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Neotropical Entomology

versão impressa ISSN 1519-566Xversão On-line ISSN 1678-8052

Neotrop. Entomol. v.30 n.2 Londrina jun. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1519-566X2001000200005 

ECOLOGIA, COMPORTAMENTO E BIONOMIA

Comunidade de Cigarrinhas (Hemiptera: Auchenorrhyncha) de uma Área de Campo do Município de Viamão, Rio Grande do Sul, Brasil

 

ANA P.OTT E GERVÁSIO S. CARVALHO

PUCRS, Faculdade de Biociências, Departamento de Biologia, - CPG Biociências, Caixa postal 1429, 90619-900, Porto Alegre, RS.

 

 

The Assembly of the Homopteran (Hemiptera: Auchenorrhyncha) of Grasslands at Viamão County, Rio Grande do Sul State, Brazil

ABSTRACT – A study was conducted about the Auchenorrhyncha assembly of grassland area with earthmounds of forests at Viamão County, Rio Grande do Sul State from November, 1996 to November, 1997. Forty-four samples were taken with the aid of a square mouth sweeping net. The collections were alleatory made, employing the method of transects. In total 5350 individuals were collected belonging to 38 species and seven families: Cicadellidae (3074), Issidae (1870), Membracidae (379) Dictyopharidae (9), Cercopidae (7), Cixiidae (6) and Delphacidae (1). The commonest species was Nubithia grisescens Stal (Issidae) with 1669 (31.2%) specimens. The homopterans showed a highest density in August (3.38 ind/m3) and the lowest in April (0.32 ind./m3). A total richness of 45 species was estimated by "Jacknife" procedure. Shannon-Wiener's heterogenity index was 2.18. Pielou's homogenity index was 0.60.

KEY WORDS: Insecta, diversity, sazonality.

 

RESUMO – Estudou-se a comunidade de auquenorrincos em uma área de campos com capões de mata do município de Viamão, RS no período de novembro de 1996 a novembro de 1997. Realizaram-se 44 coletas semanais utilizando-se uma rede-de-varredura de secção quadrada sobre transectos escolhidos aleatoriamente. No total foram coletados 5350 indivíduos pertencentes a 38 espécies distribuídos em sete famílias: Cicadellidae (3078), Issidae (1870), Membracidae (379), Dictyopharidae (9), Cercopidae (7), Cixiidae (6) e Delphacidae (1). A espécie mais abundante foi Nubithia grisescens Stal (Issidae) com 1669 (31,2%) exemplares coletados. As cigarrinhas apresentaram a maior média de densidade populacional no mês de agosto (3,48 ind/m3) e a menor no mês de abril (0,32 ind/m3) com média anual de 1,61 ind/m3. A estimativa do total de morfoespécies que podem ser encontradas na área, obtida através do cálculo do "Jacknife" foi de 45 morfoespécies. Para o índice de heterogeneidade de Shannon-Wiener obteve-se 2,18. O valor de homogeneidade de Pielou foi de 0,60.

PALAVRAS-CHAVE: Insecta, diversidade, sazonalidade.

 

 

O estudo da diversidade é, a priori, de grande importância devido à rápida e alarmante extinção das espécies. Propõe-se que em trabalhos de campo se efetuem, juntamente com a coleta de material, levantamentos da riqueza de espécies da área em questão (Coddington et al. 1991), sendo este procedimento tomado como base para o estabelecimento da diversidade.

Estudos específicos da comunidade de auquenorrincos vêm sendo amplamente desenvolvidos nas últimas décadas, principalmente na Europa por Kontkanen (1950), Linnavuori (1952), Emmrich (1966), Gromadzka (1970), Morris (1971) e Schiemenz (1971), destacando-se o de Kuntze (1937) que realizou inúmeras coletas, entre os anos de 1935 e 1936 em áreas secas e cultivadas na Alemanha, listando 252 espécies de cigarrinhas, sendo que na época havia apenas 150 espécies descritas para o país.

No que diz respeito à sazonalidade, Waloff & Solomon (1973) estudaram as espécies de auquenorrincos da Inglaterra, coletadas durante três anos consecutivos, registrando um total que variou entre 10.735 e 19.110 indivíduos pertencentes a 63 espécies em uma área de 5.104m2. Pode-se citar ainda os trabalhos de Wolda (1977, 1980) e Novotny (1993) como estudos da sazonalidade de auquenorrincos.

