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Alea: Estudos Neolatinos

Print version ISSN 1517-106XOn-line version ISSN 1807-0299

Alea vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2008

https://doi.org/10.1590/S1517-106X2008000100009 

A biografia, um bem de arquivo

 

 

Eneida Maria de Souza*

 

 


RESUMO

Este ensaio discute a relação entre a crítica genética e a biografia, a partir do exame dos bastidores da criação, das experiências vividas pelos autores ligadas à produção literária e existencial. A intenção de reunir esses dois pólos permite expandir o registro documental dos autores como tentativa de recuperar estágios pré-textuais e estágios pré-vivenciais.

Palavras-chave: crítica genética; Guimarães Rosa; biografia.


ABSTRACT

This text discusses the relationship between Genetic Criticism and biography, in the analysis of the backstages of the creation process, and the experiences lived by the authors which are linked to the literary and the existential productions. The intention of uniting these two poles allows us to expand the documental registers on the authors, in the effort of acknowledging pre-textual and pre-existential stages.

Key words: genetic criticism; Guimarães Rosa; biography.


RÉSUMÉ

Cet essai discute la relation entre la critique génétique et la biographie, à partir de l'analyse des coulisses de la création, et des expériences, vécues par les auteurs, liées à la production littéraire et existentielle. L'intention de réunir ces deux pôles permet d'accroître le registre documentair concernant les auteurs, dans la tentative de récupérer des stades pré-textuels et des stades pré-existentiels.

Mots-clés: critique génétique; Guimarães Rosa; biographie.


 

 

A pesquisa em arquivos é uma atividade que não atrai a maior parte dos estudiosos do texto literário, por se confundir, muitas vezes, com uma atitude conservadora e retrógrada frente à literatura. Teorias críticas dos últimos anos contribuíram para o gradativo apagamento do interesse pelo exame das fontes primárias, ao ser valorizado o texto na sua integridade estética, sem o interesse pelos bastidores da criação. A recusa em se deter no processo construtivo como resultado do trabalho do autor se justifica por ele ter sido entidade incômoda para a crítica, que pouca importância conferia ao contexto histórico das obras. É significativa esta retomada crítica da figura do autor, seu retorno por meio de traços e resíduos, da assinatura, abolindo-se o procedimento de recalque como produto do pacto ficcional com a escrita, inscrita de modo asséptico e distanciado. Na história da crítica ocidental, a atitude mais comum da crítica se concentrava na censura da presença do escritor na cena literária, impondo-se a linguagem como absoluta e eliminando-se a assinatura segundo padrões de objetividade.

Com a doação de seus manuscritos à Biblioteca Nacional da França, em 1971, Miguel Angel Asturias preparou o espírito de seus futuros pesquisadores, incentivando-os a preservar não apenas as obras publicadas, mas também os rascunhos e variantes que acompanham o material de trabalho dos escritores. Esse gesto motivou a criação da Coleção Archivos, cujo objetivo maior é a preservação do acervo dos escritores para que sirva de fonte documental para o aprimoramento das edições comentadas e críticas. O destino material e analítico desse acervo literário passou a ser uma das maiores metas da crítica filológica e genética, no sentido de se considerar a obra não mais como objeto fechado e acabado, mas sujeita a modificações e transformações interpretativas. Se o trabalho de recuperação do texto original exige do pesquisador exame exaustivo das diferentes edições e mudanças processadas pelo autor ou causadas pelos erros de edição, a crítica genética revela o lado inconcluso e incompleto da criação, permitindo que a abordagem dos documentos não mais se restrinja ao texto publicado e ao seu estatuto de objeto intocável e inerte.

A obra submetida à edição crítica recebe tratamento editorial capaz de lhe conceder dignidade, ao introduzir metodologias de trabalho centradas nas fontes primárias, procedimento analítico em estágio de desenvolvimento e amadurecimento entre pesquisadores do manuscrito literário. Trata-se de uma das aspirações pós-modernas de recuperação da memória literária, pelo abandono do projeto totalizante e unificador da modernidade para se fixar nas diferenças que delineiam o fragmentado e vigoroso arquivo cultural da atualidade.

