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Civitas - Revista de Ciências Sociais

Print version ISSN 1519-6089On-line version ISSN 1984-7289

Civitas, Rev. Ciênc. Soc. vol.14 no.2 Porto Alegre May/Aug. 2014  Epub June 15, 2020

https://doi.org/10.15448/1984-7289.2014.2.17868 

Apresentação

Narrativas: Teorias e métodos

Narratives: Theories and methods

Hermílio Santos1 

Bettina Völter2 

Wivian Weller3 

1(Pucrs)

2(Alice Salomon Hochschule Berlin)

3(UnB)


Desde as primeiras décadas do século 20, quando William Isaac Thomas e Florian Znaniecki analisaram a emigração de camponeses da Polônia para os Estados Unidos com base em relatos orais, sociólogos têm se valido desse tipo de dado para compreender aspectos variados da realidade social. Sociólogos têm utilizado, com objetivos e procedimentos os mais diversos, relatos produzidos por aqueles que vivenciaram a realidade que se quer pesquisar. Ainda assim, relatos orais ou mesmo biográficos permanecem relativamente marginais, pelo menos na sociologia brasileira, mesmo considerando que já na década de 1940 sociólogos brasileiros, como Florestan Fernandes, já tenham realizado pesquisa utilizando relatos orais. Nos anos mais recentes, porém, observa-se um interesse crescente de pesquisadores brasileiros pela adoção de narrativas em pesquisas empíricas. Daí a necessidade de apresentar aos cientistas sociais brasileiros distintas possibilidades de uso do que se convencionou chamar “narrativas”.

Pelo menos um aspecto é compartilhado entre as diferentes abordagens que adotam narrativas como “dado”: a necessidade de se obter diretamente dos sujeitos relatos sobre as experiências que vivenciaram ou vivenciam, seja para reconstruir trajetórias de vida, seja para obter acesso à interpretação dos próprios sujeitos sobre suas experiências e, desta maneira, fornecer uma compreensão mais profunda de variados aspectos da realidade pesquisada. Contudo, neste campo de pesquisa destaca-se a multiplicidade de procedimentos metodológicos, tanto em relação ao processo de produção das narrativas, quanto de sua análise. Desde os precursores tem havido importantes aportes teóricos e metodológicos, sobretudo a partir da década de 1970, sem que haja evidentemente consenso sobre os procedimentos mais adequados. As escolhas metodológicas dependem, em boa medida, do ponto de partida teórico adotado pelos pesquisadores –ainda que nem sempre explicitados–, assim como dos problemas que motivam as investigações.

O presente dossiê tem o objetivo de apresentar parte dessa diversidade de abordagens presente no campo, em que ficam explicitadas as escolhas teóricas e metodológicas e, com isso, fornecer subsídios tanto a pesquisadores experientes quanto a estudantes que se encontram em fase de preparação dos seus primeiros trabalhos acadêmicos e que possuem interesse em metodologias qualitativas relacionadas à análise de narrativas.

Dada a diversidade de abordagens no uso de narrativas para a pesquisa sociológica, optou-se, aqui, portanto, por apresentar uma amostra de sua pluralidade, sem evidentemente pretender dar conta de todas as correntes. Neste número da Civitas estão presentes alguns dos autores mais influentes que, desde a década de 1970, têm contribuído para desenvolver –cada um à sua maneira– a pesquisa narrativa na sociologia, como é o caso dos sociólogos alemães Fritz Schütze e Gabriele Rosenthal e do sociólogo francês Daniel Bertaux. Sobretudo na França e na Alemanha podem ser observados os esforços mais sistemáticos, tanto na sua vertente que explora as trajetórias de vida ou cursos de ação, como é mais corrente no caso francês, quanto propriamente as narrativas e estruturas biográficas, como no caso da sociologia alemã. Entretanto, não é de todo apropriado dizer que haja uma pesquisa narrativa francesa e outra alemã, tendo em vista a variedade de abordagens presentes em cada uma dessas comunidades acadêmicas. Além da Alemanha e da França, tradições e práticas de pesquisa baseadas em narrativas podem ser encontradas especialmente na Polônia, Itália, Inglaterra e nos Estados Unidos.