Na América do Sul, assim como no Brasil, poucos trabalhos sobre a comunidade de auquenorrincos foram desenvolvidos. Remes Lenicov & Virla (1993), em um estudo inédito sobre a importância relativa dos hemípteros auquenorrincos associados ao cultivo de trigo na Argentina, citaram 21 morfoespécies, onde Delphacodes hayward Muir foi a espécie dominante durante todo o ciclo da planta.

No Brasil, Waquil (1997) trabalhou com a técnica de rede-de-varredura em amostragens de cigarrinhas em milho, sorgo e área em pousio, onde Dalbulus maidis (DeLong & Wolcott) foi a espécie mais comum entre as cigarrinhas coletadas em plântulas de milho (93%), sorgo (40%) e nas áreas de pousio (34%); Peregrinus maidis (Ashmead) foi a menos abundante nos três ambientes. A quase totalidade dos trabalhos a respeito de cigarrinhas desenvolvidos no Brasil tratam da flutuação populacional de espécies das cigarrinha-das-pastagens, conhecidas pragas, visando o controle biológico (Milanez et al. 1983, Melo et al. 1984, Silveira Neto et al. 1986, Koller & Valério 1988, Ramos 1988; Ramiro et al. 1984a, 1984b, Reis et al. 1984, Sujii et al. 1995) e trabalhos sistemáticos (Martinelli & Zucchi 1997, Sakakibara 1968, 1979, Zanol 1996).

Este trabalho visa conhecer a comunidade de cigarrinhas (Hemiptera, Auchenorrhyncha) de uma área de campos sujos com capões de mata nativa, através de amostragens que permitam a identificação e o estabelecimento de padrões de sazonalidade das espécies, bem como a abundância destas, a fim de estimar a diversidade local.

 

Material e Métodos

A área de estudo, 2,5 hectares, localiza-se a 2,5 km da Estrada da Pimenta (km 5), a qual se tem acesso através da RS 040 (POA - Capivari) e dista 15 km do centro da cidade de Viamão e 25 km do município de Porto Alegre. A área localiza-se na região da Depressão Central do Estado do Rio Grande do Sul (Hoffmann et al. 1990). A área do município de Viamão apresenta campos sujos com capões de mata nativa (Vieira 1984), sendo esta mata classificada como "Floresta Estacional" segundo a Fundação IBGE (1986). Dentre as espécies observadas no local, encontram-se: açoita-cavalo (Luhea divaricata Mart.), branquilho (Sebastiania klotzchiana (Muell. Arg.) Muell. Arg.), espinilho (Fagara sp.) salgueiro (Salix humboldtiana Willd.), figueira (Ficus sp.), capororoca (Rapanea sp.), cangerana (Cabralea oblongifoliola Meli.), cedro (Cedrella fissilis Vell.), pitangueira (Eugenia uniflora L.), aroeira-brava (Lithraea brasiliensis L. March.), aroeira-mole (Schinus molle L.). Os campos sujos são compostos por diversas espécies de gramíneas, ciperáceas, umbelíferas (Erygium sp.), compostas como o vassourão (Piptocarpha axillaris (Less.) Baker), a macela (Achyrocline satureoides DC) e o alecrim-do-campo (Heterothalamus psiadioides Less.), verbenáceas (Lantana sp., Verbena peruviana (L.) Britt), cactáceas (Opuntia sp., Cereus sp.), butiá (Butia capitata (Mart.) Becc) entre outras.

O município de Viamão encontra-se em uma área de "tensão ecológica" devido à competição que ocorre entre o campo e a mata; fazendo com que as matas desta região não alcancem a mesma riqueza de espécies e extensão das matas de outras regiões do Estado (Vieira 1984). O clima é temperado, com estação seca e estação úmida, com médias mensais de temperatura e pluviosidade oscilando ao longo do ano entre 14,3°C e 24,7°C e 75,3 mm e 139,7 mm, respectivamente (Mota & Agendes 1986).