A prática analítica voltada para as fontes primárias não irá revelar um olhar conservador sobre a escrita literária, mas a sua revitalização: o "manuscrito será o futuro do texto", assim se expressa Jean-Louis Lebrave, um dos notáveis representantes da crítica textual e genética francesas. Enquanto os manuscritos estiverem sendo guardados com vistas a um procedimento analítico, reinstaura-se ainda um pouco da gênese literária. Segundo Louis Hay, autor de uma das mais claras reflexões sobre a questão, "o manuscrito é de uma extraordinária diversidade, e pertence a todas as etapas e a todos os estados do trabalho, dossiês, esboços, planos, rascunhos. Mas, desde que o pensamento ou a imaginação os tocaram, todos, do documento inerte até a página inspirada, encontram-se dotados de vida e convocados a desempenhar seu papel num projeto de escritura".*1 É forçoso lembrar que esta prática de lidar com os manuscritos começa a perder sua utilidade e prestígio nos tempos atuais, pela ação dos novos instrumentos da escrita como o computador, substituto da máquina de escrever, mas dotado de potencialidades muito mais destrutivas frente ao arquivo pessoal do escritor. Os rascunhos desaparecem, ao serem apagados pela eficiência de uma tecla que deleta o que se apresenta como excessivo ou descartável para a finalização da obra. No entanto, outros procedimentos começam a surgir, com vistas a recuperar o rascunho - ainda que digitado - das obras, o que está, curiosamente, provocando o excesso de arquivos desta natureza, além de outros relacionados à memória digital.1

É digno de nota o rico material existente nos acervos dos escritores, como a correspondência entre colegas, depoimentos, iconografias, entrevistas, documentos de natureza privada, assim como a sua biblioteca, cultivada durante anos. Um esboço de biografia intelectual emana desses papéis, quando são incorporados, ao texto em processo, a cronologia dos autores, o encarte de fotos, a reprodução de documentos relativos à sua experiência literária, assim como a revisão da bibliografia sobre os titulares das coleções. As pesquisas respondem por sua originalidade, uma vez que o objeto de estudo é construído no decorrer do arranjo dos arquivos, da surpresa vivenciada a cada passo do trabalho. A elaboração de perfis biográficos deve contemplar não só o que se refere à obra publicada do autor, mas também os objetos pessoais, imprescindíveis para a recomposição de ambientes de trabalho, de hábitos cotidianos e processos particulares de escrita. Objetos muitas vezes triviais, mas pertencentes ao cotidiano de todo escritor, adquirem vida própria ao serem incorporados à sua biografia: mesa de trabalho, máquina de escrever, canetas, agendas, porta-retratos, objetos decorativos, cadernos de anotações, papéis soltos, recibos de compra, diários de viagem, e assim por diante. As condecorações e diplomas servem ainda de registro quanto à participação do titular na vida pública. Não devem, portanto, ser negligenciados como objetos desprovidos de valor. Compõem, com as obras de arte ou as edições de luxo, espaço de trabalho e de intimidade do escritor.

Os bastidores da criação, as experiências vividas pelos autores ligadas à produção literária e existencial, constituem lugares pouco conhecidos pela crítica. A intenção de reunir crítica biográfica e crítica genética permite expandir o registro documental dos autores como tentativa de recuperar estágios prototextuais e estágios protovivenciais. A página de rascunho, metaforicamente considerada o jardim íntimo do escritor, revela o que o texto definitivo não consegue transmitir: a imaginação sem limites, os recuos da escrita, os borrões, o espaço no qual a face escondida da criação deixa transparecer o fulgor e a paixão da obra em processo. Página branca, marcada de signos negros, torna-se a imagem do espelho que refletiria as relações pessoais do escritor com o texto, onde se supõe ser tudo permitido. Pela liberdade de rasurar, de escrever entre as linhas, de acrescentar aos originais margens desordenadas e rebeldes, este laboratório experimental desempenha papel importante na história da literatura moderna. O entusiasmo pelo processo da escrita e o interesse pela gênese dos textos ultrapassam a curiosidade do crítico em penetrar nos bastidores da criação e atingem dimensões próprias ao exercício literário e biográfico.2

