SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.37 issue2Nursing interventions and outcomes classifications in patients with wounds: cross-mappingUsing acupressure to minimize discomforts during pregnancy author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.37 no.2 Porto Alegre  2016  Epub May 31, 2016

https://doi.org/10.1590/1983-1447.2016.02.54511 

Artigo Original

Representações da enfermeira e pessoa em sofrimento psíquico na mostra fotográfica USAnatomy de Steven KleinRepresentaciones de la enfermera y la persona en sufrimiento psíquico en exposición fotográfica USAnatomy de Steven Klein

Evanilda Souza de Santana Carvalhoa 

Edna Maria de Araújoa 

Silvone Santa Bárbara da Silva Santosa 

Alexandro Gesner Gomes dos Santosb 

a Universidade Estadual de Feira de Santana, Programa de Mestrado Profissional em Enfermagem, Departamento de Saúde. Feira de Santana, Bahia, Brasil.

b Secretaria Municipal da Saúde do Salvador, Coordenação da Atenção Primária à Saúde. Salvador, Bahia, Brasil.


RESUMO

Objetivos

Analisar as representações da enfermeira e da pessoa em sofrimento psíquico retratadas na obra fotográfica de Steven Klein, na mostra USAnatomy realizada no Museu da Escultura em São Paulo, no ano de 2011.

Métodos

Estudo qualitativo realizado no ano de 2012. Três fotografias foram submetidas à análise iconográfica. A interpretação dos achados baseou-se no referencial teórico filosófico de Foucault e Bourdieu sobre as relações de poder.

Resultados

A enfermeira é representada como sensual, insensível, com poder de controlar e torturar, enquanto a pessoa em sofrimento psíquico é representada como suja, prisioneira e sujeitada à relação assimétrica de poder com a enfermeira.

Considerações finais

Foram evidenciadas relações de sujeição e de dominação simbólica nas quais a pessoa em sofrimento psíquico tem seu corpo moldado por uma disciplina imposta pela enfermeira. Estereótipos sobre a imagem da enfermeira se opõem ao ideário da profissão que é zelar pela integridade dos seres cuidados.

Palavras-Chave: Enfermagem; Mídia audiovisual; Poder (Psicologia); Saúde Mental

RESUMEN

Objetivo

Analizar las representaciones de la enfermera y el paciente, en la obra fotográfica de Steven Klein en USAnatomy muestra celebrada en el Museo de Escultura en São Paulo, en 2011.

Métodos

Estudio cualitativo realizado en 2012. Tres fotografías fueron sometidas al análisis iconográfico. La interpretación de los datos se fundamentó en el referencial teórico filosófico de Foucault e Bourdieu sobre las relaciones de poder.

Resultados

La enfermera es representada como sensual, insensible, con poder para controlar, someter y torturar. Mientras la persona en sufrimiento psíquico se representa como sucia, prisionera y sometida en la relación asimétrica de poder con la enfermera.

Consideraciones finales

Relaciones de dominación simbólica en que la persona bajo sufrimiento psíquico tiene su cuerpo sometido a la disciplina impuesta por la enfermera fueron representadas. Los estereotipos sobre la enfermera se oponen a los ideales de la profesión que es garantizar la integridad de los seres cuidados.

Palabras-clave: Enfermería; Medios audiovisuales; Poder (Psicología); Salud Mental

ABSTRACT

Objectives

To analyze the representations of the nurse and individual in mental suffering portrayed in the photographic work by Steven Klein, in the USAnatomy exhibit held at the Museum of Sculpture (Museu da escultura) in São Paulo, in 2011.

Methods

Qualitative study carried out in 2012. Three photographs were submitted to iconographic analysis. The interpretation of the findings was based on theoretical frameworks of Foucault and Bourdieu on power relations.

Results

The nurse is represented as a sensual, insensitive person, with the power to control and torture while the person in psychological distress is represented as dirty, imprisoned and subjected to an asymmetrical relationship of power with the nurse.

Final considerations

Relationships of submission and symbolic dominance, in which the person in psychological distress has their body molded by discipline imposed by the nurse. Stereotypes of the image of the nurse oppose the ideology of the profession, which is to ensure the integrity of those being cared for.

Key words: Nursing; Audiovisual media; Power (psychology); Mental health

INTRODUÇÃO

Este artigo examina fotografias de uma campanha publicitária de moda em que as modelos protagonizam personagens de enfermeira e de pessoa em sofrimento psíquico. Em 10 de agosto de 2011, Steven Klein apresentou o ensaio fotográfico em meio a uma Exposição intitulada “USAnatomy” no Museu Brasileiro de Escultura em São Paulo(1).

Steven Klein é um dos fotógrafos mais influentes do mundo da moda atual, nascido em Nova York na década de 60, após estudar pintura na Rhode Island School of Design, optou pela fotografia. Tornou-se famoso por criar campanhas polêmicas em que os corpos são exibidos numa perspectiva realística, em ambientes pouco convencionais para as campanhas publicitárias de moda.

O trabalho de Steven Klein mostra imagens conceituais, sexualmente carregadas, evocando o lado sombrio da cultura popular. Seu trabalho encontra-se nas fronteiras entre arte e moda. Suas imagens permeiam as páginas das revistas de moda mais aclamadas do mundo, conseguindo um equilíbrio entre a transgressão e o comércio(2).

A mostra de Steven Klein, no Museu de São Paulo, parte de um esforço de apresentar ao público a fotografia que vai além do jornalístico testemunho, do registro iconográfico da fotografia clássica, mas um modo de expressão cultural contemporânea(1-2).

A leitura de uma fotografia tem um caráter histórico, pois sempre há algo a dizer sobre a imagem que se apresenta. Recorre-se também à ideia do “isto foi” de Barthes para atribuir à fotografia uma função documental, de registro da realidade. No entanto, convém ressaltar que o olhar do fotógrafo já é um detalhe relevante na transformação da realidade histórica, mesmo que o próprio cientista social seja o autor da imagem. “Seu olhar – que acaba sendo o da própria câmera – é pleno de idiossincrasias, de saberes e de juízos”(3-4). Partindo dessa afirmação, vale considerar que a fotografia contemporânea, a exemplo de obras como a de Steven Klein, não parte da realidade em si mesma captada pela câmera, mas sim de uma realidade representada, guardada na memória, em seguida planejada, arquitetada, montada para ser posteriormente registrada. Cabe assinalar que há ainda mais da subjetividade do fotógrafo do que na fotografia histórica.

Quando Steven Klein representa os personagens da enfermeira e da pessoa em sofrimento psíquico por meio de uma obra artística, ele revela o que guarda em seu imaginário, de algo acontecido num determinado contexto histórico. Na medida em que o artista expõe sua obra, essa representação será partilhada com o público que ao visualizar as imagens evocará as informações desse universo, interpretando, assim, o que visualiza e construindo teorias explicativas para os comportamentos representados.

Uma imagem visual apresenta o potencial de conter significado, de comunicar vários temas simultaneamente e de alcançar grande público ao mesmo tempo. Podendo, em silêncio, articular um tema complexo e de forma impressionante tal qual a linguagem verbal(5).

Estudos com fotografias e imagens sobre a Enfermagem e a Saúde Mental se justificam porque contribuem para o conhecimento dos ícones, símbolos, significados e representações que circulam nos meios artísticos e midiáticos, e que difundem um conhecimento do senso comum sobre a profissão e uma dada prática. Além de se constituir numa alternativa metodológica de pesquisa social em saúde, permite analisar elementos ocultos daquilo que transita no campo da subjetividade.

Considera-se que Foucault(6) e Bourdieu(7) apresentam teorias distintas sobre o poder, porém não são contraditórias. Segundo Foucault, o poder, enquanto prática social, busca a disciplina dos corpos e da mente de indivíduos e de grupos. Bourdieu enfatiza a existência de um sistema de dominação simbólica a partir de ações coletivas, resultantes de ações individuais(7). Portanto, a dominação simbólica acontece também no âmbito microfísico e microlocalizado, razão pela qual os autores fundamentam a análise das fotografias de Steven Klein em que os corpos dos personagens são apresentados em evidente relação assimétrica de poder.

Observando a imagem da enfermeira na mídia e as fotografias produzidas por Steven Klein, emergiu a seguinte questão: Como a enfermeira e a pessoa em sofrimento psíquico são representadas nas fotografias apresentadas na USAnatomy? Para respondê-la, foi realizado o estudo qualitativo com o objetivo de analisar a maneira como o artista retratou a postura da enfermeira em relação à pessoa adoecida.

METODOLOGIA

Foram analisadas três imagens publicadas na página web da Interview Magazine(8) em matéria intitulada Institutional White, referente à divulgação da mostra USAnatomy em São Paulo, ambas de livre acesso e uso público, no período de junho a agosto de 2012. Essas imagens foram submetidas à análise iconográfica, definida como análise do registro visual, isto é, o conjunto de informações visuais que compõem o conteúdo do documento(9). Para explorar tais informações, foram formuladas questões acessórias: Quem são os sujeitos apresentados na fotografia? Onde eles estão? O que eles fazem? Como eles interagem? Assim, foram observadas as características do ambiente, dos personagens e sua interação. No que diz respeito aos corpos, foram analisadas posturas, ações, expressões faciais, apresentação e vestimentas.

A análise ocorreu em três etapas. Na primeira, realizou-se a observação das fotografias, guiada por questões direcionadas à apreensão do conteúdo de imagens, tais como: (1) Quem são as pessoas e quais os lugares e as coisas descritas nestas imagens, e como podem ser reconhecidas? (2) Que idéias e valores são associados a estes lugares, às pessoas e às coisas representadas, e como essa associação é permitida?(9). Durante essa etapa foram procedidas anotações, a partir do inventário denotativo foi construído um mapa mental o qual consiste na elaboração de um diagrama que representa a síntese de informações fragmentadas ou difusas com o intuito de ilustrar ideias e conceitos, assim, tornando-os compreensíveis(10).

Na medida em que as questões eram respondidas com base nas experiências dos autores, outras questões surgiram exigindo aprofundamento da análise. Desse modo, na segunda etapa, eles ampliaram as leituras em outras fontes que permitiram novas análises acerca dos conteúdos implícitos e dos significados evidenciados nas figuras(11). Na terceira, realizou-se a síntese e elaboração do relatório.

A primeira etapa caracteriza-se por ser mais exploratória e descritiva, através da qual quem investiga busca reconhecer os elementos e registra tudo o que vê. Na segunda etapa, os autores pretendem evidenciar o que as coisas encontradas e descritas querem dizer, sendo uma etapa mais analítica. A leitura de uma fotografia está relacionada ao que ela apresenta e a análise da mesma relaciona-se ao que ela representa e significa(3).

O processo de análise de imagens nunca se exaure, nunca está completo, pois sobre uma mesma imagem haverá sempre a possibilidade de aplicar uma nova leitura. Por isso, o analista deve estar atento à hora de parar e declarar o término da análise(4). Partindo desse pressuposto, a análise foi finalizada após construção dos mapas mentais ao redor do inventário denotativo e o exame das relações entre os elementos “enfermeira” e “pessoa em adoecimento psíquico”. Para cada imagem foi construída uma ficha, na qual constavam as seguintes indagações: Quem? Quando? Onde? Como /o quê? (3).

A análise e a interpretação dos achados foram realizadas com base no referencial teórico filosófico de Michel Foucault(6) e Pierre Bourdieu(7), ambos discutem as relações de poder, especificamente quando essas relações se configuram como uma estratégia de dominação e sujeição de corpos correlacionada com um determinado campo de saber.

RESULTADOS

Nas três imagens(8, slides 1,5,9) analisadas na composição deste artigo, os cenários simulam o ambiente do hospital psiquiátrico. As paredes apresentam-se sombrias, imagens com pouca luz, espaços desestruturados, equipamentos e móveis quebrados, longos corredores, poucas portas, como se não existissem saídas, pequenas janelas como nos presídios por onde pequenos feixes de luz permitem visualizar as protagonistas.

A modelo que encarna a enfermeira traja vestes distintas em cada fotografia, como se observa nas imagens publicadas na revista Interview de 09 de março de 2012(8, slides 1-9). Ela veste o que se pode interpretar como um jaleco, um fardamento usual nos cenários de cuidado. Nota-se através deste uma transparência que possibilita verificar que o vestido é curto em padrões pouco aceitáveis dentro da profissão. O corpo da enfermeira é ereto, elegante, inexpressivo e meticulosamente cuidado. O da modelo que representa a pessoa em adoecimento psíquico apresenta-se desorganizado, desalinhado, contraído, constrangido e mais desnudo, e nesse sentido menos censurado.

Ambas caminham por um corredor, de forma que parecem entrar na instituição. Assim, a imagem analisada no Quadro 1(8, slide1) representa o momento de admissão da pessoa doente na instituição, momento esse em que seu corpo parece recusar a interpelação da enfermeira. Parte de seus pertences ainda está consigo quando se visualiza o uso do sapato alto, enquanto que nas fotos seguintes apresenta-se descalça e às vezes completamente desnuda.

Fonte: (8, slide 1).

Quadro 1 – Conteúdo denotativo e conotativo da fotografia 1 de Steven Klein 

Em todas as fotografias a enfermeira apresenta-se trajada com roupa longa, mas entreaberta. Observa-se, no Quadro 2, referente à análise da imagem do slide 5(8, slide 5), que seu vestido tem mangas e saia longas, e à indumentária acrescenta a bota. Um corpo com braços e pernas bem cobertos, contudo, o colo com peito à mostra e uma fenda que permite ao observador visualizar as roupas íntimas rendadas e a região inguinal. Essa fotografia nutre o imaginário de um corpo ao mesmo tempo sacralizado, bem vestido, bem guardado, e sensual, insinuante, desejante de ser tocado. A figura encarnada pela modelo é aquela que porta as chaves do lugar, tem o poder de privar ou oferecer a liberdade de ir e vir nos espaços. A chave representa um instrumento de controle, deixando claro quem manda na relação que se dá entre a profissional e pessoa em adoecimento psíquico.

Fonte: (8, slide 5).

Quadro 2 – Conteúdo denotativo e conotativo da fotografia 5 de Steven Klein 

A enfermeira descansa, enquanto a pessoa em sofrimento psíquico, contida e controlada, olha para a janela numa esperança de se libertar da prisão(8, slide 9) (Quadro 3). A imagem da enfermeira repousando sobre a maca remete a diversos significados: o descaso, a serenidade de alguém que julga que esta postura nada tem de irregular e que serenamente espera o tempo passar. A roupa impecavelmente alinhada recorda que nada foge do controle, nada desorganiza seu estado de espírito.

Fonte: (8, slide 9)

Quadro 3 – Conteúdo denotativo e conotativo da fotografia 9 de Steven Klein 

Observando o corpo da pessoa em sofrimento psíquico, nota-se que seu olhar é expressivo, há momentos em que denota tensão, o que pode ser observado em suas mãos contraídas. A imagem, então, da pessoa em sofrimento psíquico é antagônica à imagem da enfermeira, sempre inexpressiva, distante, relaxada e fria (Quadro 3).

Outro aspecto relevante percebido nas imagens produzidas por Steven Klein refere-se ao ambiente. Este é retratado com suas paredes quebradas, escuras, aparentemente sujas e úmidas, utensílios de banheiros quebrados, pouca ou nenhuma luz, pequenas janelas, reflete um status sombrio. Assim, questiona-se: o que pode haver de terapêutico nesse lugar? O contexto se assemelha aos subsolos, espaços escondidos comuns aos das práticas de tortura dos ambientes de guerra, espaços esses em que se dá a aplicação de castigos, encontra-se longe da visão das demais pessoas em sociedade.

Nesse sentido, o ambiente retratado permite inferir que, assim como a prisão, o hospital psiquiátrico é um lugar desprovido de cor, sem condições favoráveis ao desenvolvimento de uma condição física mental saudável, ou seja, é um espaço capaz de agravar ou acrescentar novas formas de adoecimento.

DISCUSSÃO

O conjunto de imagens analisadas permite construir um itinerário da pessoa em sofrimento psíquico dentro da instituição psiquiátrica que se inicia com a admissão, seguida da submissão aos violentos procedimentos de controle e o isolamento, assim como, descreve o protagonismo da enfermeira nesse contexto.

A propagação de representações da pessoa em adoecimento psíquico, enquanto ser agressivo, improdutivo e excluído tem sido uma constante, tanto na mídia escrita quanto televisionada. Embora a qualidade de conhecimentos sobre a doença mental tenha melhorado, a imagem da pessoa adoecida encontra-se associada à idéia de periculosidade e há uma tendência crescente de evitar o contato com ela, o que constitui, na atualidade, grande dificuldade na implantação de um novo modelo de assistência, pois tais representações difundem o medo e prejudicam o processo de ressocialização do doente(12).

Nesse sentido, junto a todo um conjunto de mudanças na assistência, é preciso provocar mudanças das representações do doente mental, difundindo imagens mais realistas e menos estigmatizantes(12).

A reforma psiquiátrica no Brasil, iniciada na década de 70, mas só respaldada legalmente a partir dos anos 90, vem justamente propor modelos alternativos de cuidar e preconizar a inclusão da pessoa na sociedade, buscando superar o modelo hospitalocêntrico, uma vez que já foi comprovado que esse modelo reforça o estigma e a exclusão e favorece a mortificação do sujeito.

Esse processo se inicia com a admissão, momento em que a pessoa é subtraída de seus bens materiais, para ingressar numa instituição em que a individualidade lhe será negada. A retirada dos pertences é uma forma de despersonalização do sujeito, nesse sentido a subtração de bens também se configura na desconstrução de uma história pessoal e individual daqueles que ingressam no hospital.

Instituições como o hospital psiquiátrico agem sobre o internado de maneira que seu “eu” passa por transformações dramáticas do ponto de vista pessoal e do seu papel social(13). Quando o internado chega ao hospital, ele sofre um processo de “mortificação do eu” que suprime a “concepção de si mesmo” e a “cultura aparente” que traz consigo, que são formadas na vida familiar e civil e não são aceitas pela sociedade. Estes “ataques ao eu” decorrem do “despojamento” do seu papel na vida civil pela imposição de barreiras no contato com o mundo externo(13-14).

Nas instituições psiquiátricas, o tratamento instituído pelo médico e aceito pela sociedade vem em forma de “arregimentação” (dormitório, cela de isolamento, controle de impulsos, remédios, tarefas, prêmios e castigos). Tais medidas são consideradas, tanto pelos profissionais médicos como pela sociedade, como um mecanismo de reparo do “eu doente”. Todavia, vale destacar que tais tratamentos não são aplicados pelo médico, esse apenas prescreve, mas pela enfermeira e seus auxiliares, equipe que convive mais tempo com os internados, sujeitando-os constantemente às normas intentando moldar seus comportamentos(6,14).

Estudo sobre a produção do conhecimento no campo da enfermagem psiquiátrica no Brasil, entre 1933-1955, apreendeu que, embora as enfermeiras se preocupassem com o bem estar e as necessidades dos doentes e a qualidade do cuidado que lhes era oferecido, o discurso médico da época ressaltavam que os objetivos da enfermagem psiquiátrica eram executar as ordens do médico, manter a rotina do pavilhão, preparar o doente para os tratamentos, promover um ambiente hospitalar sadio, calmo e harmonioso, e facilitar o trabalho do médico(15).

Segundo Foucault, no processo disciplinar há princípios que atribuem funções a cada indivíduo, determinando para cada um o seu lugar. Ao dispor os corpos no espaço e no tempo estabelece uma dinâmica de rede de relações, que atua simultaneamente como uma técnica de poder e um processo de saber (6,15).

É através da subjugação do corpo, seja física, psicológica ou moral, através da disciplina de que é alvo – disciplina espacial, temporal, corporal – que o corpo enquadra a mente, disciplinando e uniformizando os comportamentos e os pensamentos, o que torna mais fácil o domínio por parte de quem detém o poder(6,15). Assim, as práticas do contexto representado evidenciam a aplicação da tortura do corpo como meio de controle e domínio da mente, da alma, dos desejos, das atitudes do sujeito através da manipulação dolorosa de seu corpo.

As tentativas de subjugar os sujeitos através do corpo sofreram variações de acordo com a época e o regime em vigor, das tradições, valendo-se de táticas, estratégias e técnicas diferentes, todas assimiladas no hospital para os ditos loucos: as mais ou menos violentas (os suplícios), mais ou menos “viris” (o encarceramento), mais ou menos refinadas (a separação, o isolamento). Essas medidas almejavam infringir castigo aos considerados desviantes da norma, e na psiquiatria tais métodos eram justificados como busca de tratar o diferente até que esse se rendesse e acabasse por se tornar igual(6,14,16).

As imagens fotográficas em análise apresentam a enfermeira como principal personagem operadora dessa disciplina, na medida em que é ela quem exerce a função de aplicar as normas, rotinas e controlar os corpos, buscando torná-los dóceis(6).

Nesse sentido, a tortura no contexto do hospital, em tempos atuais, não se configura mais com a aplicação de suplícios físicos, mas da subjetividade do sujeito, da alma, submetendo-os a rotinas rígidas como a hora do banho, da refeição, de acordar, de dormir, de receber a família, o momento de ver TV, de submeter-se a exames(12). Tudo isso sem negociação com o sujeito receptor do cuidado, impondo-se de modo unilateral o poder de decidir sobre os destinos da pessoa adoecida.

As imagens analisadas revelam a imposição de normas e medidas pela enfermeira. Observa-se o controle da vida do indivíduo, inclusive os mais íntimos, em nome do bem estar da comunidade(6,16-17). A forma como é representado o (des)cuidado à pessoa em sofrimento psíquico, nas imagens analisadas, revela que essa pessoa deve não somente se enquadrar em uma série de prescrições que dizem respeito à doença, mas também às formas gerais de existência e de comportamento.

Nessa direção, Bourdieu(7) afirma que os sistemas simbólicos têm a função de imposição e legitimação de dominação de uma classe sobre a outra, aqui bem representados nas fotografias.

Fazendo uma analogia com a imagem representada pela enfermeira, observa-se que o poder e o saber estão diretamente relacionados, conforme pressupõe Foucault, dado que não existe relação de poder sem correlação com um campo de saber, e nenhum saber que não venha acompanhado de um poder(6,16).A ausência de elementos que indiquem comunicação entre as personagens evidencia a retenção, por parte da enfermeira, de informações sobre o que está acontecendo.

Observa-se nas imagens, uma ação impositiva e policialesca, revelando uma prática também coercitiva com fins de disciplinamento dos adoecidos(6). Assim, o corpo da enfermeira é retratado como um instrumento para o exercício de poder.

Embora a enfermagem tenha estabelecido fortes programas de formação profissional, na qual a educação universitária inclui a prática de pesquisa, no imaginário social ainda persistem estereótipos de enfermeiras que a retratam como anjo e/ou braço direito do médico(18), executora de seus mandados. Barreiras externas para a construção de uma identidade positiva de enfermeiras são encontradas na mídia dominante através divulgação de contínuas imagens superficiais e humilhantes(19). A imagem pública negativa induz a sentimentos de inferioridade e sentimento de impotência das enfermeiras, isto porque a imagem da enfermagem que é difundida se opõe à enfermagem realizada(18).

Tais mitos e estereótipos moldam e restringem a prática social, particularmente em relação à classe e gênero(19). A enfermagem continua a ser um campo de atuação da classe trabalhadora e um emprego para as mulheres, apesar da evidência histórica de que a classe média e os homens estiveram envolvidos na enfermagem durante séculos(20). Sendo uma carreira vinculada à figura feminina herda consigo toda a carga histórica de desvalorização do trabalho exercido por mulheres como caritativo, doméstico, secundário e desprovido de valor econômico.

O efeito negativo dos estereótipos na enfermagem impacta não somente sobre as enfermeiras, mas também sobre os próprios usuários. Na medida em que o público não entende a importância e complexidade do trabalho das enfermeiras, não consegue reivindicar recursos sociais e financeiros que permitam essas trabalhadoras prestar-lhe cuidados qualificados. Por outro lado, a baixa autoestima profissional desencoraja as enfermeiras a se mobilizarem para o alcance do respeito, reconhecimento e remuneração adequada, dessa forma, as condições desfavoráveis ao trabalho tendem a persistir indefinidamente(19-20). A persistência de velhos estereótipos torna a enfermagem menos atrativa como uma opção profissional para os mais jovens e impede as profissionais de construir uma carreira satisfatória a longo prazo(20).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As representações da enfermeira e da pessoa em sofrimento psíquico, retratadas na obra fotográfica de Steven Klein, mostram que os corpos dos sujeitos envolvidos na cena do hospital apresentam diferentes conotações que revelam uma assimetria de poder. O corpo da enfermeira representa aquele que exerce controle sobre o corpo do sujeito em sofrimento, buscando discipliná-lo e torná-lo dócil.

A análise iconográfica permitiu identificar que os sinais do corpo emitem significados que se desdobram em uma complexa rede de imagens cuja interpretação pode ser compartilhada e dar lugar à elaboração de um conhecimento do senso comum. Esse é partilhado e difundido em museus, bem como em revistas e páginas web.

Embora a reforma psiquiátrica e os novos modos de cuidar dos enfermos mentais tenham sido instituídos em todo o mundo, persiste a forte imagem do hospital psiquiátrico como lugar de tortura, de negação da autonomia e da despersonalização dos sujeitos a partir da prática de sujeição e disciplinamento dos corpos. As imagens construídas a partir dessas realidades muito exploradas pelo cinema, pela ficção e pelo campo das artes visuais consolidaram representações sobre os sujeitos comuns nesses espaços (a enfermeira e a pessoa doente).

Desconstruir uma prática alienante dos sujeitos internados nos contextos da saúde, em especial os psiquiátricos, tem se configurado como um espaço de disputas, conflitos e negociação nas esferas políticas e assistenciais de defesa dos direitos humanos. Os avanços obtidos com as novas comunidades terapêuticas, os Centros de Atenção Psicossocial e o Programa de Volta para Casa têm se revelado como caminhos possíveis para um novo modelo de cuidar de pessoas com padecimento de ordem mental.

As imagens analisadas trazem à tona a figura negativa do profissional de saúde, a enfermeira antagônica com o ideário da profissão que visa a zelar pela integridade dos seres cuidados. No entanto, vale destacar que essas mesmas imagens podem ser úteis para discutir estereótipos, a construção da identidade profissional da enfermeira, os modelos de atenção psiquiátricas reproduzidos nos últimos séculos e as prováveis de mudanças.

Este estudo traz implicações para a assistência, ensino e pesquisa na medida em que pode subsidiar discussões de temas transversais aos componentes curriculares da saúde mental, a história de enfermagem e as relações de poder nos contextos das práticas de cuidado. Também contribui para a reflexão e reconhecimento da persistência de preconceitos e estereótipos na profissão, convidando os profissionais a criar estratégias para dar maior visibilidade ao protagonismo da enfermeira na equipe de saúde e favorecendo na construção de um modelo humanizado de atenção à saúde mental através de meios midiáticos.

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro.

