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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

Print version ISSN 1516-8484On-line version ISSN 1806-0870

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. vol.24 no.04 São José do Rio Preto Oct./Dec. 2002

https://doi.org/10.1590/S1516-84842002000400010 

CARTA AO EDITOR / LETTER TO EDITOR

 

Haplótipos HLA mais freqüentes em doadores voluntários de medula óssea de Curitiba, Paraná

 

Most common HLA haplotypes in bone marrow donors in Curitiba, Paraná, Brazil

 

 

Maria G. Bicalho; Téo M. Ruiz; Sônia M. C. da Costa; Fernanda R. Zacarias

Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade (LIGH), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, PR

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

Bone Marrow Transplant (BMT) is a therapy used to treat patients with hematological diseases. The success of the transplant relies on a HLA match between host and donor. The HLA is located in the Major Histocompatibility Complex in the 6p12.3 region of the chromosome 6. The HLA gene products are involved in the immunomodulation of the immune response due to their function of presenting peptides to the T cells. The HLA genes are the most polymorphic in humans and the most relevant genetic marker for clinical transplants and are largely used in population studies. The knowledge of the HLA-A, HLA-B and HLA-DR haplotype frequencies of bone marrow donors is an important tool when a patient needs an identical HLA donor, and there are few population studies similar to this in Brazil. The HLA typing was performed in the LIGH of the UFPR by the PCR-SSP technique. The most common haplotypes among the population studied were HLA-A*01B*08DR*03, HLA-A*29B*44DR*07 and HLA-A*03B*07DR*15. The search of a Brazilian patient for an identical HLA donor is usually hopeless and the understanding of the HLA frequencies permits a real foreknowledge of the success of this search. Success depends on the eventual registration of the perfect donor in the national centers of bone marrow donation. Aiming to increase the perspectives of patients who need a BMT, the evaluation of the HLA frequencies and the enhancement of the national registrations of bone marrow donors are crucial for the accomplishment of this objective.

Key words: HLA frequencies, bone marrow transplant, polymorphism


 

 

Sr. Editor,

O Transplante de Medula Óssea (TMO) é uma terapia especial utilizada para tratar pacientes com doenças hematológicas e certas alterações genéticas, para os quais outras alternativas terapêuticas foram consideradas e excluídas. Para que o transplante seja bem sucedido, é necessário, entre outros fatores, que haja compatibilidade para moléculas codificadas pelos genes HLA (Antígenos Leucocitários Humanos). Essa compatibilidade evita ou minimiza o processo de rejeição do enxerto através de uma resposta imunológica do receptor contra antígenos histoincompatíveis do doador, assim como a doença do enxerto contra o hospedeiro (GvHD) e outras complicações pós-transplantes oriundas de uma possível incompatibilidade HLA. Embora drogas imunossupressoras reduzam a possibilidade de ocorrência da rejeição, a compatibilidade HLA é indispensável para o sucesso do tratamento.

O Sistema Gênico HLA não é o único que codifica moléculas que se comportam como marcadores da histocompatibilidade. Os antígenos secundários de histocompatibilidade (MiAgs), H-Y e ABO, também se relacionam com o sucesso ou insucesso de um transplante. No entanto o sistema HLA é considerado um dos mais importantes fatores genéticos, pois seus produtos sendo fortemente imunogênicos são de maior impacto no processo de rejeição. Esse sistema gênico situado no braço curto do cromossomo 6 na porção distal da região 6p21.3 ocupa, com outros genes do MHC (Major Histocompatibility Complex - Complexo Principal de Histocompatibilidade), uma região de aproximadamente 4 Mb. As moléculas codificadas pelos genes HLA expressam-se nas membranas de quase todas as células nucleadas, e por sua função e estrutura foram classificadas em classe I e II. Estas moléculas estão relacionadas com a imunomodulação da resposta imune por sua função em ligar e apresentar peptídeos de antígenos próprios, tumorais ou de microorganismos infecciosos às células T, permitindo que o sistema imune diferencie o próprio do não-próprio. Além disso, são importantes marcadores da individualidade biológica, razão pela qual são fundamentais quando se trata de transplantes clínicos.

Devido à proximidade dos genes HLA de classe I e II, a combinação dos alelos de vários locus de um cromossomo é herdada em bloco, a qual é conhecida como haplótipo HLA. Portanto, cada indivíduo possui dois haplótipos HLA, um proveniente de cada progenitor. A expressão dos produtos gênicos se dá de forma co-dominante e a recombinação entre os locus acontece com uma freqüência de 4%.

Devido ao seu alto grau de polimorfismo e polialelismo, os genes HLA têm sido também utilizados em estudos populacionais. Uma população pode apresentar alelos que são restritos a ela ou simplesmente raros. Alelos ausentes em uma população podem ser freqüentes em outra, o que contribui em parte para as diferenças genéticas HLA observadas entre diferentes grupos étnicos.

A população de Curitiba atual é resultado do longo período de colonização e imigração por parte de grupos europeus e outros grupos étnicos (1). Sua composição genética está intimamente relacionada às variantes alélicas presentes nas populações fundadoras que contribuíram para a formação dos primeiros grupos populacionais que habitaram a cidade (efeito fundador). A variação das freqüências alélicas observada nas populações pode, entre outros, ser um importante instrumento de estudos de relações históricas entre as populações do mundo (2).

O conhecimento das freqüências haplotípicas HLA, assume papel relevante no contexto do transplante de medula óssea quando se trata de encontrar um doador não relacionado para pacientes que não encontraram doador compatível em seu núcleo familiar. Uma classificação dos haplótipos mais freqüentes por etnia pode encurtar e muito a procura do doador ideal, pois a busca inicial pode ser efetuada dentro do próprio grupo étnico do paciente onde há, teoricamente, maiores chances dele encontrar um doador compatível. Além disso, o conhecimento dessas freqüências permite estimar as reais chances de um paciente em lista de espera encontrar um doador HLA idêntico não relacionado. Nossos estudos somam-se aos poucos anteriormente realizados em populações brasileiras num contexto de amostras populacionais. A maioria das informações sobre freqüências HLA foram obtidas de estudos que investigavam mais especificamente a associação de antígenos HLA com a susceptibilidade a doenças.

Nossa amostra constituiu-se de 1600 doadores voluntários de medula óssea cadastrados no Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (HEMEPAR) caracterizados em Caucasóides (n = 1183), Orientais (n = 13) e Negróides (n = 333). O grupo Negróides foi subdividido em Negros (n = 32), Mulatos (n = 106) e Cafuzos (n = 195). Não foi possível caracterizar o grupo étnico de 71 indivíduos. As amostras sangüíneas coletadas no HEMEPAR foram encaminhadas ao Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade (LIGH) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) para tipificação HLA, requisito para o cadastramento no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME). A tipagem HLA foi realizada pelo método PCR-SSP com kits One Lambda-Micro SSP-ABDR - Baixa/Média Resolução. A partir dos resultados das tipagens HLA foi possível, através do programa ARLEQUIN 2.0 (3), calcular quais os haplótipos mais freqüentes entre os doadores.

Os haplótipos mais freqüentes na amostra total foram HLA-A*01B*08DR*03 (0,0209), HLA-A*29B*44DR*07 (0,0158) e HLA-A*03B*07DR*15 (0,0142). Foram considerados apenas os haplótipos com freqüências iguais ou superiores a 0.001 (cut-off), sendo somente listados os 20 (vinte) mais freqüentes na amostra total e suas respectivas freqüências nos outros grupos étnicos (Tabela 1).

 

Tabela 1 - Clique para ampliar

 

No grupo Oriental observou-se uma distribuição peculiar, o que pode ser atribuído à diferenças genéticas e/ou efeitos de amostragem. Os vinte haplótipos mais comuns na amostra total não foram observados nesse grupo, o que em parte pode ser atribuído ao fato de serem outros os tipos haplotípicos mais freqüentes ou característicos do grupo Oriental (por exemplo, HLA-A*33B*44DR*13). Por outro lado o tamanho da amostra Oriental (n = 13) diminui a probabilidade de ocorrência desses haplótipos.