Fritz Schütze está presente nesse dossiê de duas maneiras: publicamos uma tradução de um artigo já clássico, mas que estava disponível somente em alemão. Dada a limitação de espaço na versão impressa da revista, optou-se por inclui-lo no encarte digital. Em seu artigo sobre a Análise sociológica e linguística de narrativas, o autor apresenta, inicialmente, uma definição do fenômeno “narração de histórias”, para em seguida discorrer sobre as competências necessárias para a narração e os sentidos da estrutura de uma narrativa como forma de processamento recapitulativo de vivências e experiências. Nas duas últimas seções do artigo são apresentadas as potencialidades da análise de histórias narradas em primeira mão para a pesquisa sociológica. A análise de narrativas e a comparação com outros casos possibilita, entre outros, a obtenção de informações sobre grupos sociais, seus conhecimentos, interesses e atitudes. Conhecer estes grupos a partir da reconstrução de narrativas possibilita uma compreensão mais profunda de suas demandas, seus projetos e ações. Além disso, publicamos uma entrevista narrativa biográfica com Fritz Schütze, conduzida pelas sociólogas Michaela Köttig e Bettina Völter, elas próprias autoras de importantes trabalhos sobre narrativas biográficas. Em depoimento biográfico, Schütze relata as origens do seu interesse por narrativas e como se deu o surgimento de sua abordagem, que influenciou a elaboração de outras variantes de pesquisa narrativa. Fritz Schütze segue ativo no desenvolvimento da teoria e metodologia de narrativas. Ele mantém relações de trabalho próximas com colegas da Polônia e Inglaterra, conduzindo pesquisa, por exemplo, sobre identidade europeia, sobre o trabalho biográfico no aconselhamento social e sobre biografias linguísticas no País de Gales.

De Gabriele Rosenthal publicamos uma tradução de um importante artigo em que ela resume os principais aspectos de sua contribuição, que tem origem na abordagem desenvolvida por Schütze, mas que recebeu incrementos, sobretudo no processo de análise de narrativas biográficas. A perspectiva desenvolvida por Rosenthal está fundada sobretudo na distinção entre vida vivenciada e vida narrada. A partir dessa distinção propõe um procedimento analítico bastante minucioso para dar conta dessa importante distinção que emerge em narrativas biográficas. Sua abordagem metodológica é hoje reconhecida internacionalmente, tendo sido adotada nas últimas três décadas na investigação de uma grande variedade de temas, tanto na Alemanha quanto em vários outros países, como a experiência de vítimas e algozes do holocausto, assim como experiências de violência, migração, desemprego, pertencimento étnico, dentre vários outros.

No artigo de Daniel Bertaux, escrito especialmente para este dossiê, o autor apresenta o que, segundo ele, pode ser uma das principais contribuições da narrativa na sociologia, que seria precisamente delinear o curso de ação dos sujeitos. Bertaux emprega sua abordagem para investigar a persistência de profissões tradicionais, como é o caso de padeiros artesanais. Bertaux foi um dos fundadores do comitê de pesquisa “Biografia e Sociedade” na Associação Internacional de Sociologia (ISA), e desde o início da década de 1980 tem sido um autor reconhecido no campo da pesquisa narrativa, também entre sociólogos brasileiros. No artigo que publicamos aqui, Bertaux estabelece duas frentes de discussão: por um lado confronta a abordagem narrativa com o que ele chama de cientificismo, representado sobretudo por Bourdieu; por outro lado, Bertaux procura se distinguir das abordagens que ele denomina “subjetivistas”.

Se hoje essas abordagens já estão consolidadas em diversos países, não apenas na França e na Alemanha, não se pode perder de vista a resistência que esses autores sofreram por parte de representantes de outras escolas interpretativas que dominavam –e dominam ainda– a produção sociológica nesses países. A sociologia dominante via com desconfiança, e até mesmo desdém, as contribuições que a pesquisa com narrativas poderia aportar ao conhecimento sociológico da realidade. Pode-se dizer que a resistência, onde ainda hoje persiste, é fruto muito mais do desconhecimento da riqueza analítica que a análise de narrativas já demonstrou do que propriamente da desconfiança em relação ao seu potencial analítico, já que encontra-se disponível uma vasta produção, tanto teórica quanto empírica, a partir de diversas perspectivas analíticas, sobretudo em línguas estrangeiras.

