas em instituições de ensino, privilegie aspectos educacionais em detrimento do foco exclusivo em alterações e/ou patologias. Acredita-se que este seja um importante aspecto para fortalecimento da área e expansão e reconhecimento da atuação dos fonoaudiólogo educacional.

REFERÊNCIAS

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3Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Paraíba - UFPB, João Pessoa, Paraíba, Brasil.

Recebido: 18 de Novembro de 2019; Aceito: 27 de Março de 2020

Endereço para correspondência: Luciana Figueiredo de Oliveira, Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências da Saúde - Campus I, Departamento de Fonoaudiologia - Cidade Universitária - Castelo Branco, CEP: 58051-900 - João Pessoa, Paraíba, Brasil, E-mail: lucianafigueiredo@ccs.ufpb.com

Conflito de interesses: Inexistente

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