As coletas de material foram feitas semanalmente, com a utilização de uma rede-de-varredura de secção quadrada, sempre que as condições climáticas o permitiram. O período de coletas foi de 15 de novembro de 1996 a 22 de novembro de 1997, totalizando 44 coletas. A cada ocasião de amostragem, foram escolhidos, aleatoriamente, 10 transectos sobre os quais foram feitos 50 golpes com rede em movimento de avanço (num total de 10 unidades de amostras por ocasião de amostragem), onde ziguezagueou-se em ângulo de 45° partindo-se de um ponto inicial sorteado, compreendido na área de campos sujos. As coletas foram realizadas no período das 13h às 16h.

Para as identificações foram utilizados principalmente os seguintes trabalhos: Fennah 1945, 1965, Linnavuori 1954, Sakakibara 1968, 1979, Remes Lenicov 1973, Deitz 1975, Remes Lenicov & Teson 1978, Teson & Remes Lenicov1983, Carvalho 1987, 1993, 1995, Carver et al. 199, O'Brien 1991, Mejdalani 1993. Alguns espécimes não identificados foram registrados como morfoespécies, ao nível de gênero, família ou subfamilia.

A constância foi medida de duas maneiras: (i) o número de amostras nas quais a morfoespécie ocorreu (n A) em função do número total de unidades amostrais coletadas (440 amostras) e (ii) o número de coletas em que a morfoespécie ocorre (n C) em função do número de ocasiões de amostragem (44).

As espécies foram agrupadas em categorias de constância segundo Silveira Neto (1976).

A dominância das espécies foi definida de acordo com as categorias estabelecidas por Friebe (1983), D%=(i/t) . 100, onde i = total de indivíduos de uma espécie e t = total de indivíduos coletados.

A razão sexual foi calculada através da soma do número total de fêmeas e de machos dividido pelo número total de fêmeas, para as morfoespécies que apresentaram pelo menos um espécime fêmea.

A densidade populacional por metro cúbico de vegetação, para cada amostra, foi calculada utilizando-se o número total de indivíduos dividido pela medida em metros cúbicos, obtida através da multiplicação da área transversal da rede (0,12 m2) pelo comprimento total de cada golpe de rede (1,98 m) vezes o número de golpes em cada amostra (50). Cada golpe de rede coleta o equivalente a 0,24 m3 , resultando 12 m3 por amostra, ou 120 m3 por coleta. Este calculo foi obtido de acordo com Novotny (1993).

A avaliação da confiabilidade da amostragem foi determinada pela aplicação do coeficiente de variabilidade da amostra, c.v.a. = (s'/x') . 100, onde s' = desvio padrão estimado da amostra e x' = média estimada das amostras, segundo Mühlenberg (1993).

A estimativa da riqueza de espécies foi calculada através da técnica de Jacknife: S = s + [(n-1)/n]k, onde: S = estimativa Jacknife da riqueza de espécies; s = número total de espécies presentes em n amostras; n = número total de amostras; k = número total de espécies únicas (espécies que ocorrem em apenas uma amostra) (Krebs 1989).

Os índices calculados para a medida da diversidade foram: Shannon-Wiener: H' = S (pi) (log2 pi) e H'max = log2 S ou ln S onde, pi = abundância proporcional de uma espécie; S = número de espécies na comunidade e Homogeneidade (Eveness) de Pielou: E = H'/H'max onde, H' = índice de diversidade de Shannon-Wiener; H'max = ìndice máximo de diversidade de Shannon-Wiener para um dado número de espécies, segundo Krebs (1989).

A similaridade foi obtida através do Quociente de similaridade (Sorensen) e do Percentual de similaridade (Renkonen), de acordo com Mühlenberg (1993) sendo: QS (quociente de similaridade) = [2j / (a+b)] . 100, onde: j = número de espécies comuns em ambas as amostras; a = número de espécies na amostra A; b = número de espécies na amostra B; e P (percentual de similaridade) % = å (p1i . p2i), onde: å = menores percentagens das espécies; p = percentual de similaridade entre as amostras 1 e 2; p1i = porcentagem de espécies i na comunidade da amostra 1; p2i = porcentagem de espécies i na comunidade da amostra 2. Para o cálculo da similaridade entre as amostragens utilizaram-se sempre dados de duas amostragens consecutivas.

Os dados abióticos foram obtidos junto ao Instituto Nacional de Meteorologia, Oitavo Distrito de Meteorologia, Estação 83967 - Porto Alegre (300 01'S, 510 13'W) e referem-se a registros climatológicos de superfície.

