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Neotropical Entomology

versão impressa ISSN 1519-566Xversão On-line ISSN 1678-8052

Neotrop. Entomol. v.36 n.2 Londrina mar./abr. 2007

https://doi.org/10.1590/S1519-566X2007000200025 

SCIENTIFIC NOTE

 

Ácaros (Arachnida: Acari) associados a Bauhinia variegata L. (Leguminosae) no noroeste do Estado de São Paulo1

 

Mites (Acari: Arachnida) associated with Bauhinia variegata L. (Leguminosae) in northeast of State of São Paulo, Brazil

 

 

Rodrigo D. DaudI; Reinaldo J.F. FeresII; Renato BuosiI

IPrograma de Pós-graduação em Biologia Animal, rodrigodaud@yahoo.com.br, renatobbio@yahoo.com.br
IIDepto. Zoologia e Botânica, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, UNESP, Rua Cristóvão Colombo, 2265 Jardim Nazareth, 15054-000, São José do Rio Preto, SP, reinaldo@ibilce.unesp.br

 

 


RESUMO

Foi estudada a acarofauna associada a Bauhinia variegata L., espécie introduzida no Brasil como ornamental. Dois exemplares dessa planta foram amostrados mensalmente, de maio de 2000 a abril de 2001. Foram registrados 8.482 ácaros, pertencentes a 25 espécies de 11 famílias. Os fitófagos foram os mais abundantes, sendo Lorryia formosa Cooreman a espécie dominante. A dominância de L. formosa foi provavelmente influenciada pela condição de estresse das plantas amostradas e pela baixa quantidade de ácaros predadores sobre estas plantas.

Palavras-chave: Biodiversidade, impacto urbano, planta ornamental


ABSTRACT

The occurrence of mites on Bauhinia variegata L., a species introduced in Brazil as ornamental, was studied. Two plants of this species were sampled monthly from May 2000 to April 2001. A total of 8,482 mites, belonging to 25 species in 11 families were collected. The abundance of phytophagous mites was higher, being Lorryia formosa Cooreman the dominant species. The dominance of L. formosa might be caused by stress conditions of sampled plants and low number of predaceous mites on those plants.

key words: Biodiversity, urban impact, ornamental plant


 

 

Muitas espécies de plantas exóticas e nativas são utilizadas no Brasil para arborização de áreas urbanas (Lorenzi 2000, Lorenzi et al. 2003). Entretanto, por estarem submetidas a maiores condições de estresse devido à poluição atmosférica, pobreza do solo e condições de microclima do ambiente urbano, as árvores plantadas nesses locais estão mais predispostas a desenvolver doenças e a apresentar maiores infestações de artrópodes fitófagos em relação às cultivadas nas áreas rurais (Flückinger & Braun 1999, Larcher 2000).

Existem poucos estudos da acarofauna associada às plantas de áreas urbanas no Brasil, conhecimento esse considerado básico para a realização de futuros projetos de manejo de pragas. Feres (1992) descreveu Allonychus brevipenis Feres (Tetranychidae) associado a Triplaris surinamensis Cham. (Polygonaceae), utilizada na arborização de municípios. Aspectos ecológicos e ocorrência sazonal de ácaros associados a Tabebuia roseo-alba (Ridl.) Sand (Bignoniaceae), planta brasileira utilizada no paisagismo de áreas urbanas (Lorenzi 2000), foram estudados por Feres et al. (2003). Neste trabalho foi estudada a comunidade de ácaros associada a exemplares de Bauhinia variegata L. (Leguminosae) localizados em área urbana. Essa árvore semidecídua é originária da Índia, atinge 7-10 m de altura e foi introduzida na Região Sudeste do Brasil como planta ornamental para arborização urbana de ruas, praças e jardins. Tolera geadas e pode ser plantada em todas as regiões do país (Lorenzi et al. 2003).

A acarofauna de dois exemplares de B. variegata localizados no campus da UNESP de São José do Rio Preto (20º 47’ 10"S, 49º 21’ 68"W) foi amostrada mensalmente no período de maio de 2000 a abril de 2001. Em cada amostragem foram coletadas dez folhas de cada árvore. O material coletado foi mantido a cerca de 10ºC, por no máximo uma semana, até ser analisado. As folhas amostradas foram observadas sob microscópio estereoscópico e todos os ácaros encontrados foram montados em lâminas de microscopia, utilizando-se o meio de Hoyer (Flechtmann 1975). A identificação e a contagem dos espécimes foram feitas sob microscópio óptico com contraste de fases.