Seguindo parâmetros referentes à crítica biográfica,*2 é necessário distinguir e condensar os pólos da arte e da vida, através da utilização de um raciocínio substitutivo e metafórico, com vistas a não naturalizar e a reduzir os acontecimentos vivenciados pelo escritor. A preservação da liberdade poética da obra na reconstrução de perfis biográficos consiste no procedimento de mão dupla, ou seja, reunir o material poético ao biográfico, transformando a linguagem do cotidiano em ato literário. Ainda que determinada cena recriada na ficção remeta a um fato vivenciado pelo autor, é preciso distinguir entre a busca de provas e a confirmação de verdades atribuídas ao acontecimento, do modo como a situação foi metaforizada e deslocada pela ficção. O nome próprio de uma personagem, mesmo que se refira a pessoas conhecidas do escritor, nada impede que sua encenação embaralhe as referências e coloque a verdade biográfica em suspenso.

A crítica genética, responsável pelo trabalho em torno da gênese escrita, participa, portanto, do aparato biográfico, considerando ser importante processar o cotejo entre manuscrito e texto publicado dos autores, ao lado da trajetória literária do escritor, sua relação com os instrumentos de escrita, assim como do lugar escolhido para exercer seu ofício: no próprio escritório, nos deslocamentos e viagens, no ambiente boêmio dos bares, dos cafés e assim por diante. Nesse particular, é possível reconstituir o espaço de escrita de muitos autores, pela transformação de sua casa ou de seu acervo em museu ou fundação. Essa solução museográfica confere ao titular a oportunidade de se tornar conhecido no seu cotidiano de escritor e de homem comum pelos leitores do futuro, ao lado da sua obra. Alguns escritores se preocupam em legar à posteridade esse ambiente, ainda que textualmente, como é o caso de Pedro Nava, ao descrever seu apartamento no bairro da Glória, no Rio, em Galodas-trevas, quinto volume das Memórias. O interior burguês é ornamentado de peças reveladoras da "adesão dos mortos aos objetos", a lembrança dos amigos que se foram, personificada nos retratos, numa cadeira, num encosto de poltrona, numa carta. Os objetos são dotados de memória e de forte marca do passado. O museu imaginário contém, em miniatura, a lembrança dos parentes, pequenos objetos mágicos que se configuram como ruínas do passado.*3

Em outros escritores, o recurso metalingüístico de descrição do ambiente de trabalho funciona também como exposição de uma poética particular. Destinado ao futuro, ao devir de uma leitura, ou à desmistificação do lugar sagrado conferido a esta atividade, o livro de Georges Perec, Penser/classer, ilustra diferente perspectiva estética. De forma distinta da poética de Nava, o escritor francês, por meio de uma narrativa/descrição distanciada e minimalista do ambiente de trabalho, desconstrói qualquer tipo de ligação com a tradição e o passado. Enumerando os instrumentos de escrita, empilhando-os sobre a mesa e misturando objetos com diferente função, Perec desconfia da hermenêutica crítica, representada pelo leitor ávido em descobrir o sentido oculto dos textos ou em decifrar enigmas literários:

