SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.21 issue1The frailty syndrome in institutionalized elderly personsElderly people receiving care through an aeromedical service author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

On-line version ISSN 1981-2256

Rev. bras. geriatr. gerontol. vol.21 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2018

https://doi.org/10.1590/1981-22562018021.170114 

Artigos Originais

Influência de sintomas depressivos na qualidade de vida em homens diagnosticados com câncer de próstata

Taysi Seemann1 

Fernanda Pozzobom1 

Melissa de Carvalho Souza Vieira1 

Leonessa Boing1 

Zenite Machado1 

Adriana Coutinho de Azevedo Guimarães1 

1 Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-graduação em Ciência do Movimento Humano. Florianópolis, SC, Brasil.


Resumo

Objetivo:

Avaliar a prevalência de sintomas depressivos em homens com diagnostico de câncer de próstata e a associação com escores de qualidade de vida e fatores relacionados ao tratamento

Métodos:

Estudo transversal composto por 85 homens, com média de idade de 66±8 anos, diagnosticados com câncer de próstata; utilizou-se um questionário com instrumentos previamente validados onde investigaram-se as características sociais, demográficas, econômica, história da doença, qualidade de vida (European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire C30 - EORTC QLQ-C30/ QLQ-PR25) e sintomas depressivos (Inventário de Depressão de Beck). Foi considerado como desfecho a presença de sintomas depressivos, sendo realizadas análises estatísticas por meio do teste qui-quadrado, teste Exato de Fisher, teste U de Mann Whitney e Regressão de Poisson (p<0,05).

Resultados:

Foram encontrados resultados significativos para a qualidade de vida na escala funcional, saúde global e sintomática (p<0,001), em relação aos sintomas depressivos. Demonstrando que a presença de sintomas depressivos está relacionada à qualidade de vida mais negativa.

Conclusões:

Para a melhor compreensão sobre o câncer prostático e suas consequências na qualidade de vida dos pacientes faz-se necessário levar em consideração as possíveis alterações nos aspectos psicológicos ocorridos diante da realidade dessa doença, uma vez que os sintomas depressivos têm sido frequentes em pacientes no tratamento do câncer de próstata.

Palavras-chave: Neoplasia da Próstata; Qualidade de Vida; Sintomas Depressivos

Abstract

Objective:

to evaluate the prevalence of symptoms of depression among men diagnosed with prostate cancer and their association with quality of life and treatment-related factors.

Methods:

a cross-sectional study of 85 men with a mean age of 66±8 years who were diagnosed with prostate cancer was performed. The survey was based on a questionnaire with previously validated instruments which investigated social, demographic and economic characteristics, the history of the disease, quality of life (European Organization for Research and Treatment of Cancer Questionnaire C30 - EORTC QLQ-C30 / QLQ-PR25) and symptoms of depression (Beck Depression Inventory). The presence of symptoms of depression was considered an outcome, and statistical analyzes were performed using the Chi-square test, Fisher's exact test, Mann Whitney U test and Poisson regression (p<0.05).

Results:

significant results were found for quality of life in relation to symptoms of depression in the functional, global and symptomatic health scale (p<0.001). This demonstrates that the presence of symptoms of depression is related to a negative quality of life.

Conclusions:

for a greater understanding of prostate cancer and its consequences on the quality of life of patients it is important to consider possible disorders in psychological aspects caused by the illness, as symptoms of depression are frequent in patients undergoing treatment for prostate cancer.

Keywords: Prostate Neoplasm; Quality of Life; Depression Symptoms

INTRODUÇÃO

Tendo aumentado sua incidência desde a década de 60, o câncer de próstata é considerado um problema de saúde pública em nível mundial1, sendo o sexto tipo de câncer mais comum no mundo, representando cerca de 10% do total de cânceres2. No Brasil, é o segundo tipo de câncer mais comum entre os homens e estima-se que no biênio de 2016-2017, dos 600 mil novos casos de câncer, 61 mil sejam de câncer de próstata3. A Sociedade Brasileira de Urologia4 salienta que Santa Catarina está entre os estados brasileiros com maior incidência de casos.

O aumento dessa incidência ao longo dos anos pode ser elucidado pela evolução dos métodos diagnósticos e a melhora da qualidade dos sistemas de informação do país5. Diante dessa maior incidência, é preciso estar atento, não apenas ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado, mas também ao pós-tratamento e a percepção que o indivíduo tem sobre sua qualidade de vida6, uma vez que todas as modalidades terapêuticas apresentam riscos significativos e efeitos colaterais aos pacientes5.