A constância (c) foi calculada segundo Silveira-Neto et al. (1976), sendo as espécies classificadas de acordo com o número de amostras em que a espécie ocorreu, em constantes (c > 50%), acessórias (25 < c < 50%) e acidentais (c < 25%).

O material estudado foi depositado na coleção de Acari (DZSJRP) – http://www.splink.cria.org.br, do Laboratório de Acarologia, Departamento de Zoologia e Botânica, Universidade Estadual Paulista (UNESP), São José do Rio Preto, São Paulo.

Foram coletados 8.482 ácaros de 25 espécies pertencentes a 20 gêneros de 11 famílias. A família com maior riqueza foi Tydeidae, com sete espécies registradas. Phytoseiidae e Tetranychidae apresentaram quatro espécies, e Stigmaeidae e Tenuipalpidae, duas. Para as demais famílias, apenas uma espécie foi registrada (Tabela 1).

 

 

Cerca de 40% das espécies amostradas são predadoras, 40% fitófagas e 20% de hábito alimentar desconhecido ou com discordância a respeito. Os ácaros fitófagos foram os mais abundantes (Tabela 1, Fig. 1). Cerca de 44% das espécies foram constantes, sendo a maioria delas predadoras (7 espécies), enquanto que 16% e 40% das espécies foram acessórias e acidentais, respectivamente (Tabela 1).

 

 

As espécies mais abundantes registradas foram Lorryia formosa Cooreman, Lorryia sp.1 (Tydeidae) e Mononychellus planki (McGregor) (Tetranychidae) com 6.206, 899 e 358 espécimes coletados, respectivamente. L. formosa foi mais abundante em dezembro de 2000 (período com grande precipitação pluviométrica), enquanto que Lorryia sp.1 e M. planki foram mais abundantes em março e abril de 2001 (início da estação seca), respectivamente (Tabela 1). Essas três espécies são fitófagas e apresentaram ocorrência constante, totalizando juntas 7.731 ácaros (91% do total coletado).

L. formosa foi dominante na comunidade, sendo cerca de sete vezes mais abundante que Lorryia sp.1, a segunda espécie mais abundante. A maioria dos indivíduos de L. formosa ocorreu na face abaxial, principalmente próximo à base das folhas. Esse fitófago foi também a espécie mais abundante em exemplares de T. roseo-alba presentes no mesmo local deste estudo (Feres et al. 2003). Entretanto, a população de L. formosa em T. roseo-alba apresentou pico de abundância em período diferente (junho de 2000) do que aquela associada a B. variegata (dezembro de 2000). Essa diferença pode estar relacionada à fenologia de T. roseo-alba, que perdeu as folhas durante o mês de agosto (período de senescência natural), o que ocasionou redução na população de L. formosa que, somente a partir de outubro de 2000 voltou a se recompor (Feres et al. 2003).

Os predadores mais abundantes registrados foram Pronematus sp., Homeopronematus sp. (Tydeidae, Pronematinae) e Euseius sibelius (DeLeon) (Phytoseiidae), com 268, 193 e 146 indivíduos, respectivamente. Pronematus sp. e Homeopronematus sp. foram mais abundantes em abril e março, respectivamente, enquanto que a maior abundância de E. sibelius ocorreu em janeiro de 2001 (Tabela 1). Esses predadores também foram constantes e somaram juntos 625 indivíduos, representando 7,4% do total de ácaros coletados.

Por estarem localizadas em ambiente urbano, as plantas estudadas podem estar sob condições de estresse, conseqüentemente, com maior concentração de nitrogênio foliar (White 1984, Larcher 2000). Segundo White (1984), o aumento de nitrogênio nas folhas pode beneficiar a sobrevivência e o desenvolvimento de artrópodes fitófagos. O fator estresse somado à baixa abundância de predadores e à sua localização na base das folhas (proteção contra o efeito mecânico da chuva) podem ter propiciado a dominância de L. formosa na comunidade de ácaros de B. variegata. Todavia, futuros estudos, incluindo análises de nitrogênio foliar, serão necessários para a comprovação dessa hipótese.

 

Agradecimentos

À Profa. Dra. Denise de C. Rossa Feres (UNESP, São José do Rio Preto, SP), pelas valiosas críticas e sugestões ao artigo. À Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), de São José do Rio Preto, SP, pelos dados metereológicos cedidos.

 

Referências

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Received 21/X/05. Accepted 04/X/06.

 

 

1 Parte do Programa BIOTA/FAPESP – O Instituto Virtual da Biodiversidade, http://www.biota.org.br

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