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Neotropical Entomology

Print version ISSN 1519-566XOn-line version ISSN 1678-8052

Neotrop. entomol. vol.36 no.4 Londrina July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1519-566X2007000400019 

PUBLIC HEALTH

 

Espécies de Lutzomyia França (Diptera: Psychodidae, Phlebotominae) em área de Leishmaniose Tegumentar no município de Carmo, RJ

 

Species of Lutzomyia França (Diptera: Psychodidae, Phlebotominae) in area with Cutaneous Leishmaniasis case of Carmo County, Rio de Janeiro State, Brazil

 

 

João R.C. Alves

Instituto de Biologia, Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal, Univ. Federal Rural do Rio de Janeiro Seropédica, RJ, chamberlaim@superig.com.br

 

 


RESUMO

Com o objetivo de conhecer a diversidade de flebotomíneos da fazenda São José, município de Carmo, Rio de Janeiro, foram realizadas capturas no intra, peridomicílio e na floresta, tendo em vista o registro do primeiro caso autóctone de leishmaniose tegumentar americana. Foram capturados 4595 flebotomíneos de seis espécies do gênero Lutzomyia: L. intermedia (Lutz & Neiva), L. lenti (Mangabeira), L. whitmani (Antunes & Coutinho), L. migonei (França), L. ayrozai (Barretto & Coutinho) e L. quinquefer (Dyar). L. intermedia foi predominante (99,1 %); com alta freqüência entre 18:00h e 20:00h.

Palavras-chave: Lutzomyia intermedia, Leishmaniose Tegumentar Americana, Rio de Janeiro


ABSTRACT

Captures of sand flies were carried out in peridomiciliary, domiciliary and forest environments on São José farm, located in Carmo county where an autochthonous case of American Cutaneous Leishmaniasis occurred to investigate the probable vector of the disease. A total of 4.595 sand flies belonging to six species of the genus Lutzomyia were captured: L. intermedia (Lutz & Neiva), L. lenti (Mangabeira), L. whitmani (Antunes & Coutinho) L. migonei (França), L. ayrozai (Barretto & Coutinho) andL. quinquefer (Dyar). L. intermedia was the predominant species (99.1%), its highest frequencies occurring between 6 p.m. and 8 p.m.

Key words: Lutzomyia intermedia, American Cutaneous Leishmaniasis


 

 

Em 1993, foi notificado à Fundação Nacional de Saúde do Rio de Janeiro um caso humano autóctone de leishmaniose tegumentar americana (LTA), na região serrana do estado do Rio de Janeiro, na fazenda São José localizada no município de Carmo. Município este, vizinho de Além Paraíba, onde a espécie Leishmania (Viannia) braziliensis (Vianna) foi descrita e também isolada de Lutzomyia (Psychodopygus) hirsuta hirsuta (Mangabeira) (Rangel et al. 1985). Este trabalho teve como objetivo pesquisar a diversidade flebotomínica do gênero Lutzomyia, na citada fazenda, em três ambientes: florestal, intradomiciliar e peridomiciliar para identificação da possível espécie vetora da Leishmania.

 

Material e Métodos

O município de Carmo (21º56'04"S e 42º36'31" W) está localizado no estado do Rio de Janeiro, na zona fisiográfica da marginal do Rio Paraíba do Sul (Fig. 1). Apresenta área de 357 km2 e altitude de 347 m a.n.m., com temperatura média variando entre 16,4ºC e 30,2ºC (IBGE).

 

 

As áreas onde foram realizadas as capturas estão localizadas na fazenda São José, cujo acesso se dá pelo trevo de entrada para o centro do município.

As capturas foram realizadas no interior e ao redor (chiqueiro, parede externa e tronco de árvore) da residência onde houve notificação do caso de LTA das 18:00h às 22:00h, de agosto de 1994 a julho de 1995, duas vezes por mês, utilizando-se capturadores de Castro e uma lanterna, assim como armadilha Falcão (Falcão 1981), com isca luminosa, em um chiqueiro e na floresta, das 18:00h às 6:00h. Para clarificação e montagem seguiu-se a técnica descrita por Vilela et al. (2003). O material encontra-se depositado na coleção do Departamento de Entomologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A nomenclatura adotada para as espécies segue Martins et al. (1978).

Os dados sobre temperatura foram registrados a cada coleta e obtida a média das mensurações.

 

Resultados e Discussão

De agosto de 1994 a julho de 1995, foram capturados 4595 flebotomíneos na Fazenda São José, sendo seis espécies do gênero Lutzomyia: L. intermedia (Lutz & Neiva) (99,1%), L. whitmani (Antunes & Coutinho), (0,4%), L. lenti (Mangabeira), (0,3%), L. migonei (França), (0,2%), L. quinquefer (Dyar) (0,02%) e L. ayrozai (Barretto & Coutinho) (0,02%) (Tabela 1) L. intermedia foi predominante sobre todas as espécies, tipos e sítios de coletas, considerando o intradomicílio e o peridomicílio, 60% das fêmeas foram obtidas no intradomicílio. A segunda espécie mais freqüente foi L.whitmani, porém com índice muito baixo; esse dado é semelhante ao encontrado por Rangel et al. (1986,1990) e Aguiar et al. (1993) que apontam baixa freqüência para essa espécie. A seguir apresenta-se a fauna por local de captura.

