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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.7 no.3 Belém Sept./Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222012000300004 

DOSSIÊ CORPOS, MEDIDAS E NAÇÃO

 

Entre o laboratório de antropometria e a escola: a antropologia física de José Bastos de Ávila nas décadas de 1920 e 1930

 

Between the anthropometry laboratory and school: the physical anthropology of José Bastos de Ávila in the 1920s and 1930s

 

 

Assis da Silva Gonçalves; Marcos Chor Maio; Ricardo Ventura Santos

Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

Autor para correspondencia

 

 


RESUMO

O médico e antropólogo José Bastos de Ávila teve uma destacada atuação no campo da antropologia física no Brasil nas décadas de 1920 e 1930. Trabalhou no Museu Nacional e, a seguir, no Instituto de Pesquisas Educacionais, ambos no Rio de Janeiro. Neste texto, analisamos a trajetória das pesquisas em antropologia física de Ávila, que se concentraram em questões acerca da raça e mestiçagem, com particular destaque nas características antropométricas de crianças. A partir de pesquisas em escolas públicas, Ávila concluiu que os estudantes poderiam atingir melhores níveis de crescimento, se não fossem as péssimas condições sanitárias dos bairros cariocas. Ávila enfatizou que os principais problemas do país residiam nas más condições de saúde, higiene e educação da população, e não devido à dimensão racial. Ávila também participou de expedições científicas, envolveu-se em debates sobre o patrimônio arqueológico, conduziu pesquisas sobre indígenas e escreveu um romance premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1932. Argumentamos que a perspectiva de Ávila, marcada por uma crítica ao determinismo racial, fez parte de uma vertente que predominou na antropologia física praticada no Museu Nacional nas primeiras décadas do século XX, que, por sua vez, esteve associada a dinâmicas sociopolíticas mais amplas em curso no Brasil.

Palavras-chave: Antropometria. Crescimento físico. Antropologia física. Raça. Museu Nacional do Rio de Janeiro.


ABSTRACT

The physician and anthropologist José Bastos de Ávila was a major figure in the field of physical anthropology in Brazil in the 1920s and 1930s. He was affiliated with the Museu Nacional and latter with the Instituto de Pesquisas Educacionais, both in Rio de Janeiro. In this article we analyze his research in physical anthropology, which focused on questions of race and miscegenation with particular emphasis on anthropometric characteristics of children. Based on surveys carried out in public schools in Rio de Janeiro, Ávila concluded that the children could not achieve higher levels of growth due to the precarious sanitary conditions prevailing in the neighborhoods. Ávila emphasized that the main problems in Brazil were related to poor health, hygiene and education of the population, and not to racial issues. Ávila participated in scientific expeditions, debated on archaeological heritage, conducted research on indigenous peoples and wrote a novel that received an award by the Academia Brasileira de Letras in 1932. We argue that the perspective of Ávila, marked by a critique of racial determinism, was part of an intellectual current of physical anthropology that prevailed at the Museu Nacional in the early decades of 20th century, which in turn was associated with broader sociopolitical dynamics in Brazil.

Keywords: Anthropometry. Physical growth. Physical anthropology. Race. Museu Nacional do Rio de Janeiro.


 

 

INTRODUÇÃO

Em 1940, Edgard Roquette-Pinto, ex-diretor e professor do Museu Nacional, escreveu o prefácio do livro "Antropometria e desenvolvimento físico: métodos e pesquisa em antropologia física", de autoria do médico e antropólogo físico José Bastos de Ávila. Em seu texto, Roquette-Pinto faz referência às "condições excepcionalmente valiosas", o que diz respeito ao envolvimento de Ávila com pesquisas em antropologia física no Museu Nacional e no Instituto de Pesquisas Educacionais (IPE), órgão do Departamento de Instrução Pública do Rio de Janeiro. Menciona também "grandes e fundamentais conclusões" de Ávila sobre "certos elementos da população brasileira". Para Roquette-Pinto, os trabalhos de Ávila davam continuidade aos estudos de médicos e antropólogos do Museu Nacional sobre os "tipos antropológicos do Brasil", até então largamente baseados na análise de dados antropométricos de adultos (e de militares em particular). Ao mesmo tempo, inovavam ao analisar o crescimento físico de crianças. Por meio das pesquisas de Ávila, os corpos das crianças e seus padrões de crescimento e desenvolvimento físico, esquadrinhados a partir das técnicas da antropologia física, poderiam ser vistos como "espelhos da nação", refutando o argumento de que "nossos males são males do cruzamento" entre as raças (Roquette-Pinto, 1940, p. 6).

O objetivo deste trabalho é contextualizar os estudos em antropologia física realizados por Ávila quando esteve vinculado ao Museu Nacional nas décadas de 1920 e 1930. Suas investigações abordaram temas variados, como a craniometria (analisada a partir de coleções do Museu Nacional) e a antropometria de populações indígenas que viviam em regiões de fronteira, bem como as características morfológicas e os padrões de crescimento físico de escolares do Rio de Janeiro1. O foco de interesse de Ávila foram os chamados 'tipos antropológicos', ou seja, aqueles elementos humanos tidos como racialmente representativos da população brasileira (Souza, 2012), bem como os efeitos e as consequências da mestiçagem no país. Ávila, na linha de outros antropólogos do Museu Nacional, concluiu que os problemas do país não estariam na mestiçagem, mas, sobretudo, nas más condições de saúde, higiene e educação. Desse modo, ele se opôs a teses deterministas que consideravam a mestiçagem um obstáculo à viabilidade da nação.

No âmbito da antropologia física, Ávila se concentrou na antropometria, especialidade que abarca a maior parte de seus estudos, manuais e cursos (Ávila, 1940, 1958). Na primeira parte deste artigo, faremos uma breve exposição da história da antropometria, privilegiando sua utilização na caracterização das condições de vida. Em seguida, abordaremos as atividades desenvolvidas por Ávila, principalmente no Museu Nacional entre as décadas de 1920 e 1930, voltadas para pesquisas sobre escolares, além de sua participação em expedições científicas. Por fim, comentaremos sua obra "No Pacoval de Carimbé", publicada em 1933. Por meio da mescla de fatos, personagens reais e conteúdos ficcionais, neste livro, Ávila expressou suas concepções acerca da sociedade brasileira, abordando assuntos como educação, saúde e integração nacional, que também foram temas centrais em suas pesquisas em antropologia física.

