SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 número60Returned migrants with disabilities and their struggles for recognition:a look from the Pastoral Care of Human Mobility of Honduras índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


REMHU: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana

versão impressa ISSN 1980-8585versão On-line ISSN 2237-9843

REMHU, Rev. Interdiscip. Mobil. Hum. vol.28 no.60 Brasília set./dez. 2020  Epub 09-Dez-2020

http://dx.doi.org/10.1590/1980-85852503880006016 

Resenhas

A diáspora das religiões brasileiras

The Diaspora of Brazilian Religions

*Mestranda na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Rio de Janeiro - RJ, Brasil. E-mail: paulinavalamiel@id.uff.br

**Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro - RJ, Brasil. E-mail: fernandes.silv@gmail.com.

ROCHA, Cristina; VÁSQUEZ, Manuel A.. São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2016. 439p.


A obra organizada por Cristina Rocha e Manuel Vásquez é um trabalho de fôlego, composto por quatorze capítulos nos quais são analisados os fluxos, cosmologias e dinâmicas presentes na diáspora de diversas religiões brasileiras. Trata-se da primeira edição em português lançada pela Editora Ideias & Letras, em 2016. A versão em inglês “The diaspora of Brazilian religions” foi lançada em 2013, pela editora Brill, em Leiden.

O livro foi organizado por Cristina Rocha, antropóloga e pesquisadora do Centro de Estudos da Religião e Sociedade na Universidade de Western Sydney, na Austrália, e Manuel A. Vásquez, professor chefe do Departamento de Religião na Universidade da Florida, em Gainesville, atualmente pesquisador independente. Os organizadores oferecem ao leitor os resultados de suas respectivas pesquisas sobre a expansão de religiões brasileiras em outros contextos territoriais.

Embora mais de cinco anos tenham se passado desde a primeira edição em língua inglesa, a atualidade deste trabalho é evidenciada logo nas primeiras páginas quando os organizadores analisam o Brasil na “nova cartografia global da religião”. Eles sublinham que os tradicionais “centros de comando” na exportação de grandes religiões como o Hinduísmo e Budismo passam a lidar com países tidos como subalternos no sistema capitalista, mas que sacodem os ritmos e as direções da expansão religiosa.

Em tempos de modernização aguda que tem implicado na mudança radical da vida em sociedade, tal como a conhecíamos antes da pandemia Covid-19, o livro é atual por apresentar como linha de argumentação transversal a todos os capítulos a ideia de transnacionalização. O conceito é capitalizado especialmente pelos circuitos de desterritorialização, mas também pela internet, veículo que em tempos de pandemia apresenta-se como elemento determinante na reconfiguração da vida social e, naturalmente, de uma de suas esferas aqui em análise: a religião. Como se configurarão as novas diásporas religiosas em tempos de restrição da mobilidade dos sujeitos? Como as experiências e pesquisas narradas nesta obra poderão se repetir ou serem revisitadas no presente e em um futuro próximo no qual a virtualidade transnacional passa a ser a expressão mais fundamental da vida em sociedade?

O livro está organizado em três partes com capítulos densos sobre os diferentes campos religiosos em questão. A primeira parte, intitulada “Cristianismo Brasileiro” reúne, em cinco capítulos, estudos sobre a diáspora de religiões cristãs brasileiras. Nesta parte, estão presentes os textos “Projeto pastoral de Edir Macedo: uma rede Pentecostal globalmente integrada”, das autoras Clara Mafra, Claudia Swatowiski e Camila Sampaio, “Igrejas brasileiras em Londres: transnacionalismo de nível médio” de Olivia Sheringham, “O ‘ovo do diabo’: os jogadores de futebol como os novos missionários da diáspora das religiões brasileiras” de Carmen Rial, “Pentecostalismo brasileiro no Peru: afinidades entre as condições sociais e culturais de migrantes andinos e a visão religiosa do mundo da Igreja Pentecostal Deus é Amor” de Dário Paulo Barrera e, por último, “O Catolicismo brasileiro de exportação: o Caso da Canção Nova” de Brenda Carranza e Cecilia Mariz.

