SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue4Self-mutilation: pain intensity, triggering and rewarding factorsInfluence of gender on cold-induced pain author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Dor

Print version ISSN 1806-0013On-line version ISSN 2317-6393

Rev. dor vol.17 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.5935/1806-0013.20160085 

ARTIGOS ORIGINAIS

Distúrbios osteomusculares em cirurgiões-dentistas e qualidade de vida

Tânia Adas Saliba1 

Ana Carolina Bernardes Machado1 

Camila Marquesi1 

Artênio José Ísper Garbin1 

1Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Departamento de Odontologia Infantil e Social, Araçatuba, SP, Brasil.


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS:

A qualidade de vida sempre foi uma preocupação do homem, especialmente nos últimos tempos em que as exigências do mercado de trabalho vêm expondo o profissional de odontologia a situações estressantes e condições adversas, favorecendo a instalação de diversas doenças decorrentes das atividades laborais. O objetivo deste estudo foi avaliar a presença de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho; sintomas dolorosos e sua relação com qualidade de vida e o emprego de medida preventiva entre cirurgiões-dentistas.

MÉTODOS:

A população de estudo foi composta por cirurgiões-dentistas da rede privada (n=64); dois questionários autoaplicáveis foram empregados, sendo um para mensurar qualidade de vida, World Health Organization Quality of Life-bref e o outro para distúrbios osteomusculares.

RESULTADOS:

A região mais acometida por dores foi a do pescoço e da coluna cervical (49,2%), seguida pela região lombar (40%). No que se relaciona à qualidade de vida, o domínio físico apresentou a média de escores mais altos (76,5%) seguido do domínio relações sociais (74,9%).

CONCLUSÃO:

A região com maior prevalência de sintomas dolorosos foi a do pescoço e coluna cervical; profissionais com dores apresentaram menor satisfação com sua qualidade de vida.

Descritores: Distúrbios Osteomusculares; Doenças Ocupacionais; Qualidade de Vida; Odontólogos

ABSTRACT

BACKGROUND AND OBJECTIVES:

Quality of life has always been a human concern, especially nowadays when job market requirements are exposing dentists to stressing situations and adverse conditions, thus favoring the installation of several labor-related diseases. This study aimed at evaluating labor-related musculoskeletal disorders, painful symptoms and their relation with quality of life and the use of preventive measures by dentists.

METHODS:

Study population was made up of dentists of the private network (n=64). Two self-applicable questionnaires were used being one to measure quality of life World Health Organization Quality of Life-bref and the other for musculoskeletal disorders.

RESULTS:

Pain was more prevalent on neck and cervical spine (49.2%), followed by lumbar region (40%). With regard to quality of life, physical domain had higher mean scores (76.5%) followed by social relations domain (74.9%).

CONCLUSION:

The region with higher prevalence of pain was neck and cervical spine and professionals with pain were not so happy with their quality of life.

Keywords: Dentists; Musculoskeletal disorders; Occupational diseases; Quality of life

INTRODUÇÃO

A qualidade de vida (QV) de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)1 é definida como: "percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistemas de valores nos quais vive, e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações". É um conceito amplo, que abarca saúde física, estado psicológico, níveis de independência, relacionamento social, características ambientais e padrão espiritual1-6.

Os programas de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), e promoção de saúde fazem com que o indivíduo tenha maior resistência ao estresse, estabilidade emocional elevada, motivação, eficiência no trabalho, melhora na autoimagem e nos relacionamentos, resultando em diminuição de acidentes, custos de saúde assistencial e absenteísmo. Esses fatores fazem com que a organização melhore sua imagem, aumente a produtividade e melhore o ambiente organizacional7

A atividade laboral ocupa um espaço de tempo determinante na vida do ser humano, daí a importância de se buscar a QV no trabalho visando a facilitar e satisfazer as suas necessidades, considerando que o nível de satisfação e envolvimento do individuo com a atividade que desempenha gera aumento da sua produtividade7-9. As condições de trabalho interferem de maneira direta nas relações sociais dos indivíduos e principalmente no seu estado de saúde. Atualmente o homem está exposto a constantes situações estressantes decorrentes das atividades laborais favorecendo a manifestação de diversas doenças, que são denominadas doenças ocupacionais10.