 

ANTROPOMETRIA E CRESCIMENTO FÍSICO HUMANO

A partir do século XVIII, a antropometria tornou-se uma técnica crescentemente empregada na prática médica (França-Junior, 1993; Tanner, 1981); foi quando as informações sobre medidas do corpo começaram a fazer parte de esquemas de diagnóstico e de prognóstico. As análises antropométricas de crianças foram impulsionadas pela prática da medicina clínica, que considerava o crescimento um indicador quantitativo da progressão das doenças nos corpos.

Na passagem do século XVIII para o XIX, surgiram novas necessidades que circunscreveram o contexto no qual a prática antropométrica tornou-se científica. Nesse período, a antropometria se difundiu na avaliação da mão de obra em fábricas francesas e, principalmente, inglesas. Em relação às crianças, houve uma ampliação da utilização da técnica antropométrica, sendo aplicada em escolas, orfanatos e maternidades (Tanner, 1981).

França-Junior (1993) argumenta que foi nesse contexto que ocorreu a cientifização da prática antropométrica. A seu ver, as novas necessidades colocadas pela vida em sociedade influenciaram a transformação dos objetos, conceitos e instrumentos das práticas de saúde, entre as quais se incluía a antropometria. Tornou-se, então, uma exigência política, econômica e ideológica cuidar da saúde dos pobres no calamitoso contexto sanitário das cidades no início do século XIX (Foucault, 1979). A ameaça econômica das epidemias foi um fator chave na reestruturação das práticas institucionais de saúde, sobretudo devido ao risco de paralisação da produção industrial em função das epidemias (França-Junior, 1993).

Na primeira metade do século XIX, o médico francês Louis René Villermé (1782-1863) realizou uma pioneira análise de dados antropométricos. Ele utilizou informações acerca da estatura para investigar as causas que acelerariam ou retardariam o crescimento, gerando uma nova compreensão do fenômeno, ao observar as condições sociais que o influenciariam. Com isso, Villermé estabeleceu enunciações reconhecidas até hoje na saúde pública, como a existência de correlações estatísticas entre variáveis somáticas, relacionadas aos padrões de crescimento físico, e aspectos socioeconômicos (França-Junior, 1993; Tanner, 1981).

Atributos físicos, como estatura e peso, passaram a ser crescentemente utilizados como indicadores das condições de vida e saúde da população ao longo do século XIX. O belga Adolphe Quetelet (1796-1894) sistematizou, de um ponto de vista matemático, o uso de dados antropométricos no plano da relação com condições sociais, o que fez por meio da comparação de diferenças estaturais entre sociedades, empregando, entre outros conceitos, os de Villermé. De acordo com França-Junior (1993, p. 101):

(...) foi no âmbito dos saberes científicos e sanitários que a antropometria se recompôs. O estabelecimento das medidas antropométricas como indicador de saúde a partir de uma objetividade social e sua normalização por meio de médias são elementos que indicam o caráter da transformação que transpassou o saber antropométrico.

Um exemplo dessa nova objetividade social do saber antropométrico é o trabalho do higienista inglês Edwin Chadwick (1800-1890), que considerava as mensurações importantes para fins sanitários. Segundo George Rosen (1994), Chadwick acreditava que os ambientes físico e social tinham influências sobre as condições de saúde. Desse modo, foi favorável à implantação da Divisão de Estatística Médica no Escritório da Lei dos Pobres e à criação do Registro de Nascimentos e Mortes em 1836. Chadwick defendia que os registros das causas de doença e morte seriam importantes para a prevenção. A partir de certos conjuntos de dados (como condições de morbidade, peso e altura), oriundos da inspeção de crianças em fábricas na Inglaterra, ajudou a introduzir mudanças na legislação que regulamentava o trabalho infantil (Rosen, 1994).

Na segunda metade do século XIX, sanitaristas, antropólogos, educadores e pediatras de várias nacionalidades passaram a se interessar crescentemente pela antropometria. As medições, antes aplicadas, sobretudo, à força de trabalho, se estenderam ainda mais para o espaço da escola e também se difundiram em maternidades e consultórios pediátricos (França-Junior, 1993; Tanner, 1981).

No final do século XIX, o uso da antropometria se generalizou no âmbito da pediatria. A medição dos recém-nascidos passou a ser rotina nas maternidades, assim como o acompanhamento do crescimento nos anos da infância por meio do registro de peso, estatura e medidas cranianas. Foram criadas tabelas e gráficos com médias de peso e estatura, segundo a idade, para realizar o monitoramento do crescimento. O primeiro gráfico com médias e desvios-padrão de medidas antropométricas para fins de acompanhamento do crescimento físico foi formulado pelo médico inglês Charles Roberts, em 1908 (Tanner, 1981). Nesse contexto, foram realizadas, em vários países, investigações antropométricas em escolares. Um exemplo foi o relatório final do "Anthropometric Committee", de 1883, que se baseou em dados de crianças e adolescentes que frequentavam escolas públicas e privadas na Grã-Bretanha. Esses dados foram utilizados para gerar um 'padrão médio' para a população em geral. Em 1919, esse padrão estaria afixado em todas as balanças encontradas em locais públicos da Grã-Bretanha (França-Junior, 1993).

Nas primeiras décadas do século XX, a antropometria estava difundida como saber científico e era amplamente empregada na caracterização de aspectos morfológicos de crianças e adultos, tanto no âmbito da saúde (e da pediatria, em particular)2 como de áreas correlatas, como foi o caso da antropologia física (Tanner, 1981).

 

ÁVILA E A ANTROPOMETRIA DO ESCOLAR

As primeiras pesquisas antropométricas de Ávila com escolares aconteceram ainda na década de 1910, quando ele ocupava o cargo de médico escolar da Prefeitura do Distrito Federal, atual Rio de Janeiro3. Mas foi somente nos anos 1930, após ingressar no Museu Nacional, que ele viria a publicar trabalhos a partir desses dados. Em maio de 1932, Ávila assumiu o cargo de professor interino da Seção de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional, o que ocorreu durante o impedimento de Álvaro Fróes da Fonseca, que requisitou dez meses de afastamento, alegando motivos particulares4. O nome de Ávila já constava no "Relatório da Seção de Antropologia e Etnografia" de setembro de 1928. Nesse documento, a então professora-chefe da Seção, Heloísa Alberto Torres, faz menção a pesquisas realizadas por Ávila juntamente com Ermírio Lima sobre o ptérion5 e a área naso-frontal de indígenas sul-americanos6. A proximidade de Ávila com Fróes da Fonseca, que ingressou no Museu Nacional em 1914, assim como o seu interesse pela antropologia física, possivelmente contribuíram para que ingressasse na instituição (Keuller, 2012)7. Em fins de 1934, Fonseca pediu novo afastamento. Passado o tempo solicitado, não reassumiu o cargo, tendo sido exonerado em outubro de 1935. Com isso, Ávila assumiu uma posição permanente na instituição.