REFERÊNCIAS

1. Binlot A. See Perverse Photographs from Steven Klein’s new exhibition in São Paulo: BlouinArtinfo; 2011 [citado 2013 maio 09]. Disponível em: http://in.blouinartinfo.com/news/story/38301/see-perverse-photographs-from-steven-kleins-new-exhibition-in-so-paulo. [ Links ]

2. ArtDaily.org. “USAnatomy” by Steven Klein to Open at MuBE, Brazilian Museum of Sculpture New York 2011 [citado 2013 maio 25]. Disponível em: http://artdaily.com/index.asp?int_sec=2&int_new=49672#.VBqk6vldXL0. [ Links ]

3. Pifano RQ. História da arte como história das imagens: a iconologia de Erwin Panofsky. Fênix. 2010:1-21. [ Links ]

4. Manini MP. Análise documentária de fotografias: um referencial de leitura de imagens fotográficas para fins documentários. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2002. [ Links ]

5. Oliveira T, Nunes MAL. Análise iconográfica: um caminho metodológico de pesquisa em História da Educação. Contrapontos. 2010:307-13. [ Links ]

6. Foucault M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes; 2015. p. 328. [ Links ]

7. Bourdieu P. O poder simbólico. Lisboa: Edições 70; 2011. p. 460 [ Links ]

8. Klein S, photographer. Institutional white. Interview Magazine. 2012 Mar 9 [citado 2013 maio 12]. Disponível em: http://www.interviewmagazine.com/fashion/institutional-white#slideshow_35932. Slides 1, 5, 9. [ Links ]

9. Kossoy B. Fotografia e história. São Paulo: Cortez; 2004. [ Links ]

10. Debastiani C A. Definindo escopo em projetos de software. São Paulo: Novatec; 2015. [ Links ]

11. Leeuwen TV, Jewitt C. The Handbook of visual analysis: visual meaning: a social semiotic approach. London: Sage Publications; 2012 [citado 2015 dez 17]. p. 29. Disponível em: http://textsinhumanities.uct.ac.za/wp-content/uploads/2013/03/Visual_Meaning__a_Social_Semiotic_Approach2.pdf. [ Links ]

12. Maciel SC, Barros DR, Camino LF, Melo LRF. Representações sociais de familiares acerca da loucura e do hospital psiquiátrico. Temas Psicol. 2011;19(1):193-204. [ Links ]

13. Goffman E. Manicômios, prisões e conventos. 8. ed. São Paulo; 2013. [ Links ]

14. Caria A, Roelandt JL, Bellamy V, Vandeborre A. Santé mentale en population générale: images et realités (Smpg): presentation de la metodlogie d’enquête Encephale. 2010;36(3 Suppl):1-6. [ Links ]

15. Pereira MM, Padilha MI, Oliveira AB, Santos TCF, Almeida Filho A J, Peres MAM. Discursos sobre os modelos de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica nos Annaes de Enfermagem (1933-1951). Rev Gaúcha Enferm. 2014 jun [citado 2015 dez 19];35(2):47-52. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rgenf/v35n2/pt_1983-1447-rgenf-35-02-00047.pdf. [ Links ]

16. Ferreirinha IMN, Raitz TR. As relações de poder em Michel Foucault: reflexões teóricas. Rev Adm Pública. 2010;44(2):367-83. [ Links ]

17. Providello GGD, Yasui S. A loucura em Foucault: arte e loucura, loucura e desrazão. Hist Cienc Saude – Manguinhos. 2013;20(4):1515-29. [ Links ]

18. Kelly J, Fealy GM, Watson R. The image of you: constructing nursing identities in YouTube. J Adv Nurs. 2012;68(8):1804-13. [ Links ]

19. McAllister M, Downer T, Hanson J, Oprescu F. Transformers: changing the face of nursing and midwifery in the media. Nurse Educ Pract. 2014;14(2):148-53. [ Links ]

20. Price SL, McGillis Hall L. The history of nurse imagery and the implications for recruitment: a discussion paper. J Adv Nurs. 2014 Jul;70(7):1502-9. [ Links ]

Recebido: 30 de Março de 2015; Aceito: 27 de Janeiro de 2016

Autor correspondente: Evanilda Souza de Santana Carvalho. E-mail: evasscarvalho@yahoo.com.br

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.