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Tropical Plant Pathology

Print version ISSN 1982-5676On-line version ISSN 1983-2052

Trop. plant pathol. vol.33 no.6 Brasília Nov./Dec. 2008

https://doi.org/10.1590/S1982-56762008000600008 

COMUNICAÇÃO SHORT COMMUNICATION

 

Presença dos vírus da mancha anelar e do amarelo letal em frutos de mamoeiro comercializados

 

The presence of Papaya ringspot virus and Papaya lethal yellowing virus in commercialized papaya fruits

 

 

Najara F. Ramos; Aline K.Q. Nascimento; Maria Fátima B. Gonçalves; José Albérsio A. Lima

Universidade Federal do Ceará, Departamento de Fitotecnia, Laboratório de Virologia Vegetal, Cx. Postal 6046, 60451-970, Fortaleza, CE, Brasil

 

 


RESUMO

Considerando os índices elevados de incidência de vírus que infetam o mamoeiro (Carica papaya) em condições de campo e seus sintomas típicos nos frutos, foi efetuado um levantamento na Central de Comercialização do Estado do Ceará (CEASA) de frutos infetados com o vírus da mancha anelar do mamoeiro (Papaya ringspot virus, PRSV) e o vírus do amarelo letal do mamoeiro (Papaya lethal yellowing virus, PLYV). Os principais Centros de comercialização de frutos são as CEASAs e os produtos comercializados nos supermercados são, em grande parte, adquiridos nesses Centros. Os frutos coletados aleatoriamente nas bancas de comercialização da CEASA foram levados ao Laboratório de Virologia Vegetal, da Universidade Federal do Ceará (UFC) para análises sintomatológicas e testes de "enzyme linked immunosorent assay" (ELISA) indireto, com anti-soros específicos para o PRSV e PLYV. De acordo com os resultados das análises sintomatológicas, confirmadas por sorologia, dentre os 8.400 frutos analisados, 5,5% estavam infetados por PRSV e 1,2% por PLYV, demonstrando a necessidade de implementar um programa rigoroso de controle, envolvendo erradicação de fontes de vírus no campo, representados por plantas infetadas nos pomares, áreas abandonadas e inclusive cultivos de fundo de quintal.

Palavras-chave: Papaya ringspot virus, PRSV, Papaya lethal yellowing virus, PLYV, Mamão, Carica papaya.


ABSTRACT

Considering the high incidence of virus in papaya (Carica papaya) orchards and their typical symptoms in the fruits, a survey was carried out in the Central Market in the State of Ceará (CEASA) for the presence of papaya fruits infected with Papaya ringspot virus (PRSV) and Papaya lethal yellowing virus (PLYV). CEASAs are the most important fruit commercial centers, and a great number of plant products sold in supermarkets are obtained in CEASA. Fruits were randomly collected from CEASA stalls and brought to the Plant Virus Laboratory at the Federal University of Ceará (UFC) to be analyzed for typical virus symptoms and tested by indirect enzyme linked immunosorbent assay (ELISA) against antisera specific to PRSV and PLYV. According to the results obtained by symptom analysis, which were confirmed by serology, among the 8,400 fruits analyzed 5.5% were infected with PRSV and 1.2% with PLYV, showing the need to implement a control program involving eradication of virus sources in the field, represented by infected plants in papaya orchards, abandoned orchards and infected plants identified in backyards.

Keywords: PRSV, PLYV, Carica papaya


 

 

O mamoeiro (Carica papaya L.) pertencente à família Caricaceae, originária da América Tropical, encontra-se distribuído em vários países tropicais e subtropicais, em latitudes que variam de 30ºN a 32ºS, em todas as regiões que lhes são ecologicamente favoráveis, com clima quente, pluviosidade abundante, solos ricos e bem drenados. Nessas condições apresenta ciclo semiperene, com pico de produção entre três a cinco anos, sendo uma das poucas plantas frutíferas com capacidade de produzir o ano inteiro. A cultura do mamoeiro possui elevada expressão econômica e se caracteriza como de grande importância social, já que gera emprego durante todo o ano e absorve mão de obra de forma continuada (Murayama, 1986).

Dados dos últimos anos revelam que o Brasil é o maior produtor de mamão, junto com o México e a Nigéria, que ocupam o segundo e o terceiro lugar, respectivamente (FAO, 2006). O México se destaca ainda como o maior exportador, ficando o Brasil em terceiro lugar e os Estados Unidos como principal importador (FAO, 2006).

O Brasil possui condições excelentes para a produção de mamão, fato que lhe confere a posição de maior produtor, com produção estimada no ano de 2005 de 1.650.000 t (FAO, 2006), que se concentra nas regiões do extremo sul da Bahia (625.812 t), no Norte do Espírito Santo (752.503 t) e no Estado do Ceará (62.856 t) (IBGE, 2006). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dados de 2006, o cultivo nacional ocupa uma área de 37.060 ha, com produção média de 1.074.330 t na Região Nordeste, 777.443 t na Região Sudeste, 29405 t na Região Norte, 11864 t no Centro-Oeste e 4.597 t na Região Sul (IBGE, 2006), sendo suficiente para abastecer o mercado local e fornecer excedente para exportação.

A partir de 1998, o Brasil passou a exportar frutos para o mercado americano, através de algumas empresas no Estado do Espírito Santo, após adoção, nessas empresas, do Sistema Integrado de Medidas para Diminuição de Risco (System Approach) norma estabelecida pelo USDA (United States Department of Agriculture). O Estado do Rio Grande do Norte, após a instalação de dois grandes grupos produtores de mamão, que desenvolvem parcerias com pequenos produtores, já exporta frutos para o mercado europeu e americano (Costa, 2002). Com isso, em 2004, o Brasil exportou 35.930 t, representando 13,38 % da exportação mundial de mamão (FAO, 2006).

A cultura do mamoeiro pode ser afetada por diversas pragas e doenças, acarretando quebra de produção ou até mesmo tornando inviável o plantio comercial em determinadas regiões. Um dos problemas encontrados em campo é a presença de viroses, representando o principal grupo de doenças da cultura, ocasionando grandes perdas, com vírus capazes de infetar até 100% do pomar em poucos meses, caso nenhuma forma de controle seja utilizada (Tavares et al., 2004; Saraiva et al., 2006). As viroses constituem-se no maior entrave à implantação de pólos produtores desta cultura, impondo uma característica itinerante ou migratória à mesma (Lima & Gomes, 1975; Saraiva et al., 2006). Essa constante migração acaba por afastar a produção dos grandes centros consumidores, para regiões mais distantes (Lima et al., 2001), trazendo um aumento nas perdas pós-colheita do produto e uma diminuição no período de comercialização dos frutos. As plantas com viroses apresentam sintomas externos nos frutos, na forma de manchas oleosas e amarelas que prejudicam sua comercialização.

A constante infecção de mamoeiros pelo vírus da mancha anelar do mamoeiro (Papaya ringspot virus, PRSV), da família Potyviridae, gênero Potyvirus, e pelo vírus do amarelo letal do mamoeiro (Papaya lethal yellowing virus, PLYV), família Tombusviridae, possível gênero Tombusvirus (Silva et al., 1997; Camarço et al., 1998), em pomares comerciais, comprometem o aspecto físico e a qualidade dos frutos, apresentando sintomas característicos, com clorose em folhas e frutos (Lima et al., 1994; 2001), ameaçando, com isso, tanto o consumo interno, como as exportações. O presente trabalho teve como objetivo avaliar a presença do PLYV e do PRSV em frutos de mamoeiro comercializados na Central de Comercialização do Estado do Ceará (CEASA).

No período de outubro de 2003 a março de 2004 foram efetuados levantamentos, visando avaliar a incidência de frutos de mamoeiro infetados com vírus, no principal Centro de Comercialização do Estado do Ceará. Foram realizadas visitas quinzenais à Central de Abastecimento do Ceará - CEASA, localizada na região metropolitana de Fortaleza, perfazendo um total de 12 visitas. Em cada visita foram observados 100 frutos escolhidos aleatoriamente em cada banca de distribuição, sendo avaliados frutos de sete distribuidores por visita, perfazendo um total de 8.400 frutos durante o período. Os frutos eram provenientes dos municípios de Apuiares, Aracati, Beberibe, Cajazeiras, Guaiuba, Limoeiro do Norte, Maranguape, Pacatuba, Paraipaba, Pereiro, Quixeré e Santa Quitéria, no Ceará; Assu, Baraúna e Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte; Santa Rita, na Paraíba e Santa Terezinha, na Bahia. Durante as inspeções foram quantificados os frutos que apresentavam sintomas típicos dos dois principais vírus que infetam o mamoeiro no Nordeste, PRSV e PLYV, consistindo de manchas anelares e manchas cloróticas, respectivamente.