Avant, je n'avais pas de table de travail, je veux dire, il n'y avait pas de table exprès pour ça. Aujourd'hui, il m'arrive, encore assez souvent, de travailler dans un café; mais, chez moi, il est rarissime que je travaille (écrive) ailleurs qu'à ma table de travail (par exemple, je n'écris pour ainsi dire jamais au lit) et ma table de travail ne sert à rien d'autre qu'à mon travail (encore une fois, en écrivant ces mots il se révèle précisément que ce n'est pas tout à fait exact: deux ou trois fois par an, lorsque je fais des fêtes, ma table de travail, entièrement débarrassée, recouverte de nappes de papier - comme la planche sur laquelle s'empilent mes dictionnaires -, devient buffet).*4

Colecionar/pensar

El libro exige vecindad y complemento, necesita el contexto de otros libros, a los que remite. La biblioteca facilita la transtextualidad concreta, física, el hallazgo y la producción de referencias entre las piezas individuales de la colección. Ya que se repite el proceso de formar parte de un todo dentro de las tapas de un solo libro, éste contiene en si una biblioteca en miniatura.*5

O comportamento do crítico que se interessa pelos manuscritos e bibliotecas autorais se pauta ainda pela lição de Walter Benjamin, autêntico e apaixonado colecionador de livros. Rodeado de mil tomos, de variada literatura, afirmava que o bibliófilo, ao adquirir um livro velho, assumia o poder de lhe dar nova vida. Na sua obra, Benjamin repete o processo revitalizador do bibliófilo, transformando-se em colecionador de citações, arrancando os fragmentos de seu contexto e organizando-os numa forma nova, sempre arbitrária e nunca definitiva. Lê e coleciona, desloca a tradição, por um processo simultâneo de conservação e destruição. Amplia este raciocínio para o ambiente privado do burguês, o qual se afasta do espaço público e transforma sua casa - o espaço privado e afetivo - em santuário, lugar propício à criação da privacidade. A biblioteca atua como materialização dessa privacidade, por se erigir como lugar de encontro do colecionador com seu universo de lembranças e de objetos auráticos, sejam eles de qual natureza for:

Não há nenhuma biblioteca viva que não abrigue, em forma de livro, um número de criaturas das regiões fronteiriças. Não precisam ser álbuns de colar ou de família, nem cadernos de autógrafos ou textos religiosos: muitas pessoas se afeiçoam a folhetos e prospectos, outras a fac-símiles de manuscritos ou cópias datilografadas de livros impossíveis de achar; e, com certeza, revistas podem compor as orlas prismáticas de uma biblioteca.*6

No Arquivo Henriqueta Lisboa foi encontrada uma cópia do Diário de guerra de Guimarães Rosa, período em que serviu como cônsul adjunto no Consulado Brasileiro em Hamburgo, de 1938 a 1942, originais que foram transcritos, anotados e editados por Reinaldo Marques, Georg Otte e por mim, na condição de pesquisadores do Acervo de Escritores Mineiros da UFMG. Este trabalho continua à espera da liberação da família para publicação. O documento se impõe de forma ímpar para o esclarecimento das relações políticas existentes entre o Brasil e a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, no que concerne à ajuda prestada aos judeus por Guimarães Rosa e sua companheira de trabalho e futura mulher, Aracy Moebius de Carvalho. Documentos dessa natureza justificam a convivência quase obsessiva dos pesquisadores com o rico material constante nos acervos. Nessa investigação, procedeu-se ainda ao cotejo dos documentos do Consulado em Hamburgo, arquivados no Itamaraty, no Rio de Janeiro, com o Diário de guerra do escritor do mesmo período, para que a experiência vivida por Rosa no exterior pudesse ser mais bem contextualizada.

Em 1934, Guimarães Rosa ingressa na carreira diplomática, deixa a medicina e torna-se, nas décadas seguintes, um dos maiores escritores da literatura brasileira. Publica, em 1946, o primeiro livro de contos, Sagarana, e em 1956, Grande sertão: veredas e Noites do sertão. Em plena fase de uma modernidade reciclada pelo projeto industrial de modernização do Brasil, o escritor mineiro volta-se para a tradição, apropriando-se da matéria regional como pano de fundo à experimentação de linguagem. Reúne procedimentos revolucionários na literatura com temas considerados arcaicos, e rompe com a tendência hegemônica reinante nas manifestações modernas, voltada para o nacionalismo, ao se abrir para a proposta universalista.

