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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.14 no.1 Belém Jan./Apr. 2019  Epub Apr 29, 2019

https://doi.org/10.1590/1981.81222019000100001 

CARTA DA EDITORA

Línguas indígenas: patrimônio e conhecimento

Hein van der Voort1 

Jimena Felipe Beltrão2 

1Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém, Pará, Brasil

2Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém, Pará, Brasil


Línguas indígenas: patrimônio e conhecimento

Em 2019, o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi comemora 125 anos de uma trajetória de difusão de conhecimento. Para a ocasião foi criado um selo aplicado à capa das edições. A versão Ciências Humanas celebra também o Ano Internacional das Línguas Indígenas, decretado pela UNESCO. De acordo com a UNESCO, “[...] a maioria dos habitantes do planeta (97%) fala somente 4% de todas línguas conhecidas. Isso significa que 96% das quase 7 mil línguas conhecidas são faladas por apenas 3% das pessoas no mundo. Estes 3% se constituem, na maioria, de povos indígenas cujas línguas estão sob constante ameaça de extinção” (Beltrão; Leão, 2019). Sob vários tipos de pressão (cultural, econômica, ambiental), os povos indígenas veem seus modos de vida ameaçados num panorama onde, apenas na região amazônica, há 300 línguas correndo o risco de desaparecer. Tal desaparecimento não somente representa uma perda para o banco de dados da ciência linguística; também é uma perda inestimável para as comunidades de falantes. Uma língua não é simplesmente um sistema intercambiável para transferir informação; também é um instrumento crucial para a afirmação da identidade individual, étnica e social do ser humano. Além do mais, cada língua é um repositório de conhecimento especializado acumulado durante a existência de um povo específico.

Há mais de 50 anos, o Museu Paraense Emílio Goeldi atua para registrar, pesquisar e preservar línguas indígenas na Amazônia e regiões adjacentes. Uma das estratégias é a documentação em áudio e vídeo do conhecimento linguístico e das tradições orais, para criar um registro permanente e acessível, em colaboração com os povos indígenas. Hoje, o acervo digital da área de Linguística do Museu Goeldi conta com material que representa, em vários graus, mais de 80 línguas indígenas. Além disso, o Museu Goeldi está envolvido no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), iniciativa do governo patrocinada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que visa a determinar a situação atual de todas as línguas do Brasil, com respeito a número de falantes, grau de ameaça, demandas dos povos para políticas de preservação etc. Um projeto piloto em Rondônia foi recentemente concluído (Galucio et al., 2018). Uma outra frente de ação, de fato imprescindível e clássica para a disciplina, é a descrição e análise científica das línguas. Como qualquer língua natural possui uma grande complexidade, esse trabalho é demorado e entra profundamente nos detalhes dos sistemas de sons, das estruturas da gramática, da construção do léxico e das interligações entre linguagem, cultura e etno-história.

Terminologia de parentesco representa um tipo de conhecimento tradicional especializado, que tende a desaparecer muito rapidamente sob a desintegração de um povo ou sob a ameaça da sua língua. Neste número, um dossiê de Linguística traz oito artigos contribuindo a “Novas perspectivas na terminologia de parentesco nas línguas Tupí e Caribe”. Nesse dossiê, organizado por Joshua Birchall, do Museu Paraense Emílio Goeldi, e Fiona Jordan, da University of Bristol, Reino Unido, a conexão entre língua, cultura e história está sendo abordada de uma maneira ainda pouco vista, tanto na Linguística quanto na Antropologia. Esperamos que essa abordagem interdisciplinar incentive uma reapreciação do estudo de sistemas de parentesco, e que isso também contribua à preservação do conhecimento presente nos modos diversos de organizar as relações de parentesco.

Ainda nesta edição, outros três artigos tratam de economia extrativista na contribuição de Roberto Porro, “A economia invisível do babaçu e sua importância para meios de vida em comunidades agroextrativistas”; de patrimônios indígenas no trabalho de Jean Baptista e Tony Boita, com “Patrimônios indígenas nos 80 anos do Museu das Missões: etno-história e etnomuseologia aplicada à imaginária missional”; e terra preta arqueológica no artigo escrito por Rodrigo Macedo e colegas sobre “Amazonian dark earths in the fertile floodplains of the Amazon River, Brazil: an example of non-intentional formation of anthropic soils in the Central Amazon region”.

O Boletim está a caminho de uma nova avaliação e o desafio é manter o padrão e os conceitos máximos. Quando comparado a periódicos mais relevantes dentro do escopo que atua, os indicadores de impacto do Boletim são considerados, por avaliadores independentes em consultoria a SciELO, “muito bons”. A performance da revista diante do escrutínio de avaliações, porém, não se dá sem dificuldade. A profissionalização do processo editorial otimizou os recursos disponíveis e imprimiu agilidade, contribuindo para a diminuição do tempo entre aprovação e publicação cuja média atual é de seis meses. É necessário, todavia, reforçar a estrutura existente e melhorá-la para afiançar a continuidade do status que o Boletim alcançou e merece manter. Na busca de melhorar a performance em outras áreas como História, Sociologia e Museologia, as editorias associadas foram reforçadas e o corpo editorial ganhou a contribuição de Márcio Couto, da Universidade Federal do Pará; Henry Salgado Ruiz, Pontifícia Universidad Javeriana, da Colômbia; Marília Xavier Cury, da Universidade de São Paulo. Na Linguística, o reforço vem através da contribuição de Ana Vilacy Galucio.

REFERÊNCIAS

BELTRÃO, Jimena Felipe; LEÃO, Silvia de Souza. Ciência colaborativa mantém línguas indígenas vivas. Ecoamazônia, [S. l.], 2019. Disponível em: https://www.ecoamazonia.org.br/2019/03/ciencia-colaborativa-mantem-linguas-indigenas-vivas/?fbclid=IwAR3UlmgRs8vsm4tVYeiEHvpq7ayyv7vtrzZDpX1N9WJieiIsfgI-ds9sI1g. Acesso em: 1 abr. 2019. [ Links ]

GALUCIO, Ana Vilacy; MOORE, Denny; VOORT, Hein van der. O patrimônio linguístico do Brasil: novas perspectivas e abordagens no planejamento e gestão de uma política da diversidade linguística. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, v. 38, p. 194-219, 2018. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/publicacao/revista_patrimonio38.pdf. Acesso em: 5 abr. 2019. [ Links ]

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