Dentre as modalidades de tratamento para o câncer de próstata, a prostatectomia radical é a mais antiga e possivelmente a mais eficaz7, no qual o paciente é submetido a retirada total da próstata. Tal método pode causar diversos efeitos colaterais, tais como a estenose uretral, incontinência urinária, disfunção erétil5, além de fadiga, angustia geral, incapacidade funcional e depressão8,9, fatores que podem afetar consideravelmente a qualidade de vida desses homens5.

A depressão é apontada, em estudos que avaliaram a qualidade de vida e o câncer de próstata, como um dos principais problemas psicológicos mais apresentados10-12, estando presente em um a cada cinco pacientes13. O quadro de depressão pode desencadear problemas relacionados à recuperação e diminuição da imunidade, minimizando as chances de sobrevida dos pacientes14, além disso o tratamento do câncer, por meio da quimioterapia adjuvante pode aumentar ainda mais o risco a depressão15. O paciente convive diariamente com a dor, mutilações físicas e ameaça de morte, que por vezes não são cessadas com a cirurgia ou o final do tratamento convencional, pois existe o fantasma da metástase e da recorrência da doença, levando a estados de depressão e qualidade de vida negativa13.

Investigações que abordem a relação dos sintomas depressivos com a qualidade de vida de pacientes com câncer de próstata são de extrema importância, uma vez que o maior conhecimento acerca do tema pode auxiliar no tratamento e pós-tratamento dessa doença, bem como a promoção do bem-estar social e mental desses pacientes, tão necessário ao seu dia-a-dia. Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi avaliar a prevalência de sintomas depressivos em homens com diagnostico de câncer de próstata e a associação com escores de qualidade de vida e fatores relacionados ao tratamento.

MÉTODOS

O estudo caracteriza-se como observacional analítico de delineamento transversal, composto por 85 homens diagnosticados com câncer de próstata em tratamento ou após tratamento no Centro de Pesquisas Oncológicas (CEPON) da cidade de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. O recrutamento desses homens ocorreu nos setores do CEPON; no centro de quimioterapia, radioterapia, fisioterapia e salas de espera dos consultórios médicos. A seleção destes foi feita a partir dos critérios de inclusão, ou seja, ter entre 40 e 80 anos e encontrar-se durante a fase de tratamento ou pós-tratamento clínico. Como critérios de exclusão, determinou-se o nível de escolaridade na classificação analfabeta devido à necessidade de compreensão do questionário, o tratamento oncológico prévio em outra instituição que não o CEPON ou apresentar diagnóstico de metástase, para evitar viés do tipo de tratamento e prognóstico. O tamanho do cálculo amostral foi realizado, com nível de significância de 5%, poder do teste de 80% e tamanho do efeito médio de 0,5 considerando o teste de comparação de médias, desta maneira, foram necessários 102 pacientes para compor a amostra.

Os dados foram coletados por meio de um questionário estruturado, aplicado por três pesquisadoras capacitadas para a coleta. Todos os pacientes que aceitaram participar voluntariamente do estudo foram convidados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O questionário estruturado contemplou as variáveis de caracterização geral da amostra, medidas antropométricas (massa corporal e estatura), sintomas depressivos e qualidade de vida. As características gerais e da doença (idade, estado conjugal, escolaridade, nível econômico, presença de doenças, intervenção cirúrgica), assim como as medidas antropométricas foram autorreferidas.

A classificação do status de peso, foi feita por meio do cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) e categorizada de acordo com a OMS16, a qual sugere: magreza (IMC<18,4); eutrofia (IMC 18,5-24,9); sobrepeso (IMC 25,0-29,9); pré-obesidade e obesidade (IMC>30,0), sendo que para o presente estudo, para fins estatísticos, optou-se por agrupar as categorias em peso normal (magreza e eutrofia) e acima do peso (sobrepeso, pré-obesidade e obesidade) devido aos menores números nas referidas categorias.

O nível econômico foi verificado por meio do critério do IBGE classificando os sujeitos em estratos econômicos A, B, C, D e E, de acordo com o número de salários mínimos contabilizados na renda familiar mensal, tendo como base o salário mínimo de 2014 de R$ 724,00. Em função do menor número de homens nas categorias, agrupou-se os sujeitos em classe alta (A+B), classe média (C), e classe baixa (D+E).