 

Resultados

A curva de distribuição de abundância, representada na Fig. 1 mostra que 15 morfoespécies (39%) foram constituídas de um a quatro indivíduos e apenas duas espécies apresentaram abundância superior a 10% do total de indivíduos coletados.

 

 

De acordo com a Tabela 1 fica clara a predominância de N. grisescens, espécie mais abundante, tanto para o número total de espécimes, como para o número total de machos (286) e jovens (1107), enquanto que Frequenancia venosula Berg, a segunda espécie mais abundante, apresentou o maior número de fêmeas (373). A maior razão sexual foi evidenciada em Parahasta stiegelmayri Melichar (4,5); em média, a razão sexual foi de 1,69 para a comunidade.

 

 

Foram coletadas 5350 cigarrinhas, pertencentes a 38 morfoespécies e sete famílias de Auchenorrhyncha: Cicadellidae (3078 espécimes - 22 morfoespécies), Issidae (1870 - 2), Membracidae (379 - 6), Dictyopharidae (9 - 1), Cercopidae (7 - 4), Cixiidae (6 - 2) e Delphacidae (1 - 1). O número de machos, fêmeas, a razão sexual dos adultos, o número de jovens e o número total de indivíduos por morfoespécie encontram-se na Tabela 1.

F. venosula é a única espécie com alta constância no nível das amostras e das coletas. As demais espécies que se destacaram foram, em ordem de importância N. grisescens, Atanus sp., Versygonalia ruficauda Walker, Micrutalis sp., Issidae I, Typhlocybinae e Gyponinae I, consideradas acessórias/constantes; Gyponinae II, Gyponinae III, Coellidinae I e Xerophloea viridis Fabricius foram consideradas acidentais/constantes; Coellidinae II, Cyphonia fuscata Buckton, Jassinae e Bucephalogonia xanthophis Berg foram consideradas acidentais/acessórias e a maioria, 22 morfoespécies foram consideradas acidentais (Tabela 2). Observa-se ainda, que, de acordo com a dominância, apenas duas espécies obtiveram abundância maior que 10% e foram classificadas como eudominantes: N. grisescens (31,2%) e F. venosula (25,2%): duas espécies (V. ruficauda e Atanus sp.) foram consideradas dominantes, sete espécies (Typhlocibinae, Micrutalis sp., Issidae I, Gyponinae I, Ceresa malina Germar, Gyponinae II e Gyponinae III foram consideradas subdominantes, uma espécie de Coellidinae II (0,87%) foi considerada eventual e todas as demais foram consideradas raras.

 

 

A confiabilidade dos resultados, expressa pelo cálculo do desvio padrão, erro padrão e do coeficiente de variabilidade da amostra (c.v.a.), para cada ocasião de amostragem, indicam que apenas uma das amostragens apresentou um c.v.a. ligeiramente superior a 30%. Os menores índices de c.v.a. ocorreram nas amostragens dos meses de julho/97 (7,21%) e agosto/97 (8,12%) e os maiores nos meses de dezembro/96 (33,40) e junho /97 (27,20), sendo a média do c.v.a. para todas as amostragens de 16,8%.

A estimativa da riqueza de espécies para o total coletado ao longo do ano calculado através do "Jacknife" foi de 45 morfoespécies e o total observado foi de 38 morfoespécies, indicando um esforço amostral satisfatório (Fig. 2).

 

 

A comunidade de cigarrinhas variou em número durante o ano (Fig. 3), onde o número máximo de cigarrinhas foi verificado em agosto (1671) e o mínimo no mês de abril (115). O número total de indivíduos jovens coletados foi de 2299, o que representa 43% do total de cigarrinhas coletadas.

 

 

As maiores densidades absolutas foram registradas no mês de agosto/97 - 4,95 ind./m3 e 4,14 ind./m3 e as menores (0,20 ind./m3) nos meses de novembro/96 e março/97. As cigarrinhas apresentaram a maior densidade média mensal em agosto (3,48 ind./m3) e a menor em abril (0,32 ind./m3) com média anual de 1,61 ind./m3.