Com isso, delineia-se um dos objetivos desse dossiê, que é disponibilizar ao público brasileiro textos de autores reconhecidos como referência na sociologia internacional, como é precisamente o caso de Schütze, Rosenthal e Bertaux, já mencionados, cujos textos foram traduzidos para o português, em parte com apoio financeiro do CNPq. É desproporcional a influência desses autores na sociologia internacional e a quase indisponibilidade de seus textos em português. Não há dúvida que isso acaba por se constituir em um obstáculo adicional para que pesquisadores e estudantes se familiarizem com a pesquisa narrativa para a compreensão de alguns aspectos da realidade que, de outra maneira, dificilmente se tornariam acessíveis aos sociólogos.

O dossiê traz também contribuições que exploram diferentes aspectos do que podemos chamar de “narrativa visual”. O artigo de Corinne Squire explora o conceito de “narrativa” para se dedicar à análise de imagens como componentes de uma narrativa, desde que se promova o que ela denomina de “descentramento da temporalidade” da narrativa, o que permitiria explorar fenômenos ainda não investigados. Roswitha Breckner, por seu lado, propõe a análise de um álbum de fotografias de família como uma forma corrente de narrativa com vistas a uma autoapresentação. Com isso, Breckner defende a tese de que a análise de imagens pode se constituir em um importante complemento às entrevistas narrativas biográficas, capaz de contribuir para se compreender diferentes dimensões de experiências familiares, em que os componentes do presente, representado pela entrevista, se entrelaçam com o passado, a partir da recuperação do passado nas fotografias e outros artefatos que compõem um álbum de família.

Com base em pesquisas empíricas, três artigos apresentam distintas possibilidades de uso de narrativas. Katarzyna Waniek analisa a trajetória de migração de jovens poloneses para a Alemanha a partir de 1989 com base nos aportes metodológicos propostos por Fritz Schütze. A partir das apresentações biográficas desses jovens, Waniek aponta aspectos que provocam distúrbios nas interações em um país estrangeiro, produzindo, com isso, o que ela denomina “trajetórias de sofrimento” (um conceito de Fritz Schütze), o que torna a experiência de migração bastante dolorosa do ponto de vista interativo.

O artigo de Wivian Weller e Janete Otte, por sua vez, analisa a trajetória de mulheres na gestão de instituições públicas profissionalizantes seguindo a abordagem do método documentário para a análise de narrativas, desenvolvido por Ralf Bohnsack, sobretudo a partir da sociologia de Karl Mannheim. Ao analisar as trajetórias dessas mulheres, as autoras destacam, também aqui, experiências de sofrimento, sobretudo pela incursão em searas antes dominadas pela figura masculina, ainda que apresentem percursos distintos.

Valendo-se igualmente do método documentário, Ana Keila Mosca Pinezi, Marilda Aparecida de Menezes e Alexandre Soares Cavalcante pesquisaram a condição de idoso a partir de suas narrativas biográficas. Nesse artigo os autores recuperam diferentes conteúdos e formas de narrar, bem como expressões do corpo e do imaginário de idosos que participam de um projeto que lhes proporciona acesso às novas tecnologias digitais de comunicação.

Encerrando o dossiê, Hermílio Santos, Patricia Oliveira e Priscila Susin atualizam a revisão da literatura sobre o uso de relatos orais na sociologia brasileira, destacando as distintas abordagens desde o início na década de 1940, chamando a atenção ao final para perspectivas promissoras da pesquisa com base em narrativas biográficas, em especial ancorada na abordagem proposta por Gabriele Rosenthal, que permite explorar a perspectiva do sujeito na esteira da sociologia de Alfred Schütz.

Por último, este número da Civitas publica uma resenha do livro “Pesquisa social interpretativa”, de Gabriele Rosenthal, cuja tradução encontra-se no prelo da Edipucrs, com publicação prevista para o segundo semestre de 2014. Priscila Susin expõe as principais características da obra, que oferece um roteiro bastante detalhado para a condução e análise de entrevistas narrativas biográficas, enriquecida com exemplos de pesquisas empíricas conduzidas por Rosenthal e sua equipe no Centro de Métodos em Ciências Sociais da Universidade de Göttingen.

Espera-se que este dossiê cumpra pelo menos parte de sua imodesta ambição de contribuir para preencher importantes lacunas na formação de sociólogos no Brasil, que é justamente disponibilizar diferentes perspectivas teóricas e metodológicas para a adoção de narrativas na pesquisa empírica.

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