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Neotropical Entomology

Print version ISSN 1519-566XOn-line version ISSN 1678-8052

Neotrop. entomol. vol.38 no.2 Londrina Mar./Apr. 2009

https://doi.org/10.1590/S1519-566X2009000200022 

SCIENTIFIC NOTE

 

Ocorrência de Nyssomyia intermedia (Lutz & Neiva) (Diptera: Psychodidae) e fauna associada, no Paraná

 

Ocurrence of Nyssomyia intermedia (Lutz & Neiva) (Diptera: Psychodidae) in Paraná State, south of Brazil

 

 

Demilson R dos SantosI; Ademar R dos SantosI; Luiz P PoianiI; Otilio de OliveiraI; Allan M da SilvaII; Eunice A B GalatiIII

ILab. de Entomologia Médica de Maringá, Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, Curitiba, PR; demilson.entomologia@ig.com.br
IICoordenação de Pesquisas em Entomologia Médica, Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, Curitiba, PR; allanms@ibest.com.br
IIIDepto. de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, USP, São Paulo, SP, egalati@usp.br

 

 


RESUMO

Nyssomyia intermedia s. lat. tem sido citada por vários autores no Paraná. No entanto, alguns estudos apontam que esse táxon corresponde a Nyssomyia neivai (Pinto). Em coletas realizadas em galinheiro e em ambiente de mata, com armadilhas, entre novembro de 2005 e outubro de 2006, em Adrianópolis, Morretes e Pontal do Paraná, localizados na região de Mata Atlântica na Serra do Mar e no litoral do Paraná, sete fêmeas de Nyssomyia intermedia s. str. (Lutz & Neiva) foram encontradas juntamente com outras 14 espécies de flo ebotomíneos, confirmando a ocorrência de N.intermedia em área de costa e de mata Atlântica do Paraná.

Palavras-chave: Flebotomíneo, vetor, leishmaniose cutânea, Mata Atlântica


ABSTRACT

The occurrence of Nyssomyia intermedia s.lat. in the state of Paraná, Brazil, has been registered by several authors; however, studies have identified this taxon as belonging, in Paraná, to Nyssomyia neivai (Pinto). During captures with traps in a hen-house and forested areas, from November 2005 to October 2006, in Adrianópolis, Morretes and Pontal do Paraná, situated in the Atlantic forest domain, Paraná state, seven females of Nyssomyia intermedia s.str. (Lutz & Neiva) were collected together with other 14 sand floy species. Thus the occurrence of N. intermedia on the coast and in areas of Atlantic forest in Paraná is confirmed.

Key words: Sand floy, vector, cutaneous leishmaniasis, Atlantic Forest


 

 

No Brasil, as primeiras descrições de flebotomíneos ocorreram no início do século XX, quando os estudos taxonômicos não dispunham dos recursos atuais. Por essa razão, não raro, uma determinada espécie, após estudos mais detalhados, distingue-se em mais de um táxon (Marcondes 1998). Exemplos dessa natureza são os complexos identifi cados de Lutzomyia longipalpis (Lutz & Neiva) (Lanzaro et al 1993), Nyssomyia whitmani (Antunes & Coutinho) (Ready et al 1997) e Nyssomyia intermedia (Lutz & Neiva) (Marcondes 1996, 1997, Andrade-Filho et al 2006).

Marcondes (1996, 1997) distinguiu duas espécies bem definidas, N.intermedia s.str. e Nyssomyia neivai (Pinto) e relatou a distribuição geográfica das mesmas e do complexo. Os exemplares estudados do Paraná pertenciam a N.nevai, indicando que os registros de N.intermedia em alguns estudos (Aguiar et al 1989, Castro et al 2005, Consolim et al 1990; Teodoro et al 1993a, b, Teodoro & Kühl 1997), na verdade, tratavam de N.nevai. Marcondes et al (1998) assinalaram a presença de N.intermedia no litoral de São Paulo, N.neivai a oeste da Serra do Mar, e ambas em simpatria em área da região do Vale do Ribeira.

Diante da contiguidade das áreas litorâneas e do Vale do Ribeira dos estados de São Paulo e Paraná, e partindo do pressuposto de que N.intermedia poderia ser encontrada na Mata Atlântica na Serra do Mar e no litoral paranaense, realizou-se o presente estudo em alguns municípios dessa região, cujo objetivo principal foi constatar de fato a ocorrência da referida espécie no Paraná.

O estudo foi realizado de novembro de 2005 a outubro de 2006, com coletas de flebotomíneos em área rural dos seguintes municípios e respectivas localidades: Adrianópolis (24º 39'06"S; 49º 02'59"W; 209 m a.n.m.) (Sítio Ilha Rasa), Tunas do Paraná (24º 58'26"S; 49º 05'09"W; 906 m) (Parque Estadual de Campinhos), Antonina (25º 25'43"S; 48º 42'43"W; 20m) (Sítio Rio Pequeno), Morretes (25º 28'37"S; 48º 50'04"W; 10 m) (Sítio Rio Sagrado), Guaraqueçaba (25º 18'24"S; 48º 19'44"W; 20 m) (Povoado Tagaçaba), Paranaguá (25º 31'12"S; 48º 30'33"W; 3m) (Sítio Pixirica), Pontal do Paraná (25º 40'25"S; 48º 30'40"W; 10 m) (Sítio Mangue Seco), Matinhos (25º 49'03"S; 48º 32'34" W; 15 m) (Sítio Sertãozinho) e Guaratuba (25º 52'58"S; 48º 34'29"W; 15 m) (Bairro do Morretes).