O arquivista Guimarães Rosa, na prática cotidiana da escrita, é assim descrito por Walnice Nogueira Galvão: "Um olhar sobre a natureza de operar do nosso escritor é facultado pela freqüentação do Arquivo Guimarães Rosa, sob a guarda do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. (...) Há ali abundância de materiais, tais como correspondência ativa e passiva, ainda inédita, recortes, cardápios, fotos e postais, diplomas e certificados, documentos, papéis relativos à carreira profissional, mementos de todo tipo. Mas sobressai uma notável coleção de sete cadernetas e 25 cadernos, que serviram a diferentes propósitos. Podem conter impressões de boiadeiro, da ocasião em que o escritor tangeu boiadas pelo sertão mineiro, em configuração que se tornou legendária: necessitando das mãos livres para subjugar a montaria, levava o caderno atado ao pescoço por um barbante."*7

Na escrita do Diário de guerra o então aspirante a escritor registrou sua passagem por Hamburgo, anotando tanto as notícias sobre a cidade como outros informes de seu cotidiano: alarmes constantes de bombas; impressões pessoais sobre leituras; registro de saídas e visitas aos amigos; recortes, em alemão, de fatos sobre a guerra; anotações para futuros textos literários; desenhos de lugares e de pessoas; anedotas, listas em alemão de nomes da flora e de espécies de temperos; referências sobre a revisão dos contos de Sagarana, seu primeiro livro. A natureza do Diário de guerra cumpre também a função de uma caderneta de notas, objeto que o acompanhará nas viagens ao exterior e nas andanças pelo sertão, à cata de material para a narrativa fabulosa que estava compondo.

A experiência de Rosa durante sua estada em Hamburgo rendeu, além do Diário, quatro contos-crônicas, publicados em periódicos e mais tarde reunidos em Ave, palavra, em 1970: "O mau humor de Wotan",*8 "A senhora dos segredos",*9 "Homem, intentada viagem"*10 e "A velha".*11 Esses textos completam a experiência do escritor vivida no exterior durante a perseguição judaica pelo nazismo, e produzem o efeito biográfico por meio do registro de fatos reais, embora estejam construídos segundo parâmetros ficcionais. A meio caminho da crônica e do conto, as histórias revestem-se tanto do aparato documental quanto do fictício, o que permite reconhecer a ambigüidade de sua concepção e de seu resultado textual.

Sem descartar dados de ordem política que atenuem a imagem de conservador e apolítico imputada a Guimarães Rosa - nas anotações do Diário de guerra refere-se constantemente à discriminação judaica -, a criação do perfil biográfico do escritor relativo a essa época remete obrigatoriamente à relação entre a escrita diplomática, o exercício autobiográfico do Diário de guerra e suas recriações literárias. Lidar com a história pessoal ou coletiva significa alçá-la à categoria de um texto que ultrapassa e metaforiza os acontecimentos, sem, contudo, recalcar o valor documental e o estatuto da experiência que aí se inscrevem. O procedimento criativo se sustenta por meio do ritmo ambivalente produzido pela proximidade e pela distância em relação ao fato. O mesmo pode-se afirmar quanto à sua biografia.

Por se tratar de um texto fragmentado, como é a estrutura de um diário, ele se impõe como arquivo do autor em terra estrangeira, anotando não só os fatos relativos à guerra, mas também assuntos de seu interesse, sejam relativos à literatura ou a curiosidades próprias do escritor. Articular, do ponto de vista literário e biográfico, os prototextos de Rosa com sua produção futura e seu lugar como escritor/diplomata no país e no exterior, resulta em benefício para os estudos da historiografia literária brasileira.

