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Trabalho, Educação e Saúde

On-line version ISSN 1981-7746

Trab. educ. saúde vol.1 no.1 Rio de Janeiro Mar. 2003

https://doi.org/10.1590/S1981-77462003000100013 

RESENHAS REVIEWS

 

 

Isabel Brasil Pereira

Coordenadora Editorial da revista Trabalho, Educação e Saúde <revtes@fiocruz.br>

 

 

Capitalismo histórico e civilização capitalista. Immanuel Wallerstein, Rio de Janeiro: Editora Contraponto, tradução de Renato Aguiar, revisão da tradução de César Benjamin, 2001, 144 p.

Não poderia ser mais oportuno o lançamento deste livro de Immanuel Wallerstein no Brasil. Trata-se de um resumo, claro e conciso, de um grande estudo intitulado The modern world system, onde este intelectual americano, nascido em 1930, Diretor do Centro Fernand Braudel para Estudos de Economias, Sistemas Históricos e Civilizações (EUA), analisa a formação histórica do capitalismo nos últimos quinhentos anos como um sistema de alcance mundial e suas expressões nas esferas econômica, política e cultural-ideológica.

No centro da análise, temos as categorias de sistema-mundo e economia-mundo na formação histórica do capitalismo, que tem seu início marcadamente na Europa Ocidental e em parte das Américas e que, já desde o século XIX, inclui todo o planeta. Ao longo de sua formação, mostra Wallerstein, mudam os centros hegemônicos do capitalismo, mas há sempre posições centrais e periféricas, avançadas e dependentes. A conclusão que daí deriva vai contra todo otimismo pregado por desenvolvimentistas tradicionais, que acreditam no desenvolvimentismo como um processo nacional, diante de um sistema-mundo da economia global formada pelo capitalismo, colocando a impossibilidade de países mais atrasados alcançarem níveis evolutivos compatíveis com os países ricos e mais desenvolvidos. Destarte, como o jogo de posições no sistema-mundo do capitalismo não tem base nacional, seja na esfera das políticas públicas, seja na estrutural-social ou na de valores culturais, resulta que a economia-mundo, mesmo que sempre contraditória e crítica, tem uma hierarquia constante, embora, entre eles, os Estados hegemônicos possam trocar de posição. Ou seja, a formação do capitalismo é indissociável de um sistema interestatal, nunca é de Estados nacionais isolados e independentes, capazes de controlar o processo básico do desenvolvimento econômico.

Assim sendo, o capitalismo sempre foi uma economia-mundo baseada em trocas desiguais, em cadeias mercantis que escapam, e muito, dos espaços políticos e geográficos nacionais, fazendo com que a desigualdade geral do sistema passasse tantas vezes despercebida. Nas palavras do autor:

"A troca desigual é uma prática antiga. O que é notável no capitalismo como sistema histórico é a maneira como essa troca desigual pode ser escondida; foi tão bem escondida que até mesmo os oponentes confessos do sistema só começaram a desvelá-la, de forma sistemática, quinhentos anos depois. A chave para entender esse mecanismo central está na própria estrutura da economia-mundo, na aparente separação, nesse sistema, entre o espaço da economia (uma divisão social mundial do trabalho com processos produtivos integrados, todos operando em nome da acumulação incessante de capital) e o espaço da política (organizado ostensivamente em torno de Estados soberanos e separados, cada qual com responsabilidade autônoma por decisões políticas no interior de sua jurisdição, todos dispondo de forças armadas para sustentar sua autoridade)" (p. 29).