Os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) estão em evidência e são considerados os mais frequentes dentre as doenças ocupacionais11. A partir da Revolução Industrial, as doenças ocupacionais passaram a ser diagnosticadas pela Previdência Social (PS) e reconhecidas pelos trabalhadores e entidades sindicais, pois até então eram consideradas afecções idiopáticas12. No Brasil, a primeira terminologia adotada pela PS para designar esse grupo de afecções musculoesqueléticas foi "tenossinovite do digitador"; em 1992 passou a ser denominadas lesões por esforço repetitivo (LER), e esse termo foi substituído posteriormente por DORT que corresponde ao termo inglês Work Related Muscoloskeletal Disorders, acompanhando a tendência mundial de unificar os estudos sobre as afecções musculoesqueléticas em um único termo, retirando a falsa ideia de que o quadro clínico acomete apenas trabalhadores que exercem movimentos repetitivos11-13. Tais distúrbios representam um conjunto de síndromes que atingem músculos, fáscias musculares, vasos, tendões, ligamentos, nervos e articulações, podendo acometer qualquer região do aparelho locomotor, embora sejam mais frequentes nas regiões cervical, lombar e nos membros superiores (MMSS)6,13,14. Por realizarem constantes movimentos com os MMSS, especialmente as mãos, utilizarem instrumentos vibratórios e que necessitem de grande apreensão, os cirurgiões-dentistas estão altamente sujeitos a desenvolver doenças como síndrome do túnel do Carpo, dedo em gatilho e síndrome de De Quervain, que causam inflamações que podem limitar movimentos dificultando assim a prática da profissão15.

A norma técnica do Instituto Nacional Seguro Social (INSS) (Ordem de Serviço/INSS n.º 606/1998) conceitua DORT como uma síndrome clínica caracterizada por dor crônica, acompanhada ou não de alterações objetivas, que se manifesta principalmente no pescoço, cintura escapular e/ou MMSS em decorrência do trabalho, podendo afetar tendões, músculos e nervos periféricos16. Os DORT estão em sua maioria associados a fatores biomecânicos, psicossociais e administrativos. Os de natureza biomecânica estão relacionados a movimentos repetitivos e manuais com emprego de força, posturas inadequadas e sobrecarga estática; os associados a fatores psicossociais estão relacionados à pressão acentuada para obtenção de resultados, trabalho monótono e falta de interação entre os colegas e os fatores administrativos estão relacionados a jornada de trabalho excessiva, ausências de pausas necessárias e falta de promoção de saúde e prevenção17.

Os sinais e sintomas manifestados pelos DORT podem variar de acordo com cada indivíduo, sendo alguns deles comuns a todas as pessoas. O primeiro sintoma é a dor, que a princípio é leve e relacionada ao movimento, tornando-se intensa e contínua com o passar do tempo. Além da dor, manifestam-se com frequência a sensação de peso e cansaço no membro afetado, formigamento, dormência, crepitações, distúrbios circulatórios, edema, calor localizado, fadiga, diminuição da força, câimbra, atrofia muscular e alterações psicológicas como insônia, depressão e ansiedade11.

Atualmente poucas são as categorias profissionais que não oferecem risco de desenvolvimento de algum tipo de doença ocupacional, porém algumas profissões apresentam maior tendência tais como: bancários; operários de fábricas e indústrias e cirurgiões-dentistas, dentre outras18.

A odontologia tem sido considerada uma profissão frequentemente associada a doenças ocupacionais17, havendo uma relação direta entre os altos índices de estresse e dores físicas com os aspectos ergonômicos irregulares, o que se expressa por meio de posturas inadequadas, cansaço físico e mental, bem como das condições patológicas, como o DORT e doenças adquiridas pelo estresse19.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, de caráter quantitativo, descritivo e analítico. Para o cálculo amostral, adotou-se prevalência estimada de 93% conforme estudo anterior17, erro tolerável de 5%, e nível de confiança de 95%. Com isso, a amostra obtida foi de 59 cirurgiões-dentistas. A esse número foram acrescidos 10% para possíveis perdas e recusas.

A população de estudo foi composta por cirurgiões-dentistas (n=64) atuantes no setor privado em municípios do estado de São Paulo. Foram excluídos os cirurgiões-dentistas que não aceitaram participar da pesquisa bem como aqueles que não foram encontrados em seus consultórios após três tentativas foram descartados (n=76).

Os instrumentos de pesquisa foram dois questionários autoaplicáveis os quais foram respondidos pelos profissionais nos seus respectivos ambientes de trabalho. Um deles foi o questionário Nórdico de Sistemas Osteomusculares (QNSO)20 utilizado em sua versão validada para a população brasileira21, o qual permitiu verificar a frequência e a região de dores em um período de 12 meses de trabalho. Esse instrumento é composto por 9 questões, sendo cada uma equivalente a uma parte do corpo e ilustrada por uma figura humana: pescoço/região cervical; ombros; braços; cotovelos, antebraços; punhos/mãos/dedos; região dorsal; região lombar; quadril/membros inferiores (MMII). Essas questões possuem uma escala de mensuração graduada de zero a 3, onde: 0 - não; 1- raramente; 2 - frequentemente; 3 - sempre. O outro instrumento, o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-bref) (OMS)22,explora o autorrelato de QV, cuja versão abreviada validada para a população brasileira23 é composta por 26 questões relativas aos últimos 15 dias anteriores à avaliação. As duas primeiras questões são de natureza geral, sendo a primeira uma referência à percepção individual da QV e, a segunda, aborda a satisfação com a saúde; as demais, num total de 24 questões, estão distribuídas em quatro domínios: físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente. O WHOQOL não prevê conceitualmente que se possa utilizar o escore global de QV sendo então calculado o escore de cada domínio. O escore de cada domínio é obtido numa escala positiva de zero a 100, isto é, quanto mais alto o escore, melhor a QV naquele domínio.

As respostas são representadas em uma escala do tipo Likert, para: intensidade, capacidade, frequência e avaliação. A intensidade é classificada em: nada, muito pouco, mais ou menos, bastante e extremamente. A capacidade é classificada em: nada, muito pouco, médio, muito e completamente. A frequência é classificada em: nunca, algumas vezes, frequentemente, muito frequentemente e sempre. A avaliação é classificada em: muito ruim, ruim, nem ruim nem boa, boa e muito boa; muito satisfeito, insatisfeito, nem satisfeito nem insatisfeito, satisfeito e muito satisfeito.

Os domínios:

  1. Físico: percepção do indivíduo sobre sua condição física. Contém as facetas: dor e desconforto; energia e fadiga; sono e repouso; atividades da vida cotidiana; dependência de fármaco ou de tratamentos e capacidade de trabalho;

  2. Psicológico: percepção do indivíduo sobre sua condição afetiva e cognitiva, cujas facetas são sentimentos positivos; pensar, aprender, memória e concentração; autoestima; imagem corporal e aparência; sentimentos negativos e espiritualidade/religião/crenças pessoais;

  3. Relações sociais: percepção do indivíduo sobre os relacionamentos sociais e os papéis sociais adotados na vida, com as seguintes facetas: relações pessoais; suporte (apoio) social e atividade sexual;

  4. Meio ambiente: percepção do indivíduo sobre aspectos diversos relacionados ao ambiente onde vive. Contém as facetas: segurança física e proteção; ambiente no lar; recursos financeiros; cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade; oportunidades de adquirir novas informações e habilidades; participação, oportunidades de recreação/lazer; ambiente físico: (poluição/ruído/trânsito/clima) e transporte.

Todos os profissionais de saúde que aceitaram participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Análise estatística

Os dados foram armazenados e processados, empregando-se os softwares BioEstat versão 5.3 e Epi Info 7. Para análise descritiva de todas as variáveis e as análises bivariadas aplicou-se o teste de Mann-Whitney ao nível de significância de 5%.

O projeto teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE nº 35843614.5.0000.5420, Parecer Consubstanciado nº 875.562/2014 e obedeceu aos preceitos éticos de acordo com as normas da Declaração de Helsinque da Associação Médica Mundial.

RESULTADOS

Com relação à distribuição dos entrevistados, observou-se predominância do gênero feminino (59,4%). A maioria dos cirurgiões-dentistas (54,7%) cumpria uma jornada de trabalho maior que 8 horas diárias. Quando questionados sobre a realização de atividades físicas, 50% afirmaram praticar exercícios físicos pelo menos duas vezes na semana (Tabela 1).