Antes de analisarmos os trabalhos realizados por Ávila nesse período, é importante caracterizar os instrumentos e as técnicas utilizados pelo antropólogo em suas investigações. Nas pesquisas sobre os escolares, ele contou com um modelo de ficha antropométrica elaborada por Fróes da Fonseca para a Seção de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional (Figura 1) (Fonseca, 1927). Segundo Fonseca, as fichas foram idealizadas de acordo com instruções de Roquette-Pinto, que naquele momento coletava dados para seu influente texto "Nota sobre os typos anthropológicos do Brasil" (Roquette-Pinto, 1929; Santos, 2010; Souza, 2012).

 

 

A ficha escolar incluía uma detalhada caracterização morfológica das crianças (Figura 1). A primeira face estava dividida em quatro blocos. O primeiro destinava-se a inserir informações acerca do número da ficha e a data de preenchimento. A seguir, havia espaço para dados de identificação da criança, incluindo nome, nacionalidade, nomes dos pais, sexo, idade e algumas características físicas (sobre pele, cabelo e olhos). O terceiro conjunto de informações referia-se à dentição (presença de cáries). Finalmente, no último bloco da primeira face, estavam listadas trinta e nove medidas antropométricas a serem coletadas. A segunda face da ficha também estava reservada para o registro de medidas, incluindo um conjunto de índices (cefálico, facial, nasal etc.), capacidade pulmonar (espirometria), força muscular (dinamometria), caracterização do tipo morfológico, além de outras vinte e uma medidas (Figura 2). Havia também espaços para registro de impressão digital, fotografia e observações gerais.

 

 

No que diz respeito à metodologia de coleta de dados, Fonseca (1927) preconizou, sobretudo, o uso de instrumentos concebidos pelo antropólogo alemão Rudolf Martin. Entre fins do século XIX e início do XX, instrumentos franceses, muitos deles criados por Paul Broca, predominaram nos centros de investigação antropológica de todo o mundo, vindo a ser substituídos por aqueles de origem alemã nas décadas seguintes (Sá et al., 2010). Ávila utilizou o instrumental de Martin na coleta dos dados analisados no trabalho "Formas e dimensões da cabeça e coeficiente de cefalização". Ele consistia de seis instrumentos (compasso de toque, compasso de corrediça, antropômetro, fita métrica, goniômetro e dinamômetro), considerados práticos e de fácil transporte (Figura 3). Os dois primeiros eram utilizados principalmente para a aferição de dados craniométricos e ângulos faciais. Exceto o dinamômetro, que servia para medir a força despendida pelos membros superiores e inferiores, os demais instrumentos eram empregados para tomar medidas e ângulos corporais. Portanto, a antropometria praticada por Ávila contava com os mais modernos aparelhos e instrumentos daquele período. Possivelmente, as pesquisas anteriores de Roquette-Pinto sobre os 'tipos antropológicos' do Brasil contribuíram para enriquecer o acervo de aparelhos antropométricos da Seção de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional, influenciando, assim, os procedimentos empregados nas investigações de Ávila.

 

 

Logo após assumir o cargo de professor da Seção de Antropologia e Etnografia, Ávila reuniu os principais resultados de suas pesquisas no livro "Questões de Antropologia Brasileira" (1935). A obra também incluiu resumos das aulas proferidas no terceiro curso de antropologia, ministrado em 1932 e aberto ao público em geral. A estrutura do curso foi semelhante àquela dos oferecidos pelo Serviço de Assistência ao Ensino do Museu Nacional, ou seja, com aulas teóricas e práticas que abarcavam os conteúdos básicos da disciplina ou temática em questão. Esse serviço, criado por Roquette-Pinto em 1927, patrocinava cursos de extensão em conjunto com a Universidade do Rio de Janeiro. O curso ministrado por Ávila foi novamente oferecido em 19338.

Os capítulos "Noções de estatística aplicada à biometria" e "A antropometria" sintetizaram as aulas iniciais do curso. No primeiro, foram apresentadas as principais fórmulas, cálculos e equações utilizados na montagem de tabelas e gráficos derivados de resultados antropométricos; no segundo, Ávila argumentou que "os modernos estudos de antropologia, ao reconhecerem os tipos raciais e constitucionais dos seres humanos, puseram em foco a antropometria e a significação da biologia comparativa dos seres humanos" (Ávila, 1935a, p. 7). Assim, a antropometria traria subsídios para a biologia e fundamentos para o que ele chamou de "capítulo promissor de higiene social" (Ávila, 1935a, p. 7). Ávila ponderou que o pediatra deveria conhecer a técnica antropométrica para acompanhar o desenvolvimento da criança em idade pré-escolar. A seu ver, a antropometria era relevante em função de suas consequências práticas no plano da higiene social, devendo também ser realizada nos institutos de ensino. Citando Fróes da Fonseca e Roquette-Pinto, Ávila definiu antropologia como "a biologia comparativa dos grupos humanos encarados do ponto de vista do sexo, da idade, da constituição e da raça" (Ávila, 1935a, p. 9). Diferente da etnologia, que estuda "os aspectos sociais desses grupos", ele concebia a antropometria como a "biometria do homem". Na perspectiva da antropologia física da época, a matéria de estudo da antropometria seria o ser humano do ponto de vista biométrico, e o método de pesquisa seria a mensuração e o conhecimento aprofundado da biologia humana e seus fins.

Além dos trabalhos referentes às aulas ministradas, "Questões de antropologia brasileira" contém dois textos que reúnem estudos a partir de dados colhidos de estudantes, entre sete e 15 anos, de escolas públicas do Rio de Janeiro. O primeiro é "Forma e dimensões da cabeça e coeficiente de cefalização", que apresenta resultados de pesquisas craniométricas em 100 escolares do sexo masculino. As fichas analisadas derivaram de estudo em uma escola pública municipal. Sobre a metodologia da pesquisa, o antropólogo destacou o "índice de cefalização de Dubois", que mensuraria o "valor intelectual" de um indivíduo. O trabalho apresentou cálculos de quatorze índices e médias craniométricas, com diversas tabelas, gráficos e equações matemáticas. Ávila concluiu o texto afirmando que 80% das crianças teriam os índices de Dubois e o cefálico na faixa média aceitável.