No intradomicílio, foram capturados 733 flebotomíneos identificados como: L. intermedia (483 machos e 245 fêmeas) L. lenti (três fêmeas) e L. whitmani (dois machos).

No verão foram observados os maiores índices (53,5%) e o pico mais evidente em março. O que diverge das observações de Rangel et al. (1990) que indicam outubro como o mês de elevada freqüência de flebotomíneos.

A atividade foi maior no período das 20:00h às 22:00h (57,4%), resultado semelhante ao obtido por Rangel et al. (1986), com média horária de 9,5 flebótomos. A razão macho/fêmea foi de 1,9:0,52 o que sugere adaptação desses insetos ao interior da residência, conforme assinalado por Rangel et al. (1986) e Aguiar & Medeiros (2003), assim como a busca pelo alimento e abrigo (Gomes et al. 1982, Rangel et al. 1986, Brazil et al. 1991), o que leva a reforçar a opinião de autores que consideram L. intermedia dotada de grande capacidade de domiciliação e de adaptação ao ambiente modificado pelo homem. O predomínio de machos em capturas noturnas também foi evidenciado no Rio de Janeiro, corroborando Lima et al. (1988).

Nas coletas peridomiciliares, foram coletados 3050 exemplares: L. intermedia (2871 machos e 162 fêmeas), L. whitmani (10 machos), L. lenti (dois machos e uma fêmea), L. migonei (dois machos), L. quinquefer (um macho) e L. ayrozai (uma fêmea), o que confirma a alta densidade encontrada em ambiente semelhante por Rangel et al. (1990). No primeiro horário (18:00-20:00h), foram coletados 67,4% dos exemplares de L. intermedia ficando a média horária anual em 35,4 flebótomos capturados, dado não semelhante ao de Rangel et al. 1986, em que o segundo horário foi mais rendoso (21:00-23:00h). Neste período, a média horária de L. intermedia foi de 23 exemplares, com uma relação macho/fêmea muito alta (Tabela 2). Além de L. intermedia, L. whitmani e L. migonei estiveram presentes nos dois horários de capturas. Estudos realizados no Rio de Janeiro registram o encontro no peridomicílio das duas primeiras espécies, praticando antropofilia (Rangel & Lainson 2003) e em densidade próxima (Souza et al. 2002), enquanto que L. migonei ocorreu em densidade relativamente elevada junto com L. intermedia, em Jacarepaguá, RJ (Rangel & Lainson 2003), o que não ocorreu em Carmo. Em relação às estações do ano, o verão apresentou densidade maior de L. intermedia (39,7%), corroborando os resultados de Souza et al. (2002), enquanto a menor densidade ocorreu no inverno (11,7%), divergindo do assinalado em Rangel & Lainson (2003).

Pesquisou-se a fauna local em um chiqueiro existente no peridomicílio e na floresta situada próximo à casa, a cerca de 40 m de distância, sempre no mesmo lugar. Foram coletados 812 exemplares de Lutzomyia nas coletas realizadas com armadilha Falcão nos ambientes peridomiciliar (chiqueiro) e florestal: L. intermedia foi predominante nos dois sítios de coleta, representando no primeiro, 98,1% e no segundo, 90,1 % dos exemplares. L. whitmani, L. migonei, L. lenti totalizaram 2,34% (Tabela 1).

A presença de machos (54,4%) foi maior que de fêmeas (45,6%), sendo a razão macho/fêmea 1,2:1,0, o que concorda com Barretto (1943) e Aguiar et al. (1985). L. intermedia foi uma das espécies mais coletadas com armadilha luminosa em diversos locais no município de Petrópolis (Barretto & Zago Filho 1956), semelhante ao obtido neste trabalho.

Na floresta foram feitas 144h de captura, evidenciando que L. intermedia foi predominante, porém com densidade baixa e freqüência horária de 0,3 exemplares, confirmando que sua captura em áreas florestais, no Sudeste e Sul, é praticamente nula (Aguiar & Medeiros 2003), L. intermedia não foi encontrada na floresta de Paraty, RJ (Aguiar et al. 1993), em pesquisa realizada na Serra dos Órgãos (Aguiar et al. 1985). Desde Aragão (1922) e Nery-Guimarães (1955), a presença de casos autóctones de leishmaniose vem sendo assinalada no RJ, bem como a captura de L. intermedia. No município de Carmo, esse fato é aqui assinalado pela primeira vez.

O predomínio absoluto de L. intermedia (99,1%) (Fig. 2) levou a considerá-la como vetor da leishmaniose local, tal como em outras áreas do Rio de Janeiro (Rangel et al. 1986, 1990) tendo-se em vista o seu elevado grau de antropofilia, o fato de já ter sido encontrada infectada naturalmente com L. braziliensis nesse estado (Rangel et al. 1984) e as evidências epidemiológicas. Embora capturada o ano todo, é mais freqüente no verão, quando provavelmente eleva-se a probabilidade de transmissão da doença.

 

 

Agradecimentos

Ao Dr. Gustavo Marins de Aguiar, Fundação Instituto Oswaldo Cruz, FIOCRUZ pelo auxílio na identificação das espécies coletadas, à Dra. Janira Martins Costa, Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal,UFRRJ, pela orientação e apoio, ao Sr. Paulo Lemgruber, proprietário da Fazenda São José pelo apoio e suporte, Sr. João Sebastião Marques e família, moradores do local pela acolhida e compreensão.

 

Referências

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Received 01/VIII/05. Accepted 06/X/06.

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