Tabela 1 Distribuição da amostra segundo variáveis demográficas 

Variáveis n %
Gênero
Feminino 38 59,4
Masculino 26 40,6
Faixa etária (anos)
Até 30 11 17,2
31 a 50 36 56,2
Mais de 50 17 26,6
Tempo de trabalho como profissional (anos)
1 a 16 27 42,2
17 a 27 22 34,4
28 a 35 15 23,4
Jornada de trabalho (horas/dia)
6 9 14,1
8 20 31,2
Mais de 8 35 54,7
Pratica de exercício físico (2 ou mais vezes/ semana)
Sim 32 50,0
Não 29 45,3

A tabela 2 apresenta resultados referentes à frequência de dor autorreferida por região corporal. A região com maior prevalência dos sintomas dolorosos foi a do pescoço e coluna cervical, sendo que dos 64 participantes, 49,2% relataram dor nessa região e em segundo lugar a região lombar com 40%; a região dos cotovelos obteve a menor prevalência de dores (4,6%) (Figura 1).

Tabela 2 Distribuição dos profissionais segundo o autorrelato de dor, e região corporal em cirurgiões dentistas 

Região corporal Frequência
Nunca Raramente Frequentemente Sempre
n % n % n % n %
Pescoço e coluna cervical 15 23,1 17 26,2 27 41,5 5 7,7
Ombros 26 40 19 29,2 15 23,1 4 6,2
Antebraços 44 67,7 13 20 7 10,8 0 0
Punhos/mãos/dedos 24 36,9 17 26,2 16 24,6 6 9,2
Região dorsal 15 30,8 23 36,9 21 26,2 5 4,6
Quadril/membros inferiores 44 67,7 11 17 8 12,3 1 1,5

Figura 1 Distribuição de autorrelato de dor por região corporal 

A tabela 3 apresenta resultados referentes à frequência de dor autorreferida por região corporal. A região com maior prevalência de sintomas dolorosos foi a do pescoço e da coluna cervical, sendo que dos 64 participantes, 49,2% relataram dor nessa região e em segundo lugar a região lombar com 40%; a região dos cotovelos obteve a menor prevalência de dores (4,6%).

Tabela 3 Medidas de tendência central e dispersão dos escores dos domínios do WHOQOL-bref em cirurgiões dentistas 

Domínios Média Desvio
Padrão
Coeficiente
variação
Valor
mínimo
Valor
máximo
Amplitude Valor
de p
Com
dor
Sem
dor
Com
dor
Sem
dor
Com
dor
Sem
dor
Com
dor
Sem
dor
Com
dor
Sem
dor
Com
dor
Sem
dor
Físico 15,75 17,50 2,57 1,35 16,29 7,72 10,29 15,43 20,00 20,00 9,71 4,57 0,0112*
Psicológico 15,51 16,54 2,44 1,56 15,73 9,45 8,67 12,67 19,33 18,67 10,67 6,00 0,1429
Relações sociais 15,69 16,75 2,74 2,01 17,46 11,97 8,00 13,33 20,00 20,00 12,00 6,67 0,1981
Meio ambiente 14,75 15,75 2,00 1,62 13,58 10,30 9,00 14,00 18,00 18,50 9,00 4,50 0,0897
Autoavaliação da qualidade de vida 14,71 17,00 3,16 1,63 21,45 9,61 8,00 14,00 20,00 20,00 12,00 6,00 0,0061*
Total 15,30 16,62 2,04 1,26 13,33 7,58 9,85 14,77 18,77 18,46 8,92 3,69 0,0438*

Teste de Mann-Whitney.

*diferença estatisticamente significativa.

Foram comparados os profissionais com dor e sem dor em relação aos domínios determinados no escore do WHOQOL-bref. Em todos os domínios os profissionais sem dores apresentaram na média maior pontuação em comparação aos com dores. Na autoavaliação da QV os profissionais sem dores tiveram melhor pontuação (17,00) em relação aos com dores, ou seja, de todos os domínios, os profissionais sem dores tiveram maior pontuação (16,62) em relação aos com dores (15,30). No que se refere ao teste de Mann-Whitney os que apresentaram diferença estatisticamente significativa foram: o domínio físico (p=0,0112), a autoavaliação da QV (p=0,0061) e o somatório de todos os domínios (p=0,0438), como demonstrado na tabela 4.

