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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.34 no.3 Porto Alegre Sept. 2013

https://doi.org/10.1590/S1983-14472013000300013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Implicações da visibilidade da enfermagem no exercício profissional

 

Implicaciones de la visibilidad de la enfermería en el ejercicio profesional

 

 

Liziani Iturriet AvilaI; Rosemary Silva da SilveiraII; Valéria Lerch LunardiIII; Geani Farias Machado FernandesIV; Joel Rolim ManciaV; Juliana Teixeira da SilveiraVI

IUniversidade Federal do Rio Grande. Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Enfermagem/Saúde (NEPES). Rio Grande – RS – Brasil
IIUniversidade Federal do Rio Grande. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Graduação da Escola de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande – (PPGEnf FURG). Membro do NEPES. Rio Grande – RS – Brasil
IIIUniversidade Federal do Rio Grande. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do PPGenf-FURG. Bolsista de Produtividade em Pesquisa/CNPq, Líder do NEPES. Rio Grande – RS – Brasil
IVUniversidade Federal do Rio Grande. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem e do PPGenf-FURG. Membro do NEPES. Rio Grande – RS – Brasil
VConselho Federal de Enfermagem – Cofen. Enfermeiro. Doutor em Enfermagem. Servidor da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Membro do Grupo de Estudos da História do Conhecimento da Enfermagem e Saúde (GEHCES). Porto Alegre – RS – Brasil
VIUniversidade Federal do Rio Grande. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Membro do NEPES. Rio Grande – RS – Brasil

Endereço do autor

 

 


RESUMO

A construção da imagem da Enfermagem é permeada por aspectos históricos, socioeconômicos e culturais. Ao explorar esta temática, objetivou-se conhecer a percepção dos enfermeiros acerca da visibilidade do cotidiano de trabalho da equipe de enfermagem. Pesquisa qualitativa do tipo exploratória, com 30 enfermeiros de um hospital universitário do sul do país. Os dados foram coletados, de julho a outubro de 2012, através de entrevista semi-estruturada e submetidos à análise textual discursiva. Os resultados apontam que a visibilidade da Enfermagem está relacionada à trajetória histórica da profissão, à falta de reconhecimento da cientificidade da Enfermagem, à veiculação errônea na mídia, aos comportamentos inadequados perante a equipe e, ainda, à sobrecarga de trabalho. Assim, a desmistificação da imagem da profissão inclui uma busca de maior visibilidade midiática, realização de marketing pessoal, comportamento adequado perante a equipe de saúde e demonstração de autonomia profissional, desafios estes que deverão ser superados pela Enfermagem.

Descritores: Enfermagem. História da enfermagem. Autoimagem.


RESUMEN

La construcción de la imagen de la Enfermería está permeada por aspectos históricos, socioeconómicos y culturales. Al explorar este tema, hubo como objetivo conocer la percepción de los enfermeros acerca de la visibilidad de la labor diaria del equipo de Enfermería. Investigación cualitativa del tipo exploratoria, con 30 enfermeros de un hospital universitario del sur del país. Los datos fueron recolectados entre julio y octubre de 2012, a través de entrevistas semiestructuradas y sometidas al análisis textual discursivo. Los resultados muestran que la visibilidad de la Enfermería está relacionada a la trayectoria histórica de la profesión, la falta de reconocimiento de la cientificidad de la Enfermería, la colocación errónea en los medios de comunicación, el comportamiento inadecuado frente al equipo y también a la sobrecarga de trabajo. Así, la desmitificación de la imagen de la Enfermería, incluye una búsqueda de más visibilidad en los medios de comunicación, realización de marketing personal, comportamiento adecuado frente al equipo de salud y demostración de autonomía profesional, desafíos estos que deberán ser superados por la Enfermería.

Descriptores: Enfermería. Historia de la enfermería. Autoimagen.


ABSTRACT

Nursing construction image is permeated by historical, socioeconomic and cultural aspects. This theme aims to understand the perception of nurses regarding the visibility of nursing staff's daily work. This qualitative research is exploratory, with 30 nurses at a university hospital in southern Brazil. The data was collected from July to October 2012, through semi-structured interviews and submitted for a discursive textual analysis. The results show that nursing visibility is related to a professional historical trajectory, to an absence of recognition of the scientific aspect of Nursing, to erroneous placement in the media, to improper behavior towards the staff and also to work overload. Thus, the demystification of nursing's image includes greater media visibility, conducting personnel marketing, appropriate behavior in front of health staff and professional demonstrations of autonomy, challenges that must be overcome by nursing.