 

 

Recebido em 14/03/2008
Aprovado em 15/04/2008

 

 

* Professora Emérita da Faculdade de Letras da UFMG; Professora Titular de Teoria da Literatura. Pesquisadora 1A do CNPq com a pesquisa "Biografias saem dos arquivos". Autora entre vários livros, de A pedra mágica do discurso (Editora UFMG, 1988), 2ª edição revista e ampliada (1999); Crítica cult (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002), Pedro Nava, o risco da memória (Juiz de Fora: Funalfa edições, 2004), Tempo de pós-crítica. (Belo Horizonte: Veredas & Cenários. 2007).
*1 (HAY, Louis. A literatura dos escritores. Questões de crítica genética. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: UFMG, 2007: 17.         [ Links ])
*2 (Cf. artigo de minha autoria, "Notas sobre a crítica biográfica". Em: Crítica cult. Belo Horizonte: UFMG, 2007.         [ Links ])
*3 (Cf. SOUZA, Eneida Maria de. Pedro Nava - o risco da memória. Juiz de Fora: Funalfa, 2004: 113.         [ Links ])
*4 (PEREC, Georges. Penser/Classer. Paris: Seuil, 2003: 22-23.         [ Links ])
*5 (SÁNCHEZ, Yvette. Coleccionismo y literatura. Madrid: Ediciones Cátedra, S.A., 1999: 118.         [ Links ])
*6 (BENJAMIN, Walter. "Desempacotando minha biblioteca". Em: Walter Benjamin. Obras escolhidas II. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987: 234.         [ Links ])
*7 (GALVÃO, Walnice Nogueira. "Rapsodo do sertão: da lexicogênese à mitopoese". Cadernos de Literatura Brasileira. Guimarães Rosa. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2006: 149.         [ Links ])
*8 (Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29/02/1948.         [ Links ])
*9 ( Correio da Manhã, 06/12/1952.         [ Links ])
*10 (O Globo, 18/02/1961.         [ Links ])
*11 (O Globo, 03/06/1961.         [ Links ])
1 Jacques Derrida, em entrevista concedida em 1995 sobre o tema do arquivo, já estava sensível à mudança de suporte dos manuscritos: "Encore au XIXe. siècle, il y avait des écrivains qui recopiaient des manuscrits pour les vendre. Maintenant, on peut imaginer, que pour des raisons d'autorité, de légitimité, les écrivains vont multiplier les brouillons sur disquettes pour les confier à des institutions de légitimation, parce qu'avoir son 'truc'à l'IMEC ça pose quelqu'un; il y a de plus en plus de gens qui ont envie de déposer leur travail. Et déjà, être accepté à l'IMEC, c'est comme être publié chez Gallimard. Donc, il reste des luttes terribles, et des luttes qui ont lieu aussi à l'intérieur de l'université." (DERRIDA, Jacques. "Archive et brouillon". Table ronde du 17 juin 1995. Em: CONTAT, Michel & FERRER, Daniel. (org.). Pourquoi la critique génétique? Méthodes, théories. Paris: CNRS Éditions, 1998: 207-208.         [ Links ])
2 A bibliografia sobre este tema é vasta. Tomo a liberdade, porém, de citar alguns títulos de minha predileção. Entre os autores escolhidos, citem-se: Nathalie Heinich, Être écrivain e La gloire de Van Gogh; Michel Schneider, Morts imaginaires e Marilyn, últimas sessões; Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes; Georges Perec, Penser/classer, Les choses e Espèces d'espaces; Maria Helena Werneck, O homem encadernado, para a crítica biográfica. Eneida Maria de Souza, Wander Melo Miranda (Org.), Arquivos literários; Michel Contat & Daniel Ferrer, Pourquoi la critique génetique?; Almuth Grésillon, Elementos de crítica genética; Louis Hay, A literatura dos escritores. Questões de crítica genética, para a crítica textual e genética.

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