Tabela 4 Parâmetros da pontuação do WHOQOL-bref segundo os domínios e sintomas dolorosos 

Variáveis Média Mediana Desvio Padrão Mínimo Máximo
Domínio físico 76,5 64,3 15,3 35,7 100
Domínio psicológico 73,8 66,7 13,9 29,2 95,8
Domínio social 74,9 58,3 16,2 25 100
Domínio meio ambiente 68,3 53,1 12,3 31,3 87,5
Autoavaliação da qualidade de vida 73,4 55,2 12,5 32,6 93,8

DISCUSSÃO

Dores musculoesqueléticas e desconforto atingem 62% da população em geral, e a proporção aumenta para 93% entre cirurgiões-dentistas17; essa categoria profissional está entre a que mais possuem profissionais afastados do trabalho por incapacidade temporária ou permanente, respondendo por cerca de 30% de abandono prematuro da profissão17. Os cirurgiões-dentistas são vulneráveis aos distúrbios osteomusculares por exercerem frequentemente movimentos repetitivos e precisos, assumirem posturas inadequadas por necessidade de técnicas operatórias, forças excessivas e longas jornadas de trabalho2,24-31.

O Ministério da Saúde32 aponta que as mulheres, independentemente da profissão, estão mais propensas a desenvolverem DORT em relação aos homens por razões ainda desconhecidas, dessa maneira se fazem necessários estudos de amostras homogêneas para comprovar essa prevalência32. Alguns autores defendem uma indicação biomédica se referindo ao fato de que o desenvolvimento osteomuscular é diferente nas mulheres, as quais possuem menor número de fibras musculares que os homens, bem como menor capacidade de armazenar e converter glicogênio em energia útil33.

Em relação à jornada de trabalho observou-se nesse estudo que a maioria dos cirurgiões-dentistas participantes relatou ter uma jornada de trabalho maior que 8 horas diárias (54,7%), expondo os profissionais por um período prolongado a fatores prejudiciais à saúde, entre eles, adoção de uma mesma postura sem descanso, forças manuais e movimentos repetitivos e vibratórios contínuos7. Longas jornadas de trabalho e condições inadequadas fazem parte, respectivamente, dos fatores administrativos e mecânicos causais das DORT. Além de gerarem uma insatisfação profissional pela falta de tempo disponível para lazer, influenciam a QV8.

O cirurgião-dentista, por atuar em um campo operatório restrito, adota uma postura habitual de flexão da cabeça e do pescoço acompanhado de rotação e com os ombros curvados para frente, na tentativa de obter maior campo de visão. Essa circunstância leva à compressão dos discos intervertebrais cervicais podendo ocasionar uma desidratação em longo prazo, além de poder gerar o encurtamento dos músculos posteriores do pescoço, enquanto as fibras médias e inferiores do trapézio podem ser alongadas33,34.

A maior frequência de sintoma doloroso na região do pescoço e coluna cervical já foi também relatada em estudos nacionais e internacionais bem como no presente estudo18,26,33,34. Uma DORT mais comum na região do pescoço é a cervicobraquialgia, que pode ser provocada por fadiga muscular, movimentos repetitivos e posturas incorretas28.

O meio ambiente apresentou menor pontuação entre os domínios. Esses resultados foram semelhantes a outros trabalhos que empregaram o WHOQOL-bref para avaliação da QV de cirurgiões-dentistas5,6.

O ambiente de trabalho é extremamente importante em relação à satisfação profissional. Quando saudável no ponto de vista de segurança física, financeira e social passa a ser uma fonte de suporte para o profissional, porém, muitas vezes o ambiente é inadequado tornando-se uma fonte de estresse7.

As queixas de dores observadas são coerentes com os níveis de satisfação no domínio físico, ou seja, a dor interfere nas atividades rotineiras e na capacidade de trabalho e até mesmo na sua QV. Esses resultados estão de acordo com o próprio grupo de idealizadores do WHOQOL, que no domínio físico associa a dor com o declínio na QV7.

Além do domínio físico, a dor apresentou relação significativa também com o total de domínios, comprovando a sua forte influência na QV de uma forma geral. Cirurgiões-dentistas com dor mostraram-se menos satisfeitos com a sua QV7,35.

Algumas medidas preventivas devem ser adotadas pelos cirurgiões-dentistas para diminuir o nível de estresse, evitar a frequência dos sintomas dolorosos e posteriormente o diagnóstico de DORT. Uma alternativa é a ginástica laboral, incluindo os alongamentos, massagens e relaxamento físico e psicológico e fisioterapia. Uma ampla reforma ergonômica se faz necessária na odontologia, para que os cirurgiões-dentistas adotem e façam uso de posturas ergonomicamente corretas em suas atividades laborais diárias21.

CONCLUSÃO

O sintoma doloroso mais frequente entre os cirurgiões-dentistas foi na região do pescoço e da coluna cervical. O domínio meio ambiente apresentou a menor média do escore do WHOQOL-bref. Os cirurgiões-dentistas com dores apresentaram menor satisfação com a sua QV.

Fontes de fomento: Proex.

REFERÊNCIAS

1 The World Health Organization Quality of Life Assessment (WHOQOL): position paper from the World Health Organization. Soc Sci Med. 1995;41(10):1403-9. [ Links ]

2 Pietrobon L, Regis Filho GI. Doenças de caráter ocupacional em cirurgiões-dentistas - um estudo de caso sobre cifoescoliose. RFO, Passo Fundo. 2010;15(2):111-8. [ Links ]

3 Pereira RJ, Cotta RM, Franceschini SC, Ribeiro RC, Sampaio RF, Priore SE, et al. Contribuição dos domínios físico, social, psicológico e ambiental para a qualidade de vida global de idosos. Rev Psiquiatr Rio Gd Sul. 2006;28(1):27-38. [ Links ]

4 Costa MS, Silva MJ. Qualidade de vida e trabalho: o que pensam os enfermeiros da rede básica de saúde. Rev Enferm UERJ. 2007;15(2):236-41. [ Links ]

5 Carvalho FS, Maia Júnior AF, Carvalho CA, Sales Peres A, Bastos JR, Sales Peres SH. Qualidade de vida do cirurgião-dentista. Rev Odontol UNESP. 2008;37(1):65-8. [ Links ]

6 Régis Filho GI, Lopes MC. Qualidade de vida no trabalho: a empresa holística e a ecologia empresarial. Rev Admin. 2001;36(3):95-9. [ Links ]

7 Bittencourt MS, Calvo MC, Regis Filho GI. Qualidade de vida no trabalho em serviços públicos de saúde- um estudo de caso. RFO, Passo Fundo. 2007;12(1):21-6. [ Links ]

8 Carmo IC, Soares EA, Virtuoso Júnior JS, Guerra RO. Fatores associados à sintomatologia dolorosa e qualidade de vida em odontólogos da cidade de Teresina - PI. Rev Bras Epidemiol. 2011;14(1):141-50. [ Links ]

9 Saliba NA, Moimaz SA, Prado RL, Rovida TA, Garbin CA. Saúde do trabalhador na odontologia: o cirurgião-dentista em foco. Pesq Bras Odontoped Clíni Integr. João Pessoa, 2013;13(2):147-54. [ Links ]

10 WHO (World Health Organization) 1946.Constitution of the World Health Organization. Basic Documents. WHO. Genebra. [ Links ]

11 Salvador Filho JR, Vasconcelos MA, Carvalho RL, Pinheiro JT. Ocorrência de doenças osteoarticulares em cirurgiões-dentistas. Int J Dent. 2003;2(1):216-20. [ Links ]

12 Brasil. Ministério da Saúde Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Área técnica de Saúde do trabalhador. Lesões por esforços repetitivos (LER), distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), dor relacionada ao trabalho: protocolos de atenção integral à Saúde do trabalhador de complexidade diferenciada. Brasília: Ministério da Saúde; 2001. [ Links ]

13 Graça CC, Araújo TM, Silva CE. Desordens musculoesqueléticas em cirurgioes-dentistas.Sitientibus. 2006;(34):71-86. [ Links ]

14 Gazzola F, Sartor N, Ávila SN. Prevalencia de desordens musculoesqueléticas em odontologistas de Caxias do Sul. Cienc Saúde. 2008;1(2):50-6. [ Links ]

15 Silva Júnior DS, Schneid JL, Silva DS, Castro AG, Nunes RD. Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho em cirurgioes-dentistas: revisao de literatura. Amazônia Sci Health. 2013;1(1):13-8. [ Links ]

16 Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Açoes Programáticas e Estratégias. Área Técnica de Saúde do Trabalhador. Doenças relacionadas ao trabalho - Manual de procedimentos para os serviços de saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2001. [ Links ]

17 Alexandre PC, Silva IC, Souza LM, Magalhaes Câmara V, Palácios M, Meyer A. Musculoskeletal disorders among Brazilian dentists. Arch Environ Occup Health. 2011;66(4):231-5. [ Links ]

18 Siqueira GR, Silva AM, Vieira RA, Silva RB. Dores músculo-esqueléticas em estudantes de odontologia. Rev Bras Promoç Saúde. 2010;23(2):150-9. [ Links ]