A qualidade de vida foi investigada por meio do questionário European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire C30 - EORTC QLQ-C3017, validado no Brasil com alfa de cronbach de 0.72 para a escala de saúde global, 0.86 para a escala funcional e 0,81 para a escala sintomática1,18. Esse questionário tem por base verificar a qualidade de vida de pacientes com câncer nas últimas quatro semanas, nas escalas: funcional (física, funcional, emocional, social e cognitiva), sintomática (fadiga, dor e náuseas/vômitos, dispneia, insônia, perda de apetite, constipação, diarreia e dificuldades financeiras) e de saúde global. A pontuação das questões resulta em escores de 0 a 100, sendo que para as escalas funcional e de saúde global, quanto maior o valor encontrado melhor qualidade de vida, diferentemente, para a escala sintomática, o maior valor representa maior presença de sintomas, determinando uma pior qualidade de vida. O EORTC QLQ-C30 é complementado por módulos específicos para diversos tipos de câncer e, especificamente, para o câncer de próstata utilizou-se o QLQ-PR25. Tal instrumento possui 25 questões incorporadas em escalas multi-itens, com a finalidade de mensurar os sintomas do tratamento referentes à semana antecedente, sintomas ocorridos nas últimas quatro semanas e função sexual.

Para a investigação dos sintomas depressivos utilizou-se o Inventário de Depressão de Beck (BDI), desenvolvido originariamente por Beck19. Trata-se de um instrumento de autorrelato, com 21 questões objetivas de múltipla escolha que apontam os sintomas depressivos (falta de esperança, irritação, cognições, culpa e sentimentos de punição, assim como sintomas de ordem física, como fadiga, perda de peso e do interesse sexual). Validado no Brasil por Cunha20, que manteve a escala original de 21 itens, com escores de zero a três, sendo quatro alternativas de respostas, as quais correspondem a níveis crescentes de gravidade de depressão. O BDI vem sendo utilizado em estudos com homens com câncer com êxito21,22. Os escores dos itens individuais são somados e resultam em um escore total, com pontuação máxima de 63 pontos, que indica alto grau de depressão e o escore mais baixo é o zero, que corresponde a ausência de depressão. A categorização foi realizada de acordo com a padronização utilizada em estudos com pacientes com câncer, escores de zero a 10, sem depressão ou depressão mínima; escores de 11 a 18, depressão leve; escores de 19 a 29, depressão moderada; escores de 30 a 63 depressão grave23. Sendo que para fins estatísticos e de análise, categorizou-se em ausência de sintomas depressivos (escores de zero a 10) e presença de sintomas depressivos (escores≥11). Optou-se pelo não uso do termo depressão, uma vez que esse termo é apenas recomendado para uso em pacientes com diagnóstico clínico concomitante24.

A fim de comparar as características gerais de doença e a qualidade de vida entre os grupos com presença e ausência de sintomas depressivos, aderiu-se ao uso do teste qui-quadrado ou Exato de Fisher. Utilizou o teste U de Mann Whitney para comparação entre os grupos nos escores da qualidade de vida, uma vez que por meio do teste Kolmogorov Smirnov (p>0,05), não se identificou a normalidade dos dados, exceto na variável da escala funcional. Para estimar as razões de prevalência (RP) bruta e ajustada com seus respectivos IC95%, utilizou-se a Regressão de Poisson. A variável dependente (desfecho) foi a presença de sintomas depressivos, desta maneira, para análise de regressão a amostra foi dividida em dois grupos, aqueles homens com presença de sintomas depressivos e aqueles com ausência de sintomas depressivos. A análise ajustada foi feita para todas as variáveis demográficas, sociais, econômicas e clínicas. Determinou-se como critério para permanecer na análise ajustada o valor de p≤0,20.

Os dados foram coletados entre outubro de 2014 e julho de 2015. O estudo foi realizado conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde e foi aprovado o no Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (CEPSH) da UDESC, protocolo nº 688.548 em 16 de junho de 2014 e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do CEPON (CEP), protocolo nº 818.174, em 03 de outubro de 2014.

RESULTADOS

Apesar de não terem sido verificadas diferenças significativas nas variáveis, foi observado que os homens com presença de sintomas depressivos eram, em sua maioria, mais velhos - 61 a 80 anos (76,9%), cursaram até o ensino fundamental (53,8%), estavam desempregados, aposentados ou na perícia, (84,6%), possuíam classe econômica baixa (88,5%), eram casados (80,8%) e estavam acima do peso (61,5%). Dados não apresentados em tabela.

São apresentados na tabela 1 os dados referentes à comparação entre os grupos com ausência e presença de sintomas depressivos em relação às características demográficas, sociais e econômicas dos participantes do estudo.

Tabela 1 Comparação entre os grupos com ausência e presença de sintomas depressivos em relação às características demográficas, sociais e econômicas dos homens após o diagnóstico do câncer de próstata (N=85). Florianópolis, SC - CEPON 2014/2015.  