Descriptors: Nursing. History of nursing. Self Concept.


 

 

INTRODUÇÃO

A construção da imagem da Enfermagem é permeada por aspectos históricos, socioeconômicos e culturais. Ao explorar a temática da imagem do ser enfermeiro e seus estereótipos, identifica-se a existência de algumas marcas da trajetória histórica da profissão que permanecem vivas em detrimento de sua evolução tecnológica e científica, tais marcas podem ser percebidas através da persistente imagem de submissão profissional aos demais integrantes da equipe de saúde e a imagem errônea de serviço caritativo(1).

A população, de forma geral, parece desconhecer a importância da Enfermagem, não a valorizando como uma profissão fundamental para o cuidado em saúde. Percebe-se, ainda, que parece predominar, na sociedade e na mídia, uma imagem de servilismo da enfermagem e do enfermeiro, em particular, aos demais profissionais da área da saúde, em especial, ao profissional médico(2).

A imagem atual da Enfermagem tem relação direta com sua trajetória histórica religiosa, de submissão e silêncio. Além da ideia de religiosidade, a mídia dissemina uma imagem errônea do ser enfermeiro, veiculando a profissão com um caráter frágil e delicado, associado à subserviência, o que não corresponde à realidade profissional da Enfermagem(2-3).

É provável que interpretações relacionadas à imagem da Enfermagem possam decorrer da ausência de conhecimento acerca da importância da profissão. Parece ser necessário discutir acerca da imagem profissional numa tentativa de contribuir com a determinação de uma identidade profissional, pois é possível que essas discussões suscitem a apresentação do quão essencial é a profissão, fornecendo uma visão da sua importância como parte da equipe de saúde(4).

Acredita-se que o desconhecimento e a desvalorização da Enfermagem por parte dos demais profissionais da área da saúde, também contribuem para sua posição de reduzida visibilidade para o grupo, gerando sofrimento aos trabalhadores, dificultando suas relações com a equipe multiprofissional e o exercício da autonomia do enfermeiro, o que pode reforçar a pouca visibilidade da profissão, numa sequência progressiva de dificuldades no cotidiano de trabalho(3).

Assim, questiona-se: qual a percepção dos enfermeiros acerca das possíveis implicações da visibilidade da Enfermagem no cotidiano de trabalho? Essa questão de pesquisa nos remete a uma reflexão sobre o modo como a sociedade, os trabalhadores da saúde e, em particular, os enfermeiros visualizam a profissão de Enfermagem. Tem-se como objetivo: Conhecer a percepção dos enfermeiros acerca da visibilidade do cotidiano de trabalho da equipe de Enfermagem.

 

METODOLOGIA

Este estudo foi desenvolvido através de uma pesquisa qualitativa do tipo exploratória, sendo realizada em um Hospital Universitário do sul do país, o qual atende exclusivamente usuários do Sistema Único de Saúde. Foram convidados para participar do estudo 59 enfermeiros distribuídos nos diferentes turnos de trabalho (manhã, tarde, noite 1 e noite 2), os quais desenvolvem uma jornada de trabalho de 30 horas semanais. Foram excluídos os trabalhadores que estavam em licença saúde ou licença maternidade.

O número de participantes foi definido a partir da adesão dos sujeitos à pesquisa e obedecendo-se ao critério de saturação dos dados. Dos 59 enfermeiros convidados, 2 profissionais encontravam-se em licença maternidade, 23 negaram-se a participar do estudo e 4 não foram entrevistados, frente à saturação dos dados(5) , o que foi constatado mediante a contínua análise dos dados e a percepção de que poucas informações ou de que nenhuma nova informação surgia, encerrando-se a coleta (5). Assim, um grupo que totalizou 29 pessoas foi excluído do estudo.

Participaram deste estudo enfermeiros atuantes na Clínica Médica, Clínica Pediátrica, Centro Obstétrico, Clínica de Internação Obstétrica, Clínica Cirúrgica, Serviço de Pronto Atendimento, Unidade de Terapia Intensiva (Neonatal e Geral), Centro de Materiais e Esterilização (CME), Centro Cirúrgico e Centro Regional Integrado do Trauma Ortopédico.