19 Miyamoto ST, Salmaso C, Mehanna A, Batistela AE, Sato T, Grego ML. Fisioterapia preventiva atuando na ergonomia e no stress no trabalho. Rev Fisioter Univ São Paulo. 1999;6(1):83-91. [ Links ]

20 Kuorinka I, Jonsson B, Kilbom A, Vinterberg H, Biering-Sorensen F, Andersson G, et al. Standardised Nordic questionnaires for the analysis of musculoskeletal symptoms. Appl Ergon. 1987;18(3):233-7. [ Links ]

21 Pinheiro FA, Tróccoli BT, Carvalho CV. Validaçao do Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares como medida de morbidade. Rev Saúde Pública. 2002;36(3):307-12. [ Links ]

22 The Whoqol Group. Development of the World Health Organization WHOQOL--bref. Quality of Life Assesment 1998. Psychol Med. 1998;28(3):551-8. [ Links ]

23 Fleck MP, Louzada S, Xavier M, Chachamovich E, Vieira G, Santos L, et al. Aplicaçao da versao em portugues do instrumento abreviado de avaliaçao da qualidade de vida "WHOQOL-bref". Rev Saúde Pública. 2000;34(2):178-83. [ Links ]

24 Hayes MJ, Smith DR, Taylor JA. Musculoskeletal disorders and symptom severity among Australian dental hygienists. BMC Res Notes. 2013;6:250. [ Links ]

25 Yarid SD, Diniz DG, Orenha ES, Arcieri RM, Garbin AJ. Aplicaçao de princípios de ergonomia no atendimento odontológico. Interbio. 2009;3(2):11-7. [ Links ]

26 Rabiei M, Shakiba M, Dehgan-Shahreza H, Talebzadeh M. Musculoskeletal disorders in dentists. Int J Occup Hig. 2012;4(1):36-40. [ Links ]

27 Garbin AJ, Presta AA, Garbin CA, Saliba O, Lima DC. Prevalencia de sintomatologia dolorosa recurrente del ejercicio profesional en cirujanos dentistas. Acta Odontol Venez. 2009;47(1):68-78. [ Links ]

28 Medeiros UV, Segatto GG. Lesoes por esforços repetitivos (LER) e distúrbios osteomusculares (Dort) em dentistas. Rev Bras Odontol. 2012;69(1):49-54. [ Links ]

29 Garbin AJ, Garbin CA, Arcieri RM, Rovida TA, Freire AC. Musculoskeletal pain and ergonomic aspects of dentistry. Rev Dor. 2015;16(2):90-5. [ Links ]

30 Araújo MA, Paula MV. LER/DORT: um grave problema de saúde pública que acomete os cirurgioes-dentistas. Rev APS. 2003;6(2):87-93. [ Links ]

31 Santos Filho SB, Barreto SM. Atividade ocupacional e prevalencia de dor osteomuscular em cirurgioes-dentistas de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil: contribuição ao debate sobre os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. Cad Saúde Pública. 2001;17(1):181-93. [ Links ]

32 Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Açoes Programáticas e Estratégicas. Área Técnica de Saúde do Trabalhador. LER/DORT: dilemas, polemicas e dúvidas. Brasil: Ministério da Saúde; 2001. [ Links ]

33 Kotliarenko A, Michel-Crosato E, Haye Biazevic MG, Crosato E, Silva PR. Distúrbios osteomusculares e fatores associados em cirurgioes dentistas do meio oeste do estado de Santa Catarina. Rev Odonto Cienc. 2009;24(2):173-9. [ Links ]

34 Vuletić J, Potran M, Kalem D, Panić Z, Puškar T. Prevalence and risk factors for musculoskeletal disorders in dentists. Serbian Dent J. 2013;60(1):24-32. [ Links ]

35. Ruivo MA, Alves MC, Bérzin MG, Bérzin F. Prevalence of pain at the head, face and neck and its association with quality of life in general population of Piracicaba city, Sao Paulo: an epidemiological study. Rev Dor. 2015;16(1):15-21. [ Links ]

Recebido: 20 de Maio de 2016; Aceito: 25 de Outubro de 2016

Conflito de interesses: não há

Endereço para correspondência: Rua José Bonifácio, 1193 - Vila Mendonça 16015-050 Araçatuba, SP, Brasil. E-mail: taniasaliba@foa.unesp.br

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.