Todos os frutos que apresentavam sintomas foram conduzidos ao Laboratório de Virologia Vegetal da UFC para a confirmação da infecção viral por "enzyme linked immunosorent assay" (ELISA) indireto, com anti-soros específicos para PLYV e PRSV e extratos da casca dos frutos, preparados em tampão carbonato, pH 9,6, na proporção de 1:10 (p/v). Para a absorção dos anti-soros, alíquotas de 1,0 ml de anti-soro bruto foram misturados com 20 ml de extrato de planta sadia, na presença de tampão fosfato de potássio 0,1 M, pH 7,0, sendo a mistura incubada e centrifugada a 3.000 g por 10 min, tendo-se finalmente, no sobrenadante, um anti-soro absorvido.

A reação das partículas virais com seus correspondentes anti-soros foi confirmado através do uso de imunoglobulina G (IgG) de cabra contra anti-IgG de coelho conjugada à fosfatase alcalina, e do substrato p-nitrofenil fosfato (Sigma N-9389). As leituras foram efetuadas em intervalo de 20 e 40 min no aparelho Labsystems Multiskan - MS, utilizando-se o comprimento de onda 405 nm. De acordo com o critério adotado para as análises, foram consideradas positivas as leituras que correspondiam ao dobro dos valores de absorbância registrados para os extratos de plantas sadias, usadas como testemunha.

Os resultados sorológicos confirmaram o diagnóstico sintomatológico para PRSV e PLYV nos frutos (Figura 1) coletados na CEASA. Dentre os 8.400 frutos analisados 5,5% estavam infetados com o PRSV e 1,2 % infetados com PLYV. No entanto, dependendo da localidade de produção dos frutos, os índices de ocorrência de PLYV, em frutos comercializados na CEASA, variaram de zero (maioria das localidades) a 2,3% (Limoeiro do Norte, CE). Tais resultados demonstram que a presença do PLYV ainda se encontra restrita a determinados pólos de produção. Da mesma forma, os índices de incidência do PRSV variaram de zero a 13,6% em função do local de produção (Tabela 1). Embora os índices de incidência e da distribuição do PRSV sejam elevados, o baixo índice geral de 5,5% constatados na pesquisa reflete o cuidado dos produtores, de alguns municípios, no processo de produção, adotando um programa de controle da virose no campo baseado na Produção Integrada de Frutos (PIF). No entanto, como o cenário mercadológico internacional sinaliza que cada vez mais será valorizado o aspecto qualitativo e a sustentabilidade do processo de produção agrícola, os critérios de qualidade na produção de frutos tropicais no Ceará devem ser aperfeiçoados, a fim de assegurar a aceitação do mercado externo. Diante disso, medidas de produção são adotadas, juntamente com a intervenção do Estado, para elevar os padrões de qualidade e competitividade do mamão cearense no mercado externo. O Estado do Ceará apresenta elevado potencial para produção e exportação do mamão, e no intuito de entrar para o ranking de Estado exportador de frutos do mamoeiro, ao lado do Espírito Santo e Rio Grande do Norte, o Governo Estadual publicou a Portaria Nº 537/2002, estabelecendo que as propriedades com suspeita da presença de PLYV, PRSV e Meleira, outra virose de ocorrência comum no Nordeste brasileiro (Lima et al., 2001) deverão ser interditadas e os focos imediatamente eliminados. Segundo a mesma portaria, aqueles que contribuírem para difusão destas viroses estarão sujeitos às penalidades previstas na legislação. Desta forma, os índices de frutos infetados comercializados no Estado constituem uma demonstração de que, embora grande número de produtores estejam adotando as medidas cabíveis de controle e de erradicação dos vírus, alguns ainda relutan em adotá-las ocasionando sérios prejuízos à conquista do mercado externo. A mancha anelar, o amarelo letal e a meleira do mamoeiro, a par de afetar a folhagem e a produção das plantas infetadas, ocasionam visíveis sintomas nos frutos, tornando-os inadequados para a comercialização, mesmo que no mercado interno (Lima & Camarço 1997; Lima et al., 2001).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido 25 Março 2008
Aceito 29 Dezembro 2008

 

 

Autor para correspondência: José Albérsio A. Lima, e-mail: albersio@ufc.br
Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza CE. 2007
TPP 8027
Editor Associado: F. Murilo Zerbini

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