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Jornal Brasileiro de Pneumologia

On-line version ISSN 1806-3756

J. bras. pneumol. vol.30 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37132004000600015 

RELATO DE CASO

 

Lesões sobre cicatrizes, uma das manifestações da sarcoidose*

 

 

Paulo Ricardo Martins Souza; Rodrigo Pereira Duquia; Gerson Vetoratto; Hiram Larangeira de Almeida Junior

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Relata-se o caso de uma paciente de 41 anos, negra, que apresentou infiltração de cicatrizes pré-existentes na face, decorrentes de acidente automobilístico havia dez anos. O exame histológico de biópsia de pele evidenciou granuloma não caseoso sugestivo de sarcoidose e a tomografia de tórax demonstrou linfoadenomegalia mediastinal. Não foi realizado tratamento e a paciente apresentou regressão espontânea das lesões.

Descritores: Sarcoidose/complicações. Cicatriz/etiologia. Granuloma/complicações.


 

 

INTRODUÇÃO

A sarcoidose é uma doença granulomatosa sistêmica, não-infecciosa, de etiologia desconhecida, caracterizada pela presença tecidual de granuloma epitelióide não caseoso, achado histológico que pode ser encontrado em vários órgãos.

A suspeita clínica pode ser feita a partir de alterações em vários órgãos. O reconhecimento de lesões cutâneas sugestivas da doença facilita o diagnóstico clínico e serve de local para biópsia, o que evita procedimentos caros e invasivos.

A sarcoidose pode apresentar várias formas cutâneas, tais como eritema nodoso, alopécia cicatricial, lúpus pérnio, lesões papulares, em placas, anulares, ulceradas e sobre cicatrizes, sendo a última uma das variantes mais característica clinicamente e de menor prevalência.

Os autores relatam o caso de uma paciente de 41 anos que apresentou aumento espontâneo e significativo de cicatrizes antigas, achado característico da doença.

 

RELATO DO CASO

Uma paciente do sexo feminino, com 41 anos, de cor preta, cozinheira, apresentou-se no ambulatório referindo que havia oito meses começara a apresentar aumento importante de lesões na face (Figura 1), onde apresentava cicatrizes atróficas decorrentes de traumatismo por acidente automobilístico havia dez anos. Apresentava-se hipertensa, obesa, negava qualquer doença prévia, ou uso de medicação ou manipulação no local da lesão.

 

 

Observavam-se na região malar direita lesões eritêmato-pápulo-acastanhadas queloidiformes bem delimitadas e em número de oito, medindo em torno de 3 cm. Foram levantadas duas hipóteses diagnósticas: dermatose factícia, devido à disposição geométrica das lesões, e sarcoidose sobre cicatrizes. Foi realizada biópsia com punch em uma das lesões da face da paciente.

O exame anatomopatológico mostrou presença de granuloma não caseoso sugestivo de sarcoidose. As pesquisas de bacilo álcool-ácido resistente no escarro e no material biopsiado foram negativas. Um radiograma de tórax de 1.996 apresentava linfadenomegalia mediastinal superior e hilar, sem evidência de lesão pleuro-pulmonar, e outro, de 1997, mostrava redução das adenomegalias hilares e paratraqueais à direita, em comparação com o exame anterior. A tomografia computadorizada de tórax, realizada em 2003, apresentava importantes adenomegalias simétricas que comprometiam grosseiramente os gânglios das cadeias broncopulmonares, sub e pré-carinais e paratraqueais à direita, sem evidência de lesão intersticial (Figura 2). O radiograma das mãos estava sem alterações, o hemograma com hemoglobina de 10,7 g/dl, hematócrito de 35%, leucograma com 3900 leucócitos e 128.000 plaquetas, teste de Mantoux fortemente reator, cálcio iônico 4,4 mg/dl, calciúria < 150mg/24hs, creatinina de 0,9, ausência de cristais e células ao exame comum de urina, VSG de 9 mm, espirometria normal e avaliação oftalmológica sem alterações.

 

 

A conduta adotada foi a de tratamento expectante, tendo em vista que esta doença apresenta oscilações, podendo ocorrer involução mesmo sem tratamento. Houve regressão completa das lesões cinco meses após a primeira avaliação (Figura 3).

 

 

DISCUSSÃO

A sarcoidose cutânea pode apresentar-se como manifestação única da doença ou ser acompanhada de comprometimento de outros órgãos. Segundo a American Thoracic Society, nem todas as formas requerem tratamento sistêmico, apenas os casos com envolvimento cardíaco, do sistema nervoso central, ocular e com hipercalcemia devem receber medicação sistêmica. O envolvimento pulmonar não requer obrigatoriamente tratamento, a não ser que o paciente esteja sintomático, ou tenha perda de função pulmonar.

As lesões de pele ocorrem em um terço dos casos, e são predominantes na face e membros(1). Existem várias apresentações cutâneas da doença, como sarcoidose em placas infiltradas(2), pápulas disseminadas com o clássico aspecto em geléia de maçã ou infiltração do nariz no lúpus pérneo(3,4). Mais raramente ocorrem ulcerações(5-7), eritrodermia(5), dactilite(3), lesões hipocrômicas(3), alopécia cicatricial(5,6), lesões ungueais(6) e erupção liquenóide(6).

Além das manifestações supracitadas, existe a sarcoidose sobre cicatrizes, que é uma das formas de manifestação clínica mais específica e menos prevalente(8). Este tipo de apresentação caracteriza-se pelo surgimento tardio de lesões cutâneas características de sarcoidose em locais de traumatismo prévio da pele. São relatados na literatura traumatismos por rituais de escarificação(8), cicatrizes de herpes zoster(9), tatuagens(10), locais de punção venosa(11) e de injeção de dessensibilização(12). Na literatura brasileira há apenas um relato de caso de sarcoidose em cicatrizes prévias(13) e sem acometimento extra-cutâneo.

Niels et al. realizaram um estudo prospectivo com 188 pacientes com diagnóstico de sarcoidose cutânea e encontraram acometimento pulmonar em 138 deles. Nesse mesmo estudo, analisando a correlação entre os tipos cutâneos de lesões de sarcoidose e o comprometimento sistêmico, nos 26 casos de sarcoidose sobre cicatrizes, foram encontrados 20 pacientes com comprometimento pulmonar(6).

A paciente relatada apresentava reação positiva à tuberculina, apesar de ela classicamente ser negativa na sarcoidose. Há relatos na literatura de alguns casos com essa reação positiva(14,15). Em uma série de 39 pacientes irlandeses, 28% apresentavam tanto a reação de Kvein quanto a tuberculínica positivas(16).

Na busca do diagnóstico, muitas vezes realizam-se exames caros e invasivos, como a mediastinoscopia, expondo o paciente a riscos desnecessários na tentativa de se obter material para o estudo anatomopatológico. O reconhecimento, pelo clínico, de lesões cutâneas sugestivas da sarcoidose oferece alternativa fácil, segura e de baixo custo para a confirmação histológica da doença.

 

AGRADECIMENTOS

À Dra. Ana Maria Baptista Menezes, pela correção do artigo e apoio dado durante toda minha carreira; ao Dr. Roberto Lopes Gervini e ao Dr. Joel Schwartz pelo apoio, paciência e dedicação prestados a mim e aos meus colegas de residência.

 

REFERÊNCIAS

1. Alabi GO, George AO. Cutaneous sarcoidosis and tribal scarifications in West Africa. Int J Dermatol. 1989;28:29-31.         [ Links ]

2. Miranda MFR, Rodrigues ANE, Brito AC. Sarcoidose em placas. An Bras Dermatol. 1982;57:35-7.         [ Links ]

3. Jacyk WK. Cutaneous sarcoidosis in black South Africans. Int J Dermatol. 1999;38:841-5.         [ Links ]

4. Milanez M, Bernardes O, Barros C. Sarcoidose. An Bras Dermatol. 1984;59:191-3.         [ Links ]

5. Caro I. Scar sarcoidosis. Cutis. 1983;32:531-3.         [ Links ]

6. Veien NK, Stahl D, Brodthagen H. Cutaneous sarcoidosis in caucasians. J Am Acad Dermatol. 1987;16:534-40.         [ Links ]

7. Dinato SLM, Lavedonio SE, Romiti N. Lesões cutâneo-ulcerosas na sarcoidose. An Bras Dermatol. 1996;71:491-4.         [ Links ]

8. Nayar M. Sarcoidosis on ritual scarification.Int J Dermatol. 1993;32:116-8.         [ Links ]

9. Bisaccia E, Scarborough DA, Carr RD. Cutaneous sarcoid granuloma formation in herpes zoster scars. Arch Dermatol. 1983;119:788-9.         [ Links ]

10. Murdoch SR, Fenton DA. Sarcoidosis presenting as nodules in both tattoos and scars. Clin Exp Dermatol. 1997;22:254.         [ Links ]

11. Burgdorf WHC, Hoxtel EO, Bart BJ. Sarcoid granulomas in venopuncture sites. Cutis. 1979;24:52-3.         [ Links ]

12. Healsmith MF, Hutchinson PE. The development of scar sarcoidosis at the site of desensitization injections. Clin Exp Dermatol. 1992;17:369-70.         [ Links ]

13. Almeida Jr. HL, Jannke HA. Sarcoidose em cicatrizes prévias. An Bras Dermatol. 2004;79:79-82.         [ Links ]

14. Pfau A, Abd-EL-Raheem T, Landthaler M. Positive Tuberkulinreaktion bei Sarcoidose. Hautarzt. 1995;46:250-4.         [ Links ]

15. Shen SY, Hall-Craggs M, Posner JN, Shabazz B. Recurrent sarcoid granulomatous nephritis and reactive tuberculin skin test in a renal transplant recipient. Am J Med. 1986;80:699-702.         [ Links ]

16. Cotter TP, Bredin CP. The relationship between the tuberculin test and the Kweim test in sarcoidosis in Ireland. Ir J Med Sci. 1995;164:24-5.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Paulo Ricardo Martins Souza
Rua Quintino Bocaiúva 1234 Ap. 1003
90440-050 Porto Alegre RS
E-mail: pm.souza@terra.com.br

Recebido para publicação, em 13/1/04.
Aprovado, após revisão, em 28/5/04

 

 

* Trabalho realizado no serviço de residência médica de Dermatologia da Santa Casa de Porto Alegre, Posto G - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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