Os resultados dos índices de diversidade aplicados podem ser observados na Fig. 4. O valor máximo de heterogeneidade estabelecido pelo índice de Shannon-Wiener foi 2,44 (novembro/97) e o mínimo 1,10 (agosto/97), para o índice máximo de abundância de espécies esperadas, dado, por Hmax, obteve-se o máximo de 2,83 (novembro/97) e o mínimo de 2,08 (agosto e setembro/97). Para o índice de homogeneidade, calculado através da razão de H/Hmax (Eveness de Pielou), que apresenta valor máximo de 1,00, obteve-se 0,99 (fevereiro /97) e 0,44 (agosto/97).

 

 

Os índices de similaridade, obtidos por comparação entre duas ocasiões de amostragens consecutivas apresentaram os seguintes valores: o quociente de similaridade variou de 42,10 (março/97) a 90,90 (novembro/96) e o percentual de similaridade variou de 25,55 (junho/97) a 91,33 (agosto/97) (Fig. 5).

 

 

Discussão

A distribuição de abundância das espécies se ajusta à curva log-normal, sendo este o modelo de ocorrência mais comum (Magurran 1991); esta distribuição é característica para comunidades que apresentam a maioria das espécies com poucos indivíduos e poucas espécies com muitos indivíduos, como ocorreu neste estudo, onde 15 morfoespécies (39,47%) foram representadas por um a quatro indivíduos e apenas duas espécies (Tabela 2) apresentaram abundância superior a 10% do total de indivíduos coletados.

Linnavuori (1952) caracterizou a comunidade de cigarrinhas em áreas de campos em Raiso, Finlândia, como pobre em espécies (18) e atribuiu suas características sazonais à umidade. Empregando-se o cálculo da dominância (Pielou) para as espécies de Raiso, obteve-se o índice de 0,59, muito próximo do obtido em Viamão (0,60), para uma comunidade de 38 espécies, o que demonstra que as duas comunidades assemelham-se quanto a sua equabilidade, apesar da diferença no número de espécies.

Considerando-se o número total de indivíduos coletados por família constatou-se que Cicadellidae foi mais abundante, seguida por Issidae e Membracidae. No que tange ao número de espécies, a família mais abundante foi novamente Cicadellidae, seguida por Membracidae. Wolda (1980) também registrou Cicadellidae como a família mais abundante nas florestas tropicais do Panamá, estando representada por 12 subfamílias. No presente estudo, foram  registradas oito subfamílias sendo a mais abundante Deltocephalinae (1691), seguida por Cicadellinae (501), Gyponinae (415), Typhlocybinae (242), Coellidinae (145), Ledrinae (58), Jassinae (25) e Hecalinae (1). Esses resultados justificam-se, em função da característca fisionômica dos locais, que constituem grandes áreas abertas. Wallof & Solomon (1973), Wolda (1977) e Novotny (1993) registraram Cicadellidae como a família com maior número de espécies, o que é corroborado pelo presente trabalho, tanto em número de espécies como de indivíduos, em áreas de campos e também em áreas de floresta tropical.

Essa grande diversidade nos diferentes ecossistemas deve-se à grande adaptação dos auquenorrincos a diferentes tipos de composições florísticas, sendo encontrados em quase todas as árvores nas matas, em pomares, em arbustos, gramíneas, flores e muitas plantas cultivadas.

Remes Lenicov & Virla (1993) listaram, para a Argentina, as seguintes famílias como mais abundantes em número de espécies associadas ao cultivo do trigo: Cicadellidae (14), representada pelas subfamílias Cicadellinae (2), Bitoscopinae (4), Ledrinae (1), Deltocephalinae (5) e Typhlocybinae (2); e Delphacidae (7). Duas espécies, Syncharina argentina Berg (Cicadellinae) e X. viridis (Ledrinae), presentes no levantamento, foram observadas também no material coletado de Viamão. S. argentina apresentou em Viamão abundância de 0,03% (Tabela 2) enquanto que na Argentina representou 1,48% do total do material coletado. Essa diferença se deve ao fato de S. argentina ser uma espécie de ocorrência típica em culturas como milho, arroz, cevada e alfafa, esperando-se, pois, que ocorra com maior abundância no trigo do que em áreas de campos abertos; o mesmo pode ser dito em relação a Delphacodes sp.

Marston et al. (1976) obtiveram a média de 34,7% para o coeficiente de variabilidade da amostra (c.v.a.) de coletas de homópteros auquenorrincos e esternorrincos com rede-de-varredura para o total de 15 golpes de rede por amostra. Neste trabalho, foi obtida a média de 16,8% para o c.v.a. com rede-de-varredura de secção quadrada para o total de 50 golpes por unidade de amostra, o que demonstra que o número de unidades amostrais é satisfatório para a boa caracterização da comunidade.

A partir do método "Jacknife" ,estimou-se em 45 o número de morfoespécies para a comunidade, que registrou o acúmulo de 11 para 38 morfoespécies da primeira para a última unidade amostral. Não foi possível alcançar a assímptota na curva de acumulação de espécies (Fig. 2), uma vez que foram adicionadas espécies únicas ainda na última coleta. Entretanto, pode-se observar uma nítida tendência de estabelecer uma assimptota, o que indica que a amostragem satisfatória foi para a determinação da comunidade.

A comunidade de auquenorrincos apresentou grande número de indivíduos no mês de agosto, e este incremento se dá fundamentalmente em função do número de jovens. Nota-se também que a comunidade apresentou pequeno número de indivíduos nos meses de março e abril, o que talvez tenha ocorrido em função do baixo índice pluviométrico registrado neste período, se comparado com a média dos últimos 30 anos para o mesmo período.

A vegetação em Viamão apresentou média anual de 1,61 cigarrinhas/m3 de vegetação, índice similar ao obtido por Novotny (1993), que estabeleceu valores entre 1,0 e 2,0 cigarrinhas/m3 de vegetação em áreas de florestas tropicais.

Os índices de heterogeneidade de Shannon-Wiener sofreram queda nos meses de julho e agosto, período em que ocorreu o maior número de cigarrinhas, ocasionando elevação na abundância de determinadas espécies como é o caso de N. grisescens e F. venosula.

Em seus estudos sobre a sazonalidade de auquenorrincos em áreas de campos, Kontkanen (1950) concluiu que a variação quantitativa da fauna, nos diferentes verões, é nitidamente grande, mas o número de espécies que se alternam como dominantes é pequeno em cada grupo de biótopos. Na comunidade de campos em Viamão, o número de indivíduos ao longo do ano variou igualmente em função do número de jovens, machos e fêmeas, o que, em virtude do regime de chuvas do ano em questão, pode ter influenciado a distribuição sazonal da comunidade de cigarrinhas. Nota-se que há sazonalidade, esta porém, não necessariamente é da comunidade, apenas destas espécies.

N. grisescens mostrou-se inconstante ao longo do ano, apresentando poucos indivíduos (apenas machos e fêmeas) nos meses de novembro e dezembro/96, não ocorrendo no período de fevereiro a abril, e a partir de maio apresentando alguns espécimes jovens, até o surgimento de grande número destes em julho. A partir de agosto houve um incremento tanto no número de machos como de fêmeas. Esta sazonalidade pode ser atribuída ao período de seca que se registrou nos meses de março a maio/97, quando a média de precipitação para os três meses foi de 58,6 mm, sendo que o normal para esta estação é de 102 mm. Esta situação pode levar os adultos a entrarem em um período de diapausa reprodutiva ou ainda, se deslocarem para locais mais favoráveis, como camadas inferiores da vegetação ou áreas mais úmidas adjacentes.

Silveira Neto et al. (1986) estabeleceram o zoneamento climático para as cigarrinhas-das-pastagens (Cercopidae) no Brasil através de climogramas adaptados ao balanço hídrico (evapopluviogramas). Através destes, concluíram que a região de Porto Alegre e arredores apresenta como meses críticos para estas cigarrinhas, o período de maio a setembro, sendo a temperatura o fator limitante. Isso pode ser comprovado pelo material de cercopídeos coletados, que ocorreram nos meses de novembro e dezembro/96, janeiro, outubro e novembro/97.

 

Agradecimentos

A Ketty Maria Rocha Zanol e Rodney Ramiro Cavichioli da UFPR (especialistas em Cicadellidae), Gabriel Simões de Andrade da UNIOESTE (Membracidae), Cristine Elise Pulz (Dictyopharidae) e Paulo Henrique de Souza Prates Júnior (Issidae) da PUCRS e Thierry Bourgoin (Fulgoroidea) do Museu Nacional de História Natural de Paris, pelo auxílio nas identificações dos espécimes.

 

Literatura Citada

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Recebido em 04/11/1999. Aceito em 25/05/2001.

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