Obteve-se o Consentimento Livre e Esclarecido dos sujeitos, garantindo sua privacidade, o anonimato das informações e solicitando a autorização para a divulgação dos resultados. Mediante a autorização dos sujeitos e da sua assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, iniciou-se a coleta de dados, desenvolvida no período de julho a outubro de 2012 através da técnica de entrevista semi-estruturada(5).

Os enfermeiros foram entrevistados, individualmente, sendo encorajados, através de perguntas abertas, a relatar sua percepção acerca do reconhecimento da Enfermagem e sobre a visibilidade da Enfermagem no seu cotidiano de trabalho. Foram utilizadas as seguintes perguntas como guia de entrevista: Como percebes a visibilidade da profissão e do enfermeiro em especial? Como percebes o reconhecimento do fazer da Enfermagem em seu contexto de trabalho? Que fatores tornam o trabalho do enfermeiro invisível e desvalorizado? Como as transformações históricas existentes no trabalho da Enfermagem afetaram a visibilidade profissional? Como percebes a imagem que a mídia reproduz e que a sociedade possui frente à profissão de Enfermagem? Como a visibilidade do ser enfermeiro influencia o exercício profissional? Que estratégias podem ser utilizadas visando atender a visibilidade da Enfermagem e a valorização profissional do enfermeiro, em particular?

Obteve-se a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde – (CEPAS), da FURG, mediante parecer 51/2012.

Os dados foram submetidos à análise textual discursiva, a qual é organizada em quatro focos: desmontagem dos textos, que ocorreu mediante o envolvimento e impregnação com as 30 entrevistas transcritas, criando as unidades de significado, que foram definidas enfocando-se o objetivo da pesquisa; estabelecimento de relações, com o processo de categorização, aproximando as unidades por semelhança; captação do novo emergente e um processo auto organizado, em que se realizaram descrições e interpretações dos significados construídos a partir do corpus, expressando novos entendimentos sobre o fenômeno investigado. Nessas últimas fases, ocorreu um processo de intuição, estabelecendo uma aprendizagem viva que resultou na construção de pontos principais atrelados à visibilidade da Enfermagem e que trazem implicações no cotidiano de trabalho do enfermeiro(6).

 

RESULTADOS

Da análise dos discursos, emergiram duas categorias, a primeira referente aos fatores que podem comprometer a visibilidade da Enfermagem e a segunda indicando as implicações da visibilidade da Enfermagem em seu cotidiano de trabalho.

Fatores que podem comprometer a visibilidade da enfermagem

Um dos fatores mencionados pelos participantes, relacionado à visibilidade da Enfermagem, foi a falta de conhecimento e de habilidade técnica dos trabalhadores da Enfermagem para realizar procedimentos:

O desconhecimento desvaloriza a profissão (E3).

O enfermeiro pode saber a teoria, mas se não souber fazer os procedimentos vai ter dificuldade no mercado de trabalho, isso faz com que sejamos desvalorizados (E9).

Um profissional que conhece onde trabalha [...] tem conhecimento vai ser respeitado [...] perde o valor profissional por não ter conhecimento, não adianta querer se impor através de gritos ou ações, tem que ser através do conhecimento (E10).

O conhecimento, o interesse e a responsabilidade têm que nortear o fazer do enfermeiro, se faltar isso ele é desvalorizado, invisível (E15).

Através dos depoimentos, foi possível perceber que posturas inadequadas assumidas pelos enfermeiros podem estar contribuindo para o comprometimento da sua imagem profissional:

As pessoas não têm uma postura adequada, se portam de uma maneira que não condiz com o cargo [...] não tem respeito, exemplo: quatro horas da manhã no posto de Enfermagem todo mundo rindo e os pacientes querendo dormir e, o enfermeiro junto (E3).

O que torna mais invisível e desvalorizado é o descomprometimento das pessoas, não fazerem as coisas (E4).

Outro aspecto referido como comprometedor para a imagem da Enfermagem foi a sobrecarga de trabalho, esta favorece a ocorrência de erros e impossibilita a realização do trabalho de maneira plena:

A sobrecarga de trabalho provoca invisibilidade [...] enfermeiro assume até três unidades [...] não existe tempo para prestar uma assistência com qualidade, fazer evolução de Enfermagem; não há registro do trabalho, perde-se o valor e torna-se invisível (E2).

Estamos com um enfermeiro para 50 pacientes [...] não é possível registrar nosso trabalho por isso não se é visto (E13).

Ficamos tão sufocadas por questões administrativas, burocráticas, tão sobrecarregadas que impossibilitamos as pessoas de perceberem nosso fazer (E1).

A ausência de reconhecimento profissional do enfermeiro parece influenciar sua (in)satisfação com o trabalho desenvolvido e a qualidade da assistência de Enfermagem:

Quando não é reconhecida a tua função [...] isso reflete no que eu faço, me afeta porque eu me sinto mais frustrada, é querer aquele reconhecimento e não ter, faço as coisa com menos ânimo (E13).

Depois que tens voz ativa tu não pode deixar cair a peteca [...] existe uma grande responsabilidade [...] do ponto de vista profissional isso modifica a gente [...]começa a melhorar a qualidade do trabalho; se não é visto, não sabem quem tu é, para que vais lutar pela qualidade do trabalho? (E11).

O mínimo que as pessoas esperam é reconhecimento [...] ter uma boa visibilidade social, reconhecimento é a melhor coisa que tem, é o que nos alimenta [...] a gente se motiva [...] se a profissão fosse valorizada certamente teria mais orgulho de dizer sou enfermeira [...] o respeito te retroalimenta e estimula [...] a forma como sou vista faz com que eu leve minha profissão muito mais a sério (E25).

As implicações da visibilidade da enfermagem em seu cotidiano de trabalho

A imagem da Enfermagem permanece arraigada à sua trajetória histórica, com marcas profundas ainda presentes no cotidiano do trabalho, associadas à dificuldade da Enfermagem em ser reconhecida como uma profissão que embasa suas ações no conhecimento:

Acredito que a imagem tenha influência histórica [...] resultou na humildade, em certo receio de se impor como profissional [...] a gente é meio submisso (E5).

Enfermeiras não são prostitutas, nem freiras, nem curandeiras, somos profissionais formados com embasamento teórico-prático, e lutar contra essa imagem pré-concebida é muito complicado, então a gente vive em brigas diárias (E30).

Um dos participantes manifesta sua indignação frente à ideia de caridade e submissão que ainda permeia a imagem da Enfermagem, enfatizando a importância de visualizar a enfermeira como uma pessoa com formação profissional própria e não apenas como alguém que possui um dom:

Por ser uma profissão basicamente de origem feminina, de submissão, de caridade [...] temos que fazer as coisas por amor, por dom [...] não é isso! Nem por isso tenho que trabalhar de graça, isso desvaloriza o profissional [...] as pessoas trabalham por dinheiro e porque gostam (E4).

Os participantes enfatizaram que a mídia reforça um estereótipo negativo da imagem do enfermeiro e que os pacientes crêem no que está posto na mídia, influenciando a credibilidade da profissão:

O povo é muito inculto [...] é um lá que erra uma medicação [...] a imagem da Enfermagem de todo país cai, porque cai na mídia e isso vira uma religião, então os pacientes dizem: 'vocês botam medicação errada na gente para gente morrer', mas ninguém viu que foi um profissional em milhões (E12).

A mídia faz da enfermeira uma mulher com o corpo maravilhoso e sexy, com roupas mínimas e com uma injeção na mão [...] a enfermeira sempre está envolvida em algum crime [...] é limitada [...] um médico possui uma postura firme, galante e inteligente e a enfermeira sempre servil, bonitinha e gostosinha, com uma imagem muito degradante [...] são imagens que fazem o paciente achar que não somos competentes, que vamos errar (E23).

Nos depoimentos dos enfermeiros, a hegemonia médica e a valorização da medicina em detrimento à Enfermagem fragilizam sua imagem e visibilidade, comprometendo o estabelecimento de vínculos com o paciente:

A Enfermagem tem que construir um vínculo com o paciente para ter credibilidade, enquanto o profissional médico não importa quem seja [...] dá duas ou três palavras e acabou, pelo fato de ser médico [...] a visibilidade influencia no dia-a-dia da profissão (E1).

A questão da subalternidade ao médico ainda é bem presente [...]a enfermeira ainda é vista como seguidora de ordens em termos de sociedade [...]os familiares acham que somos auxiliares dos médicos (E11).

A maioria das pessoas ainda tem a visão de que o enfermeiro é subalterno e secretário, a sociedade não sabe o que o enfermeiro faz (E13).

Os reflexos negativos da imagem da Enfermagem e de sua visibilidade possivelmente estão relacionados ao desconhecimento acerca das atribuições dos trabalhadores da Enfermagem, por parte dos demais profissionais da saúde:

Existe falta de reconhecimento por parte de outros profissionais que se consideram acima de ti [...] tem certas coisas que tens que pedir autorização, eles se sentem os donos do paciente, é como se fôssemos empregadas (E8).

O bom enfermeiro é aquele que quebra todos os galhos, não necessariamente faz o seu trabalho, mas o que providencia tudo sempre [...] há uma distorção do que é realmente a função do enfermeiro [...] a gente trabalha tanto que não consegue parar para pensar e faz inúmeras coisas que não são a nossa real função (E1).

Além da ausência de reconhecimento profissional e desconhecimento acerca das atribuições dos diferentes trabalhadores, o enfermeiro não faz marketing pessoal, intensificando a falta de visibilidade da importância de seu fazer:

Não sabem quem é o enfermeiro [...] dizem: 'estuda mais um pouquinho que tu vai te tornar médico', não têm ideia das funções do enfermeiro [...] isso talvez aconteça pela falta de posicionamento do enfermeiro (E16).

A própria Enfermagem atua de forma invisível, não fala do seu conhecimento, não orienta o paciente [...] não se posiciona, não esclarece as pessoas da sua função, não se faz presente (E1).

A gente sempre vê o colega falando mal do outro turno, falando mal do colega [...] a desunião por parte dos colegas e isso torna o trabalho desvalorizado (E14).

 

DISCUSSÃO

Os reflexos negativos da imagem do enfermeiro relacionam-se à ausência de conhecimento acerca das atribuições deste, por parte dos demais profissionais da saúde, os quais não possuem clareza em relação às diferenças estabelecidas para os enfermeiros, auxiliares e técnicos de Enfermagem. O desconhecimento acerca do trabalho da Enfermagem pode estar perpetuando seu antigo espaço de atuação, incumbido ao enfermeiro, discussões fechadas apenas em sua categoria, permanecendo deste modo, desconhecida a riqueza das variadas visões sobre as práticas de saúde exercidas por ele.

A falta de conhecimentos específicos dos enfermeiros foi uma das questões mais evidenciada pelos sujeitos desta pesquisa, o que vai ao encontro do que é inferido na literatura, que mostra o enfermeiro como vítima de preconceitos sociais, mencionando que para ser reconhecido profissionalmente, precisa ser competente tecnicamente e utilizar o conhecimento científico específicos de sua área(7).

Por outro lado, não é somente o conhecimento que promove visibilidade ao fazer do enfermeiro, mas também o modo de agir do enfermeiro, de maneira ética, pode assegurar o enfrentamento de uma série de preconceitos sociais que acometem a Enfermagem. Para tanto, o enfermeiro precisa fazer-se respeitar perante os demais profissionais de saúde, demonstrando conhecimentos e seriedade(7).

Foi possível constatar que a sobrecarga de trabalho constitui-se num fator que compromete a visibilidade do fazer do enfermeiro, favorecendo a ocorrência de erros. Ainda, os baixos salários podem provocar a necessidade de mais de um vínculo empregatício; esta sobrecarga pode resultar numa série de erros e no não cumprimento de suas obrigações profissionais, prejudicando a imagem do enfermeiro e a qualidade da assistência(8).

Quando o trabalhador é reconhecido e tem prestígio social desenvolve o seu fazer com maior comprometimento e satisfação, pois o local de trabalho passa a ser identificado como um ambiente de reconhecimento e de valorização do seu trabalho. O reconhecimento da Enfermagem e o prestígio social podem fazer com que o enfermeiro se sinta satisfeito e pleno com as atividades desempenhadas no contexto de trabalho e perante a sociedade. A satisfação pode motivá-lo a desenvolver a assistência ao paciente com maior qualidade(9).

A conquista do reconhecimento e da visibilidade profissional do enfermeiro pode ser alicerçada na construção do conhecimento e na habilidade técnica do enfermeiro para o desenvolvimento de seu fazer. Algumas qualidades presentes nas ações dos enfermeiros, tais como, iniciativa e segurança, promovem visibilidade diante da equipe de saúde e dos pacientes. Foi possível evidenciar que a Enfermagem é de certa forma, reconhecida e admirada pelo seu caráter caritativo. Os profissionais de Enfermagem parecem sustentar o mito da doação vocacional como alternativa para garantir algum prestígio social.

A partir dos depoimentos dos enfermeiros, foi possível perceber que esses estereótipos presentes na imagem do enfermeiro estão arraigados à trajetória histórica da profissão, tais como: humildade, caridade, religiosidade, prostituição, silêncio e submissão. Historicamente, a modéstia era uma virtude essencial que precisava ser desenvolvida pelas cuidadoras religiosas e o silêncio constituía-se num instrumento para que se tornassem virtuosas, pois sem falar de suas qualidades pessoais e profissionais estariam praticando, efetivamente, o altruísmo e a modéstia(10).

A partir dos depoimentos, os enfermeiros consideram que sua profissão não se limita apenas ao exercício da Enfermagem como um dom ou vocação profissional, mas como uma prática que permeia campos de conhecimentos que lhes possibilitam exercer sua autonomia, ser remunerados e interagir de modo crítico e reflexivo durante sua atuação profissional(7).

Ao analisar a Enfermagem como ocupação profissional, pode-se perceber que existe uma ausência de reconhecimento social da profissão, o que possivelmente fragiliza a visibilidade da Enfermagem. Portanto, há necessidade de reconhecimento social da Enfermagem e do enfermeiro, em particular, como um profissional que possui uma formação própria, tem campo de atuação específico e conhecimentos científicos que fundamentam o seu agir(11).

Pode-se perceber, através dos achados, que geralmente, a mídia visibiliza a profissão, reforçando um estereótipo negativo da imagem do enfermeiro e que essa visão distorcida pode influenciar sua credibilidade profissional perante a população. Estudiosos incitam que a Enfermagem e os enfermeiros procurem utilizar a sua voz, alertando para o fato de que os próprios enfermeiros têm contribuído para sua invisibilidade perante a mídia por não assumirem uma posição, pois mesmo quando possuem algo de relevância para ser comunicado, permanecem em silêncio. Desse modo, enfatiza a necessidade da Enfermagem se posicionar e contribuir positivamente para a visibilidade profissional, assim como de os enfermeiros se posicionarem perante os meios de comunicação(12).

Pode-se constatar que a visibilidade da imagem do enfermeiro está associada ao desconhecimento acerca de suas atribuições por parte dos demais profissionais da saúde e também da dificuldade do próprio enfermeiro em realizar o marketing pessoal. O marketing pessoal é pouco utilizado na Enfermagem, pois carrega consigo diversos desafios que são representados pela história profissional. É difícil romper o elo com o silêncio e passar a destacar suas próprias qualidades; por isso é comum os enfermeiros não saberem mostrar suas próprias virtudes, o que torna a profissão cada vez menos visível socialmente. Assim, o marketing pessoal é uma competência que deve ser desenvolvida como instrumento que possibilita a visibilidade e o reconhecimento profissional do enfermeiro(13).

A utilização dos meios de comunicação em massa pode constituir importante ferramenta para a construção de uma identidade profissional mais fortalecida, ao passo que, se a Enfermagem conseguir levar ao público uma imagem com maior credibilidade profissional pode visibilizar uma imagem social positiva do ser enfermeiro. A necessidade do desenvolvimento de habilidades em marketing pessoal é iminente para que a profissão atinja a "valorização do enfermeiro pelas instituições, pelos governos e pela sociedade" e assim a Enfermagem torne-se uma profissão mais reconhecida(14).

Foi possível evidenciar que uma das causas que fragiliza a imagem e credibilidade do enfermeiro perante os pacientes está relacionada à hegemonia médica e a valorização da medicina em detrimento à Enfermagem. Possivelmente, a hegemonia médica esteja relacionada ao modelo biomédico de atenção à saúde e ao senso comum. Ao valorizar as ações curativistas, minimiza-se o valor do trabalho da Enfermagem, que tem como foco a promoção da saúde. Nesse contexto, as contribuições da Enfermagem oferecem sustentações às práticas médicas, constituindo-se em um trabalho complementar, sendo erroneamente reconhecido na sociedade(15).

Além disso, a hegemonia médica pode fazer com que, na visão dos demais profissionais da saúde e do paciente, o enfermeiro pareça estar aquém do conhecimento necessário nas terapêuticas de saúde, o que é uma inverdade. Desse modo, o estabelecimento de vínculos com o paciente pode ser prejudicado pela falsa imagem de submissão e empirismo ainda presentes na Enfermagem, pois o processo de cuidado "deve ser efetivado a partir de uma relação de confiança"; o paciente precisa acreditar no profissional enfermeiro, precisa saber que ele detém conhecimentos necessários para o cuidado em saúde(3,16:326).

Uma limitação encontrada no estudo refere-se à dimensão do problema analisado, pois a visibilidade da Enfermagem e a imagem profissional podem suscitar uma investigação mais abrangente. Cabe ressaltar que este estudo foi realizado em apenas um hospital do país, assim, a realidade retratada na pesquisa é singular, pois busca a percepção de vivências e/ou experiências que cada sujeito atribui ao seu cotidiano de trabalho. No entanto acredita-se que a realidade estudada nesta pesquisa seja capaz de retratar, embora com singularidade, a visibilidade profissional do enfermeiro.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados permitiram concluir que a visibilidade da Enfermagem está relacionada à trajetória histórica da profissão, à falta de reconhecimento da Enfermagem como profissão que possui saberes científicos, à veiculação errônea da imagem da Enfermagem na mídia, à ausência da realização de marketing por parte do enfermeiro, aos posicionamentos inadequados perante a equipe e, ainda, à sobrecarga de trabalho.

A visibilidade da Enfermagem parece gerar implicações negativas ao contexto de trabalho do enfermeiro, manifestadas através da insatisfação e ausência de motivação, podendo comprometer a qualidade da assistência. O comprometimento da visibilidade e a falta de reconhecimento da profissão por parte dos demais trabalhadores da equipe de saúde e dos pacientes pode dificultar o estabelecimento de laços de confiança, implicando na efetivação do cuidado.

Além da trajetória histórica da profissão, estereótipos negativos incutidos sobre a Enfermagem também dizem respeito às posturas assumidas pelos enfermeiros, à insatisfação no contexto de trabalho, à submissão e obediência a determinações de outros profissionais da saúde, à execução da prática sem reflexão e sem conhecimento clínico, corroborando para intensificar a indefinição da importância do fazer do enfermeiro para a equipe de saúde, os pacientes e a sociedade de um modo geral.

Apesar das mudanças ocorridas na trajetória profissional da Enfermagem, das constantes tentativas de conquistar a visibilidade profissional, percebe-se que o modo de agir do enfermeiro no ambiente de trabalho, sua competência, conhecimento, marketing pessoal e compromisso profissional alicerçados à prática da Enfermagem poderão transformar a imagem social do enfermeiro.

Através deste estudo foi possível indicar alguns encaminhamentos estratégicos para desmistificar a enfermagem, alcançando-se, assim, maior visibilidade profissional: busca de maior visibilidade midiática; realização de marketing pessoal por parte da enfermagem e, em especial, por parte do enfermeiro; busca de reconhecimento através de comportamentos adequados perante a equipe de saúde; reivindicações para a redução da carga de trabalho, evitando-se a sobrecarga e as suas consequências negativas e demonstrações de conhecimento e de autonomia profissional.

Acredita-se na importância desta pesquisa, pois os resultados poderão favorecer a reflexão do enfermeiro acerca de sua prática, de modo a incentivar a busca de valorização profissional. Desmistificar a imagem da Enfermagem é um desafio que necessita ser assumido pelos próprios enfermeiros na tentativa de superar a invisibilidade.

Em virtude da relevância deste estudo acredita-se que seja interessante e recomendável, dar-se continuidade a esta pesquisa através de estudos que revelem outras realidades vivenciadas por enfermeiros em diferentes localidades do país, à procura de resultados que descubram a visibilidade da Enfermagem.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço do autor
Liziani Iturriet Avila
Rua Dr. Sérgio Daniel Freire, 239, Cassino
96205-290, Rio Grande, RS
E-mail: l.iturriet@yahoo.com.br

Recebido em: 17.03.2013
Aprovado em: 03.09.2013

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