Sintomas depressivos
Variáveis Ausente n(%) Presente n(%) p valor RRP (IC95%)***
Idade (anos) 0,222*
40 a 60 11(18,6) 6(23,1) 1,061 (0,825-1,364)
61 a 80 48(81,4) 20(76,9) 1
Escolaridade 0,315*
Ensino Fundamental 35(60,3) 14(53,8) 1
Ensino Médio e Superior 23(39,7) 12(46,2) 1,059 (0,865-1,296)
Profissão atual 0,210**
Desempregado/Aposentado/Perícia 43(72,9) 22(84,6) 1,149 (0,931-1,416)
Até dois vínculos 16(27,1) 4(15,4) 1
Estado conjugal 0,307*
Com companheiro 41(69,5) 21(80,8) 1,129 (0,919-1,387)
Sem companheiro 18(30,5) 5(19,2) 1
Classe econômica 0,769**
Classe Alta (A+B) 2(3,4) 1(3,8) 1,158 (0,899-1,492)
Classe Média (C) 9(15,5) 2(7,7) 1
Classe Baixa (D+E) 47(81,0) 23(88,5) 1,164 (0,651-2,078)
Status de peso 0,689*
Acima do peso 41(70,7) 16(61,5) 1
Peso normal 17(29,3) 10(38,5) 1,094 (0,881-1,358)

*Teste qui-quadrado; **Teste Exato de Fisher; ***Razão de prevalência - Regressão de Poisson.

A caracterização clinica dos participantes demonstrou que 64,7% possuíam outras doenças, 48,2% relataram a presença de incontinência urinária, 54,1% não realizaram a cirurgia de prostatectomia radical como forma de tratamento, sendo que a maioria (56,8%) realizou radioterapia e não havia terminado o tratamento (43,5%). Além disso, 89,4% não foram indicados a realizar a fisioterapia como parte do tratamento (dados não apresentados em tabela).

São apresentadas na tabela 2, as características da doença em relação à ausência ou presença de sintomas depressivos. Foi encontrado resultado significativo na categoria fisioterapia (p<0,021), na qual os homens com maior presença de sintomas depressivos são os que não realizaram a mesma (76,9%).

Tabela 2 Comparação entre os grupos com ausência e presença de sintomas depressivos em relação às características da doença e tratamento dos homens após o diagnóstico do câncer de próstata (N=85). Florianópolis, SC - CEPON 2014/2015.  

Sintomas depressivos
Variáveis Ausente n(%) Presente n(%) p valor RP (IC95%)***
Possui outras doenças 0,562*
Sim 37(62,6) 18(69,2) 1,062 (0,869-1,299)
Não 22(37,3) 8(30,8) 1
Incontinência urinária 0,247*
Sim 15(44,1) 26(57,7) 1,123 (0,924-1,365)
Não 11(55,9) 33(42,3) 1
Prostatectomia radical 0,973*
Não realizou 14(54,2) 32(53,8) 1
Realizou 12(45,8) 27(46,2) 1,003 (0,824-1,221)
Tipo de tratamento 0,528**
Quimioterapia 5(21,7) 2(14,3) 1
Radioterapia 14(60,9) 7(50,0) 1,049 (0,710-1,55)
Hormonoterapia 4(17,4) 5(35,7) 1,310 (0,822-2,088)
Terminou o tratamento 0,154*
Sim 12(20,3) 7(26,9) 1,217 (0,941-1,573)
Não 23(39,0) 14(53,8) 1,229 (0,998-1,513)
Ainda não iniciou 24(40,7) 5(19,2) 1
Fisioterapia 0,021*
Sim 3(5,1) 6(23,1) 1,497 (1,083-2,069)
Não 56(94,9) 20(76,9) 1,00

*Teste qui-quadrado (N=85); **Teste Exato de Fisher; ***Razão de prevalência - Regressão de Poisson.

No instrumento EORTC QLQ C30 quanto mais próximo do escore 100, melhor a qualidade de vida, exceto na escala sintomática; onde quanto mais próximo de 100 pior a qualidade de vida, sendo assim, são apresentados na tabela 3 os resultados da comparação da qualidade de vida entre os grupos ausência e presença de sintomas depressivos. Foram observados resultados significativos na maioria das variáveis, exceto na perda de apetite (p=0,078) e funcionamento sexual (p=0,068).

Tabela 3 Comparação entre os grupos com ausência e presença de sintomas depressivos em relação à qualidade de vida dos homens após o diagnóstico do câncer de próstata (N=85). Florianópolis, CEPON 2014/2015.  