A segunda investigação é "Notas sobre o desenvolvimento físico da criança em idade escolar", na qual são analisados dados coletados em 1924, a partir de 694 crianças, de ambos os sexos, do bairro de Santa Cruz9. Ávila compara seus achados com aqueles obtidos em 1919 pela Inspetoria Médica de São Paulo. Na estatura, as médias dos estudantes de São Paulo se mostraram superiores tanto nas meninas como nos meninos. Quanto ao peso, os alunos das escolas paulistanas apresentaram médias superiores no caso do sexo masculino, até os 12 anos. Nos indivíduos do sexo feminino, as crianças do Rio de Janeiro mostraram valores menores em todas as idades. Ávila concluiu que os resultados apontavam para uma superioridade do desenvolvimento físico do alunado paulistano. Argumentou que seria um resultado esperado, uma vez que as condições socioeconômicas em São Paulo seriam melhores, contrastando com o estado de pobreza da maioria do alunado de Santa Cruz, minada pelo paludismo e pelas verminoses (Ávila, 1935a, p. 74).

Ávila também contrastou os dados colhidos em Santa Cruz com aqueles resultantes de pesquisa feita pelos antropólogos franceses Variot e Chaumet em 400 alunos de escolas parisienses. Tal como na comparação com os estudantes paulistanos, o antropólogo apontou que os alunos de Santa Cruz, de maneira geral, eram menores que os franceses. Na sua perspectiva, contudo, as crianças de Santa Cruz não teriam qualquer grau de inferioridade intrínseca. Isso porque poderiam atingir melhores níveis de crescimento se as condições do bairro carioca não fossem tão ruins. Defendeu que atividades de inspeção e assistência médica poderiam ajudar na melhoria das condições das crianças (Ávila, 1935a, p. 78).

Além de "Questões de antropologia brasileira", Ávila analisou dados antropométricos de escolares em "Contribuição ao estudo do índice de Lapicque: nota prévia" (Ávila, 1935b). Esse estudo foi apresentado no 1º. Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Recife, em 1934, e organizado por Gilberto Freyre. De acordo com Williams (2004, p. 16-17), esse evento foi um marco, uma vez que abordou de forma positiva a miscigenação e a contribuição do negro para a sociedade brasileira.

O trabalho apresentado por Ávila em Recife estava voltado para o chamado 'índice de Lapicque', proposto originalmente pelo antropólogo francês Louis Lapicque. Tal índice foi definido como o quociente entre o comprimento do osso rádio (localizado no braço) e o diâmetro externo máximo da pélvis (bacia). Ávila argumentou que o reduzido número de observações feitas por Lapicque como base para a proposta do índice (de 36 somente) seria uma importante limitação. A propósito, Lapicque esteve no Brasil, onde coletou dados para a investigação e distribuição do índice. Esses dados levaram-no a concluir que valores inferiores a 1 seriam de brancos, e superiores a 1, de negros. Ávila investigou dados coletados em escolares no Rio de Janeiro, entre seis e 15 anos de idade, com ascendência africana avaliada principalmente pelo tipo de cabelo e pela cor da pele. Sua conclusão foi que o "índice de Lapicque, ao lado de outras características raciais, comprova a ascendência africana, ainda em indivíduos aparentemente de raça branca" (Ávila, 1935b, p. 35).

Como amplamente analisado na literatura antropológica e sociológica, o livro "Casa Grande & Senzala", publicado por Gilberto Freyre em 1933 (Freyre, 1950 [1933]), teve um importante papel na valorização da mestiçagem no processo de formação do povo e da cultura brasileira. É nesse contexto que se pode compreender a participação de Ávila no 1º. Congresso Afro-Brasileiro. Por meio de suas análises sobre o índice de Lapicque em crianças brancas e negras do Rio de Janeiro, ele estava, em essência, interessado em investigar a dinâmica de mestiçagem no Brasil. Ávila concluiu que o índice de Lapicque comprovaria a dimensão da mestiçagem tanto em negros quanto em "indivíduos aparentemente de raça branca". Fazendo coro a outros antropólogos, como Roquette-Pinto, Ávila argumentou que a miscigenação se fazia presente na população brasileira sem que tivesse ocorrido degeneração (ver também Castro-Faria, 1952)10.

A experiência de participação no 1º. Congresso Afro-Brasileiro influenciou os trabalhos posteriores de Ávila. Assim, após o evento, iniciou as pesquisas que iriam resultar no texto "O negro em nosso meio escolar" (Ávila, 1937). Os dados, referentes à estatura, ao peso, à altura tronco-cefálica e ao comprimento dos membros (braços e pernas), foram provenientes de alunos negros entre sete e 15 anos do sistema de ensino público do Rio de Janeiro. O trabalho reafirmou as ideias expostas em Recife, qual seja de que, por meio do índice de Lapicque, chegava-se à comprovação de que as crianças investigadas apresentavam traços de origem ancestral branca, fato que teria "origem remota", segundo o próprio autor. Na visão de Ávila, haveria dois tipos de negros no meio escolar pesquisado: um conjunto de crianças que apresentariam elevados valores de estatura e do índice de Lapicque, e um outro composto por crianças de menor estatura e com baixos valores do índice. Essas observações ecoavam as interpretações de Roquette-Pinto em "Nota sobre typos Anthropológicos" (Roquette-Pinto, 1929).

 

BASTOS DE ÁVILA: NATURALISTA

Além de realizar pesquisas antropométricas e de ocupar a função de professor, Ávila exerceu o cargo de naturalista interino da Seção de Antropologia e Etnografia nos anos de 1937 e 1938, quando se desligou do Museu Nacional11.

Segundo o regulamento da Seção de Antropologia e Etnografia, a função de naturalista-ajudante era a de realizar excursões para aquisição de produtos e artefatos indígenas e de outras procedências, ou "para exame de quaisquer fenômenos, cujo estudo aproveite à instituição e à ciência" (Keuller, 2008, p. 78). Tinha também a incumbência de ajudar os diretores da Seção na classificação das coleções e na realização de outros trabalhos técnicos. As pesquisas da 4ª. Seção do Museu Nacional estavam particularmente voltadas para as áreas de paleontologia humana, arqueologia e etnografia regional. Ao longo da década de 1930, a Seção realizou sete expedições científicas para diversas regiões do país (Keuller, 2008, p. 194-195).

Enquanto naturalista, Ávila excursionou pela região de Lagoa Santa, Minas Gerais, no primeiro semestre de 1937 (Figura 4). A partir de cartas enviadas a Roquette-Pinto, então diretor do Museu Nacional, e de relatório de viagem apresentado em setembro de 1937, é possível reconstruir aspectos da expedição. Teve por foco a investigação de grutas localizadas na fazenda Nova Granja, no vale do rio das Velhas, que abrange a região de Lagoa Santa e adjacências, ao norte de Belo Horizonte. O trabalho foi realizado a partir da parceria entre duas divisões do Museu Nacional: aquela de Estratigrafia, representada por Ruy de Lima e Silva e Ney Vidal, e a de Antropologia, na figura de Ávila. A motivação da expedição foi uma comunicação do antropólogo José Machado, em 1936, na qual fez referência a ossadas descobertas nas propriedades de seu pai. A região foi, então, visitada por Ruy de Lima e Ávila, que julgaram relevante desenvolver estudos detalhados, principalmente nas cavernas e lapas12 denominadas 'Carrancas'. José Machado mencionou também que, após as atividades de pesquisa paleontológica de Lund, no século XIX, essas lapas não mais haviam sido investigadas, o que as tornavam ainda mais interessantes13.