A segunda parte do livro também está dividida em cinco capítulos voltados para o tema da diáspora das religiões afro-brasileiras, sendo intitulado “Religiões Afro-Brasileiras”. Estão presentes nessa parte, os textos “Transnacionalismo como fluxo religioso através de fronteiras e como campo social: Umbanda e Batuque na Argentina” de Alejandro Frigerio, “Pretos Velhos através do Atlântico: religiões afro-brasileiras em Portugal” de Clara Saraiva, “Autenticidade transnacional: o caso de um templo de Umbanda em Montreal” de Deirdre Meintel e Annick Hernandez, “Nipo-brasileiros entre pretos velhos, caboclos, monges budistas e samurais: um estudo etnográfico da Umbanda no Japão” de Ushi Arakaki, e “Mora Iemanja? Axé na capoeira regional diaspórica” de Neil Stephens, Sara Delamont e Tiago Ribeiro Duarte.

Por fim, “Novos Movimentos Religiosos” é o título dado à terceira parte do livro, constituída por quatro capítulos. São eles “Construindo uma comunidade espiritual transnacional: o movimento religioso de João de Deus na Austrália” de Cristina Rocha, “O Vale do Amanhecer em Atlanta, Georgia: negociando identidade de gênero e incorporação na diáspora” de Manuel A. Vásquez e José Claudio Souza Alves, “A globalização de nicho da Conscienciologia: a cosmologia e internacionalização de uma paraciência brasileira” de Anthony D’Andrea, e “O Santo Daime e a União do Vegetal: entre Brasil e Espanha” de Jessica Greganich.

A compreensão da diáspora como “dispersão dos povos” perpassa toda a obra. Os leitores terão contato com um quadro sobre a diversidade do campo religioso brasileiro traduzida em relações de diáspora no mundo globalizado. Para além dos movimentos migratórios modernos, as tecnologias advindas da modernidade e as novas formas de trânsito nos fluxos globais contribuem para o sucesso desses empreendimentos religiosos que consolidam esta relevante obra sobre as religiões brasileiras em fluxo.

A importância desta obra para os estudos sobre globalização e transnacionalismo religioso está no fato de que a modernidade tardia inaugurou um novo movimento no que tange a dispersão de religiosidades. A América Latina, em especial, o Brasil, tem assumido papel central na nova cartografia religiosa mundial e tem reorientado algumas teses clássicas sobre a presença da religião em contexto de modernidade.

De modo aparentemente paradoxal, a transnacionalização das religiões estabelece espécie de pátria comum para as demandas de sociabilidade, integração social e busca de sentido oferecidas pelas religiões brasileiras em diáspora. O livro costura de modo criativo as análises sobre novas dimensões da globalização pensadas a partir da globalização em suas vertentes cultural, econômica e até mesmo política. Nesse contexto, elementos materiais e imateriais passam a ter possibilidades de trânsito nos fluxos globais não estando restritos apenas ao fenômeno da migração, geralmente acionado quando se analisa a presença de religiões brasileiras em outros contextos nacionais (Levitt, Glick Schiller, 2004). A transnacionalização passa a ser vista então em sua pluralidade na qual determinadas religiões se expandem globalmente por meio de um movimento rizomático (Csordas, 2007). Cada País, com suas peculiaridades, passa a ser solo fértil para religiões brasileiras hábeis em oferecer cosmologias e reinventá-las a partir de contextos específicos.

Trata-se, portanto, de um livro fundamental para os interessados em compreender a dinâmica do campo religioso brasileiro além fronteiras, a partir de pesquisas e análises criativas dos cientistas sociais convidados a compor essa instigante obra.

Bibliografia

CSORDAS, Thomas. Introduction: modalities of transnational transcendence. Anthropological theory, v. 7, n. 3, p. 250-272, 2007. [ Links ]

LEVITT, Peggy; GLICK SCHILLER, Nina. Conceptualizing simultaneity: a transnational social field perspective on society. International migration review, v. 38, n. 3, p. 1002-1039, 2004. [ Links ]

Recebido: 05 de Junho de 2020; Aceito: 10 de Novembro de 2020

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons