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Brazilian Journal of Psychiatry

Print version ISSN 1516-4446On-line version ISSN 1809-452X

Rev. Bras. Psiquiatr. vol.21 n.2 São Paulo Apr./June 1999

https://doi.org/10.1590/S1516-44461999000200014 

Livros


Classificação deTranstornos Mentais e de Comportamento da CID-10 - Diretrizes Diagnósticas e de Tratamento para Transtornos Mentais em Cuidados Primários
Organização Mundial da Saúde. 1998. Porto Alegre: Artes Médicas. 105 páginas. ISBN 85-7307-326-8

 

Nós, psiquiatras, pouco duvidamos da importância do nosso papel diagnóstico e terapêutico diante de pessoas portadoras de transtornos mentais, principalmente aquelas com transtornos mais graves e debilitantes como a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. No entanto, sabemos também que nossos esforços especializados, por mais valiosos que sejam, são dedicados apenas a uma pequena parcela do total de pessoas que têm suas vidas prejudicadas por algum tipo de transtorno mental. Como já demonstraram diversos estudos epidemiológicos, inclusive alguns realizados no Brasil, a maioria dos portadores de transtornos mentais não se encontra nos ambulatórios e consultórios de psiquiatria, e muito menos nos hospitais psiquiátricos, mas sim na rede básica de saúde, também chamada de rede de cuidados primários. Fazem parte desta rede os serviços de pronto-atendimento, os centros e postos de saúde, os ambulatórios e consultórios de clínica médica, de gastroenterologia, cardiologia, neurologia, etc. E são justamente os médicos — não os psiquiatras — e demais membros das equipes de saúde que atuam na rede de cuidados primários, aqueles que de fato detectam e tratam da maior parte da morbidade psiquiátrica de uma comunidade. Só para se ter uma idéia, calcula-se que cerca de 90% dos indivíduos com algum tipo de transtorno mental procuram atendimento na rede de cuidados primários, enquanto menos de 10% deles (certamente aqueles mais graves) recebem atenção na rede especializada de ambulatórios e hospitais psiquiátricos.

Com base nesses fatos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem feito de tudo ao seu alcance para sensibilizar médicos e demais agentes de saúde para essa difícil tarefa de detectar e tratar também os transtornos mentais. É dentro da ampla iniciativa de facilitar esta tarefa que a OMS compila e publica pela primeira vez, em 1996, essas Diretrizes Diagnósticas e de Tratamento para Transtornos Mentais em Cuidados Primários, agora disponíveis em português. Para um bom conhecedor do capítulo V (dos transtornos mentais) da décima versão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), basta folhear rapidamente este pequeno livro para notar que as diretrizes diagnósticas para a rede de cuidados primários nele apresentadas são versões resumidas das diretrizes propostas na CID-10. Nota-se, por exemplo, o mesmo marcador F32 para depressão, ou F10 para transtornos por uso de álcool. No entanto, há várias inovações, algumas até audaciosas. Com apresentação bastante didática e convidativa, neste livro há duas páginas para cada um dos transtornos mentais: na primeira delas, a página de diretrizes diagnósticas, sempre na página à esquerda de quem abre o livro, há um resumo das principais queixas apresentadas pelos pacientes, um resumo dos aspectos diagnósticos relevantes e alguns dados para um diagnóstico diferencial. A segunda página, sempre à direita, traz a novidade deste livro: ela contém as diretrizes de tratamento, com informações essenciais para o paciente e familiares, recomendações para os mesmos tentarem manejar os sintomas, alguns dados sobre o uso de medicação e até sugestões de quando consultar um especialista. Os apêndices são bem interessantes, contendo inclusive um índice de sintomas e dois fluxogramas para auxiliar a tarefa diagnóstica.

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Apesar de claramente dirigido à equipe de cuidados primários de saúde, este livro deveria fazer parte da biblioteca pessoal de todos os psiquiatras. Poderia, quem sabe, de início, servir como facilitador da comunicação entre estes e os demais profissionais que atuam nesta vasta rede de atendimento primário. Todos teriam muito a ganhar com esta maior aproximação, principalmente nós, psiquiatras, que temos muito o que aprender com os nossos colegas que de fato cuidam da maioria dos transtornos mentais da população. Sabemos que, com muita freqüência, esses colegas prescrevem psicotrópicos e utilizam intervenções psicoterápicas de vários tipos, principalmente de caráter suportivo. Com muita freqüência também, a reação dos psiquiatras é crítica, dizendo que as doses de psicotrópicos são subterapêuticas, e que a psicoterapia é inadequada. Será mesmo? Onde está a evidência que os transtornos que o psiquiatra diagnostica são os mesmos que o clínico geral atende na sua rotina diária? Será que a evidência que justifica as intervenções terapêuticas para os transtornos mentais pode ser tão simplesmente transportada para os transtornos observados na rede primária? O tema é complexo, e este livro está longe de resolvê-lo. Mas se ele puder ser útil também para os psiquiatras, terá mais do que cumprido o seu objetivo principal.

 

Eduardo Iacoponi
Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da
Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

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