 

 

Já no início da expedição, Ávila se defrontou com problemas relativos à preservação dos sítios arqueológicos. Em carta enviada a Roquette-Pinto, em março de 1937, comentou que as pesquisas nas grutas de Lagoa Santa e Nova Granja estavam sendo prejudicadas devido às consequências de procedimentos inadequados, implementados por exploradores que lá estiveram anteriormente:

(...) à orientação e fundamento de futuras pesquisas rigorosas, devido a alterações e destruição de elementos fundamentais à ordem dos estudos dessa natureza, tais como - deslocamento de materiais de um ponto para o outro, escavações abandonadas deixadas descobertas e expostas à invasão de águas; introdução de elementos estranhos ao local deixados pelos pesquisadores (...), alterando aspectos primitivos (...), criando dúvidas, induzindo ao erro, dificultando pesquisas posteriores quando não tornando-as de êxito duvidoso e mesmo impossível14.

Ávila finalizou a comunicação alertando para a existência de inúmeros naturalistas estrangeiros que percorriam o território nacional e coletavam material não só para suas instituições, como também para venda ilegal no exterior. Com isso, estariam desrespeitando a legislação referente à proteção da riqueza natural do país e prejudicando pesquisas posteriores. Ávila justificou que o principal motivo para o deslocamento de suas pesquisas para as zonas de Montes Claros e Serra do Cabral, ao norte de Minas Gerais, foi a precária situação de preservação das grutas da região de Lagoa Santa15.

Em relatório de outubro de 1937, Ávila descreveu a pesquisa na forma de um diário de campo, com duas partes: a primeira é uma exposição geral dos equipamentos utilizados; a segunda, um resumo dos trabalhos executados. O relatório foi acompanhado de anexos, incluindo fotos e plantas dos terrenos pesquisados. O antropólogo afirmou que, antes do início da expedição, necessitou comprar material adequado para a exploração científica, como equipamentos fotográficos e aparelhos de iluminação de cavernas. Mencionou também que foi necessário improvisar instrumentos de exploração a partir de peças utilizadas na lavoura, como enxadas. Foi ainda preciso contratar pessoal local para auxiliar na exploração das cavernas. Na segunda parte, Ávila apresentou uma descrição pormenorizada da região de Nova Granja, abordando suas características geológicas e botânicas, assim como descreveu as cavernas exploradas, denominadas 'Carrancas'. Segundo o relato, o material recuperado durante a pesquisa, que teve duração de oito meses, incluiu um crânio fragmentado, provavelmente de 'Botocudos'; inúmeros outros remanescentes ósseos; um machado de pedra polida; fragmentos de pontas de flechas; material geológico para estudos posteriores; e um segundo crânio quase completo, mas sem identificação16.

Meses após o retorno da expedição, em 1938, Ávila pediu exoneração de suas funções no Museu Nacional para se dedicar integralmente ao Instituto de Pesquisas Educacionais (IPE)17. Ele havia sido convidado por Anísio Teixeira, chefe do Departamento de Instrução Pública do Rio de Janeiro, para trabalhar no recém-criado instituto. Entre 1935 e 1938, o antropólogo dividiu seu tempo entre o IPE e o Museu Nacional. No IPE, a partir de 1938, Ávila assumiu a direção da Seção de Antropometria, que tinha como objetivo o estudo do desenvolvimento físico dos escolares, com o fim de subsidiar iniciativas a serem implementadas pelo departamento18.

 

"NO PACOVAL DE CARIMBÉ": UMA INTERPRETAÇÃO DO BRASIL

Durante sua passagem pelo Museu Nacional, além das pesquisas antropológicas, Ávila escreveu o livro "No Pacoval de Carimbé", que, em 1932, ganhou o prêmio Ramos Paz, concedido pela Academia Brasileira de Letras (Ávila, 1933) (Figura 5). O texto, em tom de aventura, descreve uma expedição científica realizada por uma professora do museu à ilha de Marajó, no Pará. Mesclando fatos e personagens reais com ficção, Ávila aborda questões que foram centrais em suas pesquisas em antropologia física, incluindo temas relacionados à saúde, educação e integração nacional no Brasil nas primeiras décadas do século XX.

 

 

O antropólogo inicia o livro apresentando a personagem principal, Lúcia de Abreu, professora da Seção de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional e especialista em cerâmica marajoara. Ela teria ampliado substancialmente o acervo do museu com "belíssimas peças de valor incalculável que lançam luz sobre hábitos e cultura dos primitivos habitantes da ilha de Marajó" (Ávila, 1933, p. 11). Ávila descreve Lúcia de Abreu realizando uma palestra no salão nobre da Biblioteca Nacional, quando exibiu exemplares da coleção do museu. Na ocasião, a pesquisadora observa que a coleção já havia sido maior. Isso porque, após empréstimo para a Exposição Universal de Paris, em 1889, muitas peças voltaram danificadas devido ao mau acondicionamento. Lúcia pondera que a perda das peças foi um grande prejuízo para a história da humanidade, considerando a importância da coleção para o período pré-colombiano19.

Ávila narra a alegria da pesquisadora ao receber carta do ministro da Agricultura autorizando sua excursão para o Marajó, assim como o apoio de Roquette-Pinto, então diretor do museu20.

Lúcia se preparou ao longo de dois meses para a viagem, incluindo visitas ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em busca de mapas, documentos e relatórios sobre o Marajó. Contudo, o mais importante documento foi localizado por Lúcia no acervo de Ladislau Netto, ex-diretor do Museu Nacional. Era um roteiro, ainda que incompleto, de uma expedição à ilha.

Na sequência, Ávila expõe o itinerário da viagem de Lúcia, onde o primeiro trecho, até Recife, foi de avião, e o restante de barco. Na primeira parte, Lúcia esteve acompanhada por Pedro Rebouças, jornalista do "Diário de São Paulo", com quem trava longas conversas. Enquanto espera o avião, ao lado de Roquettte-Pinto, Lúcia pergunta a Rebouças sobre suas impressões acerca do interior do país:

Infelizmente, minha senhora, as mais desconsoladoras; no sul, como no centro, chama atenção do viajante o abandono entristecedor em que vive nossa gente. Sem higiene, sem instrução,

entregue à rotina, é de admirar que já não esteja de todo degenerada; é que o cerne é realmente ótimo. Provavelmente o mesmo espetáculo desalentador me aguarda no Norte desconhecido (Ávila, 1933, p. 35).

Assim que pronuncia essas palavras, Rebouças é interrompido por Roquette-Pinto, que afirma ser o jornalista um pessimista, uma vez que as regiões mencionadas eram povoadas por "trabalhadores incansáveis, sentinelas avançados de nossa terra". Rebouças retruca:

Meu caro Diretor, refiro-me ao povo, ao brasileiro que sofre e que trabalha, e que não tem uma escola para mandar o filho aprender aquilo que ele também ignora e que o libertaria do sofrimento e

da miséria. (...) Como sanar o mal? O problema na aparência complexo, se resolveria, penso eu, naturalmente, suavemente, dentro da ordem, com uma administração sadia e forte de boa vontade e de sã consciência. Administradores, eis o que nos tem faltado. (...) Para cúmulo dos males, a política interesseira e mesquinha, sem dúvida a maior praga do Brasil, pior que a saúva e mais nefasta que as secas, aí está vigilante para abafar as iniciativas felizes de alguns patriotas inspirados (Ávila, 1933, p. 35-36).

Por meio da fala de Rebouças, Ávila indiretamente expressa sua perspectiva acerca do que considera ser a forma mais adequada de funcionamento do regime político brasileiro, sobre o cotidiano da política nacional ("interesseira e mesquinha") e sobre os brasileiros (o "cerne é ótimo"). A mensagem é a de que melhores condições de saúde e educação, juntamente com uma política "forte e sadia", libertariam o povo do "sofrimento e da miséria".

Na sequência do diálogo, Rebouças afirma que o Brasil deveria ter uma divisão territorial diferente, com menos estados e câmaras, através da qual se economizariam recursos que poderiam ser investidos em escolas e hospitais. Além disso, cada estado deveria ter sua faixa de litoral e sertão, de modo que "não haveria lugar para bairrismo, pois todos seriam brasileiros":

O Brasil apresenta duas zonas distintas, a do litoral em que domina o comércio, [e] a do hinterland ou sertão em que devia dominar a agricultura. (...) Cada Estado teria sua faixa de litoral e de sertão; punha-se um ponto final nas questões irritantes de limites entre Estados da mesma pátria. (...) O maior benefício seria sem dúvida [em] fecharem-se as câmaras e os senados quixotescos, liquidarem-se os governos fantasia, revertendo para o povo em escolas e hospitais as dotações orçamentárias (Ávila, 1933, p. 35-38).

Como se observa na transcrição acima, no decorrer de "No Pacoval do Carimbé" há diversas referências à obra "Os Sertões", de Euclides da Cunha. A propósito, Lúcia, após encontrar parte do roteiro de viagem de Ladislau Netto, localizou o restante justamente entre páginas de um exemplar de "Os Sertões" que pertencia ao professor Henrique Robertson, personagem que ciceroneou a antropóloga em sua escala no Recife. Como bem conhecido, "Os Sertões" foi uma obra de referência para importantes setores da intelectualidade brasileira das primeiras décadas do século XX, com sua ênfase na noção de abandono de vastas áreas do país e responsabilizando as elites por essa situação (Lima, 1999; Hochman e Lima, 1996)21.

Ávila se refere à questão do descaso dos brasileiros por sua própria cultura e país em várias passagens do livro. Assim, por ocasião de uma escala em Salvador, Lúcia de Abreu e Pedro Rebouças saem do avião e seguem para almoçar. Os personagens não encontram pratos típicos da culinária baiana no restaurante:

- Onde está a velha Bahia, aquela Bahia que todos conhecemos pelo menos de tradição?! A Bahia do 'cururu', do 'efó', do 'bobó', do 'vatapá', da 'moqueca', do 'abará', do 'acarajé', das 'frigideiras de camarão'?! (...) Na Europa, quando se visitam suas cidades, percebe-se o interesse com que são exibidos os produtos locais, característicos da terra. (...) O garçom (...) distribuía os pratos solicitados:
- Que vão tomar, perguntou, vinho, cerveja?
- Traga-nos água de côco, geladinha.
- Ah! Queira desculpar, não temos água de côco.
- Está vendo?! Excelentíssima, não temos água de côco! (...) Mas, afinal, Professora, não tem a Senhora a impressão dolorosa de que nós brasileiros não ligamos às nossas coisas? De que vivemos uma vida que não aquela que deveríamos viver? (Ávila, 1933, p. 56-59).

O mesmo desprezo reservado à culinária local se estenderia para as instituições científicas localizadas fora do centro do país. A descrição do Museu Nacional feita por Ávila, como vimos anteriormente, se mostra bastante diferente daquela do Museu Goeldi, no Pará, exposto a partir de uma perspectiva de abandono22:

A Srta. Lúcia de Abreu tomou o auto defronte ao teatro da Paz e mandou tocar para o Museu Goeldi. (...) Um jardim quase abandonado o cercava, belo não obstante, pelas belas árvores que lhe davam sombra. Alguns animais, aves e roedores o povoavam fugindo ariscos à vista dos raros visitantes. (...) Se Goeldi pudesse imaginar a que estado de decadência vai descambando o monumento gigantesco que criou, talvez do ímpeto de sua indignação cobrasse forças e ânimo para de novo trocar a névoa de sua pátria pela luminosidade da Amazônia, e tentasse salvar do desmoronamento total a obra a que tinha consagrado esforços de sua vida. (...) A Professora preferiu conservar-se incógnita; como qualquer curioso anônimo percorreu as galerias desertas e abandonadas do Museu (...), faltavam ali o espírito agudo e a mão carinhosa que desse outro brilho àqueles tesouros desconhecidos, realçando-lhes o valor real (Ávila, 1933, p. 103-106).

O teor nacionalista que atravessa a narrativa de Ávila também se manifesta na escolha dos 'vilões' do romance. Enquanto a heroína é uma cientista brasileira, os vilões são estrangeiros, mais especificamente alemães, que queriam a todo custo chegar à frente de Lúcia ao local onde estavam as cerâmicas marajoaras, com vistas a retirá-las e vendê-las ilegalmente. Já no final do romance, Lúcia de Abreu, depois de viajar por ar e por mar, chega à ilha de Marajó, onde teve a ajuda de um descendente marajoara para chegar ao "Pacoval de Carimbé". Carlos Dumpel, contrabandista alemão, tentou impedir a chegada de Lúcia ao referido lugar, construindo ciladas e armadilhas, mas morre em um desses intentos. Lúcia alcança finalmente o seu destino, onde recolhe grande quantidade de objetos para a coleção do Museu Nacional. Contudo, uma enxurrada leva todos os materiais, impedindo a pesquisadora de retornar com seus achados.

No livro "No Pacoval do Carimbé", Ávila discute aspectos importantes da sociedade brasileira daquele período. Expressa reiteradamente sua perspectiva acerca da importância da educação e da saúde na construção nacional, além de defender o argumento quanto à valorização do patrimônio natural e cultural do país. O antropólogo lança mão de ideias e perspectivas que estavam presentes nas interpretações do Brasil contidas no pensamento de Euclides da Cunha e de outros influentes intelectuais das primeiras décadas do século XX, incluindo o próprio Roquette-Pinto (Santos, 2008, 2010; Souza, 2012).

"No Pacoval do Carimbé" também pode ser interpretado como um retrato do 'fazer ciência' naquele período no Brasil. Isso porque relata tanto a demora de Lúcia de Abreu para conseguir autorização e financiamento para a expedição, como as dificuldades durante a viagem em si, incluindo a pane no hidroavião e a improvisação de ferramentas, além da falta de auxiliares para as escavações. Ávila traz para sua trama contrabandistas que viriam ao país roubar peças arqueológicas e obter lucros com o comércio ilegal. Vale lembrar que foi também no início da década de 1930, época de publicação do livro de Ávila, que se estava discutindo a criação do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil, o que ocorreu em 1933. Como já indicado, o Conselho tinha, entre seus objetivos, a fiscalização das expedições e escavações realizadas por cientistas brasileiros e estrangeiros, com vistas a preservar o patrimônio cultural do país (Grupioni, 1998).

A obra de Ávila é uma aventura que tem como base personagens e eventos importantes da história do Brasil nas três primeiras décadas do século XX. Conforme documentado por Ribeiro (2010), a personagem de Lúcia de Abreu é certamente inspirada em Heloísa Alberto Torres, naturalista e colega de Ávila na Seção de Antropologia e Etnografia do Museu Nacional, e que viria a ser futura diretora desta instituição. Na perspectiva de Oliveira (1988), o livro de Ávila retrata o período "heróico" da história da antropologia no Brasil (entre as décadas de 1920 e 1930), quando a profissão de antropólogo e o próprio campo antropológico ainda estavam por ser institucionalizados no país.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, analisamos a trajetória de José Bastos de Ávila, com particular destaque para suas investigações sobre a antropologia física de escolares no Rio de Janeiro (e em antropometria, em particular), abordando também seu envolvimento com outras áreas da antropologia (como a arqueologia) e os escritos de ficção, como foi o caso do livro "No Pacoval do Carimbé". Ressaltamos sua inserção na agenda de pesquisas em antropologia física, que estavam sendo conduzidas no Museu Nacional nas primeiras décadas do século XX. Tal como a obra de outros antropólogos da instituição, como Roquette-Pinto, os trabalhos de Ávila, ao mesmo tempo em que eram baseados em uma antropologia física fortemente racializada, corrente à época, defendiam a libertação de amarras teóricas e ideológicas impostas pelos ideários raciais, que viam na mestiçagem a principal fonte de degeneração do país. Na chave analítica de não somente enfatizar (e buscar quantificar) a dimensão do processo de mestiçagem no Brasil, como também positivá-la, Ávila foi um intelectual que circulou tanto por instituições de pesquisa como por agências diretamente associadas à implementação de políticas públicas, como foi o caso do Instituto de Pesquisas Educacionais (IPE). Como destacou Santos (2010, p. 104), para a antropologia física do Museu Nacional nas três primeiras décadas do século XX,

sob a "objetividade" que as técnicas craniométricas e somatométricas pareciam conferir às pesquisas, situava-se uma dinâmica na qual ciência e debates político-sociais retroalimentavam-se ou, utilizando um termo mais apropriado ao discurso antropológico de então, hibridizavam-se, mesclavam-se, miscigenavam-se, no qual a questão da mestiçagem racial, tão condenada por muitas e variadas correntes científicas da época, desempenhava papel central.

Nesse sentido, a trajetória de Ávila exemplifica como a antropologia física, com suas teorias e técnicas de caracterização do corpo humano, participou como elemento importante nas redes e nas narrativas científicas relacionadas ao processo de nation-building brasileiro.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Mônica Coelho, pela ajuda na localização de documentos no Arquivo de Antropologia Física do Museu Nacional. Este trabalho resulta de dissertação de mestrado defendida pelo primeiro autor no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz. Durante o mestrado, Gonçalves foi bolsista da Fundação Oswaldo Cruz. Agradecemos os comentários de Claudia Rodrigues-Carvalho, Nísia Trindade Lima e Vanderlei Sebastião de Souza.

 

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Autor para correspondência:
Assis da Silva Gonçalves
Rua São Geraldo, 74, casa 5. Xerém
Duque de Caxias, RJ, Brasil. CEP 25250-490
(goncalvesassis@gmail.com)

Recebido em 20/03/2012
Aprovado em 10/10/2012

 

 