No processo de sua formação histórica, o capitalismo não tem cessado de expandir sua base geográfica, acompanhado pela necessidade de transformação de tudo em mercadoria, de uma contínua acumulação de lucro, de uma forte proletarização e de inovações tecnológicas que, para o autor, "tem sido menos o motor do que a conseqüência do capitalismo histórico" (p. 35). Na sua busca incessante por mão-de-obra barata e lucros maiores, o capitalismo avançou pelo mundo afora e criou sua civilização histórica, que é julgada por Wallerstein com extrema severidade:

"Longe de ser uma sistema natural, como alguns apologistas tentaram argumentar, o capitalismo histórico é um sistema patentemente absurdo. Acumula-se capital para que se possa acumular mais capital. Os capitalistas são como ratos brancos em uma roda de gaiola, correndo cada vez mais rápido para poder correr cada vez mais rápido. Nesse processo, algumas pessoas vivem bem, mas outras vivem miseravelmente; e por quanto tempo e até que ponto vivem bem aqueles que vivem bem? Quanto mais refleti sobre esse sistema, mais absurdo ele me pareceu. Acredito que a grande maioria das populações do mundo esteja - objetiva e subjetivamente - em piores condições materiais do que nos sistemas históricos anteriores" (p. 38).

A conseqüência dessa análise é clara: "o capitalismo histórico entrou em sua crise estrutural no começo do século XX e provavelmente morrerá, como sistema histórico, no século próximo. É difícil prever o que acontecerá. O que podemos fazer agora é analisar as dimensões da crise estrutural e tentar perceber para que direções a crise sistêmica está nos levando" (p. 79).

Notável posição crítica, inclusive reafirmando a tese de que "A civilização capitalista terminará; este sistema histórico específico não existirá mais" (p. 142), em uma época em que o capitalismo tem sido vendido como forma final da História e as políticas neoliberais apresentadas como panacéia universal, que promoveriam a igualdade entre os povos via "mercados livres", a cultura pós-moderna tem sido aceita como forma "aberta" e "plural", capaz de integrar as diferenças culturais, religiosas, étnicas, sexuais e de classe. Com muita precisão, Wallerstein indica que a divisão internacional do trabalho, dentro do sistema-mundo que é a economia capitalista, vai acompanhada de uma divisão étnica do trabalho, reservando posições específicas para certos grupos na divisão do trabalho e no acesso aos postos de trabalho e às oportunidades econômicas, fazendo com que um dos pilares da formação do capitalismo histórico tenha sido o racismo institucional (p. 67). Não apenas uma divisão étnica do trabalho, mas também formas de divisão sexual, separando os trabalhadores e suas posições no sistema. Como é fácil perceber, uma posição crítica e articulada, bem diferente do liberalismo abstrato e do relativismo que acompanham certas análises, em nossos dias, sobre a relação cultura e trabalho.

Com igual acuidade, já encontrada anteriormente nos frankfurtianos, Wallerstein, intelectual americano significativo no pensamento de esquerda, critica a idéia de progresso, fundamental na formação do mundo moderno. Que essa idéia tenha sido defendida pelos liberais, interessados na mercantilização de tudo, entende-se. Mas é menos inteligível a defesa apaixonada que alguns marxistas fizeram da mesma noção de progresso, que passou a justificar tanto o capitalismo quanto o socialismo, fazendo com que a adesão marxista ao modelo evolucionário de progresso tenha sido uma enorme armadilha. O mesmo vale para os processo de racionalidade e racionalização, inseparáveis da formação do capitalismo histórico como sistema-mundo, que fizeram da verdade um verdadeiro ópio. Defendendo e propagando um universalismo neutro, para o qual todos deveriam ser educados, as noções de modernização e de ocidentalização funcionaram como pilares do capitalismo histórico. Administradores, cientistas, técnicos e educadores foram formados nessa nova fé universal, da competência e do progresso, da verdade científica, funcionando como gerentes ativos de algo bem diferente: "a ênfase na racionalidade da atividade científica serviu para mascarar a irracionalidade da acumulação incessante" (p.73). Do ponto de vista da área Trabalho, Educação e Saúde, não fica difícil perceber os pontos de apoio críticos fornecidos pelas análises de Imanuel Wallerstein. Merece destaque a linguagem crítica, clara e acessível do autor, explicitando conceitos que costumam ser apresentados - principalmente por intelectuais aderentes ao existente - de maneira cifrada. A linguagem utilizada por Wallerstein e a tradução bem feita possibilitam a leitura deste livro por jovens e maduros pesquisadores.

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