Sintomas depressivos
Variáveis Total Média (±dp) Ausente Média (±dp) Presente Média (±dp) p valor
EORTC-C30
Escala funcional* 78,77±18,48 86,10±10,07 62,13±22,30 <0,001
Mediana (Q25-Q75) Mediana (Q25-Q75) Mediana (Q25-Q75)
Função cognitiva 83,33(66,66-100,00) 100,00(83,88-100,00) 75,00(66,66-100,00) 0,025
Função emocional 75,00(54,16-91,66) 83,33(66,67-100,00) 50,00(25,00-75,00) <0,001
Função física 93,33(73,33-93,33) 93,33(80,00-100,00) 70,00(36,67-93,33) <0,001
Função social 100,00(66,66-100,00) 100,00(100,00-100,00) 75,00(66,66-100,00) <0,001
Escala de saúde global** 75,00(15,38-35,89) 83,33(66,67-91,66) 54,16(47,91-66,66) <0,001
Escala sintomática** 23,07(15,38-35,89) 20,51(12,85-28,20) 42,30(23,07-62,17) <0,001
Fadiga 11,11(0,00-33,33) 0,00(0,00-22,22) 44,44(19,44-100,00) <0,001
Perda de apetite 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-33,33) 0,078
Insônia 0,00(0,00-66,67) 0,00(0,00-66,66) 66,66(0,00-100,00) 0,003
Dor 0,00(0,00-33,33) 0,00(0,00-16,66) 25,00(0,00-66,66) 0,003
Náusea e vômito 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-33,33) 0,011
Dispneia 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-0,00) 0,041
Constipação 0,00(0,00-33,33) 0,00(0,00-33,33) 16,66(0,00-100,00) 0,014
Diarreia 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-0,00) 0,00(0,00-33,33) 0,050
Dificuldades financeiras 0,00(0,00-33,33) 0,00(0,00-0,00) 33,33(0,00-100,00) <0,001
EORTC- PR25 <0,001
Escala funcional** 84,21(64,91-93,85) 91,22(78,94-96,49) 71,05(59,64-84,21) <0,001
Atividade sexual 66,66(33,33-66,66) 50,00(33,33-83,33) 75,00(50,00-100,00) 0,039
Funcionamento sexual 75,00(54,16-75,00) 75,00(41,66-75,00) 58,33(50,00-100,00) 0,068
Escala sintomática** 15,78(6,14-35,08) 8,77(3,5-21,05) 28,94(15,78-40,35) <0,001
Sintomas urinário 25,00(12,50-50,00) 20,83(4,16-37,50) 43,75(21,87-57,29) 0,001
Sintomas intestinais 0,00(0,00-12,50) 0,00(0,00-8,33) 8,33(0,00-16,66) 0,017
Tratamento hormonal 11,11(0,00-30,55) 11,11(16,67-38,88) 22,22(16,66-38,88) <0,001
Incontinência 0,00(33,33-100,00) 0,00(0,00-100,00) 33,33(0,00-100,00) 0,041

*Teste T independente, valores apresentados em média e desvio-padrão; **Teste U de Mann Whitney, valores apresentados em mediana e intervalo interquartil.Md - Mediana; IQ - Interquatil.

Nos componentes da escala funcional, os homens com sintomas depressivos encontraram-se com uma qualidade de vida mais negativa em relação aqueles com ausência de sintomas depressivos, com p<0,001 para a função emocional, função física e função social e p=0,025 para a função cognitiva. O mesmo foi identificado na escala de saúde global (p<0,001). Na escala sintomática foi observado significância na maioria das variáveis, nomeadamente, fadiga (p<0,001), insônia (p<0,003), dor (p<0,003), náusea e vômito (p<0,011), dispneia (p<0,041), constipação (p<0,014), diarreia (p<0,050) e dificuldades financeiras (p<0,011), exceto na variável perda de apetite, sendo que piores resultados foram observados entre os homens com presença de sintomas depressivos.

Quando observado o instrumento específico para homens com câncer de próstata (EORTC- PR25), foi identificado na escala funcional, no módulo atividade sexual resultados significativos (p<0,039), assim como para todas as variáveis da escala sintomática, sendo que o grupo presença de sintomas depressivos apresentou piores resultados para a qualidade de vida.

DISCUSSÃO

Apesar dos aumentos nas taxas de sobrevida e dos avanços no diagnóstico e tratamento24, o câncer ainda é recebido como uma sentença de morte e traz consigo consequências psicológicas, como medo, tristeza e depressão1. A literatura aponta que os principais problemas psicológicos apresentados por pacientes diagnosticados com câncer de próstata são a depressão e a ansiedade13,24. Desta forma, objetivou-se neste estudo investigar a relação entre a presença ou ausência de sintomas depressivos e a qualidade de vida de homens em tratamento e pós-tratamento do câncer de próstata.

Os resultados apontaram que homens com sintomas depressivos apresentam pior qualidade de vida na escala funcional, escala de saúde global e escala sintomática. Resultados que corroboram com o que vem sendo apresentado na literatura nacional e internacional13,25. No que se refere à escala funcional da qualidade de vida, é possível observar que esta é relacionada às questões físicas, funcionais, emocionais, sociais e cognitivas. Como observado no presente estudo, esses aspectos foram mais afetados em pacientes com sintomas depressivos. Sabe-se que a depressão tem um impacto substancial na saúde de pacientes com diferentes doenças crônicas, incluindo o câncer26. É evidenciado que a presença de sintomas depressivos está diretamente relacionada ao declínio físico, psicológico e social, tendo características que impactam na qualidade de vida e sua funcionalidade,5,27. Diante de uma doença como o câncer, esses fatores podem ser exacerbados, uma vez que a doença pode trazer sentimentos de inferioridade e medo de rejeição no relacionamento social28, além de efeitos colaterais como o declínio no funcionamento físico29,30. Além disso, estudos internacionais têm demonstrado que o tratamento do câncer somado a fatores psicológicos como a depressão pode afetar também algumas funções cognitivas, como memória de curto e longo prazo, capacidade de atenção, concentração e habilidades de linguagem6,31.

Os hábitos de vida estão intimamente relacionados ao câncer32 e influenciam na qualidade de vida no que diz respeito à saúde física e emocional14. Os resultados apresentados neste estudo identificaram que os pacientes com presença de sintomas depressivos apresentaram pior qualidade de vida na escala de saúde global. O que pode ter ocorrido em virtude dos possíveis efeitos colaterais provenientes do tratamento de câncer, tais como: a redução da densidade óssea, diminuição da massa muscular e força, aumento de peso e gordura corporal e declínio no funcionamento físico29,30. Um estudo com sessenta pacientes, que passaram pelo tratamento do câncer de próstata, mostrou que o funcionamento físico dos mesmos foi significativamente reduzido após o tratamento, além do aumento de peso e diminuição da massa muscular6. Van den Bergh et al.33 em estudo com pacientes, no término do tratamento, encontraram baixa pontuação para a saúde física, ansiedade e qualidade de vida em geral.

É possível verificar que no período do tratamento da doença existem algumas consequências para a saúde física do paciente, como fadiga, insônia, náuseas e vômitos, dor, dispneia, constipação, diarreia, sintomas urinários e intestinais e incontinência urinária8,9. Assim, verificou-se nos achados deste estudo que a escala sintomática, tanto do questionário geral quanto do específico para homens com câncer de próstata, demonstrou que os piores resultados apresentaram uma relação com a presença de sintomas depressivos. Tais resultados podem ter sido verificados uma vez que a maior parte dos pacientes ainda se encontra em tratamento e são afetados pelas consequências deste, citadas anteriormente.

Outros sintomas bastante incômodos para os pacientes são a incontinência urinaria e a disfunção na atividade sexual1, aspectos da escala funcional do instrumento especifico para o câncer de próstata que demonstraram relações significativas com a presença de sintomas depressivos. Estudo internacional realizado com quatrocentos e trinta e sete pacientes com câncer de próstata constatou que, dois anos após o tratamento, a incontinência urinária permaneceu presente em 48,8% dos homens, assim como a disfunção sexual em 82,8%34. As modalidades de tratamento para o câncer de próstata são as principais causas para esses dois sintomas, que podem persistir mesmo após o término do tratamento3,35, o que pode ser encarado como uma diminuição da masculinidade por parte dos pacientes, uma vez que a próstata faz parte da identidade masculina10. A literatura aponta que os principais sentimentos expressos pelos pacientes com câncer de próstata são a depressão, fracasso, impotência frente à doença, medo da impotência sexual, angústia da perda de controle urinário e de autonomia, dor pela perda da capacidade de ter ereções satisfatórias e medo de ser traído ou abandonado pela parceira sexual27,35.

Faz-se necessário destacar algumas limitações do presente estudo, tais como o uso de questionário como ferramenta de coleta de dados, assim como o autorrelato de alguns dados das características da doença pelos pacientes, pois não houve acesso dos pesquisadores aos prontuários; também, por tratar-se de um estudo de corte transversal, não proporciona relações de causa e efeito. Ainda, a impossibilidade de atingir tamanho amostral esperado, com 17 participantes a menos. Tal limitação pode ter ocorrido principalmente pela negativa de alguns homens em fazer parte do estudo, provavelmente pelas dificuldades que acompanham o tratamento do câncer, uma vez que as coletas aconteceram no âmbito hospitalar, e também por tratar de um tema considerado um tabu para a população masculina, por afetar um órgão simbólico da masculinidade. No entanto, ressalta-se que dentre as vantagens do estudo, é relevante citar o maior conhecimento do homem com câncer de próstata de outros aspectos da saúde, além de alertar sobre outros fatores, como a depressão, que podem ser afetados com o tratamento do câncer.

CONCLUSÕES

Diante dos resultados encontrados pode-se perceber que a presença de sintomas depressivos afeta significativamente a qualidade de vida de homens com câncer de próstata; assim, percebe-se a necessidade de mais subsídios sobre a população masculina com a doença. Portanto, esses achados apoiam a ideia de que é necessário prover uma maior atenção psicológica a esses pacientes, a fim de oferecer qualidade de informações, auxílio psicológico, formação de grupos de apoio e outras medidas, já que, em muitos casos, a sobrevida, que não é acompanhada de boa qualidade de vida, pode não ser a melhor opção para o paciente, causando mais sofrimento.

REFERENCES

1 Zajdlewicz L, Hyde MK, Lepore SJ, Gardiner RA, Chambers SK. Health-related quality of life after the diagnosis of locally advanced or advanced prostate cancer: a longitudinal study. Cancer Nurs. 2017;40(5):412-9. [ Links ]

2 Bo Y, Jiansheng W. Effects of exercise on cancer-related fatigue and quality of Life in prostate cancer patients undergoing androgen deprivation therapy: a meta-analysis of randomized clinical trials. Chin Med Sci J. 2017;32(1):13-21. [ Links ]

3 Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2016: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA; 2016. [ Links ]

4 Sociedade Brasileira de Urologia. Recomendações sobre o câncer de próstata. Rio de Janeiro: SBU; 2016. [ Links ]

5 Goulart DMM, Miranzi MAS, Goulart PEN. Qualidade de vida em pacientes submetidos à prostatectomia radical. Rev Eletr Enferm. 2014;16(3):625-34. [ Links ]

6 Phillips SM, Stampfer MJ, Chan JM, Giovannucci EL, Kenfield SA. Physical activity, sedentary behavior, and health-related quality of life in prostate cancer survivors in the health et professionals follow-up study. J Cancer Surviv. 2015;9(3):500-11. [ Links ]

7 Ward JF, Slezak JM, Blute ML, Bergstralh EJ, Zincke H. Radical prostatectomy for clinically advanced (cT3) prostate cancer since the advent of prostate specific antigen testing: 15 year outcome. BJU Int. 2015;95 (6):751-6. [ Links ]

8 Mundell NL, Daly RM, Macpherson H, Fraser SF. Cognitive decline in prostate cancer patients undergoing ADT: a potential role for exercise training. Endocr Relat Cancer. 2017;24(4):145-55. [ Links ]

9 Taaffe DR, Newton RU, Spry N, Joseph D, Chambers SK, Gardiner RA, et al. Effects of different exercise modalities on fatigue in prostate cancer patients undergoing androgen deprivation therapy: a year-long randomised controlled trial. Eur Urol. 2017;72(2):293-9. [ Links ]

10 Watson E, Shinkins B, Frith E, Neal D, Hamdy F, Walter F, et al. Symptoms, unmet needs, psychological well-being and health status in survivors of prostate cancer: implications for redesigning follow-up. BJU Int. 2016;117:10-9. [ Links ]

11 Daniel K, Liz F, Sylvie ML, White I. Co-constructing sexual recovery after prostate cancer: a qualitative study with couples. Transl Androl Urol. 2015;4(2):131-8. [ Links ]

12 Parahoo K, McDonough S, McCaughan E, Noyes J, Semple C, Halstead EJ, et al. Psychosocial interventions for men with prostate cancer: a Cochrane Systematic Review. BJU Int. 2015;116(2):174-83. [ Links ]

13 Bourke L, Smith D, Steed L, Hooper R, Carter A, Catto J, et al. Exercise for men with prostate cancer: a systematic review and meta-analysis. Eur Urol. 2016;69(2):693-703. [ Links ]

14 Nikbakhsh N, Moudi S, Abbasian S, Khafri S. Prevalence of depression and anxiety among cancer patients. J Intern Med. 2014;5(3):167-70. [ Links ]

15 Michael A, Hoyt, Kristen M. Carpenter. Sexual self-schema and depressive symptoms after prostate cancer. Psycho-Oncol. 2015;24(4):395-401. [ Links ]