1 Este trabalho foi realizado a partir da consulta aos seguintes acervos: o Arquivo de Antropologia Física do Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional (Santos e Mello e Silva, 2006); a Seção de Memória e Arquivo (SEMEAR) do Museu Nacional; o Arquivo Pessoal Lourenço Filho, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV); o Fundo Roquette-Pinto, da Academia Brasileira de Letras (ABL); a Biblioteca do Museu Nacional e o arquivo da Casa de Cultura Heloísa Alberto Torres (CCHAT). No arquivo do Setor de Antropologia Física, trabalhamos com as diversas anotações de Ávila sobre suas pesquisas antropométricas, juntamente com os originais de textos publicados por ele. Também foram utilizados os relatórios enviados à direção do Museu Nacional para que pudéssemos reconstituir a expedição científica realizada por Ávila em 1937. Na SEMEAR, foram localizadas informações sobre as atividades realizadas por Ávila no Museu Nacional por meio dos Relatórios da Seção de Antropologia e Etnografia (de 1928 a 1938).
2 Sobre o interesse de médicos brasileiros pela pediatria, ver Martins (2008) e Ferreira e Sanglard (2010).
3 José Bastos de Ávila nasceu em 19 de março de 1888 em Petrópolis, Rio de Janeiro. Fez o curso primário no Colégio Franco-Brasileiro e o secundário no Colégio São Vicente, ambos em sua cidade natal. A seguir, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Pedro II. Morou em Copacabana, na casa de seus tios Amália e Edmundo, até 1910, quando se matriculou na Faculdade de Medicina. Casou-se com Cinyra Muniz Freire em 1914, com quem teve dois filhos, Lygia e Fernando. Em 1918, foi aprovado em concurso para médico escolar da Prefeitura do Distrito Federal, função que exerceu por dez anos.
4 Lista de assentamento dos funcionários do Museu Nacional. DA 294, p. 133; DA 294, p. 67 e 68; e DA 291, f. 4 v. Seção de Memória e Arquivo, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
5 Essa região está localizada na porção lateral do crânio, atrás do globo ocular, resultando do encontro de quatro ossos. Na perspectiva da antropologia física da época, teria um arranjo que variaria de indivíduo para indivíduo e também assumiria contornos distintos em determinados grupos humanos. Ávila (1935a), citando autores como Ried, Anutschin, Oettking, Sarasin, Mllison e Lange, atribui grande valor, enquanto característica racial, ao ptérion.
6 Relatório da Seção de Memória e Arquivo. Rio de Janeiro, 14/09/1928. MN DR Doc. 474, pasta 103. Seção de Memória e Arquivo, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
7 Quando aluno na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Ávila dividiu um quarto de sobrado com Álvaro Fróes da Fonseca, do qual se tornaria amigo próximo.
8 De acordo com Keuller (2008, p. 186), a grade dos cursos de extensão oferecidos em 1933 era a seguinte: Curso popular de Biologia (Roquette-Pinto); Estratigrafia e Paleontologia (Padberg-Drenkpol); Estudos nacionais de Etnografia do Brasil (Heloísa Alberto Torres e Raimundo Lopes); Fitogeografia (A. J. Sampaio); Escorpiões e outros aracnídeos peçonhentos do Brasil (Mello Leitão); e Antropometria (José Bastos de Ávila).
9 É provável que Ávila tenha escolhido essa região por ter conhecimento prévio sobre as condições do local, uma vez que trabalhou como médico escolar da prefeitura do Distrito Federal durante a década de 1910, conforme já indicado.
10 Williams (2004, p. 30-31) apresenta uma interpretação que aborda a contribuição de Ávila tão somente a partir da utilização de técnicas "remanescentes do racismo científico". O que tal interpretação não leva em consideração é o que poderíamos chamar da 'autoridade científica', derivada dos métodos antropométricos e da antropologia física, de uma maneira mais geral, da época. Tal autoridade parece ter sido reconhecida por Freyre, por meio da presença de Ávila em Recife, especialmente porque os estudos de Ávila apontavam para a intensidade da contribuição africana no Brasil.
11 Lista de assentamento dos funcionários do Museu Nacional, Rio de Janeiro. DA 294, p. 133. Seção de Memória e Arquivo, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
12 O termo 'lapa' se refere à laje que se sobressai de um rochedo ou encosta, formando refúgio ou pequena caverna.
13 Correspondência e relatório dos trabalhos de exploração realizados por Bastos de Ávila e Ney Vidal na gruta de Carrancas, em Minas Gerais, em 1937. AF. T.1.1.012. Arquivo de Antropologia Física do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
14 Correspondência e relatório dos trabalhos de exploração realizados por Bastos de Ávila e Ney Vidal na gruta de Carrancas, em Minas Gerais, em 1937. AF. T.1.1.012, p. 2. Arquivo de Antropologia Física do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
15 Alguns anos antes da expedição de Ávila, em 1933, foi criado o Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil, que tinha por objetivo fiscalizar as expedições realizadas tanto por brasileiros quanto por estrangeiros. Além disso, controlava a saída de objetos museológicos e designava funcionários para a fiscalização de escavações arqueológicas. Para mais informações acerca do Conselho, ver Grupioni (1998).
16 Correspondência e relatório dos trabalhos de exploração realizados por Bastos de Ávila e Ney Vidal na gruta de Carrancas, em Minas Gerais, em 1937. AF. T.1.1.012, p. 16-17. Arquivo de Antropologia Física do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (RJ).
17 Para mais informações acerca das políticas educacionais implementadas por Anísio Teixeira na rede de ensino público do Rio de Janeiro na década de 1930, ver Dávila (2006). Consultar também Arquivo Pessoal Lourenço Filho - Documentos relativos ao Instituto de Pesquisas Educacionais, contendo relatórios e material administrativo; e um esboço para a elaboração de um livro sobre a educação na América Latina. Microfilme: Rolo 7- Foto 1 a 79. Arquivo do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro (RJ).
18 Ávila permaneceu no IPE até a década de 1950, quando deu continuidade às suas pesquisas em escolares, tendo por foco a rede municipal pública de ensino do Rio de Janeiro. A 'orelha' do livro "Antropologia Física - Introdução", publicado por Ávila em 1958, oferece informações biográficas adicionais. Indica que ele foi também docente da Faculdade Nacional de Medicina, da Universidade do Brasil, e professor em disponibilidade da Faculdade Fluminense de Medicina. Na ocasião da publicação de "Antropologia Física - Introdução", Ávila ocupava a Cadeira de Antropologia Física na Faculdade de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica e do Instituto Santa Úrsula.
19 De fato, em 1888, consta em relatório que Ladislau Netto, então diretor do Museu Nacional, enviou objetos cerâmicos de Marajó para o VII Congresso de Americanistas, sediado em Berlim, quando parte deles teria sido perdida. As demais peças da coleção foram expostas na seção brasileira da Exposição Universal de Paris, em 1889 (Keuller, 2008, p. 70-71).
20 Roquette-Pinto e Ladislau Netto são os únicos personagens a quem Ávila faz alusão diretamente, sem uso de pseudônimos.
21 De certo modo, pode-se argumentar que, enquanto médico escolar na década de 1920 e em suas pesquisas antropométricas em escolares na década de 1930 nas periferias do Rio de Janeiro, Ávila 'visitou' os sertões, quando constatou as más condições sanitárias e de vida dos estudantes dos subúrbios cariocas e como elas prejudicavam o desenvolvimento físico e intelectual dos alunos. Lima (1999) chama atenção para a imagem criada pelo médico e romancista Afrânio Peixoto, de que o sertão não estaria apenas nos confins do Brasil, mas também no Rio de Janeiro - começaria onde termina a Avenida Central.
22 Corrêa (2003, p. 72) também chama a atenção para essa passagem, na qual Ávila descreve de forma diferente as duas instituições. Maio e Sá (2000) destacam a difícil situação na qual se encontrava o Museu Goeldi nos anos 1930 e 1940 (ver também Sanjad, 2010).

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