Adicionalmente, em concordância com estudos anteriores realizados na população paranaense, constatamos que o grupo alélico HLA-A*02 (0,229) e HLA-B*35 (0,114) são os mais freqüentes (2 e 4), diferindo no entanto quanto aos grupos alélicos HLA-B nos estudos de Prado, onde HLA-B*05 (0,132) foi o mais freqüente (2). Probst constatou em seus estudos que o grupo alélico HLA-DR*05 (0,193) foi o mais freqüente, enquanto em nossos estudos observamos que HLA-DR*07 (0,126) foi o grupo alélico mais freqüente (4).

O polimorfismo HLA é importante do ponto de vista biológico, pois dota os indivíduos de uma maior abrangência de moléculas apresentadoras de antígenos ao sistema imune. A alternativa terapêutica dos aloenxertos foi introduzida pelo homem e não prevista pela natureza (excetuando-se o aloenxerto fetal), e no que se refere aos antígenos principais de histocompatibilidade, tal diversidade reduz e/ou dificulta as chances de se encontrar doadores não relacionados com os mesmos haplótipos HLA. Por exemplo, pacientes que necessitam de um transplante de medula óssea e não encontram compatibilidade HLA na família, a busca desse doador torna-se dramática, restando-lhes procurar um doador não relacionado num registro de doadores voluntários de medula óssea nacional ou internacional. No Brasil, essa instituição é o REDOME e no exterior existe o NMDP-USA (National Marrow Donor Program) entre outros.

Enquanto nos Estados Unidos acredita-se que cerca de 50% dos pacientes portadores de leucemias encontrem um doador não relacionado no NMDP, o mesmo não se observa para a maioria dos pacientes brasileiros. Lá, cerca de 4 milhões de doadores estão cadastrados no registro nacional, contra apenas aproximadamente 25 mil no REDOME.

Conhecendo-se as freqüências HLA pode-se estimar as chances de se encontrar um doador compatível. Contudo, apenas o conhecimento da freqüência do tipo HLA específico do paciente na população não garante que ele encontre o doador compatível. É necessário, também, que o portador desse tipo HLA se encontre cadastrado no REDOME como doador voluntário. Como a população brasileira é altamente miscigenada, a probabilidade de se encontrar um doador não relacionado com o mesmo grau de miscigenação fora do Brasil é muito pequena. Daí a importância da conscientização da doação voluntária para ampliação dos cadastros nacionais. Com um registro de doadores voluntários relativamente grande, as perspectivas dos pacientes em lista de espera melhoram significativamente porque eles podem contar com um número muito maior de doadores, como se observa nos Estados Unidos. Portanto, é fundamental que além de se conhecer as freqüências HLA dos doadores voluntários de medula óssea de amostras cada vez maiores e de todas as regiões do país, que haja um estímulo da doação voluntária para a ampliação dos registros nacionais, visando justamente melhorar as perspectivas de pacientes em lista de espera.

 

Referências Bibliográficas

1. Albuquerque MM. Curitiba que o meu Tempo Guardou. Curitiba. Gráfica Editora Rocha Ltda, 1989, 114p.        [ Links ]

2. Prado KB. Diversidade Molecular dos Genes HLA de Classe I em Populações Paranaenses. Dissertação de Mestrado em Genética. Univ. Fed. do Paraná. 1999.        [ Links ]

3. Schneider S, Kuefer JM, Roeslli D, Excofier L, Arlequin L. A Software for Population Genetics Analysis. 2000. University of Genebra.         [ Links ]

4. Probst CM, Bompeixe EP, Pereira NF, Dalalio MMO, Visentainer JEL, Tsuneto LT, Petzl-Erler ML. HLA Polymorphism and Evaluation of European, African and Amerindian Contribution to the White and Mulatto Populations from Paraná, Brazil. Human Biology. 2000. 72:597-617.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Maria da Graça Bicalho
Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade (LIGH)
Centro Politécnico, Setor de Ciências Biológicas, Departamento de Genética, Sala 31 - Jardim das Américas
CEP:81530-990 C.P. 19071. Curitiba, PR
E-mail: ligh@bio.ufpr.br

Recebido: 11/11/2002
Aceito: 15/11/2002

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