As coletas de flebotomíneos foram realizadas em todas as localidades com armadilhas elétricas luminosas do tipo Falcão (modificada), entre as 18:00h e 6:00h, distribuídas em varanda de residência, galinheiro, chiqueiro, bananal, mata, túnel, toca de tatu, gruta e fendas de rocha, e apenas em Morretes, Guaraqueçaba, Paranaguá e Matinhos, com armadilha de Shannon, também com atrativo luminoso, instalada em mata das18:00h às 21:00h. O número de coletas variou entre uma e quatro (Tabela 1).

A nomenclatura das espécies segue Galati (2003).

Juntamente com N.intermedia, foram coletadas outras 14 espécies de flebotomíneos, algumas com potencial para transmitir a leishmaniose tegumentar, no total de 5.021 espécimes, representando oito gêneros: Brumptomyia angelae (Galati, Santos & Silva), B.cunhai (Mangabeira), B.nitzulescui (Costa Lima), B.troglodytes (Lutz), Expapillata firmatoi (Barretto, Martins & Pellegrino), Evandromyia edwardsi (Mangabeira), Migonemyia migonei (França), N.neivai, N.whitmani, Pintomyia fischeri (Pinto), P.monticola (Costa Lima), Psathyromyia lanei (Barretto & Coutinho), Psychodopygus ayrozai (Barretto & Coutinho) e P.geniculatus (Mangabeira).

O município de Adrianópolis foi o que apresentou a maior riqueza de espécies (10) e a maior quantidade de flebotomíneos (4.830), representando 96,2% do total de insetos capturados. Os flebotomíneos foram mais abundantes em chiqueiro (65,0%) e galinheiro (23,5%); N.neivai predominou (96,3%). Nos demais municípios (juntos) foram coletados 191 espécimes, com predominância de B.troglodytes em Tunas do Paraná (34,0%), P.ayrozai em Guaraqueçaba (51,7%), P.fischeri em Morretes (56,7%), Paranaguá (56,5%) e Matinhos (98,5%), enquanto que em Pontal do Paraná foi encontrado um único exemplar de N.intermedia (Tabela 1). As coletas realizadas em Antonina e Guaratuba foram negativas para flebotomíneos.

Apenas sete fêmeas de N.intermedia, em diferentes ambientes (antrópico e florestal), foram coletadas. Sua distribuição geográfica foi desde regiões mais altas do primeiro planalto até a faixa litorânea do Paraná, respectivamente nos municípios de Adrianópolis (Vale do Ribeira), Morretes (Serra do Mar) e Pontal do Paraná (orla marinha).

Nyssomyia neivai foi capturada apenas no Vale do Ribeira, com prevalência absoluta em Adrianópolis, em simpatria com N.intermedia, e em Tunas do Paraná, foi a segunda espécie mais frequente (Tabela).

Castro et al (2005) e Silva et al (2008) não relataram N.intermedia em Adrianópolis, assim como Marcondes et al (2001) também não encontraram esse flo ebotomíneo em Morretes. Contudo, esses autores levantaram a hipótese de que a referida espécie poderia ocorrer em algumas localidades paranaenses, cujas características ambientais se assemelhassem àquelas do litoral e Vale do Ribeira do estado de São Paulo, onde essa espécie foi registrada em simpatria com N.neivai (Marcondes et al 1998).

Em suma, o resultado deste trabalho comprova a presença de N.intermedia no Paraná, corroborando Marcondes et al (1998), que referiram a melhor adaptação de N.intermedia a áreas quentes e úmidas, ao passo que N.neivai está mais adaptada às regiões de clima mais seco, como o interior do estado de São Paulo.

Nyssomyia intermedia, N.whitmani, P.ayrozai, M.migonei e P.fischeri são espécies com potencial para transmissão de LTA; portanto, os resultados obtidos no presente trabalho sugerem a ampliação dos estudos para se paranaense, a fim de se estabelecer estratégias de Vigilância conhecer melhor o comportamento desses flebotomíneos Entomológica, assim como ocorre em outras regiões do na região de Mata Atlântica na Serra do Mar e no litoral Paraná.

 

Agradecimentos

Aos integrantes da equipe de Entomologia de Paranaguá pelo auxílio na realização das coletas de flo ebotomíneos. À Secretaria de Estado da Saúde do Paraná que disponibilizou recursos para a realização deste estudo.

 

Referências

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Received 19/X/07. Accepted 23/II/08.

 

 

Edited by Fernando L. Cônsoli - ESALQ/USP

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