16 World Health Organization. Physical status: the use and interpretation of anthropometry. Geneva: WHO; 2004. [ Links ]

17 Aaronson NK, Ahmedzai S, Bergman B, Bullinger M, Cull A, Duez NJ, et al. The European Organisation for Research and Treatment of Cancer QLQ-C30: a quality-of-life instrument for use in international clinical trials in oncology. J Natl Cancer Inst. 1993;85:365-76. [ Links ]

18 Michels FAS, Latorre MRDO, Maciel MS. Validity, reliability and understanding of the EORTC-C30 and EORTC-BR23, quality of life questionnaires specific for breast cancer. Rev Bras Epidemiol. 2013;16(2):352-63. [ Links ]

19 Beck AT. An inventory for measuring depression. Arch Gen Psychiatr. 1961;4:561-71. [ Links ]

20 Cunha JA. Manual da versão em português das Escalas de Beck. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2001. [ Links ]

21 Santos MIC. Qualidade de vida em pacientes portadores de câncer de próstata com metástase óssea [dissertação]. Fortaleza: Fundação Antônio Prudente e Escola Cearense de Oncologia; 2010. [ Links ]

22 Soares IC. Qualidade de vida de homens com cancer de próstata [dissertação]. Uberaba: Universidade Federal do Triângulo Mineiro; 2012. [ Links ]

23 Gorestein C, Andrade L. Inventário de depressão de Beck: propriedades psicométricas da versão em português. Rev Psiquiatr Clín. 1998;25(5): 245-50. [ Links ]

24 Carlsson S, Drevin L, Loeb S, Widmark A, Lissbrant IF, Robinson D, et al. Population-based study of long-term functional outcomes after prostate cancer treatment. BJU Int. 2016;117(6B):36-45. [ Links ]

25 Pirl WF, Greer JA, Goode M, Smith MR. Prospective study of depression and fatigue in men with advanced prostate cancer receiving hormone therapy. Psycho-oncol 2008;17(2):148-53. [ Links ]

26 Dinh KT, Reznor G, Muralidhar V, Mahal BA, Nezolosky MD, Choueiri TK, et al. Association of androgen deprivation therapy with depression in localized prostate cancer. J Clin Oncol. 2016;34(16):1905-12. [ Links ]

27 Donovan KA, Walker LM, Wassersug RJ, Thompson LM, Robinson JW. Psychological effects of androgen-deprivation therapy on men with prostate cancer and their partners. Cancer. 2015;121(24):4286-99. [ Links ]

28 Sharpley CF, Christie DRH, Bitsika V, Agnew LL, Andronicos NM, McMillan ME, et al. Limitations in the inverse association between Psychological Resilience and depression in prostate cancer patients experiencing chronic physiological stress. Psycho-oncol. Epub 2017. [ Links ]

29 World Health Organization. Global recommendations on physical activity for health. Geneva: WHO; 2010. p. 23-9. [ Links ]

30 Magnabua MJ, Richman EL, Sosa EV, Jones LW, Simko J, Shinohara K, et al. Physical activity and prostate gene expression in men with low-risk prostate cancer. Cancer Causes Control. 2014;25(4):515-23. [ Links ]

31 Vashistha V, Singh B, Kaur S, Prokop LJ, Kaushik D. The Effects of Exercise on Fatigue, Quality of Life, and Psychological Function for Men with Prostate Cancer: Systematic Review and Meta-analyses. Eur Urol Focus. 2016;2(3):284-95. [ Links ]

32 Center MM, Jemal A, Lortet-Tieulent J, Ward E, Ferlay J, Brawley O, et al. International variation in prostate cancer incidence and mortality rates. Eur Urol. 2012;61(6):1079-92. [ Links ]

33 Van den Bergh RC, Essink-bot, ML, Roobol, MJ, et al. Anxiety and distress during active surveillance for early prostate cancer. Cancer. 2009;115(17):3868-78. [ Links ]

34 Bessaoud F, Orsini M, Iborra F, Rebillard X, Faix A, Soulier M, et al. Urinary incontinence and sexual dysfunction after treatment of localized prostate cancer: results from a population aged less than 65years old. Bull Cancer. 2016;103(10):829-40. [ Links ]

35 Benedict C, Traeger L, Dahn JR, Antoni M, Zhou ES, Bustillo N, et al. Sexual bother in men with advanced prostate cancer undergoing androgen deprivation therapy. J Sex Med. 2014;11(10):2571-80. [ Links ]

Recebido: 24 de Julho de 2017; Revisado: 30 de Outubro de 2017; Aceito: 11 de Dezembro de 2017

Correspondência/Correspondence Taysi Seemann E-mail: taysiseemann@hotmail